Em fins de 1953, a editora Presses Universitaires de France publica sob
o título “A técnica psicanalítica” uma obra contendo vários artigos de
Freud apresentados entre 1904 e 1918 (O método psicanalítico; Da
psicoterapia; Perspectivas de futuro da terapia analítica; A propósito da
análise leiga; O manejo da interpretação dos sonhos em análise; A dinâmica
da transferência; Conselhos aos médicos sobre o tratamento analítico; Do
falso reconhecimento (já contado) no decurso do tratamento psicanalítico;
O início do tratamento; Rememoração, repetição e elaboração; Observações
sobre o amor de transferência; As vias novas da terapêutica
psicanalítica).
Lacan lembra que Freud se refere constantemente à técnica, por exemplo,
na Interpetação dos sonhos, nos Estudos sobre a histeria e em Análise
terminável e interminável.
A tríade “O simbólico, o imaginário e o real” havia sido introduzido em
junho de 53. Na edição oficial do Seminário I de Lacan, dispomos de uma
única sessão de 1953, a da abertura de 18 de novembro. O termo “real”
aparece pela primeira vez neste Seminário na sessão de 13 de janeiro de
54. Logo antes, Lacan havia destacado a singularidade de cada caso e o
trabalho de análise como “reescrever a história”.
Aqui a experiência analítica é dita por alguns como apreensão
fantasmática do mundo que deve reduzir-se, transformar-se, equilibrar-se
em uma certa relação ao real. O acento é colocado, diferentemente do que
em Freud, sobre a transformação da relação fantasmática em uma relação que
se chama, sem procurar além, real (21). Já que se sustenta que se trata de
obter uma readaptação do paciente ao real, precisaria de qualquer jeito
saber se é o ego do analista que dá a medida do real (24). Lacan se revela
crítica desta posição, pois a posição freudiana iria na linha de uma
reescrita da história. Conforme estes autores, tratar-se-ia de uma redução
do imaginário, para uma relação mais “real”. Ora, curiosamente, vinte anos
depois, o Seminário XXII, R.S.I., apresenta a experiência analítica como
operando do equívoco fundamental do Simbólico, reduzindo o sentido que é
do campo do Imaginário, enquanto o real é “estritamente
impensável”(10-12-74). De fato, o real a partir de 1970 se chama sobretudo
“o impossível do rapport sexual”.
Palavra Recusada - Palavra Esquecida
Vou destacar agora algo
das sessões de 3 e de 10 de fevereiro de 54. Lacan focaliza a importância
da palavra. É, aliás, a característica do Seminário: dar a primazia não ao
ego mas à palavra. Lacan diferencia a palavra recusada da palavra
esquecida. A palavra recusada, porque verworfen, rejeitada pelo sujeito
(64) se vê ilustrada pelo caso do “Homem dos lobos” que recusou, rejeitou
- o termo alemão é verwirft - tudo o que é do plano da realização genital
(54). A palavra esquecida, Signorelli, termo esquecido por Freud, por ser
Signorelli associado à morte como “signor” , morte de um paciente de
Freud.
Lacan fala de uma resistência, que tornaria a vinda da palavra
impossível (60).
Quando se refere à alucinação do dedo cortado do “Homem dos lobos”,
Lacan especifica que se trata de uma Verwerfung, de uma rejeição situada
em uma não-Bejahung. Fala de um real primitivo neste fenômeno de psicose
(70).
Alí, Lacan distingue o reconhecido do visto: o que não é reconhecido
faz irrupção na consciência sob a forma do visto(70).
A palavra esquecida já foi reconhecida. Ela não o é atualmente pelo
esquecimento. A palavra recusada nunca foi reconhecida. Ela é vista na
alucinação.
Análise das Resistências
Questionando Anna Freud e sua
análise das resistências que interpreta a relação analítica conforme o
protótipo da relação dual, que é a relação do sujeito à sua mãe (..)
quando o analista entra em uma rivalidade de eu a eu com o analisado(78).
Lacan sublinha que o analista ignora a constelação simbólica que jaz no
inconsciente do sujeito(79) e que deve estar atento às ambigüidades do
complexo de Édipo. E alí Lacan fala, no plural, das relações duais da
estrutura edipiana. A relação que liga o sujeito à mãe é distinta daquela
que o liga ao pai, a relação imaginária ou narcísica com o pai é distinta
da relação simbólica, e também da relação que devemos chamar real - a qual
é residual em relação à arquitetura que nos interessa na análise (79).E é
algumas linhas depois desta afirmação que a alucinação do “homem dos
lobos”, como resultado da simbolização do sentido do plano genital (que)
foi verworfen é identificada ao real, a um real que recebe uma definição.
O real, ou o que é percebido como tal, é o que resiste absolutamente à
simbolização(80).
Chama atenção aqui o real como “residual” . Este residual não deixa de
anunciar o “ex-siste”, dos anos 70, o “ex-siste” do impossível do
“rapport” sexual, articulado ao Simbólico como buraco e ao Imaginário como
consistência.
Mas o real vai se firmar como impossível do rapport sexual somente a
partir de 1970. Nos anos cincoenta, a palavra recusada não é do estutural
impossível do rapport sexual, mas do fenômeno psicótico.
Melanie Klein
A partir do trabalho de M. Klein considerado
como o primeiro de análise de criança psicótica - embora este diagnóstico
possa ficar suspenso - Lacan aproveita para ilustrar o inconsciente como
discurso do Outro : é o discurso de M.Klein que enxerta(..) as primeiras
simbolizações da situação edípica (100), simbólico articulado ao
imaginário do jogo de projeções e introjeções, expulsões. E aí Lacan diz :
todo problema é aquele da junção do simbólico e do imaginário na
constituição do real (88).
Aqui aparece o real como efeito da junção do simbólico e do imaginário.
E o que vem em seguida no texto do Seminário é a constituição da imagem
real a partir do espelho côncavo. Mas isso em função da diferenciação do
mundo imaginário e do mundo real na economia psíquica, falando alí de
relações reais ou objetivas (93). Um pouco mais adiante, vemos no texto
que o mundo exterior, real, é um mundo humanizado, simbolizado, feito da
transcendência introduzida pelo símbolo na realidade primitiva.Lacan diz,
por exemplo, que o pequeno Dick não está no real(102), que no caso aqui
significaria que não está integrado ao mundo real, isto é, o mundo
simbolizado. É a partir do colocação em ato do recalque, do inconsciente,
que a palavra de M.Klein ilustra junto ao pequeno Dick, que há uma
ordenação dinamizadora do psiquismo. A mola desta observaçõ, é o que devem
entender - a virtude da palavra, enquanto o ato da palavra é um
funiconamento coordenado a um sistema simbólico já estabelecido, típico e
significativo(103).
E passando à sessão seguinte, logo Lacan nos fala que somos levados,
para entender a experiência analítica, a partir de novo (..) da função
simbólica,(..) função da palavra (105). E de novo, na sessão seguinte,
insisto na noção do simbólico dizendo que convém sempre partir dalí (125).
Lacan lembra que os registros, o simbólico, o imaginário e o real (..) não
são tres campos (..) Há várias maneiras de introduzir as noções. A minha
tem seus limites, como qualquer exposição dogmática. Mas sua utilidade é
de ser crítica(130-131).
Dans la schizophrénie, il se passe quelque chose qui perturbe
complètement les relations du sujet au réel (132). O real aqui é bem do
mundo exterior, real. O sujeito psicótico, se ele perde a realização do
real, não encontra, ele, nenhuma substituição imaginária. É isso que o
diferencia do neurótico (134).Ele se situa em um irreal simbólico. O que
há de certo é que Lacan se refere muito à psicose, a fenômenos psicóticos
nesta primeira metade do Seminário.
Em sua Introdução ao narcisismo, Freud nos diz que neuróticos e
psicóticos se afastam da realidade externa, mas que só o neurótico
substitue este afastamento por fantasias. E Lacan que, na sessão de 24 de
março de 54, comenta este texto de Freud, usa muitas vêzes real neste
sentido usado por Freud, assim como quando questiona a posição que fala
que o sujeito progride no imaginário para um estado ideal da genitalidade
que seria a sanção e última mola do real. Temos então que precisar agora
as relações da libido com o imaginário e o real (141).
Estamos aqui em um seminário, não professamos um ensino
ex-cathedra(146).
Freud utilizou Ferenczi que trouxe os famosos estádios e que escreveu
um artigo em 1913 sobre o sentido da realidade, na época em que se inicia
a articulação da constituição do real. Lacan comenta: A primeira teoria
analítica da constituição do real é empregnada das idéias dominantes na
época, que se exprimiam em termos mais ou menos míticos, sobre as etapas
da evolução do espírito humano(146). E Lacan afirma que as posições de
Freud não remetem a mecanismos evolucionistas mas estruturais.
Aí onde se desenvolve toda a experiência analítica, na junção do
imaginário e do simbólico(157). Aqui podemos dizer, o real está sobrando.
Uma observação de Lacan: no fim das raras análise que podemos
considerar como terminadas - é ele(Balint) que se exprime assim.Balint é
um dos raros que sabem o que dizem (198).
O termo ou o conceito (..) não é simplesmente uma sombra, um sopro, uma
ilusão virtual da coisa, é a própria coisa. Reflitam um momento no real. É
pelo fato que o termo elefante existena lingua deles (..) que os homens
puderam tomar em relação aos elefantes (..) resoluções muito mais
decisivas para estes paquidermos que qualquer coisa que lhes aconteceu na
história (..) Basta que eu fale, nãoé necessário que eles estejam alí para
que estejam bem alí, gracas ao termo elefante, e mais reais que os
indivíduos-elefantes contingentes (201).
Esta citação é importante, porque remete ao elefante real que existe e
diz que a palavra elefante é mais real que o elefante real, porque é a
partir da palavra elefante que ocorre coisas aos elefantes. É o real do
discurso sobre os elefantes. É o real da fala sobre eles. É a fala
pronunciada realmente. Isto é é o elefante não somente fantasiado, mas
falado.
Lacan diz que o simbolismo da linguagem tem uma função de pacto (202).
O que me chama atenção é a importâcia radical da palavra, do simbolismo
de linguagem e de sua função de pacto, do inconsciente como discurso do
Outro, no caso de M.Klein introduzindo no pequeno Dick o esboço do mito
edípico, o esboço do inconsciente.
Praticamente a metade do Seminário fala da palavra recusada nos
fenômenos psicóticos com eu efeito de real, em oposição à palavra
esquecida, como fenômeno típicamente neurótico, ver o esquecimento de
Signorelli na expseriência de Freud em cime da morte, da morte de um
paciente.
A parte intermediária do Seminário I fala da expriência especular,
imaginária, narcísica em relação ao espelho, a imagem virtual e à imagem
real que o arco-iris realiza e que o espelho côncavo permite realizar,
tudo dependendo do lugar do sujeito, o sujeito como s’\representante do
simbólico.
Isto é, quasde uma primeira metade do Seminário tenta a articulação do
simbólico-real, embora o real é apresentado como um resíduo ou o efeito da
junção do simbólico com o imaginário. Mas não há dúvida que o fenômeno
psicótico que é destacado.Ver olugar da alucinação do dedo coretado do
“homem dos lobos”, o lugar do pequeno Dick de M. Klein e do pequeno
Roberto de Rosine Lefort.
A parte intermediária sobre o narcisismo, o imaginário, o especular,
tentando articular a imagem virtal e a real através do espelho plano e a
entrada do espelho côncavo tenta a articulação do simbólico com o
imaginário. Pois tudo depende da posição do sujeito, como preprresentantet
do simbólico, para se ver ou não a imagem real, isto é não somente a
imagem virtual da totalidade mas a imagem real, isto é as várias cores do
arco-iris do corpo fragmentado.
A partir do 5 de maio, Lacan começa a se referir, e cada mais
sistemáticamente, a Balint. Por quê? Porque vai começar a falar mais do
desejo. Desejo como desejo do outro, realizado no outro. Desejo que remete
ao objeto. E objeto é o assunto de Balint. E Lacan quer mostrar que o
símbolo, ver o jogo do fort-da, é mais importante que o objeto em si. E
alí Lacan fala da palavra elefante, mais importante que o objeto elefante.
(201).
Na última parte do Seminário, , isto é, quase uma metade, Lacan a
consagra a Balint. Então ele valoriza Balint, usando a expressão é um dos
raros que sabem o que dizem (198), ou Balint é um dos analistas dos mais
conscientes. A exposição do que faz é das mais lúcidas(206). Mas Lacan
questiona esta abordagem da satisfação do desejo, do amor primário,
lamentando que se negligencia a palavra como função de reconhecimento (..)
do desejo (207).
Alí Lacan fala do momento em que o imaginário e o real da situação
analítica se confundem (212). A interpretação tem efeito qudn intervem nem
antes, nem depois, mas no momento preciso em queo que está prestes a
eclodir no imaginário está ao mesmo tempo ali na relação verbal com o
analista (212). O real aparece aqui no sentido do algo dito realmente. E
neste momento, Lacan passa à questão do trauma do “Homem dos lobos”, : o
trauma, como ação traumatizante, intervém après-coup e Lacan fala alí de
recalque simbólico (215).
Lacan questiona Balint e sua insistência no ego forte ou fraco, caráter
forte ou fraco, análise devendo servir a reforçar o ego. Para Lacan, deve
se partir do sistema simbólico, da língua comum. O inconsciente é no
sujeito uma cisão do sistema simbólica (..) o super-eu é uma cisão análoga
que se produz no sistema simbólico integrado pelo sujeito(220).
Lacan critica a focalização pela psicanálise das relações de objeto,
associada a um puritanismo que tenta umapurificação dos termos demasiado
libidinais, por exemplo, o termo sádico.
Balint estaria apagando o registro simbólico e o registro imaginário,
dando aos objetos um valor absoluto. Ele propõe um recurso em apelo ao
real (..) Balint nos diz como operar - criar uma atmosfera,(..) isso
hesita nas bordas do indizível e ele faz então intervir a realidade, o que
ele chama o acontecimento.(..)A limitação dos meios da análise coloca o
problema de saber em que plano se passa nossa ação. Balint é levado a
fazer apelo a despertar todos os registros do real. O real não é sem
motivo que está sempre no último plano, e que não o designo nunca
diretamente em meus comentários aqui. Ele é justamente, propriamente
falando, excluído. E Balint, não mais do que um outro, o fará entrar. Mas
é alí que se dirige seu recurso em apelo. Fracasso da teoria que
corresponde à este desvio da técnica (230). O que chama atenção aqui é o
singular “registro do simbólico”, o singular “registro do imaginário” e o
plural “todos os registros do real”. Um deles seria justamente o real do
acontecimento. Mas o que é propriamente real está excluído, ou melhor, e
efeito de uma exclusão, pois, como Lacan disse na primeira parte deste
Seminário, é a palavra que é “recusada’’. O real é o efeito desta palavra
“recusada”. Em suas conferências americanas de 1975, Lacan diz : do real
que seja completamente real, isso..., ficando esta frase suspensa nas
“reticências”, logo antes de definir o real como impossível a penetrar.
Chama a atenção que já aqui no Seminário I, ele se refere ao real como
“propriamente falando” em oposição a outros “registros do real”.
Tudo parte da possibilidade de nomear, que é ao mesmo tempo destruição
da coisa e passagem da coisa ao plano simbólico, graças a que o registro
propriamente humano se instala. É dalí que se produz (..) a encarnação do
simbólico no vivido imaginário (244). Para a criança, há em primeiro lugar
o simbólico e o real, contariamente àquilo em que se acredita.(..) Se
vocês acreditam que a criança é mais cativa do imaginário do que do resto,
vocês tem razão em um certo sentido. O imaginário está alí. Mas ele nos é
absolutamente inacessível a não ser a partir de suas realizações no
adulto(244).
Esta última afirmação surpreende, além de ser hesitante. Aliás, pois
antes Lacan havia falado do real como residual em relação ao simbólico e
ao imaginário. Mas como ele usa o plural quando fala dos “registros do
real” , pode se tentar entender de que real se trata.
Algumas páginas depois, Lacan fala que a experiência não é total. E
definida em um outro plano do que o plano imaginário - o plano
simbólico(248). Isto questiona a posição de Balint, que coloca como ponto
de partida, por definição a dita emoção, fenômeno de surgimento
psicológico que seria alí o real (..) você está com raiva, então dá um
murro na mesa (..) Como o ato se desloca em sua finalidade? Como a emoção
se desloca em seu objeto? A estrutura real e a estrutura simbólica entram
em uma relação ambígua (..) Conforme Balint, a transferência é
transferência de emoções. E sobre que se transfere a emoção? Em todos seus
exemplos, sobre um objeto inanimado(252). E Lacan acrescenta : Com a two
bodies’ psychology (..) nenhuma simbolização satisfatória (253).
É com a dimensão da palavra que se cava no real a verdade. Não há nem
verdadeiro nem falso antes da palavra. Com ela se introduz a verdade, e a
mentira também (..) Simetricamente, se cava no real o buraco, a hiância do
ser enquanto tal. A noção de ser, desde que tentamos apreendê-la, se
mostra tão inapreensível quanto a palavra. Pois o ser, o próprio verbo, só
existe no registro da palavra. A palavra introduz o oco do ser na textura
do real, um e outro se sustentam e se balançam, são exatamente
correlativos (254). Palavra e oco do ser são correlativos enquanto a
nomeação destroi a coisa, enquanto o símbolo é a morte da coisa. Este
“cavar o real” é uma expressão que será repetida nestes primeiro
Seminários de Lacan. Como se fala de “registros do real”, pode se
justificar esta expressão “cavar o real”. Mas sem dúvida não dá para cavar
o real propriamente falando, excluído (230).
Quanto à emoção tão badalada por Balint, Lacan lembra que ela é tomada
na ordem simbólica, de onde as outras ordens, imaginária e real, tomam seu
lugar e se ordenam (263).