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Ele Não Sabia
Jacques Laberge

 
 

Causado por algo, o desejo questiona o amor

O Seminário VIII de Lacan (1960-61) sobre a transferência aborda o questionamento do amor pelo desejo como dialética fundamental da experiência analítica. “Amar o todo” confronta-se com o “desejar um pedaço”, o que vai se chamar cada vez mais: “ter o desejo causado por um pedaço”. A temática desejo do analista, como questionamento ao amor, iniciada tres anos antes, em julho de 1958, no texto A direção do tratamento (E.615), perpassa por este Seminário sobre a transferência. E posteriormente, em 15 de janeiro de 64, no Seminário XI Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, Lacan chega a afirmar: “pareço dizer a mesma coisa em meu ensino, nestes últimos tempos(..) qual é o desejo do analista?”(S.XI, 14). Convém observar que, nos textos de Lacan, a expressão desejo do analista aparece praticamente sempre como pergunta ou precedida da palavra “questão”. Pergunta, questão ao amor. Pergunta também porque o desejo não pode ser nomeado conforme lemos no Seminário II de 54-55 O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise (S.II,247).

Pela via da identificação narcísica, o amor se dirige ao sujeito que se supõe ao saber, tema presente neste Seminário, embora a expressão sujeito suposto saber vai surgir alguns meses depois, em 15-11-61, no Seminário IX, A identificação. Para questionar o amor, Lacan recorre a Platão e a Claudel. O Banquete de Platão destaca a relação falta-desejo usada por Sócrates, precursor do analista, para furar o discurso pomposo de Agatão sobre o amor. E quanto ao teatro de Claudel, Lacan o intitula tragédia do desejo(24-5-61). Alguns meses antes, no texto Subversão do sujeito, Lacan aludia à via do trágico grego, que Claudel reencontra em um cristianismo de desespero(E.827). Opondo-se à tragédia sem “sombra” de Racine do século 17, Claudel restaura a ligação com a tragédia grega tecida de obscuridades, de sombras, de ocultações. Lembremos com Lacan que o espaço entre duas mortes delimita o lugar da inscrição da tragédia. A primeira morte corresponde ao fim real da vida(doença, velhice, acidente fatais), a segunda morte ao automatismo de repetição, à pulsão de morte como “suporte” da cadeia significante: A segunda morte é o homem enquanto a linguagem exige dele de dar conta disto, que ele não é (S.VII,345). Isto é, o homem não precisa esperar a morte real para não ser.

Lacan não ouve Ésquilo, mas somente Sófocles.

Claudel reconhece duas influências marcantes de sua obra, Shakespeare e Ésquilo. A respeito deste trágico grego, ele chega a falar de uma comunhão de espírito (T.I,1313). Claudel traduziu do grego a Oréstia, trilogia de Ésquilo, Agamêmnon, As Coéforas, As Eumênides e, detalhe importante, as duas últimas peças no mesmo período em que escrevia sua trilogia L’Otage, le Pain dur, le Père humilié. Ele declara a respeito: Como os trágicos gregos, acredito com efeito que os limites estreitos de uma geração não bastam para encarcerar as intenções misteriosas da “Moîra”. Toda minha infância foi ninada por uma antiga serva de cujos lábios saia a narração de antigos crimes, mesclados a obscuros sacrifícios, dos quais eu via lentamente sob meus olhos se realizar os resultados patéticos(T.II,1455). E referindo-se a Ésquilo: “Qual o tema dos três dramas que constituem a Oréstia? A fecundidade indefinida do ato mau que implica e gera espontaneamente sua própria sanção, a qual não é outra, no fio de uma mesma descendência familial, que um igual crime” (T.I,1328). O filicídio, morte de Ifigênia sacrificada aos deuses por seu pai Agamêmnon em troca de vitórias militares, precede e sustenta a Oréstia. Clytemnestre, mãe de Ifigênia, se vinga e mata Agamêmnon. Eletra instiga o irmão Orestes a matar a mãe. Sobre a primazia do crime, marca da repetição, sincronia da culpa que se impõe à diacronia das gerações, nada mais impressionante do que a trilogia de Ésquilo. E o diálogo da última peça entre o Côro acusador, a sombra de Clytemnestre e Apolo, porta-voz de Agamêmnon e defensor de Orestes, constitui uma vasta elaboração sobre a culpabilidade e as vias para superá-la, anúncio da experiência analítica. Quebra-se o inquebrantável laço do binômio “crime-castigo”.

Mas Lacan nem menciona Ésquilo. Fiquei intrigado com este silêncio. Como pode ele privilegiar assim Claudel, chamar seu teatro tragédia do desejo, reconhecer sua filiação ao teatro grego e não citar Ésquilo, inspirador da trilogia de Claudel? Não consegui responder mesmo a esta interrogação. Se, por um lado, Lacan não é o “sujeito suposto saber tudo”, ele indica algo com seu silêncio sobre Ésquilo. Revela assim que, entre os trágicos gregos, ele valoriza somente Sófocles. Aliás, assim operou Freud. Mas Freud não estudou Claudel. Ele cita Ésquilo somente uma vez, se não me engano, quando, em Moisés e o Monoteísmo, fala de um progresso na cultura referindo-se à passagem dos sentidos associados à mãe para à intelectualidade associada ao pai, por ser a paternidade a conclusão de uma elaboração em cima de uma hipótese(GW.XVI,221).

No Seminário VII, A ética da psicanálise, Lacan consagra longas páginas à figura de Antígona, ilustração eminente da pulsão de morte que dá sustento à cadeia significante. Observemos que, no Seminário sobre a transferência, Lacan se refere a uma personagem que ultrapassaria Édipo e Antígona, Sygne de Coûfontaine da peça L’Otage, personagem que, em si, já justificaria nossa leitura de Claudel. Mas, embora se atenha à Antígona no Seminário VII, Lacan, em suas referências ao teatro grego, se restringe praticamente a Édipo, isto é ao mito do parricídio e do incesto. Por outro lado, um dos efeitos do silêncio de Lacan foi me remeter ao mito fundamental do Édipo trazido por Sófocles. Mas não basta dizer que Lacan, como Freud, reduz a tragédia grega ao Édipo, pois há sempre em Lacan um redutor do redutor. Por mais complexa que seja sua abordagem, ele tenta sempre reduzi-la a alguns elementos mínimos, a algumas oposições fundamentais. E ele insiste sobre alguns pontos. Vejamos, por exemplo, como ele repete ao longo de sua obra comentários sobre o questionamento do amor pelo desejo ou fórmulas do tipo: “o significante representa o sujeito para outro significante” e “não há relação sexual”. Qual o elemento mínimo, radical, inconfundível, trazido por esta tragédia grega do Édipo? Algo importante a especificar porque criminosos de qualquer época podem matar o pai e dormir com a mãe. Parricídio e incesto perpassam por obras cinematográficas e literárias. Lacan destaca algo que caracteriza propriamente o parricídio e o incesto de Édipo. E esse algo se encontra na expressão que representa de maneira singular a tragédia grega, seja suas obscuridades, sombras e ocultações: “Ele não sabia”. Ele não sabia que havia matado o pai e que dormia com a mãe. De todas as tragédias gregas, é a peça Édipo-Rei que destaca o elemento que motivou o interesse de Freud, e que serve de base para nosso trabalho no dia a dia, o “ele não sabia”. Encontramos algum comentário de Lacan sobre este assunto no fim da primeira parte da sessão de 11 de janeiro de 1970 no Seminário L’envers de la psychanalyse.

Dialética IGNORÂNCIA-VERDADE e não MENTIRA-VERDADE

O Seminário sobre a transferência não negligencia o “ele não sabia” da “enunciação fundamental da topologia do inconsciente”(S.VIII,11-1-61). A respeito do surgimento da verdade, Lacan dá a primazia não à mentira, mas à ignorância. Neste sentido, a dialética ignorância-verdade se revela em psicanálise mais estrutural do que a dialética mentira-verdade. O “não saber” favorece a mentira. A respeito da verdade, Lacan nos fala de um meio-dizer, de um dizer pela metade, neste sentido que a verdade inteira não pode ser dita. A verdade não é toda, pois esta totalidade acarretaria a abolição do inconsciente. De fato, dizer a verdade toda não passa de uma loucura. O paranóico poderia arvorar esta pretensão. Puro delírio, mero real. De fato, esbarramos no real da impossibilidade de dizer a verdade toda.

Falhando radicalmente nos psicóticos, a simbolização do Nome-do-Pai se vê absorvida pelo real delirante. No psiquismo dos neuróticos e dos perversos, a simbolização inconsciente nunca perfeita, produz, expulsa algo real. A falta de significantes se revela então estrutural. Ignorância da verdade toda, enquanto uma parte da verdade escapa para o real. Ignorância da verdade toda também pela ligação da verdade ao próprio recalque originário que impossibilita alcançá-la em sua inteireza.

Falar do meio-dizer da verdade leva a se perguntar: o que ocupa a outra metade do dizer? É o recalque originário impossível a verbalizar, enquanto simbolização primordial, a qual aliás expulsou algum real. Por outro lado, significantes inconscientes atraídos pelo recalque originário, mas não identificados a ele, não são diretamente alcançáveis. A ignorância se revela estrutural também enquanto esses significantes não são direta e simplesmente abordados. E não esqueçamos a entrada em ação da referência ao objeto, via fantasma. Por exemplo, o silêncio do analisante, associado a falta de disponibilidade de significantes, remete subitamente à presenca do analista em sua função de semblante de objeto que causa o desejo. Este meio-dizer da verdade aqui articulado ao objeto é recoberto pelo jogo entre o erro, a mentira e a ignorância como paixão associada à ilusão. Esta última se refere ao desconhecimento, não ao “ele não pode” mas ao “ele não quer”: ele não quer saber nada da verdade, de sua verdade, porque em análise se trata da verdade singular marcando um sujeito. A ilusão como gozo fálico indica, digamos, uma “certa liberdade” em relação ao gozo do Outro, em relação a “estar à mercê” do Outro. Esta “certa liberdade” pode dar a ilusão de “liberdade certa” ou de “liberdade total”. O erro remete à linguagem : substituindo significantes faltantes, alguém pode se enganar. Quanto à mentira, secundária em relação à ignorância estrutural em dialética com verdade, ela constitui como uma distorção seguida de um endurecimento do desconhecimento aliado à ilusão. Inspirado pela sedução, efeito do inconsciente na neurose, a mentira na perversão pertenceria mais ao jogo consciente para apropriar-se do gozo. Toda verdade tem uma estrutura de ficção(S.VII,21), porque vive do malentendido estrutural do simbólico onde se articulam inevitavelmente verdade, mentira, ignorância e erro.

Falta a saber, lugar do sujeito

No Seminário XII de 1964-65, Problemas cruciais para a psicanálise, lemos : A orientação da verdade, o que se descobre, não é para um saber(...). A verdade é a ser dita sobre o sexo(...). É porque é impossível dizê-lo por inteiro que decorre este tipo de suspensão, de incoerência secular no saber, que é propriamente aquela denunciada e articulada por Descartes que dalí destaca sua certeza do sujeito, em que o sujeito se manifesta como sendo justamente o sinal, o teste, o resíduo desta falta de saber onde vai de encontro ao que se recusa ao saber no sexo, ao qual o sujeito se encontra suspenso sob a pura forma desta falta, o saber como entidade assexuada. (...) Todo saber se institui em um horror insuperável em relação a este lugar onde jaz o segredo do sexo”.(19-5-65,3-4). No Seminário Encore de 1972-73, destacamos a qualificação do inconsciente :saber que não se sabe, saber que se sustenta do significante como tal”(S.XX, 88).

A transferência se instala partindo do amor, amor ao sujeito suposto saber. Como o desejo questiona o amor, a verdade do desejo sexual questiona o saber. E não se trata do sujeito do saber, justamente porque o sujeito se reduz a um resíduo da falta de saber. Assim, a experiência analítica parte do amor ao “sujeito suposto ao saber” para desmontá-lo aos poucos. Usar a expressão “sujeito do inconsciente” permanece paradoxal pois o inconsciente constitui um saber sem sujeito. No nível do saber, não há como supor sujeito porque é o inconsciente, afirma Lacan no Seminário XII, Problemas cruciais par a psicanálise (19-5-65). O inconsciente é um saber como um lugar, lugar onde a verdade surge, verdade esta que se opõe ao saber, verdade que não pertence à ordem do saber, verdade que remete ao sexo, verdade que aparece e desaparece em relação a este saber, verdade singular de algum sujeito. Quando se fala que a verdade surge no lugar do saber, ela surge quando o saber falha, ela surge não somente no lugar, mas em lugar do saber.

No Seminário XXIV, L’Insu, pelo fim da sessão de 15 de fevereiro de 77, Lacan resume a posição de Freud a respeito do inconsciente com um eu sei que ele sabe e considera esta posição confusa pois leva à objetivação do inconsciente. Ele propõe a formulação eu sei que ele sabe que eu sei que ele sabe, o desdobramento evitando a objetivação. Predomina aqui o “remeter” quando podemos associar a um significante que remete a outro, o “ele” do “ele sabe” sendo o “Outro” do inconsciente sem sujeito.

É a partir de um sei que ele sabe que eu sei que ele sabe que se instala o processo analítico, mas na crença que este “ele” é um sujeito suposto a este saber. O fato do analista ignorar o saber de cada um dos analisantes, este fato constitui a decisiva motivação para fazer do analista não somente um clínico mas um teórico, embora ele nem se considere um teórico. Seu não saber o impulsiona a estudar, à teorizar. Lacan insiste sobre a cultura, a “ignorância docta” do analista. Este saber do estudo não se reduz a uma pura teoria, pois parte da própria experiência analítica. Mas sobre o saber inconsciente de cada analisante, o analista, por mais que estude, não sabe de qualquer jeito. Por isso, ele remete o analisante ao seu saber particular não sabido, convidando-o a tentar descobrir algo deste saber. É claro que em primeiro lugar o analista deve dar a garantia que tomou sua própria neurose a sério por uma longa e intensiva análise, quando o “vir-a-ser” psicanalista depende, em primeiro lugar, de talento como analisante, isto é de algo articulado ao desejo, seja do efeito do trabalho analítico e não da parada deste trabalho na decisão egóica de ser analista colada à identificação ao próprio analista. Psicanalista não significa “profissão”, “carreira” mas, posição. “posição, nos diz Lacan, a mais responsável entre todas, porque ele é aquele a quem é confiada a operação de uma conversão ética radical, aquela que introduz o sujeito na ordem do desejo(S.XII, Problemas cruciais da psicanálise,5-5-65,1).

Para a psicanálise, se impõem confrontos com outros saberes, literatura, linguística, antropologia, filosofia, ciências ditas humanas ou exatas. Confrontos ricos de ensinamento para o analista. Mas o saber teórico de um analista, isto é de um analisante que se tornou analista como efeito de significantes, se caracteriza por um saber atravessado por alguma elaboração do saber inconsciente cuja báscula se chama desejo. Quando o analista ensina, surge assim sempre a pergunta : de que lugar ele fala?

Notas :

T.I e T.II : Claudel, P., Théatre I,II, Paris, Gallimard, 1965.
E. : Lacan,J., Ecrits, Paris, Seuil, 1966.
S.II, SVII,etc..: Lacan, J. Le Séminaire .
GW.: Freud, Gesammelte Werke, Frankfurt am Main, S.Fisher Verlag, 1941.

 Intersecção Psicanalítica do Brasil