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É uma mina este Seminário 11 de Lacan, Os quatro
conceitos fundamentais da psicanálise. Não falta assunto para nos ocupar.
Ainda bem, já que nos analistas e interessados em psicanálise temos um
horror especial em ficarmos desocupados !
O início deste Seminário me deixou intrigado e curioso. Destacou-se o
sonho, sonho grito, sonho desespero, sonho demanda não ouvida de amor,
demanda articulada a um desejo que uma libido ardente presentifica,
efetiva, resto de acusação, resto de crime-castigo, resto sobre o
reconhecimento de filiação na crueldade lógica do complô das fantasias
edípicas em que um filho paga pela morte real anteriormente à morte real
do pai. Pai, não vês que estou queimando?
Este Seminário, talvez o mais decisivo deles, surge após a ruptura com
a IPA e transcorre num período de vazio institucional. Lacan teve que
suspender seu Seminário sobre os Nomes do Pai e esperar para iniciar este.
Resto do Seminário frustrado sobre os Nomes do Pai, o sonho se revela como
o representante de toda uma elaboração cortada, significante determinante.
Em algumas ocasiões, Lacan lembrou que em suas lições semanais se situava
como analisante. Lemos em L'insu, a 14-12-76, : sou o histérico perfeito,
isto é sem sintomas, com a exceção que, de vez em quando, erro de gênero,
referindo-se à troca do feminino pelo masculino na frase a senhorita é
reduzido, o que nos remete à homossexuação do desejo na histeria. Sabemos
também que o analisante histericiza seu discurso, embora use também o
discurso do mestre ou do universitário/obsessivo. Na passagem de um
discurso ao outro, atravessa o discurso do analista, questionamento pelo
desejo do analista apontando para a hiância da falta. Neste contexto,
poderíamos pensar no sonho Pai, não vês que estou queimando? como sonho de
Lacan, como um apelo angustiante de Lacan a Freud. Tempo decisivo da
transferência, em que um sonho narrado por Freud se torna um sonho de
Lacan, novo significante que, em seu ensino, representa uma reorientação
na continuidade.
Nos vários termos, "Verbrenne" em alemão, "brûler" em francês, "arder"
em espanhol, "queimar" em português, e equivalentes em outras línguas,
encontramos freqüentemente o particípio passado, o adjetivo, "brûlé",
"queimado", como equivalente de desacreditado, acabado. E enquanto
presente do indicativo ou particípio presente, "je brûle" , "estou
queimando", remete ao ardor da libido, mas também ao momento privilegiado
de estar no ponto de descobrir algo, de desvendar algum mistério, de
solucionar um problema, algo popularizado pelas adivinhações e pelos jogos
de esconde-esconde. Lacan acaba de ser "queimado" pelos colegas da IPA :
como pode ele revindicar sua filiação freudiana ? Queimado pela IPA por se
afastar de uma certa ortodoxia, queimando em relação a Freud, pois ser
fiel não pode ser simplesmente repetir Freud, mas reinventá-lo, ir além,
fazer uso do Nome-do-Pai. O Seminário 11 vai permitir aliar à continuidade
de sua linha de trabalho o início de uma reorientação : Lacan estará
"queimando" especialmente em relação ao real. Não somente inicia um
período em que o real ocupará um lugar mais adequado, mas em que esta
importância permitirá a Lacan estar no ponto de dar ao real uma definição
mais apropriada permitindo formalizações futuras.
Após o instante de ver a ruptura, Lacan precisará da elaboração do
tempo de compreender na travessia deste Seminário para, no tempo de
concluí-lo, definir como freudiana a Escola que funda.
Simbólico do Automatismo - Real do Desencontro
Pai , não vês ? O Pai mesmo não vê, o olho olha sem ver. O mau olhado e
o mau encontro perpassam por cegueiras e tropeços imaginários reduzíveis,
diferentes do irreduzível real do desencontro. Este sonho entra na
ilustração da diferença entre automaton e tuquê, repetição e trauma.
Conforme o Além do princípio do prazer, é em referência ao trauma que há
repetição, esta situada em relação ao princípio do prazer num pre-tempo,
numa posição chamada mais primitiva, mais elementar e mais pulsional (G.W.
XIII,22,32-33). O Além do princípio do prazer corresponde a um aquém em
relação ao tempo. A repetição se situa do lado do automaton e o trauma do
lado da tuquê. Por outro lado, destacando o trauma como real, o que
chamamos "o real do trauma", Lacan, no Seminário I , não negligencia a
respeito do Homem dos Lobos nem o imaginário do trauma nem sua relação ao
simbólico do mito edípico.
Ele se inspira de Aristóteles para mudar a tradução habitual do
Wiederholungszwang, compulsão de repetição, por automatismo de repetição,
cabendo o termo compulsão à neurose obsessiva "Zwangsneurose". Já a
primeira frase do texto de 1955 Seminário sobre a carta roubada define o
automatismo de repetição como insistência da cadeia significante (E.11). O
fato de Lacan escolher o termo automatismo, automaton, associado ao
simbólico imbricado ao imaginário do mesmo, em oposição, em articulação ao
tuquê do real, indica que a repetição é do campo do significante, do
recalcado, embora seja sempre em relação à não inscrição no recalque, do
núcleo do trauma, do real. O que se repete nos diz bastante sua relação à
tuquê (...) real como encontro (...) fracassado (perdido) (54), lemos no
Seminário 11. Lacan não afirma : "o que se repete é a tuquê" mas nos diz
bastante sua relação à tuquê. A partir de Encore de 1972-73, esta
insistência vai se chamar, conforme as categorias aristotélicas, o
necessário, que não cessa de se escrever, frente ao impossível do real,
que não cessa de não se escrever. O automaton do simbólico está intrincado
aos meandros da inflação imaginária do sofrimento do analisante, ele
próprio podendo até saborear as expressões neuroses de destino, de
fracasso, para se embriagar de sentido. Dos desencontros reduzíveis, do
imaginário inflado de sentido que a diferença na repetição vem cortar,
sobra um resto irredutível, o real do desencontro. A repetição na
experiência analítica se desdobra em diferença e repetição, pois o que
caracteriza o significante é sua diferença com outro significante, esta
diferença cortando, reduzindo o mesmo do imaginário. Por outro lado, no
diálogo com o analista, a armadilha do analisante consistirá
constantemente em querer confundir incapacidade imaginária e
impossbilidade do real.
O sonho sobre o pai que não vê o filho queimando servirá para dar um
certo prumo à expressão o real, o que volta sempre ao mesmo lugar. Até
então, esta expressão ficava de certo modo confusa em sua associação aos
astros, esses que constituem a paixão dos psicóticos schreberianos. Mas o
real "que volta sempre ao mesmo lugar" já anunciava algo outro do que o
delírio. É é o Seminário 11 que define o real como desencontro, real que
volta, embora o termo "escapar" fosse mais adequado do que o de voltar.
Este real do desencontro, dalí também a relevância do sonho pai, não vês
que estou queimando?, desemboca na afirmação : O mau encontro central está
no nível do sexual (62). E mais adiante aparecerá o real como impossível.
Assim o real do desencontro pai-filho leva Lacan a estar queimando, isto
é, muito próximo de formular a expressão que surgirá depois do Seminário
11 : o real como impossível do rapport sexual. Podemos entender a razão
por quê, na sessão de 29 de janeiro de 64, será a última vez, e isso é
significativo, a última vez, em que Lacan vai insistir em algo muito
repetido até então, a dificuldade que representa a noção de real. Depois
do Seminário 11, não precisará mais adjetivar de difícil a noção de real.
Como sua tríade simbólico-imaginário-real atravessa todo seu ensino,
seja de 1953 até o fim, destaca-se a continuidade no ensino de Lacan. Mas
não podemos negar também reorientações de caminho, embora não sejam tão
radicais quanto os novos rumos da segunda tópica em relação à primeira em
Freud. A partir de 1953 até o Seminário 11, predomina a articulação da
dupla simbólico-imaginário, sob o domínio do simbólico, tendo como resto
um real, ora real mesmo, ora real confundido com realidade. Mas apesar
desta confusão inicial, o real mesmo, "o que escapa", já se encontra na
primeira referência à tríade, no texto O simbólico, o imaginário e o real
de 1953 e vai ser referido nos primeiros anos do Seminário a respeito das
doenças psicossomáticas, do acting-out, da passagem ao ato, dos fenômenos
psicóticos, como algo da ordem da forclusão. Há recalque ou forclusão. E
quando há recalque, há elementos fugindo a este recalque. Aliás,
precisamos observar que sendo o recalque da ordem do simbólico, seria mais
adequado dizer "o real do não recalque", do que "o real do recalque".
Até 1963, predomina a articulação simbólico-imaginário, o real sendo um
resto. Após a ruptura da IPA, o Seminário 11, dalí sua relevância como
eixo-passagem, se destaca a articulação simbólico-real abrindo para o
imaginário como intermediário. A partir do Seminário Encore de 1972-73,
haverá um novo reordenamento com a insistência sobre a escrita, escrita
dos nós, em que se articulam os tres registros. Não se trata mais da dupla
primeira simbólico-imaginário com o real como resto destacada de 1953 até
1964, nem da dupla segunda simbólico-real abrindo para intermediação do
imaginário de 1964-1972, mas do enodamento dos tres registros,
sublinhando-se a equivalência deles. Esta equivalência culmima em R.S.I,
isto é no real da letra, sem sentido da letra, para, em conjunto com o
Seminário seguinte Le Sinthome encaminhar-se, graças ao quarto nó
Nome-do-Pai , da equivalência para a diferença dos registros. Esta
diferença se articula nas tres duplas simbólico-real do sintoma,
simbólico-imaginário da inhibição, imaginário-real da angústia, nas tres
duplas simbólico-real do gozo fálico, simbólico-imaginário do sentido,
imaginário-real do gozo do Outro. A escrita como aperfeiçoamento do
significante traduz termos aristotélicos : cessa de se escrever (é
possível que o sintoma deixe de se escrever, podemos ser menos
neuróticos), cessa de não se escrever (é contingente a inscrição do falo,
é contingente escapar à psicose), não cessa de se escrever (a repetição é
necessária ao sintoma, pois "uma vez neurótico, para sempre neurótico !"),
não cessa de não se escrever (real como impossível do rapport sexual).
Trata-se da escrita do falo, que obstaculiza a escrita do rapport sexual,
o recalque da significação fálica impedindo o recalque do rapport sexual.
Este obstáculo-impedimento mereceria o nome de trauma estrutural.
Em relação ao esquema da metáfora paterna que ilustra a passagem
debaixo da barra do recalque do desejo materno e, em conseqüência, também
da significação fálica, o sonho Pai ,não vês que estou queimando, resto do
Seminário interrompido sobre os Nomes do Pai, por ser expressão da ruptura
e por apontar para o real do desencontro e remeter ao impossível do
rapport sexual, marca um passo à frente na passagem da dupla
simbólico-imaginário com o real como resto para a dupla simbólico-real
abrindo ao imaginário como intermediação.
Do Real da Pulsão?!!
Na excomunhão de Lacan em fins de 63, destaca-se uma crítica : por
negligenciar a pulsão, seu ensino não passaria de uma "intelectualização".
Embora Lacan redirija esta acusação à "psicologia do ego" , esta crítica
não deixou de ter seu peso, pois neste Seminario 11, ele vai trabalhar
detalhadamente o texto de Freud As pulsões e suas vicissitudes. Freud
teorizou sobre a pulsão, apelando, de certo modo, para uma teoria do
desejo. E Lacan, após ter dado nos primeiros Seminários uma primazia ao
inconsciente, ao simbólico, ao significante, constroi sistematicamente sua
teoria sobre o desejo: no Seminário V, desejo, mola dAs formações do
inconsciente, original em relação à demanda; no Seminário VI, desejo e
fantasma a respeito da Interpretação; no Seminário VII sobre A Ética da
psicanálise, desejo e lei, desejo de morte; no Seminário VIII sobre a
transferência, amor e desejo. A "questão do desejo do analista" aparece em
A direção do tratamento de 1958 como efeito do Seminário V. Além de ser
desconhecido como todo desejo, o desejo do analista no texto de Lacan é
sempre acompanhado da palavra "questão" ou colocado como pergunta : Pareço
dizer a mesma coisa no meu ensino nestes últimos anos (...)_qual o desejo
do analista ? (14), eis uma frase que encontramos no Seminário 11. Agora,
Lacan pode articular a teoria da pulsão em Freud com sua teoria do desejo,
um dos aspectos que dão singular relevo a este Seminário .
A articulação simbólico-real passa pela pulsão. A novação à qual fiz
alusão e que se chama invocação do campo e da função da fala e da
linguagem na experiência analítica não pretende ser no conflito uma
posição que exaure (117). É paradoxal Lacan chamar de "alusão" a
referência ao texto fundamental de 1953 que destaca a função estruturadora
do simbólico e lhe confere uma primazia. De fato, esta frase indica uma
certa correção de rumos. Impõe-se uma melhor articulação com o real,
limitando o simbólico. Posteriormente, em seu Séminário "Les non-dupes
errent", ele comenta que erramos em atribuir ao simbólico uma importância
esmagadora em relação a um imaginário no qual comecei atirando por causa
do narcisismo (13-11-73). De fato, se erramos é que seguimos o exemplo de
Lacan e continuamos atirando no imaginário associado a "ilusório" e
"paranóico". O imaginário assumiu tal predominância com Anna Freud e os
psicólogos do ego e, embora diferentemente, também com a psicanalista
Melanie Klein, que a predominância do simbólico como reação a um
predomínio imaginário seria a consequência lógica do ensino de Lacan.
De fato, a dupla simbólico-imaginário, como aparece na primeira parte
do ensino de Lacan, sublinha uma primazia do simbólico pela sua função
estruturadora. Também, ao longo de todo seu ensino, Lacan usa normalmente,
e mesmo no Seminário RSI, a sequência "o simbólico, o imaginário e o real"
, que é chamada de sequência correta no Seminário Le Sinthome. A própria
experiência analítica ilustra como o simbólico, o surgimento de novos
significantes, reestrutura o imaginário. A partir do Seminário 11, o
acento dado à dupla simbólico-real vai apelar para a necessidade da
intermediação do imaginário, o que permitirá uma avaliação mais adequada
da importância do imaginário.
O estudo de Lacan sobre As pulsões e suas vicissitudes, vai servir de
ilustração da articulação simbólico-real. O real da pulsão não é o
biológico da pulsão, porque uma função biológica (..) tem sempre um ritmo,
dia-noite, primavera-outuno, enquanto a pulsão tem uma pressão constante
(150). Constância individualizada, variável. Isto é, as pessoas têm mais
ou menos boca grande (156). O real como impossível aparece alí enquanto
nenhum objeto de nenhum precisar (not) pode satisfazer a pulsão (152-153).
Nenhum alimento satisfará nunca a pulsão oral, senão contornando o objeto
eternamente faltante (164). Podemos colocar em relevo aqui o real da
satisfação impossível. Real apontado também na dessexualização ilustrada
pelo nojo da histérica, sintomas podendo aparecer em outras zonas erógenas
do que nos orifícios do corpo, fonte da pulsão.
Lacan desenha a pulsão em seu movimento circular de ida e volta,
aludindo sugestivamente neste Seminário 11 a uma citação de Heráclito : Ao
arco, é dado o nome de vida – Bios, e sua obra é a morte. O grafo do
desejo herda o legado de uma história muito antiga .
Lacan destaca o simbólico da pulsão quando a descreve como "montagem" e
quando sublinha o recurso de Freud à língua e aos sistemas linguísticos
nas vias ativa, passiva e refletida no movimento de ida e volta da pulsão.
E associa a pulsão aos desfiladeiros da demanda.
O imaginário da pulsão estaria sobretudo presente nas chamadas
Ichtriebe que, diz Lacan, não são verdadeiras pulsões (164). Agora, ocorre
o questionameto do amor, campo da reciprocidade, pela pulsão, campo da
heterogeneidade, questionamento até agora reservado ao desejo que a
expressão "desejo do analista" representa : distinção radical que há entre
amarse através do outro - o que não deixa no campo narcísico do objeto
nenhuma transcendência ao objeto incluído - e a circularidade onde a
heterogeneidade da ida e volta mostra em seu intervalo uma hiância (177).
Lacan diferencia duas faltas, a primeira, ligação de "ser sujeito ao sexo"
à morte individual, lembrando que a pulsão parcial é fundamentalmente
pulsão de morte e a segunda , o fato que o sujeito depende do significante
e que o significante está em primeiro lugar no campo do Outro (186-187). E
Lacan articula pulsão e desejo : O objeto do desejo, é a causa do desejo,
e este objeto do desejo é o objeto da pulsão, isto é, o objeto em redor de
que gira a pulsão (...) o desejo dá a volta enquanto agido na pulsão.(..)
Mas cada vez que temos a ver com um objeto de bem, o designamos (...) o
objeto de amor (220).
Constitue uma contribuição decisiva deste Seminário o intrincamento da
pulsão ao desejo enquanto questionamento ao amor, questionamento, é claro,
ao amor de transferência.
Tempos de Transferência
Para o congresso de Convergência de fevereiro de 2001 em Paris, o
cartel "tempo e inconsciente" ao qual participo com Alain Didier-Weill,
Alba Flesler, Isidoro Vegh, Nora Markmann, Paola Mieli e Ricardo Saiegh
levanta questões que vão balizar agora meus comentários.
Se Parmênides negava o tempo que Heráclito reconhecia, Newton e
Einstein consideravam a dimensão do tempo inexistente fora do espírito
humano. Em seus livros La fin des certitudes et Les lois du chaos,
Prigogine, prêmio Nobel de química em 1977, e também físico e filósofo,
introduziu a dimensão do tempo em física. Ele sustenta que o tempo precede
a existência e que se o universo teve um início, o tempo não teve. A
questão do temmmpo está revolucionando a ciência.
Em psicanálise, os paradoxos, meio incontornável de nossos debates,
parecem se exacerbar a respeito do tempo. Freud falava da a-temporalidade
do inconsciente, e Lacan, da sincronia determinante do desejo em relação à
diacronia, cronologia da história de um sujeito. Esta a-temporalidade
freudiana se confronta com os relatos sobre as primeiras histéricas
permeados de perguntas sobre o tempo, tempo do surgimento do sintoma. Hoje
frente à queixa formulada por analisantes, perguntamos : "quando é
exatamente (o genau muito repetido por Freud) , que começou a gague, a
gague, a gague-jar jar?" ou "quando é que ficou com este tique do olho ?"
Interrogação sempre válida. Constantemente, curtos-circúitos inconscientes
rearticulam significantes : tal fato narrado remete a tal outro; tal
conversa sobre um encontro em tal data recorda um anterior; algo
inesperado surge, por exemplo, ao fim de tres anos de análise, evocando
algo dos tres anos de idade. É o "nachträglich" destacado por Paola Mieli
a respeito do traumatismo cuja verdade histórica se vê constantemente
interpretada e reinterpretada, questionada pelo fantasma. Embora a
primazia da morte no psiquismo do obsessivo dispense a morte real do pai
na infância, esta morte real ocorrendo deixa suas marcas no fantasma de um
sujeito. Alba Flesler usa a frase sugestiva : "o sujeito não tem idade,
mas tem tempos". A cada tres anos, um sujeito provoca uma ruptura
dolorosa, repetindo por exemplo a morte do pai. Podemos nos perguntar até
que ponto "tres anos" pretende dar a idade do sujeito, evocando uma
"conversão de tempo" pela repetição quando um tempo sucessivo se tornaria
um tempo circular.
É difícil evitar a noção do tempo quando nos referimos aos termos
"processo primário e processo secundário, princípio de prazer, princípio
de realidade ". E Freud usa o termo "pre-tempo"(Vorzeit) e mais primitivo
(ursprünglicher), quando qualifica o "além do princípio do prazer" da
repetição em relação ao princípio de prazer. E quanto à pulsão, Lacan
lembra que, para Freud, não há dia e noite, primavera–outono na pressão
(Drang), e que, a respeito da fonte (Quelle), bordas dos orifícios do
corpo, não existe esta relação de engendrar de uma das pulsões sexuais
para outra (164), mas que a finalidade (Ziel) da pulsão aponta para o
tempo, pois a pulsão está representando, e parcialmente, a curva da
realização da sexualidade no vivente (...e) seu último termo é a morte
(161-162). Há tres tempos, neste movimento circular da pulsão, de ida e
volta, pois aparece um novo sujeito (...) que é propriamente o outro (...)
enquanto a pulsão pode fechar seu curso circular (162).
A respeito do tempo em Lacan, destaca-se o tempo lógico "instante de
ver, tempo de compreender, momento de concluir" que Isidoro Vegh chama
"densidade de tempo" modificada pela "dimensão subjetiva" .
Mas o tempo está presente numa tese mais fundamental de Lacan, repetida
de mil e uma formas. Por exemplo, neste Seminário 11, ele afirma : a
relação do sujeito ao significante é o ponto de retificação geral da
teoria analítica, pois é primeiro e constituinte tanto na instauração da
experiência analítica quanto primeiro e constituinte na função geral do
inconsciente. Lacan fala de S barrado, o sujeito, enquanto constituído
como segundo em relação ao significante (127, 129). O sujeito é este
surgimento que, imediatamente antes, como sujeito, não era nada, mas que,
logo que aparece, se fixa em significante (181). Encontramos também o
antes e o depois a respeito do vel da primeira operação essencial onde se
funda o sujeito (...) a alienação (191) e de segunda operação (..) que
vamos ver apontar o campo da transferência (..) a separação. Antes e
depois, primeiro e segundo que repete o primário e secundário de Freud, a
questão do tempo insiste na relação significante-sujeito e
alienação-separação.
Relembro pontos indicados na primeira parte deste trabalho : do começo
ao fim de seu ensino, e mesmo no texto do Seminário R.S.I., Lacan usa a
sequência "o simbólico, o imaginário e o real". É a sequência "correta",
"dans le bon ordre, como Lacan especifica em Le Sinthome. O "partir do
simbólico" dos primeiros Seminários se reencontra em R.S.I. "é do equívoco
fundamental a algo de que se trata sob o nome de Simbólico que sempre
vocês operam" (10-12-74). Afinal, ao simbólico é atribuída uma função
estruturadora, determinante, a qual função não desaparece com a
equivalência dos registros. Alías, o surgimento do quarto nó Nome-do-Pai
marca a passagem da equivalência à diferença dos registros e sua
articulação em duplas, simbólico-imaginário, simbólico-real,
real-imaginário.
Esta posição da "anterioridade lógica do simbólico" esbarra no chamado
"real primordial" do caos primordial do qual a criançinha se vê arrancada
pela música da voz da mãe, conforme a posição de Alain Didier-Weill em seu
livro Les trois temps de la loi. Penso que se trataria aqui do
pre-subjetivo da criancinha que, entretanto, nasce em um mundo já
estruturado pela linguagem e pela lei da proibição do incesto que se
situam em uma "anterioridade lógica do simbólico". Isso a respeito do
pre-subjetivo. Quanto ao subjetivo, sem anterioridade do significante,
nada de sujeito existe.
Lacan comenta também sobre a pulsação temporal a respeito do fechamento
do inconsciente e afirma que a transferência é essencialmente resistente
Übertragungswiderstand. A transferência é o meio por onde se interrompe a
comunicação do inconsciente, por onde o inconsciente se fecha.
Paradoxalmente o analista deve esperar a transferência para começar a dar
a interpretação (119). A espera indica quanto incontornável é o tempo no
manejo adequado da transferência.
Em Função e campo da fala e da linguagem (E.268), Lacan constata que a
experiência analítica se reduz cada vez mais ao diálogo entre analisante e
analista. Esta redução que, devemos admitir, exige tempo, tempo de
elaboração, acaba se confrontando com uma outra posição de Lacan que
polemizamos aqui : análise "na" transferência, sim ; análise "da"
transferência, não. A critica à análise "da" transferência é provocada por
certas abordagens persecutórias : sobre qualquer assunto ou personagem que
o analisante menciona, o analista aponta para si-próprio. "Ontem,
encontrei um idiota ! ", diz o analisante. "Sou eu", se apressa em dizer o
analista ! O analista pode muito bem ocupar o lugar do idiota, mas não é
necessariamente seu privilégio ! Em certos momentos, não é possível
escapar à análise "da" transferência. Recordo ter indicado a certo
analista em supervisão a necessidade da explicitação da transferência de
seus analisantes. Ele duvidava desta orientação, insistindo na idéia que
Lacan se opõe à análise "da" transferência. Efetivamente, deve-se evitar a
artimanha persecutória que reduz todas as referências do analisante ao
analista. Mas a análise "da" transferência se revela importante após um
certo tempo da experiência e indispensável em momentos de impasse. Pois
quando o discurso do analisante insiste nos impasses do tipo lista
telefônica: sou o João incapaz, João fracassado, João desgraçado, João sem
jeito, João péssimo filho, João pior pai, João insuportável marido, João
zero à esquerda e zero-zero à direita, lista coroada da conclusão "essa
análise é um fracasso" o que remeteria, segundo Freud, à necessidade de
punição, esta repetição deve ser articulada aos significantes em jogo
implicando diretamente o analista. Pois não deixa de ser acusação a ele,
esta perpetuação da inflação imaginária do mesmo da queixa repetida,
travando o surgimento de novos significantes ou neutralizando sua
eficácia. Não haveria propriamente análise da transferência sem prévia
análise na transferência, mas as duas acabam se imbricando justamente na
medida da redução da experiência ao diálogo analisante-analista. Nora
Markmann fala de tempo de construção seguido de tempo de interpretação. É
um modo de nos perguntar até que ponto uma interpretação tem efeito sem
algum tipo de construção prévia. Se incluímos a construção na
interpretação, poderíamos pensar em tres tempos : primeiro tempo, esperar
a transferência para interpretar; segundo tempo, interpretar na
transferência; terceiro tempo, interpretar a transferência. Nova versão de
instante de ver, tempo de compreender e momento de concluir.
As repetições das queixas gozosas não deixam de evocar os porquês das
crianças. No intervalo cortando os significantes, o enigma do desejo do
adulto ao qual a criança, por trás de seus inúmeros porquês, tenta dar um
nome : o primeiro objeto que propõe a este desejo parental cujo objeto é
desconhecido, é sua própria perda - Quer ele me perder ? O fantasma de sua
morte, de seu desaparecimento é o primeiro objeto que o sujeito tem que
colocar nesta dialética. A anorexia nervosa seria uma ilustração deste
desejo de morte (194-195). O pai, às vêzes, totalmente exausto após
implacável interrogatório, reage aos últimos porquês do filho : -Por
quê a toalha está branca? -Porque não está vermelha. -Por quê está
olhando para mim? -Porque não estou olhando para o teto. E faça o favor
de deixar de perguntar. -Deixar de perguntar? Por quê?
Nas neuroses muito graves, como podemos supor nas análises dos
analistas, pois sem neurose grave é difícil chegar a ser analista, já que
o analista é um efeito de uma análise intensiva, demorada, (e alí
reaparece a questão do tempo da análise terminável-interminável ?), nas
neuroses graves, em dado momento se esbarra no "sou incapaz, ponto final",
a incapacidade assumindo semblante de impossível para confundir o
analista, o que , muitas vêzes ocorre quando o analista se inclina em
considerar real algo da ordem da inflação imaginária do sentido do
sofrimento. Ouvindo o "sou incapaz, ponto final", é claro que o analista
deve colocar alí um ponto vírgula, ou pontos de suspensão ou completar a
frase "incapaz de..." Poderia encaminhar a questão para um histérico grave
a respeito da "incapacidade ou impossibilidade de tornar-se mulher". Mas
já que o desejo de morte seria, na repetição de seus porquês, o desejo
atribuído pela criança aos pais para o enigma do desejo do Outro, caberia
a associação da repetição queixosa, acusatória do analisante ao desejo de
morte atribuído ao analista. A ida e volta da pulsão em seu tempo
circular, deixa um resto metonímico, elemento necessariamente em impasse,
insatisfeito, impossível, desconhecido, elemento que se chama desejo
(141). Precisa-se de tempo para a análise na transferência possibilitar
uma análise da transferência que escapa ao enfoque persecutório, mas não
escapa àquela questão angustiante do analisante : "será que você, meu
analista, deseja minha morte ? "
A análise parou ? Virou um pesadelo ? Pesadelo, este tempo sem
transcurso conforme os comentários de Ricardo Saiegh. Prolifera a
diversificação nas perturbações do tempo : tempo eterno na psicose, tempo
protelado na neurose obsessiva e antecipado na histeria, tempo retido na
fobia, tempo suspenso na inibição. Justamente, a respeito dos impasses nas
análises de neuróticos graves em que a repetição de queixas sucede uma
nova repetição das mesmas queixas, nos momentos de impasses correspondendo
a uma parada no tempo, a um pesadelo, à análise desejada como fracasso,
até que ponto nesta repetição dos porquês da criança revivida na análise,
no "por quê estou sofrendo tanto? o analisante não estaria esbarrando no
entrecruzamento dos desejos dos tempos da infância, a saber na questão que
o analisante se coloca sobre o desejo de morte da parte do analista
atravessando o desejo de morte do analisante sobre o analista.
Pra se chegar a colocar esta pergunta, o analisante precisa de tempo,
de tempos de elaborações.
Novembro de 2000
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Notas:
- Os números entre parênteses indicam as páginas de Lacan, J., Le
Séminaire, livre XI, Les quatre concepts fondamentaux de la
psychanalyse,(1964), Paris, Seuil, 1973.
- G.W. XIII, 22,32-33 remete à : Freud, S., Jenseits des Lustsprinzip
(1920), Frankfurt am Main, Fisher Verlag, 1940.
- São citados Seminários inéditos de Lacan: • XXI, Les non-dupes
errent (1973-74); • XXII, R.S.I.(1974-75) ; • XXIII, Le Sinthome
(1975-76) ; • XXIV, L'insu (1976-77).
- Refiro-me também à produção dos colegas do cartel: Alain
Didier-Weill, Les trois temps de la loi, Paris, Seuil, 1995; Alba
Flesler, Fin de análisis en los tiempos de la infancia, (Reunión
lacanoamericana de psicoanalisis, Bahia, agosto de 1997); Isidoro Vegh,
Tiempo y inconciente; Reunión del cartel Tiempo y inconciente (Júlio de
2000); e um texto sobre "Borges"; Paola Mieli, Les temps du
traumatisme, (Mai 2000); Ricardo Saiegh, Pesadillas atemperadas por
soñar (agosto 2000).
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