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Do MAIS AINDA da Escrita
Jacques Laberge

 
 

Mais ainda (Encore), de 1972-73, deve sua importância à contribuição decisiva de Lacan à sexualidade feminina, tema que ocupa a segunda metade deste Seminário XX. O “mais ainda” se refere ao gozo a mais, o chamado “suplementar” das mulheres. Como o homem, uma mulher não escapa ao fálico do gozo e da castração. Mas o homem é “todo” referido a este fálico, enquanto uma mulher é dita “não toda”, por ter acesso a um “gozo Outro”.

A importância deste Seminário deve também muito à primazia dada ao tema da escrita, assunto do presente trabalho, do qual tema destacarei a referência ao sentido. Em relação à função do significante, qual a função da letra, da matematização, do nó borromeu, expressões da escrita no questionamento ao sentido?

O significante questiona o sentido
Todo nosso modo de ser, de pensar, tem sido radicalmente marcado pela questão do sentido. Lacan destaca o papel da filosofia com sua concepção do mundo (33), da ontologia que, na linha do discurso do mestre, privilegia o verbo ser (33), da história feita para nos dar a idéia que ela tem algum sentido (45), da religião, lugar do sentido (carta de 18-3-80).

Ele comenta rapidamente cada um destes pontos: a concepção do mundo é da ordem do cômico; ele detesta a missão pro-sentido da história; parar no verbo ser (..) é uma acentuação cheia de riscos (33,45); enfim, na carta de 18-3-80, ele sublinha sua tentativa que a psicanálise não seja uma religião, pois ela tende a isso irresistivelmente logo que se imagina que a interpretação vem do sentido. Ensino que sua mola está em outro lugar, nomeadamente no significante. Um discurso como o analítico visa ao sentido (..), que o sentido é do faz-de-conta (semblant). Se o discurso analítico indica que este sentido é sexual(..) o sentido indica a direção para a qual ele fracassa (74). Este sentido se reduz ao não-sentido do rapport sexual (Télévision,1973, 18). Em R.S.I., a 10-12-74, : este sentido, vocês não operam a não ser reduzindo-o (..) é do equívoco fundamental em algo chamado simbólico que vocês sempre operam. O sentido, continua o texto, é sustentado pelo imaginário. No fim do Mais ainda, chama a atenção a redução do ser na fórmula “o ser é um corpo”. O ser em psicanálise não é da ordem ontológica. Já Descartes havia, na filosofia, operado um deslocamento da primazia dada à questão do ser para a questão do sujeito. É este deslocamento que abriu o caminho para Freud. A consistência, característica do imaginário, é do corpo, corpo atravessado pelo surgimento do sujeito que nunca é senão pontual e esvaecente, pois não é sujeito senão por um significante para um outro significante (127, 130).

No discurso do analista, muitas vêzes chamado “discurso analítico”, o objeto a está no lugar de agente e o que se produz é a besteira, o lapso, o chiste, que como significantes deslocam a significação, transtornando também o decurso da fala, a orientação, a direção, o sentido da fala. A direção encaminhada ao Outro do rapport sexual esbarra no falo-fala que desvia do Outro, cabendo a causa do desejo não ao Outro mas ao objeto fragmentado, caído. Isto é, não somente o significante desloca o significado, mas ele desloca o sentido sexual para o não-sentido.

A escrita questiona o sentido
A partir do Seminário Problemas cruciais da psicanálise de 1965, aparece o real como impossível do rapport sexual, aquilo que em abril de 1978, em Momento de concluir, Lacan chama o fundamento da psicanálise. Se o real “se torna adulto” somente em 1965, de fato o impossível do rapport sexual já é conseqüência da fórmula da metáfora paterna encontrada no texto de janeiro de 58, De uma questão preliminar a qualquer tratamento possível da psicose. Recalcado é o falo, é a “significação fálica”, isto é, o rapport S/s do falo, : o significante só se coloca tendo nenhum rapport com o significado (32). Se é o S/s do falo que é recalcado, e que o falo é o significante destinado a designar em seu conjunto os efeitos de significado, enquanto o significante os condiciona por sua presença de significante(E.690), não há lugar para o recalque do rapport sexual. Poderíamos nos perguntar : se nem há rapport S/s, como é que poderia haver rapport sexual? O real como impossível do rapport sexual é o efeito lógico do simbólico recalque do falo. Já no início de Mais ainda, lemos: o discurso analítico só se sustenta a partir do enunciado que não há, que é impossível colocar (poser) o rapport sexual (..) o gozo enquanto sexual é fálico, isto é, não se relaciona ao Outro como tal (14).

Este Seminário XX vai insistir numa reformulação da definição do impossível do rapport sexual. É por uma referência ao verbo “escrever” que vai se definir não somente o impossível do rapport sexual, mas o contingente do falo e o necessário do sintoma. Esta reformulação referida à escrita vai se impor até o fim da obra de Lacan.

Mas, antes disto, Lacan fundamenta sua articulação da escrita : fundei o discurso analítico de uma articulação precisa que se escreve no quadro com quatro letras, duas barras e cinco traços (..) trata-se de precisar qual pode ser, se ela é específica, a função da escrita no discurso analítico. Para permitir explicar as funções deste discurso, adiantei o uso de um certo número de letras, em primeiro lugar o a que chamo objeto mas que não é senão uma letra. Depois o A (..) produzido pela lógico-matemática.(..) S(A barrado)(a impossibilidade de dizer todo o verdadeiro (87)) (..) mostrando que como lugar não se sustenta, que há uma falha.(..).A letra phi que deve ser diferenciada da função somente significante (..) do falo. Se estas tres letras são diferentes é que não tem a mesma função (30-31). Lacan insiste sempre em associar significante e diferença. Aqui, ele sublinha que as tres letras a, A e phi tem tres funções diferentes. Não usa o termo sentido mas função, termo fundamental na álgebra.

Trata-se da escrita no “discurso analítico”, a escrita tendo uma função de articulação deste discurso. E para explicar as funções deste discurso, ele se refere ao objeto a que não é propriamente um objeto mas uma letra e ao A que é um lugar que não se sustenta. Esta sempre presente a afirmação logo negada, isto é, a substantificação desfeita, o sentido esvaziado.

Lacan fala do efeito da escrita e que o que pode nos introduzir à dimensão da escrita como tal é nos dar conta que o significado não tem nada a fazer com nossas orelhas, mas somente com a leitura, a leitura do que se ouve de significante(34). E a respeito da relação S/s, comenta: A barra como tudo o que é da escrita, não se supõe senão disto - a escrita não é para compreender (..). Tudo o que está escrito parte do fato que será para sempre impossível escrever como tal o rapport sexual. É dali que há um certo efeito do discurso que se chama a escritura(36). A barra representa a escrita, ela nos barra a compreensão.

A escrita, efeito do discurso, aparece como conseqüência da impossibilidade de escrever o rapport sexual de maneira sustentável porque o homem só entra em jogo como significante (..) enquanto tem rapport com o gozo fálico (36). O falo “cessa de não se escrever”: é somente pela contingência que, pela psicanálise, o falo, reservado nos tempos antigos aos mistérios, cessa de não se escrever (87). O falo escrito, inscrito no inconsciente, bloqueia a entrada do rapport sexual, ou melhor, impede que haja própriamente este rapport. Todo rapport esbarra no falo. Aliança da fala com o falo : A partir do momento em que ela (a criancinha) fala, a partir deste momento muito exatamente, não antes, entendo que há recalque(53). A fala assim é intrinsecamente ligada ao recalque, no caso, do falo. Da fala, viria o recalque do falo, obstáculo ao recalque do rapport sexual. A contingência do recalque do falo (cessa de não se escrever) e a impossibilidade do recalque do rapport sexual levaria a este efeito de discurso que é a escrita. Por não poder escrever o rapport sexual, se passaria a escrever, associado ao “não cessa de se escrever” do necessário sintoma, confrontado ao possível, o cessa de se escrever (comentado no Seminário seguinte a 19-2-74) e limitado pelo impossível, o que não cessa de não se escrever (55 e 86-87) . Trata- se da escrita como articulação do discurso analítico.

A letra, radicalmente, é efeito de discurso (36). A letra, algo que não tem nada a fazer com a conotação do significante, mas que o elabora e o aperfeiçoa. Joyce ilustra que a linguagem se aperfeiçoa quando sabe jogar com a escrita (37). Recusar-se à referência à escrita é proibir-se o que, de todos os efeitos da linguagem, pode chegar a articular-se (44).

Isto é, em relação ao significante, a escrita tem uma função de “elaborar”, de “‘aperfeiçoar”, de “articular-se”, uma espécie de função suplementar. É interessante observar que é depois de se referir ao que chamo “o mais ainda da escrita” que Lacan recorrerá à escrita dos matemas da sexuação para apontar o gozo suplementar de uma mulher. Se a escrita tem uma função de aperfeiçoamento do significante que só se coloca tendo nenhum rapport com o significado (32), ela vem sublinhar a barra entre significante e significado : A barra como tudo o que é da escrita não se supõe senão disto - a escrita não é para compreender(36).

Trata-se do discurso analítico articulado pela escrita e ao mesmo tempo trata-se da linguagem como a referência geral, inicial, a letra sendo efeito de discurso.

A escrita da matematização e do nó questiona o sentido
A escrita referida por Lacan parte da da escrita matemática. Já em A instância da letra no inconsciente de 1956, ele questiona o “logico-positivismo” e sua procura do sentido do sentido que opõe aos algoritmos matemáticos que são eles, como se deve, sem nenhum sentido (E.498). Lacan tenta especificar que se trata do discurso analítico e que a letra como efeito de discurso serve para articulá-lo. Nada me parece constituir melhor o horizonte do discurso analítico do que este uso que é feito da letra pela matemática. A letra revela no discurso,(..) a gramática. A gramática é o que não se revela da linguagem a não ser pela escrita (44). Esta formalização matemática da significância (signifiance) se faz ao contrário do sentido, ia quase dizer no contra- senso. O isso não quer dizer nada a respeito das matemáticas (..) a formalização da lógica matemática da significância , tão bem feita a suportar-se somente da escrita (85-86).

O próprio da linguagem matemática (..) no manejo mesmo de suas letras, supõe que basta que uma não se sustente para que todas as outras se dispersam. É nisto que o nó borromeu é a melhor metáfora disto que só procedemos do Um(116). Basta efetivamente que se corte um círculo para que o nó se desfaça.

Defini o real como o que não cessa de não se escrever. Há ali impossibilidade. É também que nada pode dizê-lo - não há, no dizer, existência do rapport sexual (132). Há inconsciente somente do dito. Não podemos tratar o inconsciente senão a partir do dito e do dito do analisante. Isso é um dizer (92).

Definindo a contingência, a impossibilidade, a necessidade, e a possibilidade em referência ao “escrever”, Lacan nos mostra a importância radical da escrita, parte essencial da linguagem enquanto aperfeiçoameto do significante, o inconsciente pertencendo à ordem do dito. E usa a escrita da letra, da matemática e dos nós como instrumento apropriado para esvaziar a idéia do inconsciente substância, do inconsciente-sentido.

Ele articula o discurso analítico, partindo do dito do inconsciente que é o dito girando não em redor do rapport sexual, mas em redor do falo, o Outro sendo reduzido a uma letra, o a. E para este aperfeiçoamento operado pela escrita em relação ao significante, ele vai introduzir, no Seminário seguinte, o XXI, Os não tolos erram,(Les non-dupes errent) as tres últimas letras do seu ensino, R.S.I., título do Seminário XXII. Lacan se inspira da lógica de Aristóteles, de sua “ciência do real, isto é do tres”, o real sendo esvaziado de sentido, dalí a importância dada ao real na última parte de seu ensino. Por serem letras, R.S.I. podem ser substituídas por a, b, c, um a valendo um b, um b valendo um c e isso em círculo, (13-11-73), uma das maneiras de falar da equivalência dos registros. As tres últimas letras e a própria escrita do nó borromeu viriam confirmar a vocação da escrita do discurso analítico no questionamento ao sentido.

Notas 

Os números entre parênteses remetem à edicão francesa:
Encore, Paris, Seuil,1975.
Os números entre parênteses e precedidos do E. remetem à edição francesa:
Ecrits, Paris, Seuil, 1966.

Jornada do Traço, Recife, 29-5-99

 Intersecção Psicanalítica do Brasil