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Tecendo as Malhas do Véu
Mônica Palacio de Barros Correia

 

 

"Um forte olhar mantém unido o mundo e não deixa cair-se. Meus olhos buscam isso, isso que nos faz tirar-mos os sapatos para ver se tem algo mais sustentando-nos embaixo."
Roberto Juarroz (Poesia e Vertical)


As palavras de Juarroz refletem nossa prática enquanto analistas, na escuta de pessoas ameaçadas na existência, submetidas a sintomas, fazendo verdadeiras acrobacias para não se deixar cair, esvair, desaparecer.

Será motivo de meu interesse, a dimensão imaginária, o recurso de pensar a existência do outro enquanto lógica, que ao recobrir a percepção da presença fará a escritura em torno do Real.

O comprometimento da função imaginária direciona-me à propriedade simbólica de imaginarizar o Real, estruturante do sujeito na organização da cena do mundo.

A falta

Esta criação do mundo teria sua matriz desde muito cedo quando a criança, a partir de repetidas experiências especulares, vivencia transformações, o que lhe assegurará o status de sujeito dividido, sujeito da falta.1

No "Seminário – A Relação de Objeto"2 (1956-1957), Lacan ressalta esta dialética simbolizadora da relação mãe-bebê, como protótipo da experiência de simbolização em todas as situações subsequentes. Foi a partir desta experiência que a simbolização tomou um caráter lúdico e normativo na constituição do sujeito.

No terceiro capítulo dos "Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade"3, Freud acentua que o objeto seria apreendido pela via de uma busca do objeto perdido, de um objeto buscado e nunca reencontrado.

Portanto seria a falta do objeto, do que se trataria na teoria e na clínica psicanalítica. Essa falta constituinte mobiliza o sujeito em direção a um objeto que a obture.

"Na lógica do ensino de Lacan, a falta é do simbólico. No Real, disse ele, não falta nada. E não é que o Real seja completo, mas o que no simbólico é uma falta, no real é um buraco. E o buraco verdadeiro não se pode dizer, não se pode representar, não se pode transformar em imagem".4 A ordem simbólica, a ordem da falta, seria o leito necessário por onde se passaria a projeção das imagens.

A Tela, O Véu

Reporto-me ao relato de um pintor francês, Françoise Rouan. Durante sua estadia em Roma foi apresentado, na casa de uma amiga em comum, a um velho que se chamava Jacques Lacan. O pintor protestava, porque fotógrafos profissionais tentavam em vão, em seu ateliê, fotografar "As portas de Roma". Nesse momento Lacan disse: "Gostaria de ver essa coisa que resiste tão estranhamente à fotografia". Foram juntos até o ateliê do pintor que levava muitos anos trabalhando sobre a função do fundo, da base, do suporte dos quadros na pintura. Ali Lacan lhe teria assegurado que ambos eram interrogados pela mesma coisa.

Aurélio5 define a palavra tela, como lugar de projeção artística ou cinematográfica, e véu, como tecido transparente com que se cobre qualquer coisa, aquilo que serve para ocultar.

Ao se referir à dialética imaginária no "Seminário – A Relação de Objeto"6 (1956-1957), diz Lacan: "As roupas não são feitas apenas para esconder o que se tem, no sentido de ter ou não, mas também, precisamente, o que não se tem. Ambas as funções são essenciais. Não se trata, sempre e essencialmente, de esconder o objeto, mas também de esconder a falta de objeto".

É no plano das imagens que ele destaca a função da tela ou véu, como lugar das representações. Deste plano, o homem poderia falar das coisas para além dele: A verdade verdadeira, a verdadeira felicidade, a "coisa-em-si".

O sujeito está sempre construindo uma montagem na qual, a cada vez, ele sabe e ignora ao mesmo tempo sua própria divisão, essa divisão que é a causa do seu desejo.

Ao falar de um sonho, de um dizer, da transferência, sempre se faria presente a divisão subjetiva. A rigor tratar-se-ia de um meio dizer, porque o resto continua velado, tornando o fantasma necessário ao aparecimento do desejo.

Essa montagem seria o próprio véu. Ao assinalar o título deste trabalho o associamos à imagem do tecelão, que num regular movimento com os fios, estaria sempre "tecendo as malhas do véu". Assim também seria o movimento do sujeito na sua repetitiva confecção do tecido imaginário.

O mundo moderno estaria dividido entre o lado do sujeito e o lado do objeto. Do lado do objeto o interesse seria no que está para além dele. Essa coisa para além seria o nada, mas teria a propriedade de estar ali simbolicamente. A materialização desse nada seria uma das imagens mais fundamentais da relação do sujeito com o mundo: O véu, a tela.

No texto sobre a função do véu, "Seminário - A Relação de Objeto"7 (1956-1957), Lacan comenta: "Com a presença do véu, aquilo que está mais além, como falta, tende a se realizar como imagem. Na frente do véu pinta-se a ausência".

A utilização do véu estaria relacionada ao sentimento de uma certa ilusão fundamental em todas as relações tecidas pelo desejo. O véu seria assim o plano imaginário fundamental da relação simbólica.

O Olhar do Outro

Em seu livro "Fobias e Melancolia"8, Ricardo Romero ao falar do véu, da tela, faz a articulação entre a estrutura visual e a significância: "A função da tela, serve de suporte básico para a significância. É a maneira como se introduzirá no parlêtre a Outra cena, a morada do Outro".

O campo do visível estaria determinado para o sujeito, em primeira instância, por um olhar que estaria fora e procederia do Outro.

Para ter um corpo e considerá-lo próprio, o sujeito teria de alienar-se a uma imagem, que o Outro sustentaria na primeira infância como suporte do narcisismo primordial. Seria a intermitência do olhar do Outro, que em seu pestanejar, cavaria o narcisismo inicial, articulando sua presença necessária ao jogo de sua ausência.

Sujeito da Estrutura ("in" Isidoro Vegh)9

No imaginário Lacan escreve um corpo enodado ao Real da vida que a morte simbólica enlaçaria, dando sua valia. Qualquer desamarração entre eles colocaria em perigo a existência do sujeito.

Seria portanto as relações do sujeito com as diferentes modalidades do Outro, que definiria sua estrutura. Se o Outro ao olhar com amor, encontrasse na criança equivalência fálica para um brilho, ela passaria a ver-se e poderia habitar a imagem de seu corpo. Mas se ao contrário, ele olhar essa criança com maus olhos, ela ao invés de ver-se se verá vista, e passará a ter uma consistência imaginária fragilizada.

Cada um, o tempo todo, em cada movimento da pulsão estaria recorrendo à função da tela como suporte da significância. Essa significância permitiria ao sujeito nomear-se, ver-se, contar e falar com o Outro.

Assim acontece quando se trata de uma estrutura "normal". Para outros as coisas são diferentes. Terão que fazer, construir, a cada vez a função da tela e só então poderão "ser". Se não está constituída essa função que Lacan chama "véu" ou "tela", se o olhar não está no campo do percebido, o sujeito não "é".

Toda problemática apareceria dependendo da constituição do Édipo e da Castração. Do transcorrer e da saída deles.

A propósito de um corpo que se desfaz, trago a ilustração retirada de um trabalho sobre "Ver o Olhar"10.

Trata-se de um rapaz muito "composto" segundo as palavras da família. Recém casado, 21 anos, quando esse rapaz chega ao destino previsto para lua de mel, sua mulher mostra-se interessada em ter um filho. De composto ele se descompõe, recorrendo a um tratamento emergencial.

A cena foi a seguinte: Num quarto com muitas luzes, estava ele, de pé, localizado no centro. Um espelho a sua frente, outro atrás segurado por uma enfermeira. Ele dizia "não deixem de me olhar".

Havia pedido que lhe pusessem um espelho no quarto, porque não existia o corpo, não o via, não tinha a sensação de tê-lo. Com o primeiro espelho se tranquilizou por uns momentos, logo pediu que lhe pusessem outro, atrás, para ver-se de costas, porque só tinha corpo até onde chegava o olhar.

Assim já não foi suficiente um espelho, nem outro, e então começou a pedir que lhe olhassem.

Esse rapaz não podia se ver no lugar de pai. Desse lugar não existia imagem para significar-se.O que encontrava aí era um vazio. Tornou-se necessário buscar em outros olhos algo que lhe devolvesse um olhar, um corpo, um amor próprio, uma dignidade de existir.

Ver e Olhar

Eu vejo, e a cada vez que vejo, por meu olhar sou olhada. É deste lugar do olhar, que se organiza a cena em que sou olhada, em que estou situada no quadro do mundo, e ali estou situada como tendo um corpo. No campo da experiência visual existe diferença entre ver e olhar. Lacan, no "Seminário – Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise"11, destrincha os elementos dessa experiência para analisá-la.

Quando saímos na rua e vemos, algo aparece. Nesse momento vê-se uma espécie de cone saindo dos olhos até o fundo da rua. Esse seria o cone da visão desenhado por Durero, o cone do ver, aquele que cria a cena de lá.

Ao mesmo tempo, num sentido contrário, surge um outro cone com o vértice do lado de lá, do lado da cena, e a base voltada para os olhos.

Esse segundo cone organiza a perspectiva, estrutura a cena e chama-se cone do olhar.

No cone do ver o plano da imagem situa-se entre o olho e o objeto. No cone do olhar é a tela o intermediário.

A simultaneidade inseparável desses dois cones (ver e olhar), superpõem os planos da "imagem" e da "tela".

É no campo da estrutura visual, mais precisamente na divisão do ver e o olhar, onde Lacan apresenta um outro modo de divisão subjetiva chamada "divisão pelo corte" ou "função do sujeito do corte". O produto dessa divisão seria o objeto "a", o olhar, o objeto próprio da psicanálise.12

Nos reinos da metáfora e metonímia os analistas privilegiam "a função da palavra e o campo da linguagem". No terreno da experiência visual, a função do olhar incide como ação.

"A ausência de malha deixa um vazio no qual há angústia", diz Lacan no "Seminário- A Angústia"13. "Trabalhar sem rede evoca o acrobata".

O tema do "véu" e a experiência visual pela qual foi tecido, remete à participação do analista nesta tecelagem. No lugar do Outro o analista faz suplência com a voz e o olhar, assegurando a sustentação da rede que ameaça desatar. Procura mostrar aos "mau olhados", um atalho no caminho da existência.

Recordo Alba Flesler :"Diz-me como te olharam que direi como vês".

Notas

(1) Jacques Lacan - Escritos "O estádio do espelho como formador da função do eu." Jorge Zahar Editor Ltda, Rio de Janeiro, 1998.

(2) Jacques Lacan - Seminário - A relação de objeto (1956-1957) - Capítulo XI - O falo e a mãe insaciável. Jorge Zahar Editor Ltda, Rio de Janeiro, 1980.

(3) Sigmund Freud - In Obras Completas - Três Ensaios sobre a teoria da sexualidade. (1905) VOL VII. Imago Editora Ltda, Rio de Janeiro, 1980.

(4) Ricardo Diaz Romero - Fobias e Melancolia - o que as estruturas nos ensinam. Máthesis Editora, Bahia, 1997.

(5) Aurélio Buarque de Holanda - Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Editora Nova Fronteira, 1975.

(6) Jacques Lacan - Seminário - A relação de objeto (1956-1957) - Capítulo X - A identificação ao falo. Jorge Zahar Editor Ltda, Rio de Janeiro, 1995.

(7) Jacques Lacan - Seminário - A relação de objeto (1956-1957) - Capítulo IX - A função do véu. Jorge Zahar Editor Ltda, Rio de Janeiro, 1995.

(8) Ricardo Diaz Romero - Fobias e Melancolia - o que as estruturas nos ensinam. Máthesis Editora, Bahia, 1997.

(9) Isisdoro Cegh - Las Intervenciones Del Analista - Parte V - Après-Coup. ACME - agalma Editorial, Buenos Aires, AR, 1997.

(10) Ricardo Diaz Romero - Ver la mirada - Conferência apresentada no Centro de Expressões Contemporâneas, Rosário, Argentina, Junho, 1999.

(11) Jacques Lacan - Seminário - Os quatro conceitos fundamentais da Psicanálise (1964). Jorge Zahar Editor Ltda, Rio de Janeiro, 1985.

(12) Ricardo Diaz Romero - Fobias e Melancolia - o que as estruturas nos ensinam. Máthesis Editora, Bahia, Salvador, 1997.

(13) Jacques Lacan - A Angústia (1962-1963) Centro de Estudos Freudianos do Recife - Recife, 1997.

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