Entendemos por função materna a passagem ou a mediação da Lei que a
mãe opera. Nós falamos de uma função e não da pessoa da mãe, função de
limite entre o somático e o erógeno.
Trata-se da lei do interdito do incesto que está incorporada como
um traço paternal e que constitui a identificação primária.
A identificação primária é realizada com o traço unário paterno,
com a lei da proibição do incesto. É a metáfora paterna que produz o
significante da falta do outro que permite que o sujeito seja representado
por um significante em relação a outro significante. Sem o significante da
falta, não falta nenhum significante ao Outro. Se a mãe assume todo espaço
no Outro, não há falta de significante, logo ela não vai ocupar a função
materna. Ela ocupa o lugar do pai sem portanto conter o significante da
falta do Outro.
A função materna pode ser estruturante,
supõe a mãe, sujeito dividido, barrado pela própria castração. Essa função
vai ser desenvolvida junto à criança num processo de passagem, permitindo
a entrada da lei, interditando radicalmente o gozo da mãe pela criança,
introduzindo o sujeito na cultura.
Bergès e Balbo em seu livro "A criança e a Psicanálise",
1996,dizem que o falo é nomeado “significante da falta no Outro” e que em
uma apresentação topológica, o lugar do Outro encontra-se furado e as
bordas que delimitam e formam esse buraco são exatamente o lugar da
circulação de objetos e de gozo, que fazem o suporte das trocas
significantes entre a mãe e o filho.
Lacan, no seminário De um outro ao
Outro, em 13/11/1968, diz que é no discurso sobre a função da renúncia ao
gozo que se introduz o termo de objeto a, lugar em que se situa sua função
essencial. Bergès e Balbo no livro “ A atualidade das teorias sexuais
infantis”, falam que o objeto a cai do Outro, por exemplo, quando a mãe se
ausenta para a criança, não é apenas a mãe que se ausenta mas também a
criança que se torna ausente da mãe, ela se retira.
É pela voz, considerada como um objeto
“a”, que se pode dizer que a mãe está no lugar do Outro. A voz situa-se do
lado dos objetos “a” e também como vetor, pela palavra, dos significantes
da mãe. A mãe não fala apenas em voz alta mas é por meio da voz, com um
“não” que ela usa o significante (supereu) que interdita o transbordamento
do funcionamento, opera como limite ao gozo. Uma mãe que se situa somente
no dom e não na troca, não pode reduzir o transbordamento de seu filho
visto que ela mesma está fora da função fálica e por conseguinte fora de
sua lei.
A criança reluta em aceitar a castração, pois trata-se de um
processo doloroso, mas acaba aceitando para continuar sendo amada.
Essa aceitação vai ter uma relação
direta com a passagem da lei, é uma parte da função materna.
Talvez seja nesse momento que a criança
mimada tem maiores dificuldades em renunciar a esse gozo.
Podemos nos reportar ao estádio do espelho para
explicar o narcisismo primário, o primeiro esboço do eu e as
identificações secundárias.
O bêbe antes do estádio do espelho,
percebe-se como fragmentado, não faz nenhuma distinção entre seu corpo e o
de sua mãe, entre ele e o mundo exterior.
A criança, no colo de sua mãe, vai
reconhecer sua imagem. Mas é através do Outro, o Outro do espelho, que a
criança se vê e se observa, eis que se instaura o desconhecimento de todo
ser humano quanto à verdade de seu ser e sua profunda alienação da imagem
que irá fazer de si mesma.
Ivan Correa, em seu livro “A
psicanálise e seus paradoxos”, fala do conjunto vazio e da imagem
especular e diz que esse conjunto vazio vai ser exatamente o que não é
especularizável no estádio do espelho. É o objeto a que cai. O bebê diante
do espelho não passa tudo para essa imagem, senão haveria uma alucinação
do duplo. Há algo que sobra, que cai, que não passa. É exatamente essa
falta que vai ser constitutiva do eu ideal.
Diante do espelho, em particular quando
a criança volta a cabeça em direção à sua mãe e olha de volta para o
espelho, ela está pedindo que a mãe comprove sua descoberta e diga-lhe:
“sim, é você, João , meu
filho.”
É então a nominação materna da
criança.
Compreendemos o estádio do espelho como
uma identificação, a
transformação que se produz em um sujeito quando ele assume uma
imagem.
Esse “é você” irá resultar num “sou
eu”. A criança se vê através do olhar do outro, mas para ela se apoderar
dessa imagem, para que possa interiorizá-la, é necessário que tenha um
lugar no Outro, que no caso está encarnado pela mãe.
É o olhar da mãe que conjugado à sua
voz, a nomeia, lhe dá um lugar na família, na sociedade, no campo do
simbólico.
Esse Outro irá instituir um lugar a
partir do qual, o mundo poderá ser organizado, um mundo onde o imaginário
pode incluir o real e ao mesmo tempo formá-lo.
O estádio do espelho marca a divisão
entre o imaginário, a partir da imagem formadora mas alienante e o
simbólico, a partir da nominação da criança.
Nós, neuróticos, estamos sempre
buscando imagens que mascarem a falta, que camuflem a falta. As imagens se
formam ilusoriamente na virtualidade fundada pelo espelho plano e aparecem
como objetos-outros, do campo do real. A introdução do espelho significa
também estabelecer a diferença, o não homogêneo.
No seminário sobre o R.S.I., Lacan
demonstra essa ligação do real, simbólico e imaginário através do nó
borromeu, de forma que se um dos círculos for desfeito, os outros dois
também se desfazem. Isso mostra a impossibilidade de pensar o registro do
imaginário senão atrelado ao registro do real e ao registro do simbólico.
Segundo Joyce MacDougall, a relação mãe-bêbe é decisiva para o modo
de organização do funcionamento psíquico.
Uma mãe, seguindo seus próprios desejos
inconscientes, pode provocar em seu bêbe uma relação aditiva à sua
presença e a seus cuidados. A criança não é capaz de desenvolver seus
próprios recursos psíquicos diante das situações perigosas, ela está na
impossibilidade de fazer face aos perigos.
Freud, nas Conferências Introdutórias sobre “A vida Sexual dos
seres humanos”, fala da natureza sexual da amamentação. Ele lembra ainda
que se um bebê pudesse falar, certamente diria que o ato mais importante
de sua vida é o sugar o seio materno. Sugar o seio materno é o ponto de
partida para toda a vida sexual. Esse sugar resulta em fazer do seio o
primeiro objeto da pulsão sexual. Em seguida o bebê vai substituir esse
objeto seio por uma parte de seu próprio corpo, o polegar ou a própria
língua. Desse modo torna-se independente do mundo externo para obter
prazer. O passo seguinte será a passagem para a masturbação, descobre o
prazer nos seus genitais.
A sucção sensual é inicialmente
auto-erótica. As excreções também provocam sensações prazerosas através da
evacuação da urina e das fezes. É nessa ocasião que os bebês se defrontam
com o mundo externo como limite ao seu eu- prazer.
As investigações sexuais infantis
são características da sexualidade da criança e têm uma grande importância
para a sintomatologia das neuroses. O primeiro interesse sexual da criança
é saber a origem dos bebês, é aí que irão se formar as teorias sexuais
infantis que serão a base do desenvolvimento de toda sexualidade do ser
humano.
Inicialmente, algumas crianças pensam
que as pessoas comem algo especial e que esse alimento é a origem dos
bebês, depois abandonam essa teoria, apesar dela permanecer nos contos de
fadas e percebem que o pai tem algo a ver com essa história, só não
conseguem adivinhar qual o papel que esse pai desempenha aí. Isso ocorre
sempre por ocasião do nascimento de um irmãozinho ou pela observação de
uma mulher grávida. Só depois é que a criança irá despertar para as
diferenças sexuais.
Freud, no texto “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” de
1905, fala da importância das primeiras relações mãe-bêbe e de como ela se
origina dos sentimentos dessa mãe com a sua própria sexualidade. É através
dessa relação que ela vai ensinar seu filho a amar, a ser uma pessoa forte
e capaz de enfrentar as dificuldades. Ela vai ensinar o “comércio” sexual
a seu filho, como nos dizem Bergès e Balbo nos seminários sobre as teorias
sexuais infantis.
A palavra detém os meios de gozar
enquanto que ela implica o sujeito. É importante supor que no campo do
Outro exista esse mercado. O
excesso de mimo na criança pode torná-la incapaz de lidar com a falta de
amor ou com uma pequena quantidade dele.
Joyce MacDougall em seu livro "Teatros
do corpo", de 1989, fala não só da importância das interações mãe-filho
mas também da necessidade de separação entre eles. Algumas vezes a mãe
pode entravar os avanços de seu bêbe em direção à sua diferenciação, em
função de seus próprios conflitos inconscientes e a criança também
permanece nesse lugar. A criança para aceder a um saber, tem que esse
saber, ser suposto pela mãe a esse filho e, a criança, da mesma forma,
deverá se apoderar desse saber.
Na psicose não vai acontecer a função
materna como mediadora da lei, o Outro é completo, não há lugar para o
conjunto vazio, esse Outro tem a consistência máxima.
Lacan, em 1946, no texto "Propósitos
sobre a causalidade psíquica", posteriormente publicado nos Escritos, fala
de como Freud foi brilhante tendo a intuição de notar a importância
psíquica dos primeiros jogos das crianças, esconde-esconde, etc. e cita o
exemplo do Fort-Da. Ninguém podia imaginar a importância de seu caráter
interativo, da repetição, em relação a toda separação do objeto amado,
incluindo o desmame.
Esse processo vai estruturar todo o
desenvolvimento psíquico, com a possibilidade de renúncia. No final desse
desenvolvimento nós encontramos a ligação do Eu (Moi) primordial,
essencialmente alienado, e o sacrifício primitivo essencialmente suicida,
quer dizer a estrutura fundamental
da loucura. Essa discordância entre o Eu (Moi) e o ser , será o que
vai dar o tom fundamental ao longo das fases da história psíquica, onde a
função será a resolução do desenvolvimento. Toda resolução dessa
discordância terá um eco nas profundezas do imaginário da agressão suicida
narcísica. Rapidamente essa miragem que acontece, por exemplo, na
intoxicação orgânica, pode representar o papel de uma aparente liberdade.
O desmame não deve ser feito de uma forma brusca,
como todo processo, deve ir acontecendo progressivamente. Nessa ocasião a
função materna será essencial, momento de passagem que será decisivo para
a vida futura dessa criança.
E para concluir, observamos que o
desmame que não se inscreve num processo de simbolização e separação,
deixa no psiquismo humano o traço permanente da relação biológica que ele
interrompeu. É um traumatismo psíquico, portanto os efeitos individuais
podem tomar a forma por exemplo, de anorexia ditas mentais, toxicomania
pela boca, neuroses gástricas e revelam-se à psicanálise.