Chama
atenção tanto a insistência sobre "a beleza" quanto a agressividade de
Oscar Wilde em relação aos críticos.
Beleza de Dorian
O
primeiro personagem a aparecer é o dominador, Lord Henry, admirando a
"beleza" de uma árvore florida, Henry que vai comandar o destino da
beleza de Dorian Gray. O segundo personagem não é Dorian, mas seu
retrato, mais importante do que sua pessoa, em divisão com ela,
retrato de um jovem de extraordinária beleza pessoal. O próprio Dorian
faz sua entrada somente no segundo capítulo. O terceiro personagem do
primeiro capítulo é o pintor Basil Hallward, e seu sorriso de prazer
contemplando, narcisicamente apaixonado, a forma graciosa e bonita do
retrato de Dorian Gray (1).
Lord
Henry estimula o pintor a exibir a melhor obra que fez até hoje, mas
Basil recusa por ter colocado neste retrato demais de si-mesmo (2).
Henry discorda desta comparação entre, de um lado, este Adonis feito
de ébano e flor de rosas (...) um Narciso e, do outro lado, um
intelectual como Basil, que, quando pensa, se torna só nariz ou fronte
e acaba com qualquer beleza, sendo esta o privilégio de pessoas que
não pensam, como Dorian ou os homens da Igreja (3). Associar beleza e
burrice é o preconceito usado normalmente pelo machismo para agredir
as mulheres, ilustrando quanto a referência ao belo serve para as
agressões mais simplórias.
Passa-se da beleza da arte, aquela do escritor sobretudo, tema do
prefácio, para a beleza que prevalece no primeiro capítulo, a beleza
física. O pintor explica o efeito desta beleza sobre ele : cada
retrato pintado com emoção é o retrato do artista, não do modelo. Isto
é, o pintor se encontrou narcisicamente em Dorian. Na primeira vez que
conheceu Dorian Gray, sentiu algo como um terror frente à uma
personalidade tão fascinante que (...) absorveria minha inteira
natureza. Afirma : sempre fui meu próprio mestre (...) até encontrar
Dorian Gray (6). Basil sublinha, em tres aspectos, sua identificação
narcísica com Dorian : colocou demais de si próprio; o retrato é do
artista; fascinante, Dorian absorveria a inteira natureza de Basil.
Lord
Henry, jovem homem rico desocupado como Dorian, alia sua bela voz à um
discurso cínico e perverso. Eis algumas de suas declarações : um dos
encantos do casamento é o que faz a vida de decepção absolutamente
necessária para ambas as partes (4); um homem pode ser feliz com
qualquer mulher enquanto não a ame (180); maneiras são mais
importantes do que a moral (142); consciência e covardia são realmente
a mesma coisa (6). Henry que prefere pessoas sem princípios tenciona
usar seu belo palavreado para enfeitiçar Dorian e transformá-lo no
típico homem sem princípios.
O
pintor Basil tem o mérito de ser um homem de trabalho e de moral, mas
é fixado narcisicamente em Dorian, como o ilustram estes seus
comentários: há somente duas eras de importância na história do mundo.
A primeira é o aparecimento de um novo meio para a arte, e a segunda é
o aparecimento de uma nova personalidade para a arte também. O que a
invenção da pintura à óleo foi para os Venezianos, a face de Antinous
para a escultura grega, a face de Dorian Gray será um dia para mim
(10).E Basil o descreve: sua beleza é tal que a arte não pode
expressá-la (..) Um sonho de forma em dias de pensamento (...)toda a
paixão do espírito romântico, toda a perfeição do espírito que é grego
(...) a maravilha pela qual sempre ansiei e da qual sempre senti falta
(10). Basil reconhece que colocou demais de si próprio no retrato e
que, por isto, o mundo não deve ver nunca o retrato de Dorian Gray
(11), obstáculo ao sentido abstrato da beleza. Como Lord Henry lembra
que o gênio dura mais do que a Beleza e por isto vai chegar um dia em
que Basil vai ficar indiferente a Dorian, Basil reage : Enquanto
viver, a personalidade de Dorian Gray vai me dominar (12). Quando
Henry encontra Dorian pela primeira vez : Sim, ele era certamente
magnificamentte bonito com seu lábios escarlates finamente curvados,
seus olhos azuis francos, seu cabelo encaracolado dourado.(...) Não há
que se admirar que Basil Hallward o venerava. E Henry diz ao próprio
Dorian: você é charmoso demais para ir para a filantropia (...)
assunto tedioso (15-16). Impressionado pela beleza de Dorian, Henry
acaba concordando com o culto prestado por Basil a Dorian, pois
servirá a seus fins de manipulação. Descrito como jovem gracioso com o
rosto romântico cor de oliva e uma voz lânguida que era absolutamente
fascinante (21), Henry fica tão transtornado pela beleza de Dorian que
chega a mudar sua teoria sobre a beleza, até então privilégio de quem
não pensa : você tem um rosto maravilhosamente belo (...) e a Beleza é
a forma do Gênio - é mais alta, de fato, que o gênio, porque não
precisa de explicação (21).
É
somente após ter visto o retrato praticamente terminado que Dorian
sofreu o golpe da exaltação narcísica : o sentido de sua própria
beleza lhe veio como uma revelação (25). Basil, realizando-se
narcisicamente neste retrato, confundido-se com ele, fixa Dorian em
sua própria contemplação narcísica. Dorian lamenta que vai ficar velho
e horrível enquanto o retrato permanecerá jovem, anunciando uma
espécie de pacto diabólico em favor da eterna beleza da juventude : se
fosse eu que ficasse sempre jovem e o retrato que ficasse velho ! para
isto – para isto – eu daria tudo. (...) estou com ciume do retrato que
você fez de mim (26). Basil reclama da má influência de Henry que
acabava de afirmar : Pecado é o único elemento colorido que resta na
vida moderna (29). Debatem sobre "o real Dorian", o do retrato ou da
vida e descobrem que seu rosto evoca a beleza de sua mãe. Esta havia
casado com um homem pobre, morto a mando do pai dela. Henry considera
Dorian a graça e pureza da infância e a beleza dos antigos mármores
gregos (...) tentaria dominá-lo (...), faria seu este espírito
maravilhoso (36). Assim, ele assume, em relação a Dorian, o lugar do
grande Outro, isto é, conforme a definição de Lacan, a função de
canalha.
A
Beleza da Arte do Teatro
Surge
Sibyl Vane, a namorada de Dorian. Atriz das peças de Shakespeare, é
considerada como um gênio por Dorian a quem Henry pede de não casar,
enumerando sua lista de preconceitos contra as mulheres e as relações
com elas : mero sexo decorativo; não tem nada a dizer; triunfo da
matéria sobre o espírito; pessoas que amam somente uma vez na vida são
superficiais; sua fidelidade é letargia ou falta de imaginação
(47-49). Imediatamente antes, Dorian havia expresso sua submissão a
Henry (46)e, seguindo as recomendações do mestre, se apaixona não por
Sibyl mas pela atriz: Hoje ela é Imogen e, amanhã, Julieta. Quando
será Sibyl ? pergunta Henry. Nunca, responde Dorian. Parabéns, termina
Henry, radiante por ouvir de seu aluno-escravo a lição perfeitamente
decorada : Mulheres comuns nunca apelam à imaginação de alguém
(..)Quão diferente é uma atriz. De Julieta, elogia o rosto como uma
flor e os olhos poços violetos de paixão, acrescentando : você me
disse uma vez que o pathos deixa você intocado, mas que a beleza, pura
beleza, pode encher seus olhos de lágrimas. Dorian admite a curiosa
influência de Henry e declara : Se ocorrer que pratique um crime,
virei e confessarei a você (50-51), futura confissão que revelaria o
efeito extremo da canalhice do grande Outro. E aqui a exaltação da
beleza da arte mal disfarça a agressividade mortífera estimulada no
discípulo por seu mestre e que já vai atingir uma vítima, Sibyl.
Dorian se despede de Henry porque Imogen está esperando por ele.
Imogen, investida de toda a beleza da arte, está matando Sibyl. Dorian
é um caso de pesquisa para Henry : certamente poucos tem causado nele
tanto
interesse quanto Dorian. (...que) era em grande parte sua criação.
(...)Era um encanto olhar para ele (57). A mãe de Sibyl dizia que sua
filha não deve pensar em nada senão em representar (59). Mas Sibyl
investe no amor provocando o ciume do pintor Basil. Henry é fascinado
por seu estudo de Dorian e pelo efeito de sua influência. Dorian tenta
reagir : O simples tocar das mãos de Sibyl Vane me faz esquecer todas
suas teorias erradas, fascinantes, venenosas, deliciosas (...) você é
terrível. Não sei porque amo tanto você ! E Henry o esclarece :
represento todos os pecados que você nunca teve a coragem de cometer
(77,79). Enquanto isto, Basil acaba aceitando Sibyl porque ela pode
criar o sentido da beleza em pessoas cujas vidas tem sido sórdidas e
feias. (..) Obrigado, Basil (...) sabia que você me entenderia. Harry
é tão cínico, me aterroriza, replica Dorian. Este leva seus dois
amigos ao teatro, quando Henry reconhece em Sibyl uma das mas belas
criaturas que ele havia visto. No texto, o próprio narrador se diz
encantado com sua beleza. Mas naquela noite, Sibyl fracassa como
artista, porque, após descobrir o amor por Dorian, havia começado a
detestar o palco. Basil lembra que amor é algo mais bonito do que arte
(84). Mas Dorian, durante tres horas de duração da peça, viveu séculos
de sofrimento, eternidade sobre eternidade de tortura, e no fim da
peça, diz a Sibyl : você é superficial e estúpida. Meu Deus ! Como foi
uma doidice amar você ! Que louco fui ! Você não é nada para mim
agora. Não vou nunca mais ver você. Nunca mais pensar em você. Nunca
mais mencionar seu nome (86).
Após
este desabafo arrasador, Dorian volta para casa e observa pela
primeira vez que, no retrato, havia um toque de crueldade na boca
(...) como se estivesse olhando no espelho após ter feito algo
terrível. Dorian lembra então seu comentário a Basil que sua própria
beleza permaneceria intocada, e que o rosto na tela carregaria o peso
de suas paixõres e de seus pecados (90). (...) A pintura possuía o
segredo de sua vida, e dizia sua história. Havia ensinado a ele amar
sua própria beleza. Será que ensinaria a desprezar sua própria alma
(...) Agora a pintura estava olhando para ele, com seu belo rosto
marcado (beautiful marred face) e seu sorriso cruel. (...) Ele não
viria mais Lord Henry – e não ouviria, a nenhum preço, estas súteis,
envenenadas teorias (...) voltaria para Sibyl Vane, se emendaria,
casaria com ela, tentaria amá-la de novo (91-92). Dorian lhe escreve
uma carta. Decisão tardiamente inútil pois Sibyl havia se suicidado
ingerindo ácido: estranho que minha primeira carta de amor apaixonado,
a escrevi a uma moça morta, comentário que destaca o traço tipicamente
obsessivo do desejo impossível (99). Avançando na realização do
discurso perverso de Henry, Dorian afirma : Esta coisa (...) não me
afeta como deveria. Parece-me um maravilhoso fim para uma maravilhosa
peça de teatro. Tem toda a beleza da tragédia grega (100). E Henry de
confirmar: Ha algo belo a respeito dela. Estou contente em viver em um
século quando semelhantes maravilhas acontecem. Fazem acreditar na
realidade das coisas com as quais jogamos como romance, paixão e amor
(101-102). A absolutização da beleza da arte atinge seu auge numa
exaltação unilateral em ruptura radical com a vida. Reina a crueldade.
Dorian se acha cruel, mas Henry o desculpa : Temo que as mulheres
apreciam crueldade, crueldade direta mais do que qualquer coisa. Elas
tem magnificamente instintos primitivos(102), e Henry insiste no
aspecto magnífico desta tragédia jacobina, dizendo que Ofélia e
Cordélia merecem seu luto e que não deve gastar seu choro com Sibyl
Vane. Ela era menos real do que elas (103). Dorian acaba concordando:
foi uma experiência maravilhosa. Somente. Pergunto-me com admiração se
a vida me reserva ainda algo tão maravilhoso. E Henry estimula Dorian
a explorar o potencial de sua beleza: Não há nada que você com sua
extraordinária beleza (good looks) não seja capaz de fazer. E Dorian
agradece o elogio "nunca ninguém me entendeu como você" e exalta Sibyl,
magnífica figura trágica enviada para o palco do mundo para mostrar a
suprema realidade do Amor. E Dorian enumera agora seus projetos:
juventude eterna, paixão infinita, prazeres súteis e secretos,
alegrias selvagens e pecados mais selvagens – ele teria tudo isto.
Esta lista antecipa a lembrança narcísica : alguma vez, em infantil
mangação narcísica, ele beijou, ou simulou que beijava estes lábios
pintados que agora sorriem tão cruelmente para ele. Manhã após manhã,
ele sentou frente ao retrato admirando sua beleza, quase enamorado
dele (...) este retrato seria para ele o mais mágico dos espelhos
(105). Logo após a morte de Sibyl, Dorian se deliciou com uma noite de
ópera e se vê censurado por Basil. Este é convidado pelo jovem a
evitar assuntos horríveis : se alguém não fala a respeito de algo,
nunca aconteceu . Basil condena a nefasta influência de Henry que
transformou este rapaz simples, natural, afetuoso em homem sem coração
(108). E Dorian reconhece que Basil é melhor do que Henry e pede de
não abandoná-lo. O pintor comenta : Você se tornou a encarnação
visível deste ideal não visto cuja memória assombra a nós artistas
como um raro sonho. Venerava você. Ficava ciumento de qualquer artista
que falava com você. (...) Eu havia visto a perfeição, frente a
frente, e o mundo havia ficado maravilhoso a meus olhos (...) Fiquei
com medo que outros conhecessem algo de minha idolatria (...) coloquei
demais de mim mesmo no retrato (...) Foi uma doidice imaginar que
havia visto qualquer coisa nele mais do que você ser extremamente
bonito (good-looking) e que podia pintá-lo (114-115).
A
exaltação da beleza idolatrada acarreta efeitos arrasadores,
destruidores. A absolutização narcísica de Dorian, aparece como
revelação (25). Esta revelação pelo retrato pintado por Basil serviu
como meio de levantar o recalque sobre a infantil mangação narcísica,
pois Dorian evocou a lembrança em que beijava no espelho seus próprios
lábios. O pintor, homem bom, trabalhador, engajado na realidade, se
perdeu num culto à sua paixão narcísica na figura de Dorian, fixando-o
em seu narcisismo. Despertada pelo pintor, a exaltação da beleza é
dirigida, manipulada pelo discurso de Henry, cuja profissão se reduz a
proferir belos e cínicos discursos. A conjunção do narcisimo infantil,
da fixação narcísica provocada pelo próprio narcisismo do pintor, e a
manipulação desta beleza narcísica por Henry levam à absolutização da
beleza destruidora.
O
Espetacular do Retrato e do Livro
Dorian não quer mostrar o retrato para ninguém, e, talvez com razão,
pensa Basil, temeroso dos efeitos do próprio narcisismo. De fato, o
retrato está bem escondido, na antiga sala de aula fechada e
abandonada que servia ao avô, severo, e que evoca somente lembranças
de ódio a Dorian cujo pai foi morto a mando deste avô. Em nova
articulação da beleza com agressividade, o retrato representante da
beleza é guardado na sala do avô odiado. Um pano de cetim do século
XVII serve de coberta para a coisa terrível (...) pior que a corrupção
da própria morte(...) o que o verme era para o corpo, seus pecados
seriam para a imagem pintada da tela. Estragariam sua beleza (118).
Basil poderia ter ajudado a resistir à influência de Lord Henry. (..)
O amor que lhe dedicava – pois era verdadeiramente amor – não tinha
nada que não fosse nobre e intelectual. (..) Sim, Basil podia tê-lo
salvo. Mas agora, era tarde demais.(119). Debaixo do pano purpúreo, o
retrato pintado na tela poderia crescer bestial, encharcado, e sujo
(...) para quê olhar a corrupção encharcada de sua alma?(122).
Dorian havia firmado um pacto diabólico : o retrato envelheceria e ele
permaneceria jovem. A relação especular-narcísica destaca o duplo
Dorian-retrato dominado pela relação de admiração e de rivalidade
mortífera.
Um
novo duplo aparece, um duplo do livro. Trata-se de um livro enviado
por Henry, livro venenoso que fascinou Dorian. Narra a história de um
jovem parisiense que realizaria todas as paixões e modas de cada
século menos do próprio (125-126). Desafio para Dorian : como poderia
encarnar este personagem extravagante, externo à própria história de
seu século ? Afinal, ocupar-se com os encantos da própria beleza é
sobrepor-se à história, pois Dorian não envelhece, após ter entregue a
seu retrato a função de assumir seus avatares históricos. E o livro
sobre o jovem parisiense dá destaque à súbita decaída de uma beleza
que havia perdido o que, nos outros e no mundo, havia mais
preciosamente valorizado (127). Voltando de suas misteriosas
ausências, munido de um espelho, Dorian desdobra a experiência
especular, examinando seu retrato da tela comparando-o com sua imagem
no espelho : olhando para o rosto malvado e envelhecendo da tela, e
agora para o belo rosto jovem do espelho que ria para ele (...) cada
vez mais enamorado de sua própria beleza, e cada vez mais interessado
na corrupção de sua própria alma (128). Recorria à moda e ao dandyismo
para assegurar a modernidade absoluta de beleza (129). Dorian propõe
uma nova espiritualidade da qual o fino instinto pela beleza devia ser
a característica dominante (130).
Rituais católicos, perfumes, música, pedras preciosas, vestimentas e
tecidos opulentos, preciosidades, pesquisas sobre a beleza, tantos
artifícios para Dorian se proteger do medo de se confrontar em seu
retrato com a real degradação da vida, medo mesclado ao meio-fascínio
do pecado (140-141). Brigas, conluios com ladrões e falsificadores de
moeda vieram aumentar seu charme, este fiel aliado de sua grande
riqueza, pois, afinal, maneiras são mais importantes do que a moral e
um bom cozinheiro mais do que a mais alta respectabilidade (142). A
ética do belo não se reduz à arte, invade sem limites e domina
perversamente a vida. Assim, admirando as pinturas de sua casa de
campo, Dorian contempla uma representação da própria figura, a de um
rapaz, promotor de orgias, altivo e belo que havia herdado da mãe sua
beleza e sua paixão pela beleza dos demais (144). E Dorian se confunde
especularmente com o personagem do livro pernicioso entregue por
Henry. O livro engrandece a beleza do vício, da chantagem e do
assassinato, exalta tiranos e arístocratas sanguinários, de Calígula a
Pietro Barli, o "formoso", e revela o fascínio pela variedade dos
métodos de envenenamento. Dorian Gray foi envenenado por um livro
(...)e considera simplesmente o mal uma moda através da qual poderia
realizar sua concepção do belo (147).
Beleza, Insolúvel Conflito
Chocado pelas informações sobre Dorian e sobre a mais terrível
confissão jamais lida que leva num mar de lama este seu rosto puro,
brilhante e inocente e sua juventude intocada, Basil tenta intervir
(152). Denunciando a influência de Henry, o pintor tenciona ver a alma
de Dorian que, lívido diante de tal projeto, pois sua alma é seu
retrato escondido, exclama: mas somente Deus pode fazer isto. Neste
momento, o gozo do Outro, divino, acachapante, irrompe e toma conta de
Dorian : Sentiu uma alegria terrível em pensar que alguém ia
compartilhar seu segredo e que o homem que havia pintado o retrato que
era a origem de toda sua vergonha seria oprimido para o resto de sua
vida com a lembrança odiosa do que havia feito (153). Uma exclamação
de horror escapou dos lábios do pintor quando viu na luz fraca o rosto
hediondo da tela sorrindo para ele (...) embora o horror não tivesse
estragado inteiramente a beleza maravilhosa (155). E Dorian resume seu
drama responsabilizando Basil : Quando era rapaz (...) você me
encontrou, me adulou, e ensinou-me a ser vaidoso de minha bela
aparência. Um dia você me introduziu a um amigo seu que me explicou a
maravilha da juventude, e você terminou um retrato meu que me revelou
a maravilha da beleza. Basil reage : Que coisa eu venerei ! Tem os
olhos do mal (...). Venerei-o demais. Sou punido por isto. Você se
venerou demais, somos ambos punidos O pintor convida Dorian a rezar.
Este, invadido pelo real do gozo sem lei quando as palavras não
remetem a mais nada, e pelo real da alucinação visual, Dorian grita :
estas palavras não significam nada para mim agora. Não vês que a coisa
maldita nos olha mangando ? (..) E tomado de incontrolável sentimento
de ódio por Basil, o apunhala mortalmente (156-158). Basil, o
trabalhador, homem de bem, não pode ser a típica bela alma, pois
incentivou, com sua admiração desenfreada por Dorian, a exaltação
narcísica, mortífera.
Total
a exaltação da beleza, total a destruição. Não basta ter matado Basil.
Chantageando um ex-amigo e levando-o a cometer, posteriormente,
suicídio, Dorian contrata seus serviços de químico para fazer
desaparecer totalmente o corpo inerte de Basil. Mais do que isto, o
pintor deve esvaecer até de seu pensamento : começou a se perguntar se
ele e Basil Hallward haviam jamais se encontrado (168, 174). Não basta
para o pintor uma primeira, precisa de uma segunda morte.
Sentindo-se perseguido, Dorian se refugia na droga, no ópio : embora o
perdão fosse impossível, o esquecimento era ainda possível (184-185).
Neste antro asqueroso, se defronta com o olhar de Adriano a quem já
havia prejudicado gravemente: parecia ver os olhos de Basil Hallward
olhando para ele. Repete os sofismas de Henry: Estou cheio de mulheres
que amam. Mulheres que odeiam são muito mais interessantes. De todo
jeito, a droga é melhor (188). O gozo na droga toma conta, sufocando o
desejo. Subitamente, surge James, irmão de Sibyl, que, 18 anos após
seu suicídio, pretende vingar a morte de sua irmã. Mas Dorian parece
um jovem de vinte anos de idade. Então, James acha que se enganou,
pois este homem não pode ser responsável pela morte de Sibyl. Quando
melhor informado sobre a eterna juventude de Dorian, dizem que se
vendeu ao diabo em troca de um rosto bonito (193), James volta, mas
algum caçador equivocado atira mortalmente nele.
Nos
últimos capítulos, Henry quer se tornar um pai nomeador: quer batizar
de novo todas as coisas. (...) Nomes são tudo. Não brigo nunca com
ações. Minha única querela é com nomes (193-194). Insiste em sua tese
fundamental: É melhor ser belo do que bom (194). Henry se revela o
príncipe da linguagem, dono do discurso perverso a ser realizado por
Dorian. Dialogando com a amiga Gladys, a bela Duquesa de Monmouth
(193), Dorian diz que está sempre de acordo com Harry. (...) Mesmo
quando ele está errado ?, pergunta ela. Dorian: Harry nunca está
errado. Gladys: sua filosofia o faz feliz? Dorian: nunca procurei
felicidade. Quem quer felicidade? Procurei prazer (197). Além de
repetir, realiza o discurso perverso de Henry que precisa de alguém
que passe à ação: Dorian se associa à ladrões e falsificadores de
moeda, chantageia, mata e provoca suicídios.
Com
receio da morte, pede castigo, não perdão : Sentiu desgosto pela
própria beleza e jogou o espelho no chão e o despedaçou com o salto de
seu sapato. Era sua beleza que o havia arruinado(...) Sua beleza havia
sido para ele nada senão uma máscara, sua juventude um escárnio (220).
Pegando a mesma faca que usou contra Basil, apunhalou o retrato.
Ouviu-se um grito e uma queda. O grito foi tão terrível em sua agonia
que os serventes acordaram apavorados (223). Quando entraram,
encontraram pendurado na parede um retrato esplêndido de seu mestre
assim como o haviam visto na última vez, em toda a maravilha de sua
singular juventude e beleza. Deitado no chão, estava um homem morto,
em roupa de noite, uma faca no coração. Estava murchado, enrugado, o
rosto asqueroso. foi somente quando examinaram seus anéis que
reconheceram quem era ele, Dorian Gray (224). Assim termina o livro.
A
Beleza, de santo Tomás de Aquino a Lacan
Santo
Tomás de Aquino que popularizou e cristianizou Aristóteles, fala da
extinção ou atenuação do desejo pelo efeito da beleza. É um dos
aspectos sublinhados por Lacan em seu Seminário 7, A ética da
psicanálise : além do princípio do bem, existe o belo que vem
intimidar, proibir o desejo, embora se conjugue a ele sob a forma de
ultraje : parece que é da natureza do belo de ficar, como se diz,
insensível ao ultraje. Lacan se refere à fala do analisante que,
quando alude ao tema da beleza, seja, por exemplo, musical ou
literária, passa à agressão verbal contra algum familiar (278-280).
Lacan evoca também o fantasma fundamental em Sade (...) de um
sofrimento eterno. No cenário sádico típico, o sofrimento não leva a
vítima a este ponto que a dispersa e aniquila. Parece ao contrário que
o objeto dos tormentos deva conservar a possibilidade de ser um
suporte indestrutível (...) as vítimas são sempre ornamentadas, não
somente de todas as belezas, mas de sua flor última que é a própria
graça (303-304). E Lacan passa à beleza, ao esplendor de Antígona : a
iluminação violenta, o clarão da beleza coincidem com o momento de
ultrapassagem, do Até de Antígona (...) O lado tocante da beleza faz
vacilar qualquer jugamento crítico, para a análise, e m ergulha as
diferentes formas em jogo em uma certa confusão,ou mais precisamente
uma cegueira essencial. O efeito da beleza é um efeito de cegueira
(327). E o belo resulta da relação do heroi ao limite (332).
A
cumplicidade da beleza com a pulsão de destruição, com a
agressividade, aparece já no prefácio do livro e na carta anterior à
sua publicação quando Oscar Wilde considera críticos literários
corruptos e incultos. Na carta, os chamava de miseráveis, ignorantes e
desorientados por perderem o critério fundamental de seu trabalho.
Mais adiante, Oscar Wilde usa a "beleza da literatura" para atacar a
falta de sensibilidade dos ingleses: de todos os povos do mundo, os
ingleses tem menos sentido da beleza da literatura (42).
Destaca-se do livro a exaltação da beleza narcísica. Basil se realiza
narcisicamente na figura de Dorian cujo fascínio absorve sua natureza
(6). Ele coloca Dorian como equivalente da própria invenção da pintura
à óleo, marcando uma das duas eras importantes da história do mundo.
Afinal, Dorian é a maravilha pela qual sempre ansiei e da qual sempre
senti falta(10). Paradoxalmente, Dorian é, ao mesmo tempo, o
personagem com quem se identifica e, também, o objeto de seu desejo,
não simplesmente o objeto que causa seu desejo, mas objeto que realiza
seu desejo, objeto perdido, inencontrável e que Basil acaba
encontrando, o objeto que mata seu desejo. Não havendo mais
propriamente desejo, que é falta, ausência, morte simbólica, sobra
somente a morte, real.
A
personalidade de Dorian Gray vai me dominar, comenta Basil (12).
Enquanto Henry considera a beleza de Dorian uma forma de gênio (21), a
graça e a pureza da infância e a beleza dos antigos mármores gregos
(...) tentaria dominá-lo (36). E a própria experiência de Dorian quand
se viu pela primeira vez no retrato terminado foi um choque : o
sentido de sua própria revelação lhe veio como uma revelação (25).
Basil se contempla na beleza que revelou à Dorian, reconhecendo a
idolatria. Pela sua beleza, Dorian domina Basil. Narcisicamente fixado
na contemplação da própria beleza, Dorian é dominado por ela, beleza
exaltada por Henry que domina Dorian. Narciso se contempla extasiado e
esta imagem dominadora o mata. A exaltação alegre da contemplação
especular provoca agressividade contra a imagem dominadora.
A
exaltação da beleza é destruidora. A beleza da arte do teatro esmaga a
personalidade de Sibyl : você é nada para mim (86). Absoluta, a beleza
acarreta destruições: tantos levados por Dorian à perdição, à droga,
ao suicídio. O outro duplo especular do livro sobre o belo jovem
parisiense exacerba a beleza agressiva que exalta vícios,
assassinatos, envenenamentos. Consagra a união do belo com o mal :
Dorian Gray foi envenenado por um livro (...) considera simplesmente o
mal uma moda através da qual poderia realizar sua concepção do belo
(147).
Em
Sade, a beleza se vê eternizada pois a vítima, sempre belíssima, não é
morta. Mas há, na cultura popular, associação da beleza com o matar,
com o morrer. Há um filme com o famoso ator Michael Caine intitulado "Dressed
to kill", vestido para matar. Trata-se de um psiquiatra que responde à
sedução de sua mais bela paciente, vestindo-se de mulher para matá-la.
Mas a expressão habitual "dressed to kill" é uma expressão popular que
decreve uma mulher tão bonita, tão bem vestida que mata os outros de
inveja, de admiração. É o poder mortífero da beleza. E há, na
linguagem popular brasileira, a expressão "linda de morrer" que mostra
que, em assunto de beleza, estamos no campo do limite : tal mulher é
tão bonita que mata seu admirador, ou ainda, tão bonita que nada mais
interessa na vida, nenhum desejo tem lugar, só resta a morte.
Real da Beleza
O
livro inicia destacando o real da beleza : sua beleza é tal que a arte
não pode expressá-la (10). E o real da beleza aparece como o esplendor
que cega e que justamente opera a extinção do desejo. A cegueira
provocada pela beleza mata o desejo e provoca a explosão do real. Esta
beleza ultrapassa os limites do simbólico. Dorian Gray se tornou
obstáculo ao sentido abstrato da beleza (11), isto é, à elaboração
simbólica. Basil reconhece que foi invadido pelo real da
"loucura"(115) idolatrando Dorian que lhe devolve, às avessas, o
culto. Como um Deus, Basil viria sua alma, como Deus, Basil é o
criador da exaltação de sua beleza. O responsável por tudo o que lhe
aconteceu na vida, pois foi Basil que o apresentou a Henry,
responsável pelo real da beleza será esmagado pelo real do ódio.
Invadido pelo real do gozo, pelo real da alucinação, Dorian não
acredita mais no poder das palavras de Basil que reconhece seu pecado
e pede a misericórdia divina : estas palavras não significam nada para
mim agora. Não vês que a coisa maldita nos olha mangando? (...e),
tomado de incontrolável sentimento de ódio por Basil , Dorian o mata.
A elaboração simbólica da palavra chegou a seu limite e o real do gozo
sem lei conseguiu sufocar o desejo.
Ética da Beleza
Há
algo paradoxal a respeito da ética da beleza. Conflitos acirrados
entre Oscar Wilde e os críticos o levaram a propor uma ética da beleza
: não existe essa coisa de um livro moral ou imoral. Livros são bem ou
mal escritos. Importa que um livro seja belamente escrito. Mas como
Oscar Wilde ficou exacerbado por comentários de críticos que chama de
corruptos e ignorantes, é difícil poder se chegar a algum diálogo e
muito mais ainda a um consenso sobre a ética da beleza como critério
de leitura de um texto literário. Ficará mais facil aos críticos
entender que a beleza exacerbada como temática do texto "O retrato de
Dorian Gray" tenha servido posteriormente à própria condenação de
Oscar Wilde, da qual os críticos podem aparecer como cúmplices. A
ética da beleza mesclada à agressão de Oscar Wilde contra os críticos
não pde ser alheia à agressão da condenação.
A
arte deve ser julgada pela beleza. Nada mais correto. É a ética
proposta por Oscar Wilde. Paradoxalemente, o livro apresenta a
exaltação narcísica da beleza de Basil que se identifica com o objeto
de sua idolatria revelando a Dorian sua beleza a cultuar, o que Henry
exalta, estimulando a atos perversos e destruidores. E a beleza da
arte do teatro é de tal maneira exacerbada que a atriz é anulada
diante do personagem que representa.
Algo
paradoxal: Oscar Wilde propõe uma ética da beleza. E o livro mostra
como a absolutização da beleza acaba sendo a-ética.