Na obra de Lacan, a diferença começa marcando os registros em sua
articulação inspirada na ordem dada pelo texto de 1953 O simbólico, o
imaginário e o real que se refere ao confronto destes tres registros (...)
muito distintos. É somente depois de definir, em 1965, o real como
“impossivel da relação sexual” que Lacan, não somente deixará de dizer
algo do tipo “Do real ? Vou falar na próxima vez!”, mas, sobretudo,
recorrerá à escrita do nó borromeu que abre a questão da equivalência dos
registros. Mais adiante em R.S.I., ele afirma: não somente o Real pode se
suportar de uma escritura, mais não há outra, outra idéia sensível do Real
(22,17-12-74).
Escrita e Significante
A temática da escrita domina o
Seminário 20 Mais ainda ( Encore). Alí, podemos reconhecer contribuições
de vários momentos anteriores de Lacan : A instância da letra no
inconsciente, a insistência sobre o traço unário que reaparecerá depois na
figura da reta infinita, esta descrita em R.S.I. como fazendo barra no
nível da própria imaginação (22,13-5-75), a escrita dos quatro discursos
por meio de suas letras, associadas às outras, o phi e o S de A barrado.
Além da escrita dos matemas da sexuação, surge como decisiva no Seminário
20 e nos seguintes a definição de contingente, de necessário, de possível
e de impossível em função do verbo escrever. A escrita elabora e
aperfeiçoa o significante (20,37), esta afirmação do Mais Ainda (Encore)
nos mostra como a própria escrita representa eminentemente o título deste
Seminário, por ter como que uma função suplementar em relação ao
significante. O nó borromeu significaria um passo a mais enquanto muda
completamente o sentido da escrita (...) mostra que há algo a que se pode
pendurar ( accrocher) significantes (...) por meio (...) da dit-mensão, da
menção do dito , conforme comenta Lacan em Le Sinthome (23,11-5-76).
Matemática e Equivalências
O mais conhecido dos aspectos de
equivalência provém da frase basta que uma não se sustente para que todas
as outras se dispersam. Aplicada às cordas do nó borromeu, esta frase
provém, de fato, do uso da letra na linguagem matemática (20,116). Se o
significante se coloca tendo nenhuma relação com o significado(20,32), se
o significante é desprovido de sentido (22,17-12-74), recebe um reforço da
letra que aperfeiçoa e elabora o significante. Desde 1956 em A instância
da letra, o logico-positivismo com sua procura do sentido do sentido é
questionado por Lacan que privilegia os algoritmos matemáticos, estes sem
nenhum sentido (E.498). Letras não querem dizer nada (21,12-2-74), lemos
no Seminário Os não tolos erram (Les non-dupes errent). É alí que Lacan
introduz suas últimas letras, R.S.I. . Por quê as letras? Para solapar
qualquer tipo de substantificação dos registros, para fazer abstração da
consistência como tal, lemos em R.S.I. (22,14-1-75). Por quê esta mudança
em relação à ordem, consagrada no título de 1953, O simbólico, o
Imaginário e o Real e que vai atravessar toda a obra de Lacan e até
conviver com as letras e a sequência R.S.I. ? Colocado em primeiro lugar,
o R viria sublinhar a radicalidade do “real do nó” e também destacar que,
na escrita do nó, o laço do real sobrepassa por duas vêzes o laço do
simbólico, além de lembrar que devemos partir deste fato fundamental do
“impossível do rapport sexual”, quando o simbólico, com sua linguagem e
seu meio-dizer da verdade, desempenha, neste aspecto, uma função de
suplência. Mas Lacan comenta que a respeito da linguagem, não disse que
ela vinha tapar um buraco, constituído pelo não-rapport (...) do sexual,
pois este não-rapport é suspenso somente a ela.(...) É isso em que se
inscreve este não-rapport (22,17-12-74). A linguagem, o simbólico tem uma
anterioridade lógica sobre o real. Afinal, a psicanálise começa pelo
reconhecimento que, partindo da fala, há simbólico, há recalque, há
recalque do falo, “enigmático em suas ausências”, obstáculo ao rapport
sexual. É dalí que ex-siste o real como o impossível do rapport sexual.
Quando introduz suas últimas letras, R. S. I., em fins de 73, Lacan
afirma que estas tres dimensões (...) se pode fazê-las estritamente
equivalentes e que o são como dimensão do nosso espaço habitado enquanto
ser falante (...). E temos o truque : designa-se as por letras. Segundo
Lacan, as tres letras R.S.I. podem ser substituídas por a, b, c, qualquer
uma valendo qualquer outra das letras. Servindo à equivalência dos
registros, as letras viriam corrigir nosso erro : Vocês entenderam, mas
erradamente (...) a importância esmagadora do simbólico(21,13-12-73). De
fato, é o próprio Lacan que nos induziu a este erro. O que sobrará desta
importância agora repartida entre os tres ? A anterioridade lógica do
simbólico indicada nos primeiros Seminários e reencontrada na frase do
R.S.I. : é do equívoco fundamental ao (...) simbólico que vocês sempre
operam (22,10-12-74).
Alí, Lacan fala de equivalência destas unidades e remete ao um, ao cada
um dos tres registros. Utiliza várias vêzes o verbo homogeneizar
(22,11-2-75; 18-3-75) e se refere aos círculos, todos tres equivalentes
(...) constituídos de algo que se reproduz nos tres(...) consistência
(...) buraco (...) ex-sistência (23,16-12-76). Embora afirme que a
consistência do imaginário é equivalente àquela do simbólico como àquela
do Real (22,11-2-75), Lacan não deixa de falar de consistências enquanto
são diferentes (22,18-3-75).
Em Le Sinthome, lemos uma afirmação nova e curiosa que dá à questão
equivalência-diferença real destaque: quando há equivalência, é bem nisto
que não há rapport (...) um fracasso (ratage) do nó a tres, este fracasso
é estritamente equivalente (...) nos dois sexos (...) os dois sexos são
equivalentes. Mas se a falha é reparada no lugar mesmo, os dois sexos,
(...) não são mais equivalentes. (...) É na medida que há sinthome que não
há equivalência sexual, isto é, há rapport. Pois é claro que se dissemos
que o não-rapport provém da equivalência, é na medida em que não há
equivalência que se estrutura o rapport. Há então ao mesmo tempo rapport e
não-rapport. Com a pequena diferença que alí onde há rapport, é na medida
em que há sinthome. Isto é, como disse, é do sinthome que é suportado o
outro sexo. (...) Se uma mulher é um sintoma para qualquer homem (...)
pode-se dizer que o homem é para uma mulher tudo o que lhes apraz, seja
uma aflição, pior do que um sinthome, (...) até um estrago ( ravage)
(23,17-2-76).
Lacan passa da equivalência dos registros à equivalência no fracasso da
relação sexual tanto da parte de uma mulher quanto da parte do homem. Ele
não diz simplesmente que com o conserto operado pelo quarto nó, há
rapport. Diz que há rapport e não-rapport. E que tipo de rapport há entre
uma mulher e o homem, que tipo de rapport entre um “sinthome”, e a
“aflição” ou o “estrago”? De afligir ou de estragar o sinthome? O que há
de certo, é que o impossível do rapport sexual, frase que, desde 1965,
Lacan não deixa de repetir, se fundamenta no fato que recalcado é o falo,
obstáculo ao rapport sexual. Em Le Sinthome, um mês depois de afirmar “há
rapport, não há rapport”, Lacan retoma seu refrão habitual : Tento lhes
passar um pedaço de real (...) e digo que não há rapport sexual
(23,16-3-76). E dois anos depois, em Momento de concluir, declara : não há
rapport sexual, é o fundamento da psicanálise (25,11-4-78).
Sentido e Diferenças
Lacan sempre questionou o sentido do
sentido (o Outro do Outro) promovido pela filosofia, pela ontologia e sua
primazia do ser, pela história e pela religião. Tudo o que havia sido
feito de filosofia transbordava o rapport sexual (22,18-3-75). O sentido
em direção ao rapport sexual se torna sem sentido pela interferência do
falo. Assim como o movimento de uma sessão de análise, seu sentido em
direção ao amor do sujeito suposto saber esbarra no corte representado
pelo surgimento do significante. Este sentido se reduz ao não sentido do
rapport sexual, lemos em Télévision (18). E R.S.I. mostra o equívoco do
simbólico servindo para reduzir o sentido sustentado pelo Imaginário
associado à debilidade mental (22,10-12-74). Entendo a expressão “sentido
do sentido” na clínica analítica como o peso do próprio gozo no
sofrimento.
Lacan opõe “equivalências” a “diferenças” que articula à questão do
sentido. Estes tres termos Real, Simbólico e Imaginário tem um sentido.
São tres sentidos diferentes. (...) O que diferencia (...) (os ) círculos
de barbante, o que diferencia um dos outros, nada senão o sentido
(22,10-12-74). É a partir dele que se definem os termos Real, Simbólico e
Imaginário. (...)uso da distância de sentido ( écart de sens) que é
permitido entre R.S.I., como individualizando estes tres círculos, os
especificando como tais (22,17-12-74). A “distância de sentido” vem
diferenciar, individualizar cada registro. Por outro lado, o significante
é desprovido de sentido (...) e não deixa de ser verdade que é somente
apagando todo sentido que a ex-sistência se define (22,17-12-74). E até a
consistência será, em Le Sinthome, descrita como a forma mais desprovida
de sentido (23,9-3-76). Cada um dos registros tem sua maneira diferente de
lidar com a questão equivalente do desprovimento do sentido. No nó
borromeu a tres, se se destaca a equivalência, esta deve conviver com a
diferença dos registros que, diz Lacan, A título de ex-sistência, são,
cada um, distintos (22,17-12-74). Uma outra maneira (...) de
diferenciá-los, seria colorí-los (22,18-3-75). Não devemos deixar de
destacar também que a triplicidade do nó, do R.S.I., se desdobra em outra
triplicidade que afinal realça diferenças, do sentido, do gozo fálico e do
gozo do Outro. Deste último, se trata do genitivo, não subjetivo mas
objetivo (22, 11-2-75) não o Outro do significante, mas o Outro do corpo,
o Outro do outro sexo (22,17-12-74), neste lugar chamado o verdadeiro
buraco, onde não há Outro do Outro (23,13-4-76).
Equivalência do buraco, diferença dos buracos : no nível do imaginário,
o eu que na representação faz buraco (...) Este buraco do real, designa-se
de vida (...) e é na morte que se encontra a função do simbólico
(22,17-12-74). Equivalência do buraco, diferenças dos buracos.
Equivalência da ex-sistência, diferença das ex-sistências. Equivalência da
consistência, diferença das consistências. A equivalência sublinha o
singular. A diferença destaca o plural.
Os Nomes do Pais: Nomeando, diferenciam
Em 11 de março de 75,
às letras R.S.I. supondo uma equivalência, Lacan opõe a fala : se as falo
como Real, Simbólico e Imaginário, isso toma sentido (...) o próprio do
sentido é que alí se nomeia algo. Parte da fala e de seu “efeito de
sentido”, expressão muito usada nestes Seminários e que se contrapõe ao
sentido do sentido, este tão presente no gozo do sofrimento do analisante.
A própria experiência de análise promove justamente a passagem da posicão
do sentido do sentido para os efeitos de sentido.
Lacan lembra que, em Freud, com seu complexo de Édipo fazendo função do
quarto nó, tudo gira em redor do Nome-do-Pai (...) Os Nomes do Pai, é isso
: o Simbólico, o Imaginário e o Real (...) Os nomes primeiros enquanto
nomeiam algo (..). O Nome-do-Pai, isso não é nada outro do que este nó,
não há outro meio de fazer do que suportá-lo desanodado (...) Reduzo o
Nome-do-Pai à sua função radical de dar um nome às coisas (22,11-3-75). A
necessidade de um quarto termo (...) Sem o quarto, nada é propriamente
falando posto em evidência (...) do que é verdadeiramente o nó borromeu
(22,13-5-75). Em seu livro Os Nomes do Pai em Jacques Lacan, Porge nos
lembra que a partir do quarto nó, a equivalência entre os aneis cessa e se
pode diferenciar R S et I conforme suas combinaçoes em duplas (174).
Com o surgimento do quarto nó, Nome-do-Pai que, de nomeado se torna
nomeante e que com seu “sou o que sou” se nomeia sem se nomear, ocorre uma
nova volta sobre a relação fala-escrita. No Seminário 20, Mais ainda
(Encore), a escrita e a letra se apresentam como elaborando, aperfeiçoando
o significante, no questionamento ao sentido do sentido, surgindo a
equivalência dos registros, radicalizada no Seminário 21 pela introdução
das últimas letras, R.S.I.. No Seminário 22 em que o título R.S.I. domina
a cena, ocorre como que uma reviravolta : as letras não dão “a última
palavra”. Se as falo como Real, Simbólico e Imaginário (...) alí se nomeia
algo (22,11-3-75). A nomeação se revela o mais um em relação à escrita. No
quarto nó, o complexo de Édipo de Freud volta à cena restaurado como
Nome-do-Pai nomeador, a equivalência deixando o lugar à diferença dos
registros, não somente diferença, mas diferença nomeada : nomeação do
Imaginário como inibição, nomeação do Real como (...) angústia, nomeação
do Simbólico (...) sob a forma do Sintoma (22,13-5-75). Nomeação que o
Seminário seguinte, Le Sinthome, vai ilustrar: Chamo as coisas de que se
trata por seu nome Simbólico, Imaginário e Real. Na boa ordem
(23,16-3-76), isso em oposição ao mando do real, impossível, porque
marcado pela ausência de lei e de ordem (233,13-4-76). R.S.I. e suas
equivalências deixam o lugar ao nomeado que diferencia: o Simbólico, o
Imaginário e o Real, a nomeação tendo um efeito de barra, de limite de um
registro em relação ao outro. O quarto nó vem suspender a posição da
escrita em seu papel de aperfeiçoamento do signficante, a nomeação falada
abrindo para um novo efeito de escrita.