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Em primeiro lugar, agradeço a Isabel Maria e ao Centro
de Estudos Psicanalíticos pelo convite e oportunidade de contribuir para
este debate.
Começo por enfatizar que o termo ESTRESSE não faz
parte da terminologia psicanalítica, embora freqüente muito o discurso dos
analisantes, que a ele se referem em diferentes contextos de sofrimento
subjetivo, em particular o da angústia, apesar de não terem muito claro ao
que é mesmo que estão se referindo. Há um uso generalizado e
indiscriminado dessa expressão, no qual é confundida com um desgaste
emocional diante de conflitos psíquicos que insistem, que se repetem e
que, em psicanálise, são chamados de compulsão a
repetição.
Tudo indica que essa confusão
se deve à vulgarização de um termo que foi, originalmente, importado da
Física para a Medicina e a Biologia, e depois, destas, para a Psicologia e
Sociologia. Aí, ao estresse físico passaram a se superpor o
estresse psíquico e estresse social.
De qualquer forma, o quadro não deixa de se referir a uma
sintomatologia orgânica, embora possa ter causas também psíquicas, como
fica ilustrado nas seguintes definições:
-
- O estresse (Síndrome
Geral de Adaptação) é uma ocorrência fisiológica, é uma atitude biológica
necessária para a adaptação do organismo a uma situação nova, situação de
agressão física, ou situação entendida como ameaça;
-
- O estresse refere-se a
uma síndrome geral de adaptação (SGA), ou seja, ao conjunto de reações
orgânicas, no nível dos sistemas nervoso, endócrino e imunológico, em
resposta a estímulos internos e/ou externos, que podem ser tanto de ordem
física quanto psíquica.
Como se vê, embora podendo ser causada por
estímulos psicológicos, trata-se de uma síndrome orgânica, biológica, que
afeta o corpo em escala que vai desde um estado de alerta, passando por
uma resistência (no caso de estresse contínuo), até a exaustão ou
esgotamento. É por isso, então, que ela não faz parte do campo da
Psicanálise, na medida em que esta não se ocupa do corpo, pelo menos não
do corpo biológico.
O objeto da Psicanálise é o inconsciente. Nele, as coisas,
de um modo geral (inclusive o corpo), são tomadas em termos de suas
representações,
as quais se instituem, basicamente, nas relações intersubjetivas.
Por isso, minha contribuição aqui seria talvez trazer
algumas considerações rápidas e gerais
sobre a natureza desse inconsciente, e sobre como o estresse poderia ser
pensado em relação a ele.
Pois bem, o inconsciente refere-se a uma instância da
subjetividade que, como o nome aponta, não está acessível, mas é
determinante na vida das pessoas – determina sua visão de mundo, sua
identidade, seus ideais, suas escolhas amorosas, sociais, de trabalho
e, inclusive, de sua forma de adoecer fisicamente. Ele é o efeito do
encontro da natureza do sujeito humano (do real do seu corpo) com o
simbólico, com a cultura. Esse encontro abre uma espécie de brecha, de
distância entre sua condição de “ser natural” e de “ser de linguagem”
imerso na cultura. É nessa brecha que se institui o inconsciente, que,
portanto, já nasce numa perspectiva de defasagem, de algo que está
faltando... . Já nasce com uma tensão original, ou estrutural.
Junto com o inconsciente, nasce o desejo, que é aquilo que
orquestra a subjetividade, que organiza o psiquismo – um desejo que nada
tem a ver com instinto sexual. Sua natureza é justamente a de ser
anti-natural, ou seja, ser completamente afastada do biológico,
inserindo-se no campo do impossível, do inatingível, do “sempre por
alcançar”, e onde os objetos de satisfação são da ordem das representações
– o que instaura uma dinâmica de tensão estrutural e permanente.
Nesse campo, a “energia sexual” – libido própria do ser humano
perpassada por essa condição de “ser de cultura” – é administrada pelo
desejo, dentro de um processo que não é exclusivamente orgânico ou
fisiológico, mas é pulsional.
Em Psicanálise, chama-se de “pulsão” o conceito de
alguma coisa que é intermediária entre o somático e o psíquico. Ela se
apóia na necessidade biológica para transformá-la em outra coisa, em algo
que pode ser satisfeito até, ou especialmente, com palavras – e isso é o
desejo, que, para se viabilizar, dinamiza-se num “processo pulsional”, e
não fisiológico.
Esse processo caracteriza a busca de satisfação humana
voltada para objetos que se afastaram de sua relação com as necessidades
biológicas e ficaram impregnados por sua relação afetiva com o outro, a
começar a relação com a mãe – primeiro outro da criança –, que se
constitui como matriz simbólica da intersubjetividade. Essa relação faz
com que a necessidade se transforme em demanda de amor, ou em demanda de
reconhecimento, quer dizer, em apelo afetivo dirigido ao Outro.
Nessa passagem, onde aquilo que se quer precisa ser nomeado
– e nomeado com palavras cujo sentido é externo
ao sujeito –, alguma coisa se perde. Alguma coisa fica como mítica, pois
estará sempre relacionada a algo que não existe, a “algo a mais” [o
acréscimo afetivo] que veio na primeira experiência de satisfação, quando
a satisfação foi imediata e a redução da tensão foi direta e plena, não
precisou ser pedida.
Dessa perda, desse impossível de ser reencontrado ou
revertido, institui-se o desejo, em sua condição de desejo inconsciente,
eternamente insatisfeito, o que imprime, molda, determina a subjetividade,
de tal forma, que ela terá sempre um caráter de alienação. Aí, também os
sentidos que o sujeito irá dando a si mesmo – à sua identidade, à suas
necessidades, ao seu corpo, e às coisas de um modo geral – ficam
impregnados desse sentido externo.
Em outras palavras, a subjetividade se constitui dentro de um caráter de
exterioridade radical e estrutural – exterioridade, ou alteridade, onde
o desejo só pode exprimir-se através dessa demanda de amor, demanda de
reconhecimento.
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Bem, para o que nos interessa aqui, ou seja o estresse, o
mais importante disso tudo, a meu ver, é esse caráter de alienação – de
exterioridade estrutural da subjetividade, na medida em que isso
caracteriza um campo de tensão, de ansiedade, a qual, em Psicanálise,
é chamada de angústia .
Enquanto sinônimo da ansiedade (que é fisiológica), a
angústia é a versão subjetiva do estresse. Ela é o afeto subjetivo
que regula os processos pulsionais. É o afeto que decorre dessa divisão
subjetiva, dessa exterioridade, onde o sentido vem de fora, e o sujeito
fica à mercê do Outro. Ele comparece, predominantemente, nas turbulências
das relações intersubjetivas, e implica perda de sentido, implica o
momento em que não se consegue nomear alguma coisa.
Tal como no estresse, a angústia pode chegar a pontos
intoleráveis, fazendo uma pessoa adoecer não só psiquicamente, mas também
fisicamente.
Diferente da ansiedade, que é provocada por ameaças
concretas, a angústia é acentuada por coisas do campo subjetivo, coisas
geralmente da ordem da perda de amor, da perda de reconhecimento, da ordem
do desamparo afetivo.
Aí, o sentido da angústia – ou melhor o não sentido,
pois ela se torna crucial exatamente nos momentos em que um sujeito se
perde de seus sentidos – é da ordem da singularidade de cada um, que por
isso lhe imprime reações particulares, que vão desde a tristeza, passando
pela depressão, a mania, as somatizações, as doenças psicossomáticas, as
doenças orgânicas, e, até o suicídio.
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A partir dessas colocações, e para concluí-las, parece-me
imprescindível diferenciar o quadro subjetivo de um quadro físico do
estresse, ressaltando três pontos:
A noção de
realidade
Em termos da subjetividade, a noção de realidade – essa
realidade à qual um sujeito deve se “adaptar” quando há um estímulo
“estressor” – refere-se à realidade psíquica.
Para a Psicanálise, a realidade como tal não pode ser
apreendida. Ela passa por um entrelaçamento com as dimensões do Simbólico
e do Imaginário, o que faz com que tenha contornos próprios para
cada sujeito, de acordo com sua historia particular.
É o caso, por exemplo, da realidade de um atentado, que não
é a realidade de um atentado para um homem bomba; ou, da realidade de um
elevador, que não é a realidade de um elevador para um claustrofófico; ou
ainda, a realidade imposta pela globalização, que não é a mesma vivida por
todos. Aí, por mais que as pressões impostas ao sujeito pela modernidade
ou pós-modernidade, por exemplo, aumentem seus conflitos, a atribuição de
valores aos acontecimentos da realidade tomando-os ou não como
ameaçadores e estressantes, vai depender da constituição da subjetividade
de cada um.
A noção de corpo
Esse corpo, que é “ameaçado pelas circunstâncias
estressoras”, do ponto de vista subjetivo, refere-se ao corpo
representado, fruto da interação subjetiva sujeito/outro.
Aí, basicamente, o corpo é um signo (significante) que
intermedia as relações intersubjetivas, onde o que agride é da ordem da
interpretação do que se passa nessas relações. Nesse sentido, o que é
vivido como agressão depende muito mais do agredido que do agressor.
Assim, o corpo ameaçado é o corpo não desejado, é o corpo
não idealizado, é o corpo desamparado, é a espinha no rosto, é o cabelo
arrepiado, é a careca que brilha, é o nariz grande, é o pinto pequeno...,
enfim, é corpo que, para além das necessidades, é regido pelas pulsões
(sexuais), pela demanda (de amor) e pelo desejo (sexual).
A noção de
tratamento
O campo da Psicanálise tem uma relação
particular com a noção de tratamento – do tratamento subjetivo –, que não
se confunde com o da Medicina. Neste último, trata-se de doenças, trata-se
de um saber sobre as doenças de tal forma que se possa preveni-las e/ou
curá-las, trata-se de um saber sobre o qual o médico é o portador e o
sujeito é o paciente.
Na clínica psicanalítica, no discurso analítico, a lógica é
outra. O saber em questão é o saber do inconsciente, é o saber do próprio
sujeito, e a noção de tratamento se refere a um processo que se orienta
pelo próprio analisante, pelo sentido que este dá aos seus sintomas, e não
pelo sentido que o analista poderia lhes atribuir.
Aliás, se existe uma idéia que define bem uma experiência
analítica, essa é a de permitir a um sujeito reencontrar seus próprios
sentidos, o sentido de seus sintomas.
Afinal, os sintomas são estruturados em função da exterioridade subjetiva,
na qual o sujeito se perdeu de suas próprias referências, na qual sua
relação com o outro se tornou excessivamente dependente, na qual ele se
perdeu de seu desejo (no desejo do Outro) e ficou prisioneiro das demandas
externas – demandas dos parceiros, dos familiares, dos “chefes”, etc.,
enfim, do outro de modo geral. É isso que lhe é estressante.
Aí, o tratamento analítico não visa a doença, mas o doente;
visa, senão desconstruir as amarras que o simbólico e a cultura imprimem
ao sujeito, e que lhe são estruturais, pelo menos, permitir que ele assuma
a responsabilidade por suas próprias questões (identificações, demandas,
escolhas, doenças, conflitos, etc), o que se traduz por uma “liberdade”,
ou “distensionamento” imprescindível.
Isso faz com que o sujeito consiga prescindir de reações
orgânicas destrutivas, exatamente, por uma elaboração dos motivos
psíquicos subjacentes a tais reações – elaboração que nem sempre é
consciente –, o que se faz, exclusivamente, através de uma escuta
onde aquilo que conta é o que é contado, inclusive do sintoma físico,
enfim, de uma escuta que privilegia o sujeito (no seu não senso), e
não o seu ego, ou o seu sintoma.
E para concluir finalmente, trago uma definição de
estresse dada por uma analisante, recentemente, depois de ela ter chegado
se queixando de estar muito estressada, e eu lhe ter perguntado sobre o
que estava chamando de estresse, ao que ela respondeu:
“É a minha falta de capacidade de fazer coisas, diante
de um volume enorme de coisas a serem feitas”, e acrescentou: “É horrível
estar aquém do que esperam que eu faça. Isso me pressiona !”.
Quando eu lhe disse que
existia aí a vivência de uma pressão externa que se somava a uma pressão
interna, ela disse: “Pois é, pressão mais
pressão vira combustão” !
Acho que isso ilustra bem o campo onde as questões são
tomadas pela Psicanálise, ou seja, o campo das representações, o campo dos
deslocamentos e condensações, o campo das metáforas e metonímias,
enfim, o campo do INCONSCIENTE.
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