“Nem estava pensando nisto”, “não tem nada a ver”. Um sonoro “não” ecoa
pelos consultórios de analista, dias, semanas, meses, anos a fio. A
denegação no dia a dia da análise ilustra a posição do eu e de seu
“conhecimento paranóico”, fonte inesgotável de desconhecimento. Vem de
longe. “Mergulhada na impotência motora e na dependência”, a criancinha
encontra na experiência especular seja com o espelho ou com um alguém
qualquer uma compensação alienante e ilusória para seu desamparo (Lacan,
Ecrits, 94-96). Leitor aos vinte anos da tradução francesa do Ulysses de
James Joyce, romance considerado o mais importante deste século, leitura
indispensável para um analista, Lacan não pode deixar de ficar
impressionado com as belíssimas imagens de condensações especulares “meus
pés ao fim de suas pernas” ou ainda de identificações especulares “ele é
eu”, “lui, c’est moi” escrito em francês no texto inglês (31 e 35).
Precisamos avaliar melhor a influência de Joyce não somente nos últimos
mas também nos primeiros textos de Lacan.
Desamparo diante do desejo da mãe
O desamparo da criança
conforme Lacan não estaria associado ao abandono da parte da mãe. O
abandono, porta aberta para a melancolia, atinge certo número de seres
falantes, e pode até levá-los à morte real. O desamparo, efeito do desejo
materno, coloca a criancinha à mercê do desejo materno, primeiro passo
para a angústia. Quanto mais mãe, quanto mais desamparo, quanto mais
angústia, poderíamos dizer. Se muitos escapam ao abandono propriamente
falando, ninguém escapa ao desejo materno.
Freud faz girar todo seu ensino ao redor do complexo de castração,
sublinhando o “desejo do Outro” como desejo incestuoso da parte da
criança. Joyce escreve Amor Matris : subjetivo e objetivo genitivo (23).
Nesta linha, Lacan destaca a ambivalência do “desejo do Outro”, o desejo
da mãe começando pelo desejo provindo da mãe, desejo que a criança seja
seu falo imaginário, este desejo tendo primazia sobre o “desejar a mãe”. A
castração simbólica, separação simbólica mãe-criança, incidirá
primeiramente sobre o desejo materno . Se for total e acachapante, isto é,
sem reconhecimento na linguagem à referência ao Outro da função paterna,
este desejo produzirá a psicose.
O recurso ao eu, este eu que é um outro, esse outro que é um eu, o
recurso ao eu como compensação pelo desamparo se revela um recurso furado,
embora inevitável. Esta imagem especular encantadora, plena, provocante de
libido e de agressividade exerce seu papel sistemático de ilusão e engano.
Assim, o eu, em sua especularidade, não vem na criança compensar
propriamente o desamparo, mas de certo modo, radicalizá-lo, pois exalta a
posição de falo imaginário da mãe. Afinal, quanto gozo temos em sermos
iludidos, enganados! E a castração simbólica serviria para reduzir este
gozo.
Mas, como é o caso do analista desamparado diante da singularidade do
discurso do analisante ? Lembremos, em primeiro lugar, que o analista é
sobretudo o resultado de uma análise. Na sua longa e intensa experiência,
às custas dos horrores despertados por uma verdade sempre singular,
deixou, em parte, de ser simplesmente o falo imaginário da mãe, e,
desmontando muitas construções imaginárias, teve que se confrontar com os
avatares de seu complexo de castração.
Pelo questionamento que o desejo opera sobre o amor na experiência da
transferência, poderia se pensar que o analisante que levou o mais longe
possível sua experiência analítica, o analisante “virado” analista,
conseguiria ficar sem eu, sem este eu da alienação imaginária. De qualquer
modo, em certos níveis, este eu alienado em seu amor narcísico perdeu umas
plumas. Mas, apesar da redução do tamanho do imaginário, não dá para
escapar ao imaginário do corpo, ao imaginário do sentido, que se articula
ao simbólico da linguagem, e também ao impossível do real, impossível de
ser imaginado e simbolizado.
Como qualquer analista, Freud usou seu eu para compensar,
equivocadamente, seu desamparo diante da singularidade do discurso do
analisante. Infelizmente. Inevitavelmente. Seus grandes casos clínicos são
marcados por sua preocupação em se contrapor às teses de Adler e de Jung.
Estímulo para Freud em sua teoria, esta preocupação feita conhecimento
obstaculiza sua escuta do saber inconsciente do analisante. E de uma
maneira ou outra, às vêzes na hora, às vêzes tardiamente, Freud se dá
conta das interferências de seu eu nos obstáculos da análise, o que levou
Lacan a caracterizar a resistência em análise como resistência do
analista, este, afinal, interferindo com seus preconceitos. Não podendo
ter seu ego zerado, o analista não consegue ouvir melhor o analisante.
Neste aspecto, o grau de resistência do analista pode radicalizar ou
relativizar a resistência do analisante. “Será que você está me entendendo
?, será que você está me escutando ? ”, se estas perguntas remetem a
outros transferencialmente, apontam uma falha estrutural : o analista tem
também seu eu paranóico. A singularidade de um saber que é do analisante,
pois se trata de seu saber inconsciente e que lhe escapa enquanto sujeito,
vem, repentinamente, questionar os preconceitos do analista. No caso do
“homem dos lobos”, e do que seria chamado hoje sua “síndrome de pânico”
frente à borboleta de listras amarelas, as teses de Freud e sua pressa em
se contrapor a Adler e Jung esbarram na fala do analisante sobre Grousha,
pera listrada associada significantemente à Grousha, nome da empregada,
que remete a Matrona, nome materno de uma mulher do campo. É a Grousha
enquanto agachada que desperta desejo ao mesmo tempo em que,
ambivalentemente, representa a ameaça de castração, evocando, neste
aspecto, neste momento, a função paterna. Pelo menos, Freud não impediu
neste momento a seu analisante realizar seu “ato analítico”.
Questionar o sentido
A associação de significantes, seja de
uma palavra, de uma frase, de um parágrafo completo, vem questionar não
somente a significação, mas o sentido. Tantos sintomas, tantas queixas
voltam a se repetir, incessantemente, necessariamente, numa fala
entrecortada de um “para mim, não tem mais jeito”, “não tem solução”, “não
tem saída”. Ora o sofrimento é carregado de sentido, o sofrimento é pesado
de sentido, o sofrimento carrega as cangalhas do sentido. Todo o sentido
da vida é orientado para este sofrimento.
É verdade que o analista intervém em vários níveis, no imaginário, no
simbólico e no real. Isto não deve servir a justificar qualquer tipo de
intervenção e, efetivamente, em certas situações, o analista se pergunta
se sua interferência não foi mais egóica ou se está fazendo um trabalho de
ginástica psíquica e não de psicanálise, se está dirigindo o analisante em
lugar de dirigir a experiência analítica. Interferências egóicas
constituem justamente o obstáculo, representam o desafio, pois vem
reforçar o sentido que se trataria de reduzir. Trata-se de questionar o
sentido, o sofrimento que está a serviço do sentido. Para isto, o analista
não pode ficar do lado do sentido, do pleno do eu especular, mas, ao
contrário, do lado de uma posição, se possível, de esvaziamento do
imaginário. Lacan fala do eu do analista “no lugar do morto”. Ali, uma
face radical do desamparo do analista, que, não podendo ocupar o lugar de
ideal do eu que lhe é atribuído, possibilita as condições do ato analítico
do analisante.
Ora a questão do sentido marca nossa vida pela filosofia com sua
concepção do mundo, pela ontologia a serviço do verbo ser, pela história
feita para nos dar a idéia de que ela tem algum sentido, pela religião
enquanto lugar de sentido. É o que nos lembra Lacan no seu Seminário XX,
Mais ainda (Encore-33 e 45) e numa carta aberta após a Dissolução da
Escola freudiana de Paris (18-3-80). Ser o falo da mãe no gozo do
sofrimento indica todo um sentido, uma orientação de vida. Se a
interpretação psicanalítica viesse do sentido, a análise seria uma
filosofia, uma ontologia, uma história ou uma religião. A interpretação
vem do campo do significante questionando o gozo de um sofrimento cheio de
sentido. “O termo sentido é pleno ele-mesmo”, diz Lacan (15-3-77). De
fato, o sintoma é carregado de sentido.
Freud se coloca na história do pensamento como o questionador da
filosofia do ser. Como o sentido, o ser remete a uma plenitude. Toda
plenitude não deixa de ser especular. Mas Freud não teria surgido sem o
imprescindível corte operado por Descartes na história do pensamento. Com
seu “eu penso, então eu sou”, ele deslocou a primazia dada ao ser para a
primazia dada ao sujeito. Indispensável ao surgimento da psicanálise, o
cogito cartesiano se vê por ela interrogado, pois há uma divisão entre o
eu especular e o sujeito efeito de simbólico, este último sendo também
dividido pela fala, numa relação de exclusão entre “penso” e “sou”, quando
se define o inconsciente como um saber sem sujeito.
Ilustração clínica
Recordo-me deste jovem analisante que só
falava em câncer e na certeza hipondríaca que estava à beira da morte.
Dizia ele que em tratamento anterior havia falado muito sobre isto e que
não agüentava mais o nível desse sofrimento, este sintoma sendo associado
diretamente ao sentido sexual. Na medida em que, em dado momento, começou
a me falar com certa amargura da influência corrosiva de um tio, a
descrição deste importante personagem destacava características tais que
acabei dizendo : “então para você este tio é o câncer na família”. Fiquei
surpreso com o efeito desta interpretação, pois nunca mais abordou o
assunto câncer. Como há um outro que repete exatamente o mesmo sintoma e
que ainda não consegui ouvir bem, surge a pergunta: como o analista pode
permitir ou dificultar o ato analítico de seu analisante? Implacável, a
gota da repetição cai na cabeça do analista que custa a ouvir, alimentando
assim a resistência do analisante. Será que estamos sempre esperando o
analista que nos susbstitua junto a tal analisante ? Aliás, justamente no
caso do “Homem dos lobos”, no capítulo VIII, Freud nos alerta : quão
errados estamos em considerar a imaginação e a sugestão do médico
responsáveis pelos resultados da análise. E ele vai deslocando esta
responsabilidade para a arte do bem dizer do analisante, arte que a escuta
do analista pode facilitar ou não. O que há de certo é que a
interpretação, no caso, “esse tio é o câncer na família” é um
prolongamento da fala do analisante, não é da ordem do sentido, fosse ele
um sentido sexual pre-dado por Freud. Este sentido, vocês não operam a não
ser reduzindo-o (..) é do equívoco fundamental em algo chamado simbólico
que vocês sempre operam, afirma Lacan em 1974, lembrando que o sentido é
sustentado pelo imaginário (R.S.I., 10-12-74), o imaginário que está
sempre errado(..) o consciente (..) vontade de não mudar(L’insu, 18-1-77).
O jogo do equívoco articulado pelo analisante na medida em que comparava o
tio a um câncer rompeu o sentido deste sofrimento. Se há sempre uma
articulação ao sexual, é sempre pela mediação do falo, significante
destinado a designar em seu conjunto os efeitos de significado, enquanto o
significante os condiciona (E.690). Isto é, a articulação ao sexual nunca
é direta a um sentido estabelecido, pois passa pela articulação ao falo e
a seus meandros, transformando o sentido sexual em não-sentido.
Estamos aqui na ordem da análise na transferência que Lacan opõe à
análise da transferência. Nesta última, se trataria de remeter sempre ao
analista o dito do analisante, deslizando facilmente para uma conotação
persecutória. Mas penso que, em momentos de impasse da análise, em que o
analisante imobiliza o analista pelos tentáculos do sentido do sofrimento
sem saída, se impõe a análise da transferência. Citei em outro trabalho o
diálogo numa situação de marasmo, difícil a evitar em análise, quando,
remetendo à análise da transferência, perguntei a uma senhora: “afinal de
contas, o que acha que sou para você?”. “Para mim, o senhor é um broche,
um enfeite, gosto de dizer que faço análise com o Sr.”. E só há um passo
mínimo do broche ao falo brochado. A partir da fala dela sobre a posição
de mera decoração sem efeito em que me colocava, a análise tomou outro
rumo.
A arte do bem dizer
E a arte do bem-dizer tanto do analisante
quanto do analista se articula à arte do bem-ouvir do analista, arte tão
difícil porque as sereias do sentido o seduzem e amarram.
A fala do analisante vai num sentido, numa orientação quando,
subitamente, uma frase inesperada, uma lembrança esquecida, um lapso, um
chiste, uma besteira, um detalhe, uma pergunta do analista, vem com seu
lado imprevisto e seus deslizes mudar o sentido da fala, o curso da fala,
a orientação da sessão; vem questionar o sentido da fala e ao mesmo tempo
esvaziar as cangalhas do sentido que apesentam o sofrimento. Este
transtorno do discurso opera um deslocamento, assim como o recalque do
falo desvia, obstaculiza, impossibilita a relação (rapport) sexual. O
sentido, a direção ao Outro sexual esbarra na fala. E a fala é associada
ao falo, pois pode se falar de recalque na criança propriamente só quando
ela começa a falar, e o que é recalcado é eminentemente o falo.
Podemos pensar em várias situações, nos momentos de impasse mesmo de
toda análise e de certas análises em particular, ou nas análises de
analisantes que sofrem muito, mas que não tem talento para fazer análise,
podendo, apesar desta grande limitação, se aproveitar da análise, e nesses
casos, as dificuldades aumentam para o analista, ou podemos pensar ainda
nas análises de psicóticos, quando a submissão ao desejo materno é total,
e embora o atendimento a psicóticos seja muito diferente. Estas tres
situações limites nos levariam à pergunta : o analista estaria desamparado
por uma identificação ao analisante e ao sentido tão envolvente de seu
sofrimento, regredindo à submissão ao desejo paralisante do “ser o falo da
mãe” ? “Ser o falo”, isto é, algo da ordem do ser, vivenciado pela criança
como uma espécie de ontologia fálica que dá todo o sentido à vida. Haveria
uma revivescência do desamparo diante do desejo materno angustiante que
convoca ao ser e sua plenitude de sentido? Como Lacan comenta que nós
“falaseres” costumamos dormir e que só acordamos de vez em quando, podemos
nos perguntar se a repetição da queixa sofrida do analisante, tal uma
canção de ninar às avessas nas cantilenas do sentido, nos confirma em
nossa vocação de dorminhocos. É trabalhoso acordar para ouvir outra coisa
do que o sentido, pois afinal a atenção flutuante quer dizer isto. Ouvir
outra coisa do que a significação, o sentido leva a abandonar o ronco do
sono, questionando o “ron-ron” da repetição. Permitiria ao analisante
abandonar o sentido global passado pelo grande Outro do ser e se
confrontar com os sentidos parciais, novos que transformam a vida em algo
não somente mais próprio, mas mais interessante.