As palavras de Juarroz refletem nossa prática
enquanto analistas, na escuta de pessoas ameaçadas na existência,
submetidas a sintomas, fazendo verdadeiras acrobacias para não se deixar
cair, esvair, desaparecer.
Será motivo de meu interesse, a dimensão imaginária, o recurso de
pensar a existência do outro enquanto lógica, que ao recobrir a percepção
da presença fará a escritura em torno do Real.
O comprometimento da função imaginária direciona-me à propriedade
simbólica de imaginarizar o Real, estruturante do sujeito na organização
da cena do mundo.
A falta
Esta criação do mundo teria sua matriz desde muito cedo quando a
criança, a partir de repetidas experiências especulares, vivencia
transformações, o que lhe assegurará o status de sujeito dividido, sujeito
da falta.1
No "Seminário – A Relação de Objeto"2 (1956-1957), Lacan ressalta esta
dialética simbolizadora da relação mãe-bebê, como protótipo da experiência
de simbolização em todas as situações subsequentes. Foi a partir desta
experiência que a simbolização tomou um caráter lúdico e normativo na
constituição do sujeito.
No terceiro capítulo dos "Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade"3,
Freud acentua que o objeto seria apreendido pela via de uma busca do
objeto perdido, de um objeto buscado e nunca reencontrado.
Portanto seria a falta do objeto, do que se trataria na teoria e na
clínica psicanalítica. Essa falta constituinte mobiliza o sujeito em
direção a um objeto que a obture.
"Na lógica do ensino de Lacan, a falta é do simbólico. No Real, disse
ele, não falta nada. E não é que o Real seja completo, mas o que no
simbólico é uma falta, no real é um buraco. E o buraco verdadeiro não se
pode dizer, não se pode representar, não se pode transformar em imagem".4
A ordem simbólica, a ordem da falta, seria o leito necessário por onde se
passaria a projeção das imagens.
A Tela, O Véu
Reporto-me ao relato de um pintor francês, Françoise Rouan. Durante sua
estadia em Roma foi apresentado, na casa de uma amiga em comum, a um velho
que se chamava Jacques Lacan. O pintor protestava, porque fotógrafos
profissionais tentavam em vão, em seu ateliê, fotografar "As portas de
Roma". Nesse momento Lacan disse: "Gostaria de ver essa coisa que resiste
tão estranhamente à fotografia". Foram juntos até o ateliê do pintor que
levava muitos anos trabalhando sobre a função do fundo, da base, do
suporte dos quadros na pintura. Ali Lacan lhe teria assegurado que ambos
eram interrogados pela mesma coisa.
Aurélio5 define a palavra tela, como lugar de projeção artística ou
cinematográfica, e véu, como tecido transparente com que se cobre qualquer
coisa, aquilo que serve para ocultar.
Ao se referir à dialética imaginária no "Seminário – A Relação de
Objeto"6 (1956-1957), diz Lacan: "As roupas não são feitas apenas para
esconder o que se tem, no sentido de ter ou não, mas também, precisamente,
o que não se tem. Ambas as funções são essenciais. Não se trata, sempre e
essencialmente, de esconder o objeto, mas também de esconder a falta de
objeto".
É no plano das imagens que ele destaca a função da tela ou véu, como
lugar das representações. Deste plano, o homem poderia falar das coisas
para além dele: A verdade verdadeira, a verdadeira felicidade, a
"coisa-em-si".
O sujeito está sempre construindo uma montagem na qual, a cada vez, ele
sabe e ignora ao mesmo tempo sua própria divisão, essa divisão que é a
causa do seu desejo.
Ao falar de um sonho, de um dizer, da transferência, sempre se faria
presente a divisão subjetiva. A rigor tratar-se-ia de um meio dizer,
porque o resto continua velado, tornando o fantasma necessário ao
aparecimento do desejo.
Essa montagem seria o próprio véu. Ao assinalar o título deste trabalho
o associamos à imagem do tecelão, que num regular movimento com os fios,
estaria sempre "tecendo as malhas do véu". Assim também seria o movimento
do sujeito na sua repetitiva confecção do tecido imaginário.
O mundo moderno estaria dividido entre o lado do sujeito e o lado do
objeto. Do lado do objeto o interesse seria no que está para além dele.
Essa coisa para além seria o nada, mas teria a propriedade de estar ali
simbolicamente. A materialização desse nada seria uma das imagens mais
fundamentais da relação do sujeito com o mundo: O véu, a tela.
No texto sobre a função do véu, "Seminário - A Relação de Objeto"7
(1956-1957), Lacan comenta: "Com a presença do véu, aquilo que está mais
além, como falta, tende a se realizar como imagem. Na frente do véu
pinta-se a ausência".
A utilização do véu estaria relacionada ao sentimento de uma certa
ilusão fundamental em todas as relações tecidas pelo desejo. O véu seria
assim o plano imaginário fundamental da relação simbólica.
O Olhar do Outro
Em seu livro "Fobias e Melancolia"8, Ricardo Romero ao falar do véu, da
tela, faz a articulação entre a estrutura visual e a significância: "A
função da tela, serve de suporte básico para a significância. É a maneira
como se introduzirá no parlêtre a Outra cena, a morada do Outro".
O campo do visível estaria determinado para o sujeito, em primeira
instância, por um olhar que estaria fora e procederia do Outro.
Para ter um corpo e considerá-lo próprio, o sujeito teria de alienar-se
a uma imagem, que o Outro sustentaria na primeira infância como suporte do
narcisismo primordial. Seria a intermitência do olhar do Outro, que em seu
pestanejar, cavaria o narcisismo inicial, articulando sua presença
necessária ao jogo de sua ausência.
Sujeito da Estrutura ("in" Isidoro Vegh)9
No imaginário Lacan escreve um corpo enodado ao Real da vida que a
morte simbólica enlaçaria, dando sua valia. Qualquer desamarração entre
eles colocaria em perigo a existência do sujeito.
Seria portanto as relações do sujeito com as diferentes modalidades do
Outro, que definiria sua estrutura. Se o Outro ao olhar com amor,
encontrasse na criança equivalência fálica para um brilho, ela passaria a
ver-se e poderia habitar a imagem de seu corpo. Mas se ao contrário, ele
olhar essa criança com maus olhos, ela ao invés de ver-se se verá vista, e
passará a ter uma consistência imaginária fragilizada.
Cada um, o tempo todo, em cada movimento da pulsão estaria recorrendo à
função da tela como suporte da significância. Essa significância
permitiria ao sujeito nomear-se, ver-se, contar e falar com o Outro.
Assim acontece quando se trata de uma estrutura "normal". Para outros
as coisas são diferentes. Terão que fazer, construir, a cada vez a função
da tela e só então poderão "ser". Se não está constituída essa função que
Lacan chama "véu" ou "tela", se o olhar não está no campo do percebido, o
sujeito não "é".
Toda problemática apareceria dependendo da constituição do Édipo e da
Castração. Do transcorrer e da saída deles.
A propósito de um corpo que se desfaz, trago a ilustração retirada de
um trabalho sobre "Ver o Olhar"10.
Trata-se de um rapaz muito "composto" segundo as palavras da família.
Recém casado, 21 anos, quando esse rapaz chega ao destino previsto para
lua de mel, sua mulher mostra-se interessada em ter um filho. De composto
ele se descompõe, recorrendo a um tratamento emergencial.
A cena foi a seguinte: Num quarto com muitas luzes, estava ele, de pé,
localizado no centro. Um espelho a sua frente, outro atrás segurado por
uma enfermeira. Ele dizia "não deixem de me olhar".
Havia pedido que lhe pusessem um espelho no quarto, porque não existia
o corpo, não o via, não tinha a sensação de tê-lo. Com o primeiro espelho
se tranquilizou por uns momentos, logo pediu que lhe pusessem outro,
atrás, para ver-se de costas, porque só tinha corpo até onde chegava o
olhar.
Assim já não foi suficiente um espelho, nem outro, e então começou a
pedir que lhe olhassem.
Esse rapaz não podia se ver no lugar de pai. Desse lugar não existia
imagem para significar-se.O que encontrava aí era um vazio. Tornou-se
necessário buscar em outros olhos algo que lhe devolvesse um olhar, um
corpo, um amor próprio, uma dignidade de existir.
Ver e Olhar
Eu vejo, e a cada vez que vejo, por meu olhar sou olhada. É deste lugar
do olhar, que se organiza a cena em que sou olhada, em que estou situada
no quadro do mundo, e ali estou situada como tendo um corpo. No campo da
experiência visual existe diferença entre ver e olhar. Lacan, no
"Seminário – Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise"11,
destrincha os elementos dessa experiência para analisá-la.
Quando saímos na rua e vemos, algo aparece. Nesse momento vê-se uma
espécie de cone saindo dos olhos até o fundo da rua. Esse seria o cone da
visão desenhado por Durero, o cone do ver, aquele que cria a cena de lá.
Ao mesmo tempo, num sentido contrário, surge um outro cone com o
vértice do lado de lá, do lado da cena, e a base voltada para os olhos.
Esse segundo cone organiza a perspectiva, estrutura a cena e chama-se
cone do olhar.
No cone do ver o plano da imagem situa-se entre o olho e o objeto. No
cone do olhar é a tela o intermediário.
A simultaneidade inseparável desses dois cones (ver e olhar), superpõem
os planos da "imagem" e da "tela".
É no campo da estrutura visual, mais precisamente na divisão do ver e o
olhar, onde Lacan apresenta um outro modo de divisão subjetiva chamada
"divisão pelo corte" ou "função do sujeito do corte". O produto dessa
divisão seria o objeto "a", o olhar, o objeto próprio da psicanálise.12
Nos reinos da metáfora e metonímia os analistas privilegiam "a função
da palavra e o campo da linguagem". No terreno da experiência visual, a
função do olhar incide como ação.
"A ausência de malha deixa um vazio no qual há angústia", diz Lacan no
"Seminário- A Angústia"13. "Trabalhar sem rede evoca o acrobata".
O tema do "véu" e a experiência visual pela qual foi tecido, remete à
participação do analista nesta tecelagem. No lugar do Outro o analista faz
suplência com a voz e o olhar, assegurando a sustentação da rede que
ameaça desatar. Procura mostrar aos "mau olhados", um atalho no caminho da
existência.
Recordo Alba Flesler :"Diz-me como te olharam que direi como
vês".