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Neste meu caminho de estudos sobre As Psicoses,
desafio maior da clínica psicanalítica, no meu modo de ver, pretendo
interrogar a partir do tema deste Simpósio: é possível pensar em alguma
forma de Repetição com Diferença nas Psicoses? Sabemos que no nosso
trabalho com essa estrutura, só se pode ter como objetivos a melhora da
qualidade de vida de nossos analisantes pelos caminhos do despertar de um
interesse qualquer de uma "brisa" de desejo. Minha primeira questão é, se
esse semblante de desejo que poderá surgir, marcaria uma forma de
Diferença na traumática Repetição dos delírios. Destaquei a definição do
Real, entre tantas outras, a que diz:" O Real é o que não cessa de não se
escrever." Minha dúvida estaria aí, no sentido de que se esse não cessa
marcando um movimento no mesmo lugar, quando se tenta fazer surgir nas
Psicoses um interesse qualquer, não marcaria um semblante pelo menos de
Diferença. Reli Freud quando tentou entender pelo modelo dos sonhos, as
doenças mentais e questionou em Além do Principio do Prazer a repetição
nos sonhos traumáticos, e o que de particular trazia esse repetir
impondo-se ao paciente, mesmo nos sonhos. Freud conclui então que a função
do sonhar nessa condição está perturbada e afastada de seus
propósitos...Trata-se de uma compulsão à repetição que sobrepuja o
princípio do prazer... contudo, é de notar que apenas em raros casos
podemos observar os motivos puros da compulsão à repetição, desapoiados
por outros motivos. Freud considera esse ponto da repetição o menos dúbio,
o que resta inexplicado o bastante para justificar a hipótese de uma
compulsão à repetição. Esses sonhos não podem ser classificados como
realizações de desejos....Não lhes seria possível desempenhar essa função
até que a totalidade da vida mental houvesse aceitado a dominância do
princípio do prazer... mas aqui foi rompida a regra geral. A partir dessas
considerações teóricas, concluo que é possível falar de Repetição nas
Psicoses, mas de Diferença, o que pensar? Lacan no Sem. 3 faz referência à
uma repetição sem diferença, que denominou ritornelo, anotei: há a forma
que a significação toma quando não remete mais a nada. É a fórmula que se
repete, que se reitera, que se repisa, com uma insistência estereotipada.
É o que podemos chamar em oposição com a palavra, o ritornelo. Agora
registrarei as palavras de Benjamin Domb, com quem mantive uma
interlocução a respeito das minhas dúvidas nesse assunto, e escrevo o que
recebi : "quando Lacan define o Real como aquilo que não cessa de não se
escrever, isto é tanto para as psicoses como para as neuroses. O não cessa
de não se escrever nas neuroses se anoda, com o necessário, que não cessa
de se escrever, também com o contingente e o possível. Na Psicose não há
sintoma como na neurose, e o que intentamos fazer é, um pouco de tela, de
estofo do enfermo, um sinthome, que permita estabilizar a estrutura, e
estabilizar quer dizer, que a Repetição nas Psicoses será de todos os
modos sem Diferença, no sentido de que, não será possível escrever esse
Real com a "artezania". Estabilizar a estrutura é encontrar um modo de
gozar com um objeto que ponha limite ao gozo psicótico, gozo donde o
psicótico é objeto de um gozo do Outro, de deus." Vou tentar agora definir
esses 3 conceitos: o necessário, o possível e o contingente.(Lacan Sem.
20, cap XI; Isidoro Vegh em Matices Del Psicalisis) O necessário: é o não
cessa de se escrever, o não pára de não se escrever, em contraposição, ao
impossível, que não pode em nenhum caso se escrever. Pode ser ilustrado
com o pai da horda, o ao menos um, para quem a função fálica não funciona.
O necessário contrapõe-se ao impossível, que não pode em nenhum caso se
escrever. O possível... cessa de se escrever, é o que contradiz o
necessário. É o filho, o que sustenta a mulher como a mãe e sua relação ao
fallus e á proibição do incesto, e que tem a conseqüência sobre ela de ser
"não toda". É o sintoma.
Contingente é o cessa de não se escrever, o fallus. Outra pergunta: se
o fallus cessa de não se escrever, é possível ir mais além da estrutura?
?? Ainda tentando clarear esses conceitos, leio Sem. 20, pg. 126: A
análise presume, do desejo, que ele se inscreve por uma contingência
corporal. Só como contingente é que, pela psicanálise, o Falo, reservado
nos tempos antigos aos mistérios, parou de não se escrever.
Lacan entre os matemas do possível e do contingente inclui falta,
desejo e objeto a, e situa entre o contingente e o possível a dimensão do
indisível (Sem. 20). Esses complicados conceitos que me senti na obrigação
de definir, não respondem para mim, neste momento, a questão de como se
aplicam na clínica, único caminho para as limitações do meu entender a
psicanálise lacaniana, mas espero encontrar entre os colegas que estudaram
melhor esse assunto as luzes que busco nessa escuridão das Psicoses e seus
complicados caminhos. ...............
Bem, depois dessas premissas, nada se pode pensar, pelo menos até
agora, de Diferença na estrutura das Psicoses que tenha alguma
consistência teórica. Mas, ainda continuei a tentar clarear o assunto.
Retomei as questões com a Repetição no Seminário Le Sinthome, com o nó de
trevo onde também não ficou claro se tal nó, o triskel, seria um modo de
representar um anodamento diferente, o das Psicoses sem a amarração com o
Nome-do-Pai, isto é, ou se aquele modelo diferente de nó também poderia
servir para falar das neuroses. Revejo tais leituras, e novamente a
Diferença no sentido que interrogo não está ali. Leio no seminário
R.S.I.(15/04/1975) as primeiras referências de Lacan a este modelo: o
triskel não é um nó... Fazendo buraco ou não, a consistência é a base, a
saber, o triskel, é o triskel não é um nó. Ele só se inscreve com a
consistência. Freud chamou a isso o traço unário. Não se podia dizer
melhor o que compõe o nó, não sem ter na cabeça não haver amor senão
aquele que, do Nome-do- Pai, faz anel entre os três, faz anel dos três do
triskel. Esse termo triskel talvez diga alguma coisa para alguns de
vocês... o que vocês vêem?... Três fusis ensarilhados, que se suportam uns
aos outros: ...e é daí que o nome foi tirado, os bretões o tomaram como
armas, as armas da Bretanha moderna. Isso nos tira da cruz, pelo menos
isso. Mas pode-se dizer que a cruz de Lorena, se a desenhamos de boa
maneira também faz triskel". Pergunto: como é esse desenho de boa
maneira?".
No dicionário de psicanálise de Claude Dorgeuille, há uma definição do
referido nó como tendo sido citado por Lacan no R.S.I., mas que não
consegui localizar no exemplar daqule Seminário na versão que tenho, mas
anotei: "eis aí o meu triskel, do qual todo nó borromeu é o coração, o
centro do nó, e onde está o que lhes situei como sendo o lugar do objeto
a.
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Como se pode observar, a presença do objeto a, define a estrutura
neurótica, e até aqui, minhas esperanças de encontrar nas Psicoses uma
Repetição com Diferença, estão no nível de um remar na areia,
parafraseando Lacan. Talvez tivesse havido de minha parte uma maneira
confusa de pensar essa Diferença na Repetição, quando entendi que fosse
possível, mesmo de forma precária e provisória, que o surgimento de um
ofício qualquer, de qualquer viés artístico, "as artezanias", na análise
com psicóticos, saída possível para uma suplência à metáfora paterna
ausente, pudesse ser lida como uma Diferença Diferente. Entretanto,
devemos concluir que nas Psicoses, há Repetição, mas sem Diferença.
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Será que a nível de I.P.B todo o nosso cuidado deverá recair sobre a
necessidade permanente de manter a Diferença na Repetição do modelo
Institucional nascente, tentando prevenir delírios futuros? Será isso
possível, ou termino esse texto delirando??
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Nota
Trabalho apresentado no Simpósio da Interseccção Psicanalítica do
Brasil, realizado em São Paulo, de 26 a 28 de novembro de 1999.
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