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Poucos temas devem ter sido, para
Freud, tão angustiantes quanto a angústia. Ele precisou de uns trinta anos
para reconhecer que se havia equivocado em querer manter a noção de
“angústia neurótica, efeito do recalque” para compor uma dupla com a
“angústia do Real”. Chama a atenção tanto a presença maciça do tema da
angústia logo nos primeiros anos das pesquisas de Freud (pois em 1895, ele
já havia escrito o rascunho E a Fliess e dois textos Neurastenia e angústia e Para uma crítica da neurose de
angústia), quanto a insistência sobre a angústia neurótica, recalcada.
Esta abordagem da angústia, efeito do recalque, vai esbarrar na afirmação
de O inconsciente, escrito de
1915 : o afeto nunca é
inconsciente, somente sua representação é submetida ao recalque (GW
X,276). Mas, por causa do peso
de suas posições iniciais, é laborioso para Freud aplicar esta afirmação ao chamado
“afeto da angústia”. Alguma dúvida sobre a noção de “angústia neurótica”
aparece na lição 25 das Novas Conferências de 1916-17 (GW
XI,420-421), se transforma em questionamento em O eu e o isso de 1923 (GW
XIII,287). Este questionamento se radicaliza em 1926 no capítulo IV de Inibição, Sintoma e Angústia
(GW,XIV,137). Enfim, em 1932, uma longa retomada de toda esta
polêmica, que deixa o leitor em suspenso, mostra o mérito de Freud em
reconhecer seu equívoco assim como sua dificuldade de assumir uma
conclusão, porém inevitável : A
angústia neurótica se transformou, em nossas mãos em angústia do Real. O
recalque não cria angústia, mas a angústia está ali mais cedo (früher), a
angústia faz o recalque (GW XV,99,93). Este “mais cedo” (früher) da
angústia acaba se impondo, sublinhando como central nesta polêmica a
questão do tempo.
Em seu Seminário 10, A Angústia, Lacan aproveita das
trabalhosas conclusões de Freud sobre o “afeto da angústia” e o qualifica
de “o afeto”. Nisso, deve se inspirar do início da lição 32 das Novas Conferências de 1932 que
sublinha que a representação é recalcada mas que sua quantia de afeto é regularmente transformada
em angústia (...) seja este afeto de agressão ou de amor (GW XV,90).
Mas teriamos que debater aqui com Freud o problema da anterioridade da
angustia em relação aos outros afetos. O amor ou a agressão suporia
relação com o desejo cujo afeto anunciador, anterior, é a angústia.
Começando seu Seminário 10, Lacan diz: o afeto não é recalcado e isso Freud o
diz como eu (...) Vai à deriva. Encontra-se deslocado, louco (...) O que é
recalcado são os significantes que o amarram (...) Trata-se do desejo e o
afeto por onde somos solicitados, talvez, a fazer surgir tudo o que
comporta como conseqüência universal (...) é a angústia (14-11-62).
“Louco” e “à deriva”, esses qualificativos colocam o afeto no registro
do real, afeto insuportável quando associado ao trauma, o real eminente em
Freud, enquanto energia livre que irrompe repentinamente e que por isso
não pode ficar ligada à representação. Frente à insustentável “angústia
neurótica”, aliás composta de um substantivo e de um adjetivo, o uso por
Freud de dois substantivos “angústia do real” pode abrir para uma
realidade outra do que a simbólica que engana ou a imaginária que,
também,
não deixa de enganar. A “angústia do real” corresponde em todo caso
à
perspectiva lacaniana da angústia como real, real cuja definição
nos primeiros Seminários se vê aqui sublinhada: o real, “aquilo que não
engana”.
TEMPO
ANTECIPADO
Na lição 25 das Conferências introdutórias de
1916-17, Freud define a angústia do real como reação à percepção de um perigo
externo, isto é, de algum dano esperado, previsto (erwarteten,
vorgesehenen Schädigung). Ele acrescenta a respeito da situação de angústia (Angstsituation)
que primeiro nela é a
disposição, especificando-a como disposição de espera (expectativa)
(Erwartungsbereitschaft). A chamada impressão prematura (frühzeitig) é
associada ao ato de nascimento. Além do “vorsehen”, Freud usa também o
“vorausssehen” e “vorhersehen” para “prever” ou “antever”. Esperar e
prever sublinham, a respeito da angústia do real, algo da ordem da
antecipação, antecipação do desejo.
Em O eu e isso de 1923, Freud fala que o eu é o lugar próprio da angústia
(...) reação primitiva (primitive Reaktion)
substituída posteriormente pela efetivação de investimentos
protetores, referindo-se ali ao mecanismo das fobias (GW XIII,287). É sempre primeira (Freud
repete muito este “primäre”) a
angústia do eu que é propulsão para o recalque (GW XIV, 137) . Lacan caracteriza a angústia
como sinal do eu ao sujeito.
O Seminário 10, A Angústia dá um destaque ao texto
de Freud O estranho de 1919.
Por quê? Porque ao mesmo tempo em que afirma a angústia diante da falta,
da perda, da ausência, do fracasso, isto é da castração, Freud, ali,
questiona o que pareceria um monismo equivocado da angústia, pois
mostra a angústia frente à falta da falta, frente à presença. Com efeito,
a multiplicação de personagens nos contos de Hoffmann sublinha a questão
do duplo, não se sabendo se o eu é próprio ou do outro, do estranho,
ilustrando algo decisivo, o desejo como desejo do Outro. E é comentando
este texto de Freud sobre o Unheimlich na lição de 5-12-62 que Lacan
define a angústia como o estranho da presença do desejo do Outro : ali
onde se espera falta, se estranha porque há o imprevisto, há falta da
falta. O estranho da presenca do desejo do Outro é ilustrado pelos casos
clinicos de Freud. Lacan termina esta lição falando da presença do desejo
materno para o pequeno Hans e do desejo do analista para o analisante. A
angústia como expectativa, antecipação, se situa em relação à incerteza do
que sou como causa do desejo do Outro.
Partindo d´O Elixir do diabo de Hoffmann e da
presença maciça de duplas de personagens, observa Lacan a 5-12-62 : o desejo se revela como desejo do
Outro, aqui desejo no Outro, mas direi que meu desejo entra no outro onde
está sendo esperado desde toda a eternidade sob a forma do objeto que sou,
enquanto me exila de minha subjetividade.(...) O sujeito não chega, não
acede a seu desejo senão substituindo-se sempre a um de seus próprios
duplos. O tempo toma sua forma radical , ex-temporal de “eternidade”
em associação ao “sempre” do recurso ao duplo, Hoffmann servindo a
sublinhar que se a angústia é antecipação do desejo do sujeito, ela é
sempre, estruturalmente, posterior ao desejo do Outro.
ANGÚSTIA, ANTERIOR À
CESSÃO
DO OBJETO
A definição da angústia como
sinal de perigo, Lacan vai questioná-la a partir do tempo. Ele afirma que
este perigo em Freud é ligado ao
caráter de cessão do momento constitutivo do objeto a (há perda, então
há angústia) aqui articularemos de
outro modo do que Freud, este momento da função da angústia é anterior a
esta cessão do objeto, algo mais primitivo do que a articulação da
situação de perigo(...) A angústia, eu disse, está ali ligada a isto que
não sei qual objeto a sou para o desejo do Outro (...) O que resta do não
sei angustiante é fundamentalmente desconhecimento (3-7-63). Por
exemplo, a respeito do objeto anal associado ao “desejo de reter” : ele está ali, já dado, já produzido, e
produzido primitivamente, colocado à disposição desta função determinada
pela introdução da demanda por algo que é anterior que estava ali, já como
produto da angústia (3-7-63). Primitivamente, esta causa é a
angústia que literalmente a produz (26-6-63).
De fato, Lacan questiona o
Freud das “conferências” e de Inibição, sintoma e angústia a
partir do Freud dos escritos clínicos e do texto O estranho. É este segundo que
permite entender que os termos de Freud a respeito da angústia
“disposição”, “previsão”, “expectativa”, “primitiva”, tomam seu verdadeiro
sentido na incerteza do “não sei que objeto a sou para o desejo do Outro”.
Podemos dizer: esta incerteza da angustia “que objeto sou?” estranha a
certeza de sua ligação ao desejo. Real da angustia enquanto o não nomeado
da incerteza. Real da angústia enquanto certeza indizível da antecipação
do desejo. No momento em que um analisante, paralisado em sua vida pela
angústia, consegue, por exemplo, nomear-se com objeto do desejo de morte
da mãe, posição revivida na relação com o analista, esta nomeação permite
ao analisante ir além do gozo do sofrimento, e, reduzindo o nível da
angústia insuportável,
abrir-se ao atravessamento do desejo.
Lacan coloca o estranho como
denominador comum de toda angústia, da qual reconhece dois tipos. No
primeiro nível, ao qual ele dá o destaque, no nível do objeto a como
equivalente do falo enquanto falta, do menos phi, ali onde se espera nada,
se vê: não se deve ver que é ele, o falo, que está em causa. Se se vê, angústia.
E Lacan sublinha aqui tanto
a presença angustiante do desejo do Outro quanto a angústia que não é de
fracasso, de ausência, mas de sucesso, de presença. Em outro nível do que
do objeto a, no nível fálico mesmo, o estranho é que se espera ver o falo
e não se vê. É propriamente a angústia de castração. Trata-se no nível da angústia de castração daquilo que
funciona no fim de uma análise
(13-3-62). Precisamos sublinhar que este fim é anunciado já na
primeira sessão de análise, é antecipado, e depois elaborado, antes de ser
concluído, isto é, tem os tres momentos de seu tempo lógico . Há efeitos
de castração no início, no meio, e não somente no fim de uma análise.
TRES
TEMPOS : GOZO,
ANGUSTIA, DESEJO
A questão do tempo articulada
ao desejo do Outro aparece claramente em 27 de fevereiro de 63 : O desejo do Outro (...)me interroga à
própria raíz de meu desejo a mim como a ( à moi comme a), como causa deste
desejo e não como objeto;é porque é ali que visa, em uma relação de
antecedência, em uma relação temporal(...). É porque o desejo do analista suscita
em mim esta dimensão da expectativa (attente) que sou tomado em algo que é
a eficácia da análise. Eu bem queria que ele me visse como tal ou qual, que fizesse de mim
um objeto. E em 6-3-63, falando do objeto a, o objeto perdido, é com isso que temos
a ver, de um lado no desejo, do outro na angústia. Temos a ver com isso na
angústia, se se pode dizer, logicamente, anteriormente ao momento em que
temos a ver com isso no desejo. Estes dois tempos anunciam a
reformulação em três tempos.
A
13-3-63, Lacan afirma que antes de chegar ao resultado da operação que é o
sujeito barrado, castrado, há um nível mítico, anterior (préalable) a
todo este jogo da operação (...) não se pode, de nenhuma maneira, isolá-lo
como sujeito, e, miticamente, o chamaremos, hoje, sujeito do gozo. E
Lacan se refere aos três níveis aos
quais respondem os três tempos desta operação, são respectivamente o gozo,
a angústia e o desejo. Ele
especifica que se trata de uma função, não mediadora, mas mediana, da
angústia, entre o gozo e o desejo. (...) esta hiância do desejo ao gozo; é
ali que se situa a angústia. E é tão seguro que o tempo da angústia não é
ausente, como o marca este modo de ordenar os termos na constituição do
desejo, mesmo que este tempo seja elidido, não situável no concreto, ele é essencial.
E Lacan cita Uma criança é
espancada, texto em que Freud
fala de um segundo tempo sempre elidido em sua constituição, tão elidido
que somente a análise pode reconstruí-lo. Na parte três deste texto de
1919, Freud fala de três tempos : o primeiro, O pai bate na
criança, o segundo, a fantasia com alto grau de prazer, eu
estou sendo espancado por meu pai (...) sem dúvida à caráter
masoquista . E o terceiro quando a fantasia se
liga agora
a uma forte e inequívoca excitação sexual. Freud comenta que o segundo tempo é o mais importante
(...) em certo sentido nunca teve existência real (...)é uma construção da
análise (GW XII,204).A partir disto, Lacan afirma : Falei da angústia enquanto tempo
intermediário entre o gozo e o desejo, enquanto, uma vez atravessada a
angustia, é fundado sobre o tempo da angústia que o desejo se constitui.
Questionada
se não estava alimentado o gozo incestuoso do filho com quem dormia, uma
mãe responde: “gosto de dormir com ele”. “Você não se preocupa com aquilo
que é bom para ele?”, pergunta-lhe a tia da crianca. Questão que pode
permitir o surgimento da angústia enquanto distância do gozo e anúncio do
desejo.
Este “miticamente chamado” sujeito do gozo não se pode , de
nenhuma maneira, isolá-lo como sujeito enquanto submetido ao
gozo do Outro, o gozo real. O outro quer necessariamente minha
angústia (...) isto é gozar de mim (13-3-63), seja este Outro
representado pelos lobos do gozo visual da árvore do sonho ou pelos ratos
do gozo anal.
Gozo de um sujeito mítico, anterior, gozo outro do que fálico, gozo
do Outro, expressões do real do gozo. A angústia, esta estranheza de não
saber que objeto a sou para o desejo do Outro marca a passagem do gozo ao
desejo. Indica que o sujeito não está preso no gozo e dele se distancia.
Gozo, angústia, desejo, tres momentos do tempo lógico. Gozo do sujeito
impessoal do instante de ver, angústia associada aos sujeitos recíprocos
do tempo de compreender, desejo do sujeito da enunciação do momento de
concluir.
NOTAS :
---- A primeira versão deste
texto foi apresentada na JORNADA
FREUD-LACANIANA do Recife, em fins de outubro de 2001. A segunda
versão, aqui publicada, foi apresentada na Convergencia-Activity da
Instituição Après-Coup de New-York, em março de 2002.
---G.W. :
Freud. S.,
Gesammelte Werke, Frankfurt am Main, Fisher Verlag.
---Lacan, J.,
Le Séminaire (10), L’angoisse, inédito.
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