Em Borges percebe-se o
valor epifânico da arte de Joyce: “Eu sou os outros... Sou os que não
conheces e os que salvas”.
Antes de Joyce a
epifania na literatura parecia significar apenas o óbvio: uma obra ou
parte dela, onde se narrava o episódio da revelação. No dicionário de
Aurélio, entre outras significações, as duas palavras se confundem:
Epifania – aparição ou
manifestação divina; festividade religiosa com que se celebra essa
aparição; dia de reis;
Revelação – entre os
cristãos, ação divina que comunica aos homens os desígnios de Deus e a
verdade que estes envolvem, sobretudo através da palavra consignada nos
livros sagrados.
Foi James Joyce quem
trouxe do pensamento tomista
o conceito de epifania para a literatura. Ela se dá pela integração
entre: integritas, consonantia, claritas e quidditas.
A partir desses
conceitos filosóficos, Joyce define com simplicidade a epifania em
“Stephen Hero”: “uma manifestação súbita, quer na vulgaridade do
discurso ou do gesto, ou em uma frase memorável da própria mente. Ele
acreditava que cabia ao homem de letras registrar estas epifanias com um
cuidado extremo, visto que elas mesmas são os momentos mais delicados e
evanescentes” .
Para Joyce, o estado
epifânico do artista seria um luminoso êxtase silencioso de prazer
estético: “um estado espiritual muito similar à condição cardíaca que o
fisiologista italiano Luigi Galvani, servindo-se de uma frase tão bonita
quanto à de Shelley, chamou de encantamento do coração.”
Affonso Romano de
Sant’Anna, inspirado em Joyce, define que epifania em literatura
“significa o relato de uma experiência que a princípio se mostra simples
e rotineira, mas que acaba por mostrar toda a força de uma inusitada
revelação. É a percepção de uma realidade atordoante, quando os objetos
mais simples, os gestos mais banais e as situações mais cotidianas
comportam iluminação súbita na consciência dos figurantes, e a
grandiosidade do êxtase pouco tem a ver com o elemento prosaico em que
se inscreve o personagem.”
Os críticos comentam
que as epifanias de Joyce são tão vazias que não conseguem efetuar uma
certa transmissão mística, pela via poética – elas representam um
fracasso, muito mais um resíduo do que sua expressão. Discordo. Já
li crítica similar a Clarice Lispector, por abordar o real, o
inatingível. Até escritores que admiram Joyce dizem que os seus
monólogos, embora grandiosos, são falhos porque são desordenados.
Pensem... o fluxo da consciência ser bem disciplinado, organizado... Mas
é no “vazio” das epifanias que se faz arte, e esse nada está repleto de
algo que não pode ser dito, a não ser por efeito de sentido. Grande
parte de suas epifanias são libertárias, quebram ilusões, e dessa queda,
desse dejeto, a verdade é deslumbrada pelo subterfúgio do que
parece a alguns – epifanias ocas de sentido.
Do “Retrato do Artista
quando Jovem”, obra-prima do romance autobiográfico que tem como herói
Stephen Dedalus, alter ego de Joyce, tentei dividir as suas
epifanias em:
Sublimatórias – quando
há um movimento de ascensão ou sublimação do ser: “a vida tornava-se um
dom divino, e da qual cada momento e cada sensação, mesmo a vista de uma
simples folha desabrochando no broto de árvore, a sua alma se agradaria,
agradecendo ao doador”
;
Libertárias – por meio
da quebra de ilusões, se necessário partindo para as apostasias mais
contundentes: “Não servirei àquilo em que não acredito mais, chame-se
isso o meu lar, a minha pátria ou minha igreja; e vou tentar exprimir-me
por algum modo de vida ou de arte tão livremente quanto possa, e de modo
tão completo quanto possa, empregando para minha defesa apenas as armas
que eu me permito usar: silêncio, exílio e sutileza”
; e
De encantamento – pura
estética, pura forma. Essa idéia é dada quando em “O Retrato...” Stephen
descreve a Lynch: “o artista, como o deus da criação, permanece dentro
ou atrás ou além ou acima de sua obra invisível, clarificado fora da
existência, indiferente, aparando suas unhas”.
“Fruto maduro” é um
exemplo de Epifania sublimatória. No “Retrato...”, Stephen se envolve
numa forte discussão com três condiscípulos, sobre quem seria o maior
poeta. Mesmo sendo espancado por esses colegas ele, imbuído por uma
ética,
sustenta ser Byron o maior poeta, não confessando – como eles queriam –
que “Byron não prestava”. E o ódio que ficou por ser surrado, ele
sublima por meio de uma ilusão artística:
... “tinha sentido que
havia uma força oculta, que lhe ia tirando a capa de ódio acumulado, em
um momento, com a mesma facilidade com que se desprende a casca (ou
pele, peel) suave de um fruto maduro.”
Ao mesmo tempo em que
Stephen tira de si suavemente o sentimento de ódio acumulado – como a
pele de um fruto maduro –, deixa para trás as pessoas que o surraram.
Pela arte da palavra metaforizada, esse sentimento se desprende e ele se
eleva, amadurece.
Comenta Freud em
“Totem e Tabu”:
“Somente na arte
ocorre que um homem devorado por seus desejos faça o que se assemelha a
uma satisfação e que graças à ilusão artística, esse jogo produza uma
ação sobre os afetos, como se fosse algo de real.”
Mario Quintana, grande
poeta brasileiro, compôs uma epifania que se assemelha à de Joyce.
Depois de ter perdido a terceira indicação para a Academia Brasileira de
Letras, ele compôs o célebre “Poeminha do Contra”:
“Todos esses que aí
estão
atravancando meu
caminho,
eles passarão...
eu passarinho!”
O poeta sublimou
também o sentimento de desgosto e talvez de ódio. Bastava apenas esse “poeminha”,
para imortalizar toda a sua obra.
O que Quintana diz por
“efeito de sentido” percebe-se em “eles passarão” (o sentimento de mágoa
e as pessoas que não o aceitaram na ABL). E ele – feliz como passarinho,
dando seus vôos artísticos.
Pode-se ir mais longe
na elaboração :
Ao som de passarão e
passarinho, a obra do poeta se imortaliza. O verbo se faz carne
literalmente: passarão se transforma em pássaro grande, velho, beirando
a morte e passarinho, ao mesmo tempo, torna-se um verbo inconjugável:
passar-inho – a poesia se revela, realizando o desejo do escritor –
morrer e ser imortal.
Da magia dessas
epifanias de Joyce e Quintana, o verbo se faz carne
– os frutos amadurecem e os pássaros voam.
Joyce se utiliza de
efeito de sentido ao quebrar a ilusão de um amor casto, na seguinte
epifania libertária:
Ao virar uma esquina
em Dublin, incidente corriqueiro segundo Joyce, ele ouve um diálogo que
lhe inspira as estrofes “ardentes” da
“vilanela” da sedutora, que se pode ler no “Retrato”:
“Uma jovem está nos
degraus de uma casa, conversando com um rapaz:
Moça (falando
discretamente) – Ah, sim... eu estava ... na... ca... pe... la...
Rapaz (sempre muito
baixo) – ... Eu... ... eu...
Moça (com doçura) –
Ah... mas... você é... mui... to... mal... do... so. ”
Percebe-se que Joyce
em suas epifanias quase sempre joga com luz e trevas, pureza e pecado,
céu e inferno.
Uma jovem balbucia – e
a palavra capela (chapel) envolvida pelo desejo, fende-se em
duas:
Chap
– fender-se, abrir-se, gretar-se, entregar-se;
El
– vara, antiga medida de comprimento.
Da palavra capela, que
significa pureza, oração, amor – a jovenzinha sem querer querendo
revela-se falhando – escancara inesperadamente o seu desejo: abrir-se,
entregar-se... Surge o confronto entre amor e paixão, pureza e luxúria,
santidade e pecado. A capela rui e a bela jovem dá luz a outro texto. Da
trivialidade de uma palavra balbuciada, emerge a malícia conivente,
pura, gostosa e sórdida: nela – o mal... do... so... de... se... jo;
nele – alumbramento e gozo (o que quer de mim esse anjo diabólico que
candidamente me seduz? )
O efeito de sentido
surge exatamente da inesperada queda do objeto a. Na cândida jovem
emerge o ardente desejo da mulher não-toda na função fálica: “sou a
carne que sempre diz sim”.
Eis mais um enigma de
Joyce, ao utilizar uma palavra-valise – chap / el – que os
críticos não conseguiram desvendar.
Na maioria das
epifanias, Joyce parece denunciar a existência de um amor impossível,
inatingível: semblant’amour – portanto não só difere, mas
contrapõe-se radicalmente ao que Catherine Millot fala sobre a busca do
“místico” que tenta inscrever sua experiência no discurso religioso
suscetível de lhe dar um sentido. Suas epifanias, principalmente as de
libertação e encantamento,
não pretendem levar mensagens de “auto-ajuda”. Em Joyce, não há comunhão
de idéias nem desejo narcísico de identificação do leitor, ao contrário,
ele espera a singularidade de cada um.
Muitos críticos não
percebem o encanto das epifanias, mas tive a grata satisfação de ler “A
escritura começa onde a psicanálise termina”, de Serge André:
“Dar corpo a este
“nada dizer” ou a esta abertura da linguagem, é talvez a tarefa mais
importante da escrita, uma tarefa quase sagrada, cujo monopólio lhe
pertenceria. Este nada – que não é ausência de algo, mas pelo contrário
a presença maciça do que escapa à categoria “algo”, posto que depende,
por natureza, do que não pode ser dito sem ficar automaticamente marcado
pela denegação da palavra – será esse o obscuro objeto do desejo de
escrever?”
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Quem elevou a língua
ao nível da Coisa, deve ainda dar provas de seu amor pisoteando-a,
estripando-a, esmiuçando-a até as migalhas para extrair dela a única
singularidade quando ela não é outra coisa senão uma massa informe, nem
sequer um grito, apenas um esforço.”
E finalmente, as
epifanias de encantamento – penisolate e “uísque orvalhado”.
E nessa parte do
trabalho, por se tratar de algo bastante enigmático, utilizo um
artifício-valise: a parodiábola, misto de paródia (ode, que
perverte o sentido de outra ode) e parábola (narração alegórica que
representa uma coisa para dar idéia de outra maior).
E para fazer esse artifício, nada melhor do que dormir e sonhar em pleno
seminário de psicanálise e literatura.
PENISOLATE
E UÍSQUE ORVALHADO
Em um seminário de
literatura e psicanálise sobre epifanias e palavras-valise, encontrei
uma amiga. Há poucos dias, ela me disse não entender as epifanias de
Joyce. Parece ser queixa comum entre meus colegas. Não se trata do
conceito de epifania, mas de algo que não pode ser entendido – “as
epifanias são esvaziadas de sentido”.
Naquele dia, eu estava
angustiado por ter discutido com um colega, querendo um braço amigo para
me amparar. E quando eu contasse o que ocorreu...: Não foi nada, isso
acontece com todo mundo, logo você esquece... Venha, vamos conversar e
tomar um cafezinho, que a preocupação passa. Com essa certeza,
aproximei-me dela:
– Minha amiga, eu
queria que você me ouvisse, estou precisando de um puxão de orelhas.
Percebendo toda minha
insegurança e angústia, ela dirigiu os olhos para mim – estranhos...
brilhantes – choravam! E sorrindo, me disse:
– Você já as puxou.
Fiquei atônito – ela
não sabia o que era epifania e falou como mestre, não fazendo pergunta,
mas dando resposta – você já as puxou – e o conteúdo não precisou ser
revelado. Foi tão abrupta e inesperada esta resposta, que algo me
transformou: minha insegurança desapareceu de imediato, fiquei quase em
estado eufórico. Mesmo sofrendo, me passou confiança. Parecia ter dito:
acredito em você – acredite também. Assim, me deu forças, não só para
acabar com aquele mal estar temporário, mas para terminar este trabalho,
que eu estava com grande dificuldade em concluir. O que o meu trabalho
tem a ver com o puxão de orelhas? – ainda hoje elas me doem...
E por quem seus olhos
choravam?
Repentinamente várias
idéias me iluminaram, por momentos percebi claramente qual a linha a
seguir no meu trabalho. Recostei a cabeça na cadeira e relaxado, comecei
a divagar... O mistério do mundo:
“O
mistério de tudo
Aproxima-se tanto do
meu ser,
Chega aos olhos meus
d’alma tão de
perto,
Que me dissolvo em
trevas
e universo...
Em trevas me apavoro
escuramente.”
Joyce também se
dissolve em luz e trevas, quebrando as ilusões com sua natural
irreverência – ele estudou as epifanias de São Tomás acompanhado de duas
“belezas venéreas – Nelly Fresca e Rosália, a puta do Cais de Carvão” –
momento místico e trivial, simbolizando a própria transmutação que as
epifanias sofrem ao passarem das mãos de um santo homem para as de um
homem pecador... esquisito... acho que estou dormindo... as minhas
idéias misturam-se às palavras distantes do conferencista, pronunciadas
sonoramente:
– Porque meus colegas
ficam petrificados diante das epifanias e não se dão conta de que a
análise é um enigma encantado – onde há revelação e transformação.
Quando o verbo inesperadamente surge, algo é revelado em momento único,
não produto da identificação, mas da singularidade, da verdade de cada
um. Por natureza, uma análise já é epifânica: ela representa o próprio
desvelamento do ser, através de um texto não dito. E psicanálise é a
maior palavra-valise que existe, porque carrega com ela todas as
palavras não ditas...
Estranho... as
epifanias, são esvaziadas de sentido? Quando li “Ulisses”, não alcancei
as epifanias de Joyce. Seria por efeito da síndrome do eco, quando Lacan
ocupando posição efetiva no ideal do ego de muitos, questiona: “Joyce é
louco? Eu não sou, porque me inspiro nele. E Joyce, se inspira em quem?”
Influenciadas pelo
ditado “quem pergunta tem a resposta”, as pessoas confundem-se, criando
um outro: “na própria pergunta está a resposta” e deduzem: se Lacan diz
que não é louco – sendo psicanalista, jamais poderia ser?! –,
apenas se
inspira em Joyce,
enquanto este – quem sabe? – ou se inspira na filha, que é louca, ou a
inspiração viria dele mesmo, e a loucura também... Será que houve uma
denegação e nesta Lacan se identifica com Joyce, parecendo dizer: eu me
inspiro nele, mas não sou igual a ele... Quando diz isso, parece afirmar
o contrário: eu também sou louco... – de que loucura ele fala?! – porque
ao me inspirar em Joyce, também sou influenciado por ele, passo a falar
o mesmo idioma dele... E as pessoas em quem na verdade Joyce se inspira,
eu também me inspiro: sintomadaquin. Na verdade é São Tomás de
Aquino, o santo homem, que salva da loucura os dois irreverentes
religiosos Joyce/Lacan... Eu mesmo não acho que eles tenham distúrbio de
linguagem... Talvez um deles seja até daltônico..., não distinguindo
determinadas cores, jamais confundindo palavras... Foi São Tomás que
trouxe nas tábuas uma ética: amar a Deus sobre todas as coisas... honrar
pai e mãe... o sinthome de Lacan... as epifanias de Joyce... e
não pecar contra a castidade! E ninguém pode negar – eles absorveram
esta ética por meio de seus idiomas (éticos e epifânicos): epifaunético
de Lacan e et(il)icoepifânico de Joyce...
... foi dessa
identificação, desse ato falho, desse quarto nó trivial não múltiplo de
três, que nasceu a maior epifania já criada por Lacan: o retorno do nome
do pai sãotomasdeaquino; do mesmo pai, Lacan criou também um mesmo filho
Joyce/Lacan. Mas na identificação, não há mourre. E a análise ou
interpretação torna-se impossível, ou interminável...
... Joyce jamais
poderia ser interpretado por Lacan por este carregar uma profunda
admiração e rivalidade em relação ao
escritor Joyce – levando-o a uma
identificação. Portanto, o personagem que foi interpretado por amor ou
por amoródio não foi Joyce, mas um personagem divanesco criado por Lacan
– mistura de genes ou de gênios: Joyce/Lacan – sem levar em consideração
o grande desejo que ele tinha em comprovar a tese sobre o nó borromeano.
A sua interpretação portanto está sujeita a fatores que jamais poderiam
deixá-lo numa posição de certa neutralidade... O interessante é que essa
figura “divanesca” criada por Lacan, carregada de palavras-valise, de
duas identidades, enriquece o estudo do sinthome e inverte a direção
tradicional da articulação da psicanálise com a literatura e com a
religião...
... a psicanálise
sempre busca na literatura e na religião, a sua matéria prima: foi com
Édipo e não com Sófocles que Freud exemplificou seu grande feito – a
invenção do complexo de Édipo – sobre o qual repousa a doutrina
psicanalítica...
... Lacan e outros
seguidores de Freud parecem-me ter seguido por este caminho: primeiro
gozava-se na literatura e na religião para depois gozar da
literatura ou da religião na psicanálise. Podendo-se assim dizer que a
psicanálise é uma “ciência gozada” – estranha. Não é por acaso que trata
do “real” e se interessa por obras como as de James Joyce e de Clarice
Lispector – “obras estranhas” Mas, quando Lacan cria um personagem
“Joyce o Sint’home”, ele faz da psicanálise literatura e, ao canonizar
Joyce, (e ele também por identificação) – parece fazer da psicanálise
religião, invertendo assim a usual articulação da psicanálise com a
“arte” e com a “crença”...
... por que eu não
consegui perceber as epifanias em “Ulysses”? ... Mas em “Finnegan’s Wake”,
já livre dos ecos, fiquei abismado com as epifanias de Joyce. Logo na
primeira página, “penisolate” – palavra-valise que parece carregar de
sentimentos a Irlanda. Depois de ouvir os significantes – sol, pênis,
penny, pena isolada de um escritor, Isolda, e muitos outros..., fechei
os olhos e os condensei em um poemeto:
Irlanda! Irlanda!
Península isoldada
Fálica e ensolarada
Por Joyce e Nora
sonhada...
... não me satisfaço
com um, dois ou mais significantes, apreendo todos. As palavras-valise
são enigmas encantados que me dão o dom da revelação e da criação. No
primeiro momento, eu sonhei a Irlanda para depois misturar o seu mar às
águas do Capibaribe – meu rio, hoje, carrega o mar irlandês: olho da
janela e vejo o Capibaribe, uma faixa estreita de água cercada por terra
a se perder de vista... Capibaribe, Capiberibe, cheio de luas... as
bebedeiras nos bares do cais do porto – pedaços de carne e queijo
regados a uísque – pedaços de palavras, sussurros, balbucios ...
... a vitrola tocava
Capiba:
“Eu daqui não saio
eu não vou embora
tanta mulher bonita
e minha mãe sem
nora!”...
... senhora – sem...
nora – nome que vem por lei de uma língua-mãe – elo de ligação entre as
mães irlandesas e as mães de língua portuguesa. O idioma de Nora era a
língua fundamental que Joyce e Lacan falavam – de um amor impossível:
senhora – tanta mulher bonita – e minha mãe señora...
... e embriagado por
um uísque epifânico, cujo malte de cevada foi fabricado sob um arco-íris
orvalhado, sem dar sentido a nada, muito menos a Joyce, caio de uma
escada tão alta que mais parece um penhasco. Na queda, ouço um trovão:
sem ruídos..., cem palavras..., a canção de Finnegan’s Wake:
“Uma manhã, Tim cheio
de uísque
Caiu da escada e
quebrou a cabeça
..........................................................
Para seu cadáver velar
..........................................................
Seu corpo deitaram na
cama
Um galão de uísque aos
pés
Um barril de cerveja à
cabeça”.
..........................................................
E na queda, rio, rio,
rio...
Ela – rio – nuinha
para mim
E ereto em baixo de
águas e de anáguas
Eu me afogo no rio,
rio, rio...
Refletindo o fálico
brilho de um sol
Em suas águas, agora
leitosas
– Liebfraumilch
–
Bebo numa taça de
vinho tinto
Pedaços de palavras,
balbucios, sussurros ...
Pedaços de carne e
beijos regados a uísque.
– Acorda, santo homem!
Está na hora da sua análise com Lacan – você é louco? Me assustou,
chegou foi bêbado!
– Nora, está zangada,
pensou que eu tinha morrido? O meu amor por você é uma epifania, parece
não ter sentido, mas transborda de sentimentos, algo impossível de
dizer... do vazio surge você – minha mulher –. Me dá um beijo!
– Não vem, não! Parece
que ainda sonha...
– Você, o inverso da
minha luva, e não me ama mais?
– E o amor existe?
Quem é que fica tão perto e tão distante de mim, como se fosse um deus,
indiferente, a aparar as unhas?
–Ah! Meu amor, todo
homem tem uma Nora. Se não tem, as mães o têm.
– Acorda, acorda, você
está roncando, em pleno seminário! Venha tomar um café...
– Ora! É a segunda vez
que me acordam... Não, obrigado senão eu não durmo...
– E o que você estava
fazendo durante todo o seminário?
Caminhando com Freud e
Lacan
IV Jornada da Escola
Freudiana de João Pessoa
João Pessoa, 03 e 04
de dezembro de 2004