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Real e Repetição
Jacques Laberge

 
 

“Não adianta fazer análise, você repete as mesmas besteiras a vida toda”. Crítica amargurada ou questionamento incômodo, esta frase pontua o comentário de familiares ou dos próprios analisantes. Insiste em desafiar o analista, confrontado à singularidade do discurso de cada sujeito e à necessidade simbólica da invenção, da criação, da diferença.

O tema “Real e repetição” culmina em Lacan na articulação do real como impossível, “o que não cessa de não se escrever”, ao necessário do simbólico na articulação do sintoma com o Nome-do-Pai, “o que não cessa de se escrever”.

Mas, neste primeiro momento, vamos nos limitar aos primórdios da questão “Real e Repetição” sob um aspecto somente : “Trauma e repetição ”, em Freud. Embora haja a tendência de identificar facilmente trauma e real, devemos evitar esta simplificação. A respeito do Homem dos lobos, no Seminário I, Lacan sublinha a cunhagem imaginária (Prägung) do trauma.

Da obra de Freud, vamos destacar os seguintes textos: Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental de 1911 (G.W.VIII e St.br.XII);
Recordar, repetir, elaborar de 1914 (G.W.X e St.br.XII); Conferências introdutórias à psicanálise de 1916 (G.W.XI e St.br.XV);
Introdução à psicanálise de neuroses de guerra de 1919 (G.W.XII e St.br.XVII);
Além do princípio do prazer de 1920 (G.W.XIII e St.br.XVIII); Novas conferências de 1932 (G.W.XV e St.br. XII);
Moisés e a religião monoteista de 1937 (G.W.XVI e St.br.XXIII).

I-Repetição e Resistência
Quando alguém não recorda de modo algum o que esqueceu e recalcou, o atua (..) o reproduz(..) o repete.(..) Tanto maior a resistência, quanto maior a repetição que vem das fontes do recalcado (G.W.X,129-131 e St.br. XII,196-197). Esta afirmação é de 1914 quando Freud possuía uma concepção mais simples do psiquismo.

Os termos trauma e compulsão de repetição aparecem antes, mas é somente a partir de 1920 que Freud vai associá-los ao Além do princípio do prazer (Jenseits des Lustsprinzips). Este texto ruptura produzirá seus efeitos traumáticos nos leitores de Freud. Neste texto, Freud diz que o analista prefereria uma recordação mas que talvez seja a parte essencial do recalcado que o doente não pode recordar. Em relação à afirmação anterior de 1914, este posicionamento serve como uma das ilustrações do questionamento que a segunda tópica representa para a primeira. Freud deve se confrontar com a ligação mais complexa da repetição com a resistência, esta última provindo do eu consciente e pre-consciente (G.W.XIII, 16-17 e St.br.XVIII, 31). Repete-se na transferência como na vida, e Freud traz vários exemplos. Na transferência: situações indesejadas e emoções penosas, rebeldia, desprezo, ciume, interrupção ou dificuldade de desligar-se do tratamento. Na vida: conflitos no amor e na amizade, dependência da mãe repetida em relação à esposa, sedução, e em geral, repetição de atitudes prejudiciais (G.W.XIII, 19-21, 37 e St.br.XVIII, 34-36,53; G.W.XV, 113 e St.br.XXII, 132; G.W.XVI,180 e St.br. XXIII,94).

II- O Pre-tempo do Álem
Os processos mentais, lemos na primeira parte do Além do principio do prazer, são regulados automaticamente pelo princípio de prazer o qual sob a influência das pulsões de conservação do eu, é substituído pelo princípio de realidade que não abandona o prazer mas o adia e aceita o desprazer com uma tolerância temporária (G.W.XIII,3, 6 e St.br.XVIII,17 e 20). A ciência seria mais feliz do que a religião neste protelamento do prazer, conforme comentário de Freud em seu texto de 1911 sobre os dois princípios. Na segunda parte do Além, Freud evoca as neuroses traumáticas, de guerra e de tempo de paz. Sabemos com efeito que não é privilégio da guerra a luta contra inimigos e que somos todos neuróticos de guerra, da guerra entre o eu e o id, conforme comentário de Freud em sua breve Introdução à psicanálise das neuroses de guerra, escrito uns meses antes do Além (G.W.XII,322-324 e St.br.XVII, 260-263). Assim é que nesta parte II de seu Além, surgem as chamadas neuroses traumáticas comuns associadas a um medo, um susto ou uma angústia. Ali é introduzido o jogo do fort-da com o desaparecer e reaparecer (verschwinden - wiederkommen) do objeto representando sobretudo a mãe, mas também, escreve Freud, a própria criançinha ou o pai. Se se trata de algo primário e independente do princípio do prazer, esta dúvida se vê logo dirimida. A criança só foi capaz de repetir sua experiência desagradável na brincadeira porque a repetição trazia consigo uma produção de prazer de outro tipo (G.W.XIII,14 e St.br.XVIII,28). É no capítulo V que lemos : a criança repete a experiência desprazerosa (unlustvolle), porque consegue um maior domínio da forte impressão pela atividade mais do que pela passividade. Cada nova repetição mostra uma melhora da ambicionada dominação. É por isto que, ouvindo uma estória, a criança exige uma repetição rigorosamente idêntica, característica posteriormente superada (G.W.XIII,36-37 e St.br.XVIII, 52-53). Um chiste perde a graça se for repetido, acrescenta Freud. Podemos pensar que a repetição rigorosamente igual se encontraria na posição conservadora-obsessiva : o novo não presta.

Em lugar de recordação, a repetição de um pedaço da vida sexual infantil. (..) A compulsão à repetição deve ser atribuída ao recalcado inconsciente (...) expressão da força do recalcado (G.W.XIII, 16-17 e St.br.XVIII,31-33). Há, como vemos, uma insistência: na repetição, se manifesta o recalcado. Existe realmente na vida da mente uma compulsão de repetição que vai além do princípio do prazer (sich über das Lustprinzip hinaussetzt). Em alemão, “hinaus” junto com “über” equivale a “jenseits”, além. A compulsão de repetição (Wiederholugzwang) é qualificada como mais primitiva, mais elementar e mais pulsional do que o princípio de prazer deixado de lado (zur Seite geshobene Lustprinzip)(G.W.XIII,22 e St.br.XVIII, 37). Os sentimentos de prazer e desprazer predominam sobre todos os estímulos externos. (...) Descrevemos como traumáticas quaisquer excitações provindas de fora que sejam suficientemente poderosas para atravessar o escudo protetor. (..) O princípio de prazer é momentaneamente posto fora de ação (Aber das Lustprinzip ist dabei zunächst ausser Kraft gesetzt)(G.W.XIII,29 e St. Br.XVIII,45). Moisés e a religião monoteista de 1937 fala de traumas como impressões de natureza sexual e agressiva, e (..) de danos precoces ao ego(doença narcísicas), na época em que a criança não diferencia atos sexuais e agressivos, experiências sobre o próprio corpo do indivíduo ou percepções sensoriais, principalmente de algo visto ou ouvido, isto é experiências ou impressões (G.W. XVI, 177-179 e St.br.XXIII, 91-93). O trauma deixa o princípio de prazer sem força momentaneamente. O automatismo de repetição deixa o princípio do prazer “de lado”, Freud não falando neste caso de prazo de tempo. Assim tanto o trauma quanto a compulsão de repetição tem o mesmo efeito sobre o princípio de prazer: enfraquecer, marginalizá-lo. Relacionamento sutil, porque pouco depois, trauma e repetição são colocados no nível de independência que não contradiz o princípio de prazer.

No início da parte II do Além, justamente antes de se referir ao fort-da, Freud associa as neuroses traumáticas comuns a um medo, um susto ou uma angústia. Na parte IV, ele relaciona à realização de desejo os sonhos de angústia e de castigo efeitos da culpa. “Consciência de culpa” (Schuldbewusstsein) aparece já em Comportamentos obsessivos e práticas religiosas de 1907, e volta constantemente, sobretudo depois de 1920, assim como “sentimento de culpa” (Schuldgefühl). No fim da quarta parte do Além, lemos: A realização de desejo é, como sabemos, ocasionada de maneira alucinátória pelos sonhos, e, sob o domínio do princípio de prazer, tornou-se função deles. Mas não é a serviço desse princípio que os sonhos dos pacientes que sofrem de neuroses traumáticas nos conduzem de volta, com tal regularidade, à situação em que o trauma ocorreu. Podemos antes supor que aqui os sonhos estão ajudando a executar outra tarefa, a qual deve ser realizada antes (vor) que a dominância do principio de prazer possa mesmo começar. (..) Embora não contradiga o princípio de prazer, é sem embargo independente dele, aparececendo como algo mais primitivo (ursprünglicher) do que o intúito de obter prazer e evitar o desprazer. Aos sonhos-realização de desejo se opõem os sonhos dos neuróticos traumatizados (Unfallsneurotiker), precisamente “neuróticos por causa de um acidente”, e os sonhos tidos durante as psicanálises os quais trazem à lembrança os traumas (Traumen) psíquicos da infância. Estes sonhos obedecem muito mais à compulsão de repetição (Sie gehorchen vielmehr dem Wiederholungzwang) que com certeza é apoiada em análise pelo desejo provocado pela sugestão de evocar o esquecido e o recalcado (...)Há um “Além do princípio do prazer” correspondendo a um pre-tempo (Vorzeit) em relação ao sonho-realização de desejo que evita interromper o sono, algo não primitivo (nicht ursprüngliche) (G.W.XIII, 32-33 e St.br. XVIII,48-49). Freud insiste na anterioridade da dupla trauma-compulsão de repetição em relação à dupla princípio de prazer-realização de desejo, anterioridade sublinhada pela repetição dos termos “antes” (vor) e “mais primitivo” (ursprünglicher). Este “além” é um antes que reconhecemos em Lacan na anterioridade lógica do simbólico articulado ao real e ao imaginário, anterioridade do simbólico que convive, paradoxalmente, com a chamada equivalência dos registros, equivalência que o processo de análise questiona, abrindo, pelo chamado quarto nó, à diferença dos registros.

Se no começo, o trauma parece limitado a certos casos, na medida do progresso da leitura do texto do Além, e isto vai se comprovando nos textos posteriores, é impossível para um sujeito escapar a algum tipo de trauma. Assim no capítulo V do Além, lemos que o fracasso da ligação feita pelo processo secundário, o da vigilia normal, com o processo primário, inconsciente, leva a uma desordem análoga à neurose traumática; é somente depois de uma bem sucedida ligação que o domínio do princípio do prazer (e sua modificação em princípio de realidade) pode prosseguir sem entraves(G.W.XIII,36; St. br.XVIII, 52). Referindo-se à infância como à análise, Freud afirma que as manifestações de uma compulsão à repetição (..)mostram em alto grau o pulsional e onde atuam em oposição ao princípio do prazer, mostram um caráter demoníaco .(...) Para os analisantes (analysierten) se torna claro que a compulsão de repetir na transferência os acontecimentos de seu período de vida infantil se situa além (sich hinaussetzt über ) do princípio do prazer (...) os traços de memória recalcados de suas experiências primevas não estão nele em situação de ligação , não são aptas de certo modo ao processo secundário (G.W.XIII,36-37 e St.br.XVIII,52). Assim não dá para um sujeito escapar a algum tipo de trauma, pois além de impressões ou experiências em relação à sexualidade, e de danos precoces ao eu (doenças narcísicas), a própria ligação do processo primário ao secundário, com o atravessamento do “além”, deixa seus efeitos traumáticos.

III-Pulsões do eu, Guardiães da Morte
É neste texto do Além e também das Novas Conferências que se esclarece como, contra o monismo jungiano, o dualismo das pulsões, sempre mantido por Freud (e também por Lacan) passa das pulsões do eu-sexuais para as pulsões de morte-vida. Freud parte do fato que o ser vivo elementar não quer mudar. Acrescenta que cada ser vivo morre por motivos internos e que a primeira pulsão é voltar ao inanimado. A partir destas premissas, Freud conclui que as pulsões de auto-conservação (..) vigias da vida são originalmente guardiães da morte (G.W.XIII,40-41 e St.br.XVIII,56). Freud afirma que influências externas decisivas se alteraram de maneira a obrigar a substância ainda sobrevivente a divergir mais amplamente de seu original curso de vida e a efetuar desvios mais complicados até atingir seu objetivo de morte.(..) Freud opõe vias externas a vias internas de “auto-destrutividade” como são chamadas nas Novas Conferências . As pulsões de conservação de vida são mais propriamente conservação de morte : Estes vigias de vida são originalmente guardiães da morte. A vida provém de uma matéria não viva, dalí nossa suposição que antigamente devia haver uma pulsão que procurou tirar a vida e restabelecer o estado inorgânico (G. W. XIII, 40-41 e St.br.XVIII,56; G.W.XV, 114 e St.br.XXII,133). Observemos que são as intervenções externas que pressionam para a vida. Isto é, o ser vivo pede para o outro : “não se meta, me deixe morrer em paz, não me tire desta gostosa, gozosa auto-destruição!”

No início da sexta parte de seu Além, Freud sublinha a oposição nítida (scharfen Gegensatz) entre pulsões do eu (Ichtriebe) e pulsões sexuais (Sexualtriebe), pressão para a morte - para a vida. E considera esta conclusão como insatisfatória. Mas são as pulsões do eu que tem um caráter conservador ou melhor retrógrado, correspondente a uma compulsão de repetição (..) procuram restaurar o estado inanimado, enquanto as pulsões sexuais visam a coalescência de duas células germinais que são diferenciadas de maneira particular (..) prolongando a vida. Este trecho permite sublinhar o mesmo da repetição ligado às pulsões de morte e a diferença trazida pelo outro nas pulsões de vida. Corresponde ao tempo original da questão “diferença e repetição”. Mais adiante, nesta sexta parte, Freud ilustra o dualismo em relação ao próprio objeto pela oposição amor (ternura) e ódio (agressão) (G.W.XIII, 57 e St. br.XVIII, 73-74).

IV-Realização de desejo, de angústia, de punição
No fim da vigésima nona das Novas Conferências, Revisão sobre a teoria dos Sonhos, Freud retoma a décima quarta das Conferências para introdução à psicanálise de 1916, Realização de desejo, quando as múltiplas funções atribuídas aos sonhos eram reduzidas a tres: realização de desejo - realização de angústia - realização de punição (Wunscherfüllung - Angsterfüllung - Straferfüllung). Freqüentemente um sonho de angústia tem um conteúdo que pela total deturpação escapa à censura. O sonho de angústia é muitas vêzes uma realização clara de desejo, naturalmente não aceitável, mas de um desejo foracluído (verworfenes Wunsch). O desenvolvimento da angústia se coloca no lugar da censura (G.W.XI,222 e St.br. XV,259). A respeito do sonho como realização de desejo, de angústia, de punição, Freud lembra que a punição é também uma realização do desejo de outra pessoa censurando e que a angústia é o oposto direto do desejo (G.W.XI, 225 e St.br XV, 262). É no fim da Conferência 29 que Freud lembra o super-eu, esta instância crítica, censora e punidora da mente. Então, as três funções do sonho desejo-angústia-punição acabam se reduzindo a uma: realização do desejo. Logo em seguida, lemos: Contra a teoria da realização de desejos de sonhos, surgiram apenas duas dificuldades sérias. (...) A primeira (...) pessoas que atravessaram um experiência de choque, um trauma psíquico grave, caso freqüente na guerra, e que servia de base para uma histeria traumática, são regularmente reconduzidas pelo sonho à situação traumática. A segunda dificuldade é o vínculo das experiências sexuais infantis à angústia, proibição, desapontamento e punição. Freud lembra no fim desta conferência 29 que as experiências da infância também tem um caráter traumático. Algumas linhas antes, após falar dos sonhos em caso de neuroses traumáticas, podemos ler : Dizemos, o sonho é uma realização de desejo; se querem levar em conta a última objeção, podem dizer então pelo menos, o sonho é uma tentativa de uma realização de desejo (G.W.XV,28-31 e St.br.XXII,41-43).

Aproveitamos aqui para sublinhar, a respeito do sonho de angustia, o recurso ao adjetivo “verworfenes”. Lacan sublinha nos textos de Freud o substantivo Verwerfung e o verbo verworfen como termos expressando o real, particularmente o real do fenômeno ou da estrutura psicótica. Em Psiconeuroses de defesa de 1894, encontramos verwirft como defesa da moça que alucina a presença de um suposto namorado. Trata-se de uma confusão alucinatória quando o eu foraclue a representação intolerável junto com seu afeto e se comporta como se a representação nunca tivesse ocorrido ao eu. A este fenômeno psicótico, Freud opõe a manifestação neurótica, defesa frente a uma representação intolerável através de uma separação de seu afeto. (G.W.I,72 e St.br.III,71). Mais conhecido por todos nós é o uso da frase Uma foraclusão é algo diferente de um recalque que encontramos na história do Homem dos lobos, a respeito de manifestações do real psicótico. Por mais paradoxal que seja a expressão “desejo foracluído”, Freud aponta, a respeito da angústia, para um elemento que escapa ao simbólico. Aliás, a 13 de maio de 75, em R.S.I, Lacan fala da inibição no campo do imaginário, do sintoma no campo do simbólico e da angústia no campo do real. De fato é esta tríade que servirá, entre outros fins, para tentar esclarecer a oposição “sonhos - realização de desejos” e “sonhos traumáticos”, pois os chamados traumas infantis são intrincados aos desejos associados à “angústia, proibição, desapontamento e punição”.

Na conferência XXXII, Angútia e vida pulsional, partindo da repetição da antiga experiência traumática, Freud coloca tres questões para ínvestigação futura: a primeira, a respeito da mistura das pulsões de vida e de morte, as últimas estando à serviço das primeiras, como a agressão o ilustra ; a segunda, a questão de saber se o caráter conservador não poderia pertencer a todas as pulsões sem exceção; a terceira, se também as pulsões eróticas não poderiam estar buscando reconstituir uma situação prévia. Freud associa a resistência em análise a uma forte necessidade de punição, que podemos ligar somente a desejos masoquistas (...) pior inimigo de nosso esforço terapeutico (...) e parte de toda doença neurótica. Acidentes, doenças, ilustram também a necessidade de punição que remonta a um sentimento de culpa inconsciente (unbewusstes Schuldgefühl) (G.W.XV, 88, 115-116 e St. br. XXII, 104, 135-136). Convidando-nos à investigação futura, Freud nos revela algo do impacto causado na sua teoria pelo surgimento da segunda tópica marcada pelo além do princípio do prazer. Pois afinal, desestabilizando suas posições anteriores, este além lhe coloca novas questões.

V-Efeitos positivos e negativos dos traumas
Em Moisés e a religião monoteista, de 1937, na parte C sobre Analogia entre a história da religião judáica e a história do indivíduo, lemos que não é possível , em todos os casos, descobrir um trauma manifesto mas que é irrelevante a distinção entre etiologias traumáticas e não-traumáticas,(...) sendo os fenômenos (sintomas) de uma neurose conseqüência de experiências e impressões que reconhecemos como traumas etilógicos (G.W.XVI, 178; St.br.XXIII,92). Esta afirmação decisiva leva a concluir que ninguém escapa ao trauma.

Freud opõe, nos traumas, os efeitos positivos aos negativos. Os positivos:
recordar a experiência esquecida (vergessene Erlebnis) ou, melhor ainda, torná-la real, experimentar uma repetição (Wiederholung) dela de novo (...) revivê-la (wiederaufleben) num relacionamento análogo com outra pessoa. Resumimos esses esforços sob o nome de fixação no trauma (Fixierung an des Trauma) e como compulsão de repetição (G.W.XVI, 180; St.br.XXIII, 94). Se em Recordar, repetir e elaborar de 1914, destaca-se o valor do recordar em comparação com o repetir associado à resistência, aqui em 1937 se opera o contrário. Esta mudança ilustra a dificil e significativa passagem da primeira para a segunda tópica. Dificuldades na clínica, apegos dos analisantes a seus conflitos levaram Freud a descobrir o Além do princípio do prazer. Em 1914, a relação repetição - resistência por exemplo era mais simples. Ela se complica a partir de 1920, pois no Além se sublinha que é a parte essencial do recalcado que não se consegue recordar. Sobretudo, Freud precisou se confrontar com o aspecto auto-destrutivo das pulsões do eu, núcleo da própria resistência à análise. E quando Lacan nos fala da resistência do analista associada a seu saber, precisaríamos pensar em referência à Freud, nas pulsões do eu auto-destrutivas do analista, alimentando a compulsão de repetição do analisante.

Imaginem. Estamos, conforme Freud, nos efeitos positivos dos traumas, recordar e repetir. Por mais paradoxal que seja, efetivamente repetir se revela melhor, pois é o meio privilegiado que dispõe o analisante em sua transferência. Repetir na vida dificilmente pode ser melhor, pois é habitualmente uma desgraça, a não ser que esta desgraça, em alguns casos, sirva justamente de motivação para se iniciar uma análise. Repetir na transferência permitiria que a repetição, pouco a pouco, fosse reduzida a seu núcleo central. Lacan nos lembra no início do Seminário R.S.I. que o equívoco do simbólico vem reduzir o imaginário do sentido. O grande sentido do gozo no sofrimento comandado pelo gozo do Outro se vê atravessado pelos equívocos do simbólico para deixar lugar a outros efeitos de sentido. Pois afinal, a análise, em seus paradoxos, reduz o sentido do gozo do sofrimento para permitir a criação de novos sentidos onde o imaginário se renova.

Ora, o equívoco do simbólico vindo reduzir o sentido, imaginário, depende da insistência da cadeia significante. No Seminário sobre a carta roubada de 1955, Lacan observa que o automatismo de repetição (Wiederholungszwang) toma seu princípio do que temos chamado a insistência da cadeia significante. (...) Sabemos, é claro, da importância das impregnações imaginárias (Prägung) nessas parcializações da alternativa simbólica que dão à cadeia simbólica seu jeito (Ecrits, 11). A partir do Seminário XX, Mais ainda (Encore), em que toma relevo o tema da escrita, Lacan fala do necessário, o que não cessa de se escrever, o que remete ao simbólico, em oposição ao impóssível do real, o que não cessa de não se escrever. Podemos então nos referirmos ao positivo do trauma enquanto a repetição simbólica permitir uma elaboração visando uma redução do imaginário do trauma. No Seminário I, a respeito do trauma no Homem dos lobos, Lacan fala da impregnação imaginária (Prägung). Em análise, um trauma em sua inflação imaginária pode ser elaborado simbólicamente, os restos de lembranças isoladas, conhecidos como lembranças encobridoras (G.W.XVI,79 e St.br. XXIII, 93) servindo de mediação entre o imaginário e o simbólico. De tal maneira que o real do trauma não é o trauma, mas seu aspecto inacessível, foracluído.

Este real é referido pelos efeitos negativos do trauma mencionados por Freud. Em comparação aos efeitos positivos do recordar e do repetir, os negativos seguem o objetivo contrário, que nada dos traumas esquecidos deva ser recordado e repetido (von den vergessenen Traumen nichts erinnert und nichts wiederholt werden soll). Alí, Freud remete às reações de defesa (Abwehrreaktionen) cuja expressão principal se encontra nas chamadas evitações (Vermeidungen) que podem se intensificar para Inibições (Hemmungen) e fobias(Phobien) que são fixações no trauma tanto quanto seu contrário, num conflito sem conclusão (G.W.XVI,180 e St.Br.XXIII,94).

Não dá para entender que as fobias e inibições escapam à ordem do repetir, isto é, fogem à insistência da cadeia significante, simbólica. Mas, nestas situações, estaríamos confrontados mais diretamente a um limite em que se destaca o impossível do real. E justamente depois dos efeitos positivos e negativos do trauma, Freud sublinha o lado compulsivo (Zwang), qualificando-o partido inacessível (unzugängliche) e inútil (unbrauchbare) para um trabalho de colaboração, abrindo o caminho para a Psicose (G.W.XVI, 181 e St.br.XXIII,95). Aqui, Freud estaria sublinhando o lado real do trauma, o lado real da compulsão, usando os termos “fixação”, “inacessível”, “inútil”, “psicose”. Lacan sublinha o lado “real” da neurose de angústia, da fobia, e, em Le Sinthome, alude à inibição de escrever como algo praticamente inacessível pela psicanálise.

Freud termina o ponto C da parte I do Moisés com o caso do menino que observa repetidas vezes o coito dos pais, se excita e tenta assaltar sexualmente a mãe que o ameaça da castração pelo pai, produzindo um efeito traumático extraordinariamente forte. O menino procura castigos corporais identificando-se sexualmente à mãe maltratada. Na puberdade aparece a impotência sexual. Depois, sua masculinidade se manifesta no ódio ao pai, traduzido pelo fracasso em uma profissão imposta. Casado, ele é despótico, identificando-se com um pai brutal, onde, diz Freud, se reconhece o retorno do recalcado (Wiederkehr des Verdrängtens), que justamente com os efeitos imediatos do trauma e com o fenômeno da latência, temos descrito sob os traços essenciais de uma neurose. E na sequência, Freud inicia o ponto D : Trauma prematuro - defesa - latência - eclosão da doença neurótica - retorno parcial do recalcado : assim é o teor da fórmula que sobre o desenvolvimento de uma neurose temos apresentado. ( G.W.XVI,185 e St.br.XXIII,99). O trauma é prematuro e pertence à fórmula mesma da neurose.

De Algumas Questões
A realização de desejo é associada ao princípio do prazer, prazer-desprazer precisa Freud em suas Formulações sobre os dois princípios de 1911(G.W.VIII,231 e St.br.XII, 278). O princípio de realidade é um protelamento do princípio do prazer. Mas a dupla desejo-prazer ( os sonhos de angústia e de punição pertencem também à realização de desejo) deve conviver com a dupla trauma-repetição. Esta segunda dupla responde ao além do princípio de prazer que, embora deixe de lado,sem força o princípio do prazer, não o contradiz e se situa em relação a ele de modo independente e mais primitivo.

A introdução do além do princípio do prazer corresponde a uma revolução no pensamento de Freud. A clínica psicanalítica lhe revelou a importância das chamadas resistências, algo não meramente fenomenal, mas expressão de um princípio “além”, mais primitivo, mais primário do que o princípio de prazer e que complica radicalmente a ligação com o princípio de realidade. A introdução da segunda tópica criou tal impacto que foi rejeitada por muitos discípulos de Freud e que deixou na própria teoria freudiana restos “traumáticos”. Afinal não existe encaixe entre a primeira e a segunda tópica.

É quebrando a cabeça contra estas e outras questões que Lacan se deparou com a necessidade de uma nova tríade: o simbólico remeteria ao “além”, o imaginário ao princípio de prazer e o real ao impossível na realidade. Afinal a chamada realidade não se sustenta como referência estruturante e representa uma das causas maiores das confusões deixadas por Freud.

 

 Intersecção Psicanalítica do Brasil