História de transferências

Obs: Este texto corresponde à “Apresentação” da publicação de IPB – Identificações e Identificação Sexual, servindo como um histórico da Instituição.

Nosso objetivo com esta publicação é o de pontuar os dez anos de existência de Intersecção Psicanalítica do Brasil – IPB, instituição cujo funcionamento vem sendo marcado por muitos desafios.

As páginas que se seguem representam um dos resultados desses desafios, constituindo-se no conjunto das produções dos seus participantes, apresentadas durante os nossos dois últimos Simpósios. São produções que trazem a marca não só da singularidade de cada um dos seus autores, mas da identidade de uma instituição cujos princípios contemplam, de forma privilegiada, o acolhimento, a articulação, a interlocução, enfim, a intersecção dessas diferentes singularidades.

Acolher e expressar nossas singularidades são princípios que refletem o perfil de IPB, caracterizado por um funcionamento atípico. Nossa sede “fixa” é virtual, correspondendo apenas a um endereço na internet. Além disso, nossa composição inclui participantes de diferentes locais(1)   , o que não significa sermos uma instituição com suas ramificações: em IPB, não há matriz nem filiais. Cada local onde há participantes tem a mesma consistência no enodamento institucional.

Sustentar a instituição a partir dessa lógica de enodamento tem nos convocado a inventar critérios singulares de funcionamento. A cada ano, um local diferente se encarrega da “administração” institucional, organizando também os nossos Simpósios, que reúnem todos os participantes. Essa alternância administrativa faz com que o perfil institucional ganhe sempre novas versões – a versão de cada local. Entretanto, trata-se sempre do mesmo perfil, decorrente de fundamentos bem definidos na nossa Carta de Princípios, elaborada no Ato de Fundação da instituição.

Esse Ato de Fundação de IPB nomeou uma história de “transferências de trabalho” construída ao longo de muitos anos, demarcando um contorno institucional determinado pela geografia dessas transferências, e não pela geografia dos locais onde há participantes. Essa geografia de “transferências de trabalho” define o que é IPB e corresponde àquilo que fundamentou sua institucionalização.

A história dessa geografia começou a ser escrita a partir de nossos antigos pertencimentos aos CEFs(2)   locais. Após suas cisões e dissoluções, as transferências estabelecidas foram sendo sustentadas ou “postas para trabalhar” em função do engajamento de muitos de nós em eventos psicanalíticos nacionais e internacionais. Entre eles, as Jornadas Freud-lacanianas(3)    e as Reuniões Lacanoamericanas(4)    tiveram a função de criar e manter uma rede de interlocuções, que se solidificou em 1997 com a criação de “CONVERGENCIA, Movimento Lacaniano para a Psicanálise Freudiana” – movimento engendrado nos bastidores das Reuniões Lacanoamericanas, desde 1995.

Até esse momento, não havia de fato uma demanda de nomeação para essa rede de transferências. Entretanto, a fundação oficial de CONVERGENCIA e a vontade de participar dela efetivamente mobilizaram o grupo presente naquela ocasião (1997)(5)  , que, com o intuito de poder participar de algumas deliberações, nomeou-se informalmente “grupo do Recife”. Com isso, plantou-se a semente para a nomeação oficial de IPB — Intersecção Psicanalítica do Brasil.

Assim, pode-se dizer que nossa instituição foi inspirada pela lógica de três movimentos: por CONVERGENCIA, cujos fundamentos estão presentes também na Carta de Princípios de IPB, contemplando basicamente o acolhimento das diferenças; pelas Reuniões Lacanoamericanas, cuja lógica da articulação de “transferências de trabalho” presidiu nosso próprio ato de nomeação; e, pelas Jornadas Freud-Lacanianas, cujo dispositivo, compondo trabalhos de participantes de diferentes instituições, moldou nossa forma de fazer uma interlocução aberta e não, apenas, em função de pertencimentos institucionais.

Essa tríplice inspiração engendrou uma rede em cuja tessitura está um vínculo de trabalho alicerçado, predominantemente, na interlocução da produção dos participantes. Um a um, em nome próprio, esses participantes se inscrevem nessa rede como significantes de uma cadeia, isto é, não como signos de si, mas como singularidades – de desejo, de interesse, de percurso, de local, de produção. Assim, IPB funcionou como o significante que nomeou essa cadeia, fazendo metáfora dentro da metonímia dessas singularidades – entrando na série com a função de marcar um lugar(6)    e não um grupo ou um conjunto. A virtualidade desse lugar não lhe dá consistência e lhe retira a possibilidade de ser ocupado, por exemplo, por “mestres encarnados”.

As consequências desse tipo de enodamento se refletem tanto no perfil da instituição, quanto no posicionamento de cada um dos seus participantes.

No nível da instituição, a composição de uma rede tecida a partir das diferenças depõe sobre um enodamento institucional portando três dimensões: um Real (da falta), um Simbólico (das produções) e um Imaginário (das demandas e afinidades). Tal enodamento institucional caracteriza uma “estrutura de corte”, o que permite à instituição sustentar um discurso dentro da lógica do significante, ou seja, de um discurso analítico que preserva o lugar da castração, agenciando um trabalho a partir da falta.

Em termos dos participantes, a ênfase colocada na interlocução das suas produções, em nome próprio, quer dizer, a partir de seus próprios significantes, de suas próprias enunciações, vem permitindo a sustentação dos seus percursos de formação permanente, dentro dessa mesma lógica da castração e da invenção: da palavra que se faz texto, favorecendo o desvelamento de um estilo, de uma divisão entre saber e verdade.

Por fim, pode-se dizer que, tanto na perspectiva da instituição, quanto na dos seus participantes, sustentar essa lógica da castração tem nos obrigado a inventar IPB a cada dia, a cada atividade, a cada Simpósio, a cada evento nacional ou internacional. Cada momento desses requer nossas experiências com a “falta-a-ser” e o “não-saber”, o que não deixa de promover a transmissão de um saber enquanto falta – transmissão da psicanálise dentro de um estilo discursivo, cuja repetição e transposição para o campo simbólico imprimem marcas, não de um discurso comum a todos, mas do um a um.

Arlete Mourão
Fevereiro de 2008

(1) Diferentes Estados brasileiros, o que fundamenta a denominação “do Brasil”.
(2) Centro de Estudos Freudianos.
(3) Realizadas anualmente em Recife/Brasil.
(4) Realizadas bianualmente, em diferentes países da América Latina.
(5) Ano da Reunião Pré-fundacional de CONVERGENCIA, realizada em Barcelona.
(6) O lugar do Um do significante, da diferença, e não do Um da unificação.