Pai, você não vê que estou queimando ? Vater,
siehst du denn nicht das ich verbrenne ? assim falou o filho em tom de
muita repreensão (G.W. II-III, 513). Este sonho inaugura o capítulo
sete da Interpretação dos sonhos de Freud. Deixando para mais adiante
o tema do ver, do pai que não vê, sublinhemos, para começar, a
repreensão, a acusação e a culpa que emergem na articulação
desejo-morte, crime-castigo, temática que domina também o “sonho dos
sonhos” sobre a injeção a Irma. Como é que um pai pode dormir
tranqüilamente se seu filho morreu? E eis o filho, levado às
conseqüências as mais logicamente cruéis do complô edípico de
fantasias infantis : paga pela morte anteriormente à morte do pai ! No
mito edípico, no sonho sobre Irma e sobre o filho queimando, na
história de Antígona privilegiada por Lacan, trata-se da morte de pai,
de paciente, de filho, de irmão. Lacan associa o freudiano Além do
princípio do prazer da pulsão de morte ao nada, ao ex-nihilo sobre o
qual se funda a cadeia significante (7, 251-252), esta que insiste na
repetição.
“Pai, você não vê que estou queimando ?”, grito,
podemos pensar, dirigido a Freud por Lacan. Seria um dos aspectos da
relevância dada por ele a este sonho no Seminário 11 de 1964 sobre os
quatro conceitos. Há poucos meses, a IPA evocava Freud para sacrificar
Lacan, “queimado” pelos colegas da Sociedade francesa de psicanálise.
Suspensão do Seminário sobre os nomes do Pai. Ruptura e vácuo
institucionais marcam o período do fim de 1963 até a fundação da
Escola freudiana de Paris em junho de 64. Nesta ruptura-vácuo, o
Seminário 11. Na volta ao mito edípico e ao mito de Totem e Tabu,
Lacan propõe ir além de Freud, eminentemente a respeito da função
paterna, ir além do amor ao pai, permitir-se “des-supor” o saber a
Freud. No último momento, o anjo de Deus proíbe Abraão de sacrificar
seu filho único, filho da promessa. Este “não” abre uma hiância entre
desejo e gozo, comenta Julien em seu “Pour lire Jacques Lacan” (132),
quando evoca o livro dos Reis do Antigo Testamento e o costume, na
época, da parte dos pais, entre outros, os Reis Achaz e Manassé, de
sacrificar os filhos pelo fogo (Reis II,16,3 e 21,6).
O deslizamento metafórico, em muitas línguas,
associa queimar a “desejar ardentemente”, e também, como o ilustram os
jogos infantis e as adivinhações, a “estar muito perto de descobrir um
objeto escondido ou a solução de um problema”. Se, até então, Lacan se
havia ocupado com a relação simbólico-imaginário, ele, agora, vai
partir para a questão “simbólico e real”, começando pela via
sonho-real. Recorre a um sonho que ilustra como ele, Lacan, está
queimando ao aproximar-se daquilo que poderia ser, enfim, uma
definição mais satisfatória de “real”. No jogo do “quente-frio”, Lacan
entrou “numa fria” e está “numa quente” agora a respeito do real.
Ruptura com a IPA. Suspensão do Seminário sobre
os nomes do Pai. Nome-do-Pai em “suspense”. Impasses nos significantes
acarretam efeitos de real. Substituindo o Seminário abortado, Lacan
começa o Seminário 11 dando destaque ao sonho “Pai, você não vê que
estou queimando?”, sonho sobre o Pai que não vê, sobre o real do
desencontro.
Do Real do Desencontro
O Seminário 11 de 1964 constitui um momento chave, em particular
justamente sobre a questão do real. Inúmeras vezes até 64, e em 64,
pela última vez, Lacan comenta sobre as dificuldades, e aqui sobre a
ambigüidade que persiste a seu respeito (11,41). Depois do Seminário
11, nunca mais. E isso deve chamar nossa atenção. A partir de 64, logo
após a IPA ter assumido que ele não era filho de Freud, Lacan vai
explicitar a noção de real como desencontro. O desencontro entre pai e
filho, entre Freud e cada analista, fosse ele da IPA, é estrutural. A
ruptura definitiva com a IPA, além de representar uma dura realidade,
encobre um real do qual Lacan não pode mais fugir.
Este sonho “Pai, você não vê que estou queimando
?” servirá a Lacan para deixar de alimentar ambigüidades. Até então,
ia empurrando a questão do real com a barriga, pois em inúmeras
ocasiões, anunciava uma fala sobre o real, acrescentando : “na próxima
vez” ! Mas não deixava de falar de real. Até então, era o que escapa,
o que subsiste fora da simbolização, o efeito de forclusão ou do
Nome-do-Pai na psicose ou de algum outro significante que produz o
real dos fenômenos psicossomáticos ou de acting-out, de passagem ao
ato.
Uma expressão usada nos primeiros Seminários vai
tomar novo sentido e impulso neste Seminário 11 : o real, “o que volta
sempre ao mesmo lugar”. Referida aos astros, paixão de muitos
psicóticos como Schreber, esta volta ao mesmo lugar remeteria aos
delírios. Mas o Seminário 11 permite repensar esta chamada “volta ao
mesmo lugar”, levando Lacan a estar efetivamente “queimando”, prestes
a decifrar algo do enigma encobrindo o real. O que volta ao mesmo
lugar é o real do desencontro, do mau encontro. Trata-se da volta a
este lugar onde o sujeito enquanto cogitans (...) não o encontra
(11,49). O sonho “Pai, você não vê que estou queimando ?”, ilustração
radical do real como desencontro, serve a Lacan para concluir a sessão
de 12 de fevereiro de 64 com esta decisiva afirmação : O mau encontro
central está no nível do sexual (11,62). No “Pai, você não vê que
estou queimando?”, existe a mesma relação (rapport) com que lidamos em
uma repetição. É o que, para nós, se figura na apelação neurose de
destino ou neurose de fracasso (échec). O que falha (est manqué) não é
a adaptação, mas tuquê, o encontro (11,60). Sobre seus fracassos, uma
analisante, me dizia: é o destino. O tom enfático encoberto pelo
mistério gozoso de sua declaração levou-me a lhe perguntar: “está
pensando em algo espiritual, sobrenatural?”. Exatamente, me respondeu,
tecendo comentários sobre o imaginário religioso deste gozo. A
inflação imaginária inerente a esta neurose de destino, de fracasso,
manifesta a posição de vítima especialmente escolhida pelo grande
Outro, Deus, Pai, Natureza, Mãe. O trabalho analítico pode favorecer
uma redução deste grande sentido imaginário, desmontando pouco a pouco
a posição de vítima privilegiada. Mas há algo no limite desta
repetição que insiste : o real do desencontro.
Sem esta ruptura com a IPA e sem o vácuo
institucional no qual se situa o Seminário 11 de 64, é difícil pensar
na importância deste sonho revivido por Lacan e que o leva a queimar
no sentido de estar prestes a dar ao real uma definição mais
apropriada.
Repete-se o real ou o Simbólico ?
Quando nos fala da repetição, Lacan coloca a pergunta: Como o sonho,
portador do desejo do sujeito, pode produzir o que faz ressurgir à
repetição o trauma ? (11,55). Assim, o Seminário 11 radicaliza o
paradoxo sobre a questão da repetição : afinal, repete-se o real ou o
simbólico ? O que se repete nos diz bastante sua relação à tuquê (...)
real como encontro (...) fracassado (perdido) (11,55). Lacan não
afirma “o que se repete é a tuquê” , mas “a repetição diz sua relação
à tuquê”. No real, “o que volta sempre ao mesmo lugar”, não se trata
propriamente de repetição, mas do limite em que ela esbarra. Lacan
prefere ao termo compulsão o de automatismo de repetição, opondo o
automaton do simbólico ao tuquê do real, confirmando, em 64, sua
posicão do texto de 1955 O Seminário sobre a carta roubada quando
descreve o automatismo de repetição como insistência da cadeia
significante (E.11). O sonho faz ressurgir à repetição o trauma. A
partir do freudiano Além do princípio do prazer, aparece a aliança do
trauma e da repetição como bastante forte para atravessar o escudo
protetor do princípio do prazer. Trauma e repetição são intimamente
ligados em Freud, a repetição existindo em relação ao trauma. E o
trauma não pode simplesmente ser reduzido ao real, este que escapa. No
Seminário I, a respeito da “prägung”, da marca do trauma no Homem dos
lobos, Lacan acentua o aspecto imaginário sem deixar de articulá-lo ao
simbólico do Édipo. Em Moisés e o monoteísmo, Freud fazia a diferença
entre os efeitos positivos do trauma, identificados à possibilidade de
recordar e repetir, isto é, à articulação do simbólico e do
imaginário, e os efeitos negativos do trauma, associados à
impossibilidade de recordar e repetir, isto é, o real do trauma,
quando Freud usa os termos, “inacessível, inútil, psicose (G.W. XVI,
180-181). Ele já diferenciava o real do trauma de seus aspectos
imaginários e simbólicos.
Você não vê
Deve se destacar um aspecto deste sonho : o desencontro apontado passa
pelo olhar. É por não ver o filho, por não vê-lo queimando que o pai é
censurado.
Justamente, após as primeiras sessões de seu
Seminário 11 em que se destaca o tema tuquê e automaton, Lacan
consagra várias outras sessões ao tema do olhar, levado, diz ele, pelo
modo sob o qual lhes apresentei o conceito em Freud da repetição
(11,75). E um pouco depois, comenta que o olhar se torna este objeto
punctiforme (...) com o qual o sujeito confunde sua própria falência (défaillance),
acrescentando que no registro do desejo, o olhar se especifica como
inapreensível (11,79). Ele afirma que na referência ao inconsciente, é
do rapport ao órgão de que se trata. Não se trata do rapport à
sexualidade, nem mesmo ao sexo (...) mas do rapport ao falo enquanto
falta àquilo que poderia ser atingido de real a respeito do sexo.
(...Da) insuficiência organizada no complexo de castração, podemos
apreender em que medida o olho é tomado numa dialética semelhante.
Semelhante, a dialética a respeito do falo e do olho. Lacan sublinha o
engano na relação olho-olhar, acrescentando : o que olho não é nunca o
que quero ver, lembrando que o olhar enquanto objeto (a) vale como
símbolo da falta, isto é do falo (11,94-95). Alude ao mau olhado, à
inveja, termo etimologicamente associado pelo latim “invidia”, ao
verbo “videre”, ver, e lembra santo Agostinho olhando seu irmão
pendurado ao seio de sua mãe (11,105). A referência ao olhar associada
ao falo serve para mostrar como A função de “ratage”(perder, não
alcançar, falhar o tiro) está no centro da repetição analítica
(11,117).
Ora, é interessante observar que no sonho de
repreensão pelo filho : “Pai, você não vê que estou queimando?”,
trata-se justamente do ver. O pai não vê. O desencontro entre pai e
filho passa pelo olhar que não vê. Assim podemos relacionar as duas
primeiras partes do Seminário 11, o “Pai, você não vê” e o desencontro
da dupla esquize olho--olhar, olhar--não ver, lembrando que a
repetição perde sempre o objeto, repete porque perdeu.
O Real Além do Sonho
O sonho nos presentifica a repetição, a qual remete sempre ao trauma.
Precisamos evocar o “sonho dos sonhos” como
Lacan o chama (2, 178), o do “fracasso do tratamento de Irma”(2,182),
a respeito do qual Lacan lembra sua conferência de 1953, o simbólico,
o imaginario e o real, dizendo que se trata a respeito do sonho de
imaginar o símbolo e de simbolizar a imagem (2,190). Não fala do real.
Não há outro termo para o sonho do que a natureza mesma do simbólico
(2,192). Por outro lado, algumas páginas adiante, a respeito do fundo
da garganta remetendo ao abismo do órgão feminino de onde sai toda
vida tanto quanto o abismo da boca onde tudo é engolido, e também a
imagem da morte onde tudo vem terminar (...Lacan aponta para o
real...) aparecimento angustiante de uma imagem que resume o que
podemos chamar a revelação do real no que tem de menos penetrável, do
real sem nenhuma mediação possível, do real último (2,196). E Lacan
interpreta o sonho em redor da tentativa de Freud de superar a culpa
de ser o criador da psicanálise, o descobridor do inconsciente
propriamente dito (2,204). Afinal, o sonho articula simbólico e
imaginário, mas esbarra no real. E há uma diferença entre 1954-55,
período do Seminário 2, e 1964 que inaugura uma nova fase no ensino de
Lacan, após a ruptura com a IPA. Há uma continuação mas um novo rumo:
Lacan não poderá mais empurrar a questão do real com a barriga. O que
aparece no Seminário 2 se vê reforçado e reformulado no Seminário 11
que especifica o seguinte : o real é além do sonho que temos que
procurá-lo - naquilo que o sonho revestiu, embrulhou, nos ocultou,
atrás da falta de representação, do qual só há um lugar tenente
(11,59). Afinal, a partir de Freud, repetir, sonhar pertencem à ordem
do recalque, e o real mesmo é o que escapa ao recalque.
Impossível do Rapport Sexual
Queimado pelos colegas da IPA, nesta ruptura, neste vácuo, Lacan
desenvolve seu Seminário 11, destacando o sonho que sublinhei “Pai ,
você não vê que estou queimando?”. E como está queimando, se
aproximando mesmo, neste Seminário 11, de definir mais precisamente
esta categoria de real, mas não a define ! Acontece algo parecido com
o Seminário sobre a Transferência. A expressão “sujeito suposto saber”
não está no Seminário sobre a transferência, mas é sua conseqüência
imediata. No Seminário 11, Lacan está “queimando”, prestes a formular
sua definição do real, pois define o real como desencontro e também
como impossível. Mas é no Seminário 12 que vai começar a falar do real
como “impossível do rapport sexual”. Terminará considerando esta
temática repetida como um refrão até o fim de sua vida, como o
essencial de seu ensino : Que não haja rapport sexual, é o essencial
do que enuncio, afirma Lacan em seu Seminário A topologia e o tempo na
lição de 9 de janeiro de 1979. O real como impossível do rapport
sexual acaba sendo uma expressão tão importante quanto esta outra, “o
significante representa o sujeito para outro significante”.
Apontando para o real além do sonho, este grito
“Pai, você não vê que estou queimando ?” sublinha o real do
desencontro entre pai e filho, e serve de via para a afirmação : o mau
encontro central está no nível do sexual (11,62) . Este sonho
representa este elo-passagem entre o Seminário abortado sobre os nomes
do Pai e os Seminários posteriores que vão definir o real como o
impossível do “rapport” sexual. A suspensão do Seminário é seguida
alguns meses depois pelo início do Seminário 11 com o sonho sobre o
pai que não vê. E, no último mês deste Seminário , Lacan funda a
Escola francesa de psicanálise e a nomeia Escola freudiana de Paris,
sublinhando sua filiação a Freud.
O real, impossível do “rapport” sexual,
constitui de fato a conclusão da elaboração da metáfora paterna de
1957-58. Esta nos ensina que recalcado é o falo. Ora, o falo é o
obstáculo ao “rapport” sexual. Isso vai ser desenvolvido nos
Seminários após 1964 : escrita, inscrita é a função fálica, eis a
mensagem das fórmulas da sexuação. E a consequência: o “rapport”
sexual não cessa de não se escrever, o que remete ao real do trauma. O
trauma singular de cada sujeito é sempre associado ao estrutural do
trauma que é “o real, impossível do “rapport” sexual”.