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Reagindo à fixação imaginária de Anna Freud e dos
psicólogos do eu, à primazia do imaginário em Melanie Klein ou àquilo que
aparece como primazia do real em Balint, Lacan, com o "Discurso de Roma" e
o Seminário I, dá uma primazia total ao simbólico. Embora tivesse servido
de questionamento, a primazia total do simbólico, caricaturada por uma
clínica mero jogo de palavras, deixou em muitos de nós seus efeitos, ora
alienantes, ora hilariantes.
Uma das reações a esta primazia total do simbólico desembocou na
chamada "clínica do real". Se esta expressão pode ser justificável em
algum nível, ela não deixa de ilustrar a dificuldade de escapar ou a uma
primazia total ou a um isolamento de um ou outro dos registros. Aliás,
caio facilmente nesta armadilha quando volto a este tema do real que me
intriga tanto. Como é difícil esta articulação dos tres registros, para
tentarmos uma clínica do simbólico, do imaginário e do real. Isto supõe
evitar o isolamento de um dos registros assim como relativizar a primazia
total do simbólico, relativização consagrada pelo recurso ao nó borromeu.
Paradoxalmente, não há como escapar a uma primazia do simbólico no
decisivo aspecto da anterioridade lógica do simbólico que Freud chama
sobredeterminação. A respeito do simbólico, destaquemos tres citações de
Lacan : é "de onde operamos" em R.S.I. ; "A existência se enraíza no
símbolo. É o que define o ser falante" em "O saber do psicanalista"
(3-3-72); "Tudo parte do zero", em "O momento de concluir".
Uma das várias dificuldades que enfrenta o leitor ao investigar a noção
do real é que até o Seminário XI inclusive, em algumas ocasiões, Lacan
anuncia que "na próxima vez", ele vai dissipar "a ambigüidade que
persiste" (S.XI,41). Estamos aqui em 1964 e, havia 11 anos que Lacan
falava dos tres registros. Por exemplo, é interessante encontrarmos no
Seminário I, a expressão, no singular, "registro do simbólico", "registro
do imaginário" e, no plural, "todos os registros do real"(S.I, 230). Deste
plural que acentua a dificuldade desta noção de real, destacam-se o real
penetrável e o real, impossível de penetrar. O real penetrável, da
"entrada do símbolo no real"(E.450), remete eminentemente ao "símbolo,
morte da coisa". Quanto ao real "impossível de penetrar", é o real
propriamente dito, já chamado no Seminário I, "o que resiste absolutamente
à simbolização" (S.I, 80) ou real "propriamente falando". (S.I,230). Do
real penetrável, pode-se dizer "simbolizar o real". Embora repitamos esta
fórmula, de fato na prática da experiência analítica, nos ocupamos mesmo
em "simbolizar o imaginário", já que o real em sentido estrito é
impossível de ser penetrado. Na primeira parte da obra de Lacan, a
respeito do real propriamente falando, impossível de penetrar, trata-se da
psicose, dos fenômenos psicóticos em qualquer sujeito, aos quais, de algum
modo, poderiam ser associadas manifestações como acting-out, passagem ao
ato, reações psico-somáticas. Caberia também alí, e propriamente somente
alí, a referência ao real chamado "o que volta sempre ao mesmo lugar".
Esta expressão como tal se adequaria não ao real, mas à volta do
recalcado, da articulação simbólico-imaginário, pois o real, como efeito
de uma exclusão, é justamente aquilo que não volta. Mas esta expressão "o
real, o que volta sempre ao mesmo lugar" é habitualmente ilustrada em
Lacan pela volta dos astros ao mesmo lugar. Ora, os astros ocupam um lugar
privilegiado nos delírios e é Freud que usa o termo volta (wiederkehrt) "o
suprimido interno volta de fora"(GW.VIII,308), expressão que, de algum
modo, Lacan retoma e modifica na fórmula : "o que não foi simbolizado
aparece no real". Aqui, não há volta. Não sei se, na expressão "o real, o
que volta sempre ao mesmo lugar", Lacan faz uma concessão a Freud
recorrendo ao termo "volta" para falar do real. O que há de certo é que o
delírio volta ao mesmo lugar dos astros e Lacan alude a isto várias vêzes
(S.VI,1-6-59;S.VII,23-12-59). O delírio volta, ele não volta do real para
o simbólico. Ele volta ao lugar dos astros, pois não pode voltar do
recalcado pela repetição.
Contigente do Falus, – Impossível do Rapport Sexual
Embora o real "propriamente falando" na primeira parte da obra de Lacan
seja associado ao real dos fenômenos psicóticos, mesmo nesta primeira
parte, Lacan anuncia o que será propriamente falando o real, o real
"estrutural", o impossível do rapport sexual, presente a partir do
Seminário XII de 1965, "Problemas cruciais" e repetido como um único
refrão de 1970 até o fim de sua obra. Aliás, é importante observar que,
uma vez introduzido o real como impossível do rapport sexual, nunca mais
Lacan repetirá que "na próxima vez", ele vai dissipar "a ambigüidade que
persiste" a respeito do real. Com este "impossível do rapport sexual",
enfim, Lacan conseguiu dizer o que queria sobre o real. Ficarão agora
somente as reticências em suas "Conferências americanas" "do real que seja
completamente real, isso..."(reticências, points de suspension). Estas
reticências lembram o uso do termo "real" em outros sentidos do que o
"propriamente falando". O problema é que, infelizmente em geral a respeito
do real em outros sentidos, não dizemos ou não sabemos muito bem de que
real estamos falando. Temos direito às nossas reticências, nossos "points
de suspension", e, quem sabe, até às nossas ambigüidades. Afinal, ...,
reticências. Afinal, ..., points de suspension.
Embora, como eu dizia, nos inícios da obra de Lacan, o real em sentido
próprio apareça nos fenômenos psicóticos ou na psicose, já no Seminário I
e na "Resposta ao comentário de Jean Hyppolite", Lacan fala da
"simbolização primordial" e do real como "excluído no primeiro tempo da
simbolização"(E.383). Penso que a maneira eminente de ilustrar esta
simbolização primordial e o real que dalí ex-siste é referir-se, como
Lacan começará a fazê-lo explicitamente a partir de 1965, ao recalque do
falus que exclui a possibilidade do recalque do rapport sexual : "a
Urverdrängung encontra seu significante a receber a marca da Verdrängung
do falus", lemos em "A significação do falus" de maio de 1958. É em "De
uma questão preliminar a qualquer tratamento possível da psicose" de
janeiro do mesmo ano, que encontramos a fórmula da metáfora paterna. O
Nome-do-Pai opera o recalque do desejo da mãe, desejo de falus. Dalí,
pode-se concluir que a contingência do recalque do falus acarreta a
impossibilidade do recalque do rapport sexual.
Mas precisamos, preciso, tentar entender melhor "o que se passa
REALmente". Esta expressão remete a outros sentidos do real, o real
irredutível do acontecimento, por exemplo, um nascimento real de um irmão,
de um filho, uma morte real de um pai, uma guerra real, um tratado de paz
real, o qual pode até se chamar "Convergência". Mas devemos focalizar o
efeito deste "real adjetivo" sobre as articulações inconscientes do
sujeito. E a questão fundamental "REALmente, o que se passa?" remete
afinal ao recalque ou não do falus. Se o Nome-do-Pai não funcionou, o real
toma conta e é a psicose. Se funcionou, o falus como recalcado produz o
efeito: o real substantivo do impossível do rapport sexual.
"O jogo de condensação e de deslocamento marca" a "relação de sujeito
ao significante" e "o falus é o significante privilegiado desta marca onde
a parte do logos se conjuga ao advento do desejo", lemos em "A
significação do falus"(E.692-693).
Entendo que a relação significante-falus produz o efeito do sexo como
semblant, faz-de-conta, faz-de-conta de homens e mulheres(2-12-71) porque
o falus, além de se impor, se revela como enigma em suas oposições
presença - ausência, ter - não ter, ser - não ser, castração - penis neid.
É este enigma que tritura o que poderia ser homem ou mulher. Agora, Lacan
destaca também uma outra relação, palavra – verdade, e diz que "a respeito
do gozo, é a palavra que assegura a dimensão da verdade" e que a palavra,
porque diz a verdade somente "pela metade", "fabrica" "o semblante do que
se chama um homem ou uma mulher"(2-12-71).
Podendo dizer só pela metade a verdade da relação ao gozo, é a palavra
que fabrica homens e mulheres pela metade. Isto quer dizer que Schreber
não estava tão louco neste aspecto quando falava de homens "bâclés à la
6-4-2", restos de homens. Assim, ficamos no meio do caminho do ser homem
ou de ser mulher. Ficamos a meio caminho do rapport sexual. Que verdade
afinal sobre o gozo? Uma verdade sempre singular mas que justamente nunca
consegue escapar à função fálica dividida em seus paradoxos.
O real , efeito do recalque do falus, deste falus herdeiro dos
mistérios e do Nous-logos dos gregos, se manifesta não somente no
impossível do rapport sexual, mas no impossível que haja um significante
do rapport sexual, a não ser o falus que, justamente, exclui este rapport.
Joana se esforçou demais mas não conseguiu ser o filho esperado pelos
pais. Esperou um castigo que demorou mas veio implacável. Que esforço,
depois, de novo, para tentar ser o homem que o analista esperaria, que a
análise produziria. Em vão, que decepção, que desilusão! Viria do analista
um castigo cruel, a obrigação de ser nada ou A mulher. Mas, quem sabe,
poderá um dia se permitir ser uma mulher.
P.S. No debate que seguiu, animado por Victor Junger, lembrei que o
"real do trauma" não foi uma questão realmente trabalhada por Lacan. É uma
tarefa nossa tentar entendê-la melhor. Quanto ao real como umbigo do
sonho, embora Lacan fale alí do real, penso que se trata não do impossível
do real mas do impossível do simbólico, pois estamos aqui no nível do
recalque e não de significante excluído deste recalque.
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Notas:
(G.W.VIII) : Freud, Gesammelte Werke., vol VIII.
As demais notas são de Lacan:
(E.): (Ecrits, Paris, Seuil, 1966).
(S.I,) : Séminaire I, Lés écrits techniques de Freud.
(S.VI): Séminaire VI, Le désir et son interprétation.
(S.VII): Séminaire VII, L’éthique de la psychanalyse.
(S.XI): Séminaire XI, Les quatre concepts fondamentaux de la
psychanalyse.
(2-12-71) : "Le savoir du psychanalyste".
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