"Do real? É uma piada. Ele ia dizer do simbólico!" comentam os
participantes do Seminário sobre a transferência. "Não é uma piada"
retruca Lacan, "os deuses são do real". "Não sou eu quem inventei isso.
Eles são manifestadamente, para Sócrates, somente algo
real"(VIII,57-59,103). Podemos pensar no real da desordem das forças ditas
naturais e incontroláveis, mas sem negligenciarmos o real da voz do deus
íntimo em Sócrates. A questão de Deus e dos deuses em alguns Seminários de
Lacan servirá de tema do presente trabalho.
Ao real pertenceriam os deuses antigos, mas não Deus. Afirmação por
demais simples, pois os Seminários II sobre o eu e III sobre as psicoses
se referem ao real de Deus. Na maioria das culturas, bem representadas por
Aristóteles, o real é aquilo que, como a estrela, volta sempre ao mesmo
lugar, e "Deus é a esfera a mais imutável do céu"(II,278;III,78,235). Na
tradição judáico-cristã porém, o real se vê mais representado pela
natureza enquanto não engana. "Essencial à constituição do mundo da
ciência", é que "o real (..) não pode brincar de vilão conosco"; não há
"no fundo da natureza um demônio enganador", "a matéria não trapaceia"
afirma Lacan que conclui, após dizer que "o Outro é essencialmente aquele
que é capaz, como o sujeito, de convencer e de mentir" : "o correlato
dialético da estrutura fundamental que faz da fala de sujeito a sujeito
uma fala que pode enganar, é que haja também algo que não engana". "Deus
enquanto não enganador" serve de argumento constante e decisivo para
Descartes, por exemplo em suas Meditações e o próprio Einstein seguiu esta
trilha (II,263;III,76-77). Não esqueçamos também que, no Seminário III, o
paranóico ilustra que a falta de simbolizão do Nome-do-Pai permite
frequentemente o surgimento nele de Deus como real, de quem, Schreber, no
caso, seria "A Mulher". Nem podemos menosprezar o paralelo entre o real
definido em Encore como "o mistério do corpo falante", "o mistério do
inconsciente" (XX,118) e Deus sempre abordado via mistério (ver o Deus
cristão e o mistério da Trindade, o mistério da Encarnação, etc..).
Algumas alusões
Se Lacan qualifica o texto dos místicos São
João da Cruz, Santa Teresa d'Avila e Angelus Silesius "o que se pode ler
de melhor", e chega a compará-los aos "Escritos de Jacques
Lacan"(XX,70-71); se ele se revela reticente frente ao "mito da morte de
Deus", pois pode ser "talvez o abrigo encontrado contra a ameaça de
castração"(XI,29); se ele acha simplista chamar a religião de impostura,
pois ela é respeitada universalmente, "mesmo onde a luta pode ser levada
contra ela", e aliás "a impostura paira sobre a vida íntima de cada
analista"(XI,238-239); se ele reconhece no mistério da Trindade que faz do
cristianismo a "verdadeira" religião(XXI,18-12-63,7) "a articulação
radical do parentesco como tal, naquilo que tem de mais irredutivelmente,
misteriosamente, simbólico"(VIII,67), não havendo justo acesso a um desejo
normal sem "uma certa tríade subjetiva"(VI,3-6-59,7); ele não deixa de se
encontrar com Freud no questionamento radical à religião, embora tente
explicitar o que escapa ao próprio Freud: seja a lógica de seu discurso,
tirando dalí novas consequências.
Podemos, como mera alusão, citar alguns destes questionamentos:
-
prejulgando que a contagem um-dois-tres preexiste a Deus, ou é seu ser ou
sua unidade que sofre(XX,98);
- Cristo, "que se designou a si-próprio
como filho de Deus"(XX,97), com sua "idéia louca de redentor"("o sadismo é
para o pai, o masoquismo é para o filho")(XXIII,10-2-76,9), encontra sua
infelicidade, não "da idéia de salvar os homens", mas de "salvar a
Deus"(XX,97);
- os textos evangélicos não são boa nova, e alí "não há
um único fato que não possa ser contestado". Por estarem na dimensão do
dito, "não deixam de ir ao núcleo da verdade", mas no nível do verdadeiro
"é o que se pode dizer de pior"(XX,97-98);
- Lacan pede "desculpa aos
artistas" que Freud associa à religião na neurose obsessiva: "não valem
mais que a religião. Não é pouco dizer. A imbecilidade é nossa essência da
qual vossa demanda faz parte(..) esta que vos reúne aqui, é como ter uma
chance de sair da imbecilidade"(XXI,11-12-73,2);
- esconder-se "em nome
de não sei que medo como se, alguma vez, Deus tivesse efetivamente
manifestado uma presença qualquer"(XX,45) .
Estas alusões se assemelham às posições de Freud denunciando a ilusão
da religião, "saudade" de um "pai exaltado"(GW XIV,344). Lacan, porém,
segue uma via própria para abordar a questão de Deus, recorrendo a uma
dupla referência, em si paradoxal, ao Um e ao Outro, isto é ao Imaginário
e ao Simbólico.
Deus, amor do Um
"Exclusivamente sexuais na neurose(..),os
componentes dos movimentos pulsionais(..) são sobretudo egoistas e nocivos
na religião" (GW VII,137). Esta posição de Freud em 1907, a respeito da
prática religiosa como neurose obsessiva, deve ser aproximada de uma outra
de 1915 sobre o destino das pulsões: "O caso do amor e ódio resiste a se
incorporar à nossa representação das pulsões"(GW X,225), isto é enquanto
ligado não às pulsões sexuais, mas ao eu e à primazia do imaginário.
Porém, o especular do narcisismo é anunciado pelo pré-especular, chamemos
ele ou não, como Lacan o fez, de autoerotismo, "cujas relações internas
tanto quanto a entropia escapam", e lugar das relações psicossomáticas,
seja algo do "nível do real"(II,119-121). Por alí, poderia se entender a
associação do Seminário IX,A Identificação: "amor força natural"- ponto de
vista "zoologisante de Freud"-"os deuses são do real"-"o amor é Afrodite
que bate"-"é a fonte de todos os males", terminando no "O amor de mãe é a
causa de tudo"(IX,21-2-62,19-20). O amor como real remete ao
pre-especular, enquanto impossivel de ser penetrado, mas também ao
imaginário narcísico no aspecto da impossibilidade de incorporação à
representação das pulsões.
Cabe ao Seminário Encore abordar a questão do amor como Um. Nesta
"variante do discurso do mestre", que é o discurso filosófico, o amor
"visa o ser"(XX,40). Sobre o "gozo do ser" de Aristóteles, Santo Tomás
comenta que tudo o que "é para o bem de nosso ser" será gozo de Deus:
"amando a Deus é a nós-mesmos que amamos"(XX,66). Poderíamos dizer então
que cada sujeito se amaria a si-mesmo na figura idealizada da perfeição e
do poder, Deus. Ser é associado a "acreditar ser um", e o amor parte do
"somos somente um", pois pertence ao narcisismo, diz Freud. Suplência da
relação sexual (XX,44), endereçado ao semblante(XX,46), o amor "ignora que
é somente o desejo de ser Um", e impossibilita a relação a dois(XX,12). É
verdade que, no plano do gozo, que não é do amor, trata-se do gozo fálico,
do "gozo do órgão" que "não se refere ao Outro como tal"(XX,13-14). Se
amar a Deus é amar a si-mesmo, amar o outro também, conforme o comentário
do Seminário XXI, Les non dupes errent.O"Amarás a teu próximo como a
ti-mesmo" "funda a abolição da diferença dos sexos" e "quando atribuimos
ao Simbólico o papel de meio" entre o real da morte e o imaginário do
corpo, situamo-nos no amor divino que faz com que, negado como lugar do
desejo, "o corpo se torne morte" e "a morte se torne corpo". E Lacan se
refere à "perversão do Outro como tal" "no mito pre-cristão" da "história
sádica do pecado original", quando o amor divino expulsou o desejo,
instaurando esta insensibilização "chamada arianismo, mesmo
narcisismo"(XXI,18-12-73,2-3,7).
Há uma combinação aqui entre o UM do amor como narcisismo excluindo o
desejo e a posição UM do mestre, o significante Um do mestre, dono do
corpo do filho e expulsando o desejo, em nome do amor devido pelo filho ao
pai, aqui o pai eterno, Deus. Lembremo-nos que, em Freud, a identificação
primária se faz, não com a mãe, mas com o pai, identificação de puro amor
a um pai digno de ser amado, isto é o mestre. "Freud fará deste amor o
princípio do Supereu", comenta Philippe Julien em seu artigo L'amour du
pere chez Freud(Littoral 11-12,p.161). O Seminário Le Sinthome afirma que
"é na medida em que os filhos são privados das mulheres que amam o pai"
(XXIII,11-5--76).
Na experiência da análise, o amor ao mestre, ao sujeito suposto saber,
ao qual, na histerização de seu discurso, o analisante se identifica, pode
ser chamado religião. Esta se desfaz somente pelo desmonte da neurose de
transferência, pelo abrandamento da resistência frente à brecha do desejo.
Aprendemos que a resistência provem sobretudo do analista, de sua ânsia
narcísica de curar. Ora, o narcisismo se interessa pelo um, pelo amor,
pela unidade representada pela posição de mestre. A resistência, embora
superada na análise, se vê eminentemente representada pela instituição,
quando se torna difícil escapar das miragens da identificação de Lacan ao
mestre suposto saber, inibindo nossa produção ou fazendo dela uma mera
homenagem a ele. Fugir do texto religioso, e nem o presente texto o
consegue, exige des-supor o saber. E, em nossos grupos, revela-se dificil
escapar à religião lacaniana com seu catecismo decorado, quando o culto
aos pequenos mestres se reduziria ao ridículo se não tivesse como
consequência trágica o apagamento dos sujeitos. A religião sempre promoveu
o culto à unidade operada pela alma como forma do corpo, unidade que
Descartes e a medicina vem fragmentar, abrindo o caminho a Freud(II,93).
Resistir consiste em resistir ao reconhecimento da divisão do sujeito, à
passagem do amor do um ao objeto fragmentado causa do desejo.
Se o Um carrega todas estas viscosidades imaginárias é que nosso eu
visa fazer Um, e, ao mesmo tempo, fazer do Um um ser. Mas a partir do
momento em que o Seminário VIII, A Identificação introduz a noção do traço
únário, a matematização, na obra lacaniana, começa a se destacar. Sua
importância decorre da tarefa de impedir a transformação em ser, em
substância, não somente do Um, mas também do sujeito e do Outro. Assim,
Deus é Um enquanto elemento de cálculo, de contagem, não enquanto ser.
"Somente a matematização atinge a um real", afirma o Seminário Encore,
pois faz do Um "algo que se conta sem ser"(XX,118). Mas também, podemos
pensar que a exaltação do narcisismo não transforma o Um narcísico em ser,
em Deus.
Deus, o Outro na linguagem, na nomeação
Definido "não como
ser mas como lugar da fala"(VI,11-2-59,9), o Outro acaba sendo colocado
numa forma de subsistência: "é impossível dizer algo sem logo o fazer
subsistir sob a forma do Outro". É a partir desta frase de Encore que
daria para entender esta outra: "enquanto se disser algo, a hipótese Deus
estará aí"(XX,44-45). Paradoxalmente, a fala desfaz consistências e a
revelação cristã, com seu Lógos, seu Verbo, "nível da articulação
significante", vai mais longe que a filosofia na eliminação dos deuses do
real, dos deuses antigos, "na via do politeismo ao ateismo" (VIII,57-59),
sendo, diz Lacan, os teólogos os "verdadeiros ateus" pois "de Deus
falam"(XX,45). Feito Verbo, Deus perderia sua consistência de ser. Quanto
mais falam de Deus, quanto mais os teólogos revelariam Deus, não como
subsistente, mas como função na linguagem. No caso, os teólogos seriam os
profissionais que colocam Deus como referência dentro da linguagem.
Lacan diferencia o pequeno a do grande A, isto é "o imaginário que se
suporta do reflexo do semelhante ao semelhante", do "simbólico, suporte do
que foi feito Deus" (XX,77). Em outros momentos, ele fala de Deus como
imaginário, como sujeito suposto saber. O Seminário Le Sinthome comenta a
hipótese do inconsciente segundo Freud como "algo que não pode se
sustentar senão supondo o Nome-do-Pai. Supor o Nome-do-Pai, é claro que é
Deus. É nisto que a psicanálise tendo êxito prova que o Nome-do-Pai, se
pode dispensá-lo(..) com a condição de usá-lo"(XXIII,13-4-76,7,9). Esta
referência à nomeação nos situa no nível da fala. Cabe à fala do grande
Outro materno o reconhecimento, para um filho, de seu pai. Os textos
lacanianos insistem na nomeação do pai, na sua função dentro da linguagem,
dentro da fala materna.
Deus, o Outro, a Mulher
O que há em Lacan de absolutamente
novo em relação a Freud é colocar Deus no lugar da mulher, na fórmula do
S(A) definida como "Não há Outro do Outro". Esta elaboração porém parte de
Freud enunciando que "não há libido a não ser masculina". Sabemos que o
Outro, como questão em Freud "expressamente deixada de lado", se formula
nos termos "O que quer a mulher?", ela sendo, para Lacan, "equivalente à
verdade", não-toda(XX,75,115). Precisa-se também do Totem e Tabu freudiano
para o Seminário Encore concluir que o homem forma um todo mas não a
mulher, ela sendo tomada uma a uma. E como a função fálica não a absorve
toda, ela pode ter um gozo Outro. "De ser na relação sexual, em referência
àquilo que pode se dizer do inconsciente, radicalmente o Outro, a mulher é
que tem relação com este Outro". "Não há Outro do Outro"(XX,75)."É no
lugar, opaco, do gozo do Outro, deste Outro enquanto poderia sê-lo, se ela
existisse, a mulher, que é situado o Ser supremo(..) É enquanto seu gozo é
radicalmente Outro que a mulher tem mais relação a Deus". Assim fala
Lacan:"Se deste S(A) não designo nada outro do que o gozo da mulher, é
seguramente porque indico que Deus ainda não fez sua saída"(XX,78). Há um
buraco, "o Outro enquanto o lugar onde a fala, de ser colocada, fundamenta
a verdade, e com ela o pacto que supre à inexistência da relação
sexual"(XX,103). "O Outro é o Um-a-menos"(XX,116), expressão que coloca a
mulher, não como como lugar da totalidade, do Um, porém do objeto
fragmentado causa do desejo do homem.
Lacan volta sempre a este comentário do S(A): "não há Outro do Outro
para operar o último juízo"(XXIII,13-1-76,1). "No lugar do Outro do Outro,
não há nenhuma ordem de existência(XXIII,13-4-76,7). "Não há Outro que
responderia como parceiro, toda necessidade do gênero humano sendo que
haja um Outro do Outro. É este que se chama geralmente Deus, mas a análise
desvela que é simplesmente "A mulher"(..) eu disse que A mulher não
existia"(XXIII,16-3-76,11). Para Freud, estava resolvida a questão de
Deus, reduzido ao pai exaltado. Sua grande questão, aliás deixada de lado,
é a mulher, que Lacan retoma mostrando como a mulher representa o Outro
por escapar parcialmente à função fálica, e por ter um gozo Outro. O todo
estando do lado do homem, a mulher como Outro fica com a parte. Referida
não como toda, não como A mulher, ela é sempre uma mulher, sendo abordada
uma a uma, e, por outro lado, ela é tomada em parte, em pedaços, enquanto
lugar do objeto que causa o desejo do homem. Frente ao Um, ao todo, ela
não deixa de representar o questionamento.
A questão do sentido
"Não tem sentido", "exclui o sentido",
eis como o Seminário >Le Sinthome de 1976 qualifica o
real(XXIII,13-1-76,3). E no dia 18 de março de 1980, pouco depois da carta
de dissolução da Ecole Freudienne de Paris, Lacan dizia: "a religião é o
lugar do sentido", "tento ir contra para que a psicanálise não seja uma
religião, pois ela tende a isso irresistivelemente logo que se imagina que
a interpretação vem do sentido. Ensino que sua mola está em outro lugar,
nomeadamente no significante". Efetivamente, a experiência da análise
consistiria, não em encontrar um sentido último dos conflitos psíquicos,
mas pelo contrário, em esgotar o sentido que, de certo modo, vem
inflá-los.
Se os deuses pertencem ao campo do real enquanto ligados ao
incontrolável da natureza ou das paixões naquilo que escaparia à
elaboração simbólica, Deus como último sentido estaria propriamentnte, não
como real excluidor do sentido, mas como imaginário. A religião ocupa o
lugar do sentido porque realiza o simbólico do imaginário, isto é, parte
do imaginário para realizar o simbólico, enquanto a psicanálise imagina o
real do simbólico, quando o impossivel do Outro, o impossível da relação
sexual se vê encoberto pelo fantasma de cada sujeito frente ao objeto que
causa seu desejo. Lacan indica na matemática o primeiro passo da diferença
religião e psicanálise, cabendo o último à linguística (XXI,13-11-73,5),
pois a matemática permite a passagem da substantificação, do ser, para a
contagem, o cálculo, e a linguística abre esta passagem para a função da
lógica na linguagem.
Grande conhecedor da antiguidade grega, citado no Seminário As
Psicoses, Festugiere comenta que a fé provem da incerteza feita de medo e
esperança diante da hiância entre nossos projetos e sua
realização(III,143). Freud alude a esta hiância em O futuro de uma
ilusão(GW,XIV,330). Lacan viria reduzir esta questão, concentrada na
hiância existindo entre intenções e realizações no campo da relação
sexual. Frente ao "não há relação sexual", porque não existe A mulher, não
existe o Outro, o ser falante não se conforma e quer fazer existir este
Outro a todo custo.