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Função Materna
 Luiza Bradley Araújo

 
 

Entendemos por função materna a passagem ou a mediação da Lei que a mãe opera. Nós falamos de uma função e não da pessoa da mãe, função de limite entre o somático e o erógeno.

Trata-se da lei do interdito do incesto que está incorporada como um traço paternal e que constitui a identificação primária.     

  A identificação primária é realizada com o traço unário paterno, com a lei da proibição do incesto. É a metáfora paterna que produz o significante da falta do outro que permite que o sujeito seja representado por um significante em relação a outro significante. Sem o significante da falta, não falta nenhum significante ao Outro. Se a mãe assume todo espaço no Outro, não há falta de significante, logo ela não vai ocupar a função materna. Ela ocupa o lugar do pai sem portanto conter o significante da falta do Outro.

A função materna pode ser estruturante, supõe a mãe, sujeito dividido, barrado pela própria castração. Essa função vai ser desenvolvida junto à criança num processo de passagem, permitindo a entrada da lei, interditando radicalmente o gozo da mãe pela criança, introduzindo o sujeito na cultura.         

Bergès e Balbo em seu livro  "A criança e a Psicanálise", 1996,dizem que o falo é nomeado “significante da falta no Outro” e que em uma apresentação topológica, o lugar do Outro encontra-se furado e as bordas que delimitam e formam esse buraco são exatamente o lugar da circulação de objetos e de gozo, que fazem o suporte das trocas significantes entre a mãe e o filho.

Lacan, no seminário De um outro ao Outro, em 13/11/1968, diz que é no discurso sobre a função da renúncia ao gozo que se introduz o termo de objeto a, lugar em que se situa sua função essencial. Bergès e Balbo no livro “ A atualidade das teorias sexuais infantis”, falam que o objeto a cai do Outro, por exemplo, quando a mãe se ausenta para a criança, não é apenas a mãe que se ausenta mas também a criança que se torna ausente da mãe, ela se retira.

É pela voz, considerada como um objeto “a”, que se pode dizer que a mãe está no lugar do Outro. A voz situa-se do lado dos objetos “a” e também como vetor, pela palavra, dos significantes da mãe. A mãe não fala apenas em voz alta mas é por meio da voz, com um “não” que ela usa o significante (supereu) que interdita o transbordamento do funcionamento, opera como limite ao gozo. Uma mãe que se situa somente no dom e não na troca, não pode reduzir o transbordamento de seu filho visto que ela mesma está fora da função fálica e por conseguinte fora de sua lei.

A criança reluta em aceitar a castração, pois trata-se de um processo doloroso, mas acaba aceitando para continuar sendo amada.

Essa aceitação vai ter uma relação direta com a passagem da lei, é uma parte da função materna.

Talvez seja nesse momento que a criança mimada tem maiores dificuldades em renunciar a esse gozo.

Podemos nos reportar  ao estádio do espelho para explicar o narcisismo primário, o primeiro esboço do eu e as identificações secundárias.

O bêbe antes do estádio do espelho, percebe-se como fragmentado, não faz nenhuma distinção entre seu corpo e o de sua mãe, entre ele e o mundo exterior.

A criança, no colo de sua mãe, vai reconhecer sua imagem. Mas é através do Outro, o Outro do espelho, que a criança se vê e se observa, eis que se instaura o desconhecimento de todo ser humano quanto à verdade de seu ser e sua profunda alienação da imagem que irá fazer de si mesma.

Ivan Correa, em seu livro “A psicanálise e seus paradoxos”, fala do conjunto vazio e da imagem especular e diz que esse conjunto vazio vai ser exatamente o que não é especularizável no estádio do espelho. É o objeto a que cai. O bebê diante do espelho não passa tudo para essa imagem, senão haveria uma alucinação do duplo. Há algo que sobra, que cai, que não passa. É exatamente essa falta que vai ser constitutiva do eu ideal. 

Diante do espelho, em particular quando a criança volta a cabeça em direção à sua mãe e olha de volta para o espelho, ela está pedindo que a mãe comprove sua descoberta e diga-lhe: “sim, é você, João  , meu filho.”

É então a nominação materna da criança.

Compreendemos o estádio do espelho como uma identificação,  a transformação que se produz em um sujeito quando ele assume uma imagem.

Esse “é você” irá resultar num “sou eu”. A criança se vê através do olhar do outro, mas para ela se apoderar dessa imagem, para que possa interiorizá-la, é necessário que tenha um lugar no Outro, que no caso está encarnado pela mãe.

É o olhar da mãe que conjugado à sua voz, a nomeia, lhe dá um lugar na família, na sociedade, no campo do simbólico.

Esse Outro irá instituir um lugar a partir do qual, o mundo poderá ser organizado, um mundo onde o imaginário pode incluir o real e ao mesmo tempo formá-lo.

O estádio do espelho marca a divisão entre o imaginário, a partir da imagem formadora mas alienante e o simbólico, a partir da nominação da criança.

Nós, neuróticos, estamos sempre buscando imagens que mascarem a falta, que camuflem a falta. As imagens se formam ilusoriamente na virtualidade fundada pelo espelho plano e aparecem como objetos-outros, do campo do real. A introdução do espelho significa também estabelecer a diferença, o não homogêneo.

No seminário sobre o R.S.I., Lacan demonstra essa ligação do real, simbólico e imaginário através do nó borromeu, de forma que se um dos círculos for desfeito, os outros dois também se desfazem. Isso mostra a impossibilidade de pensar o registro do imaginário senão atrelado ao registro do real e ao registro do  simbólico.

 Segundo Joyce MacDougall, a relação mãe-bêbe é decisiva para o modo de organização do funcionamento psíquico.

Uma mãe, seguindo seus próprios desejos inconscientes, pode provocar em seu bêbe uma relação aditiva à sua presença e a seus cuidados. A criança não é capaz de desenvolver seus próprios recursos psíquicos diante das situações perigosas, ela está na impossibilidade de fazer face aos perigos.      

Freud, nas Conferências Introdutórias sobre “A vida Sexual dos seres humanos”, fala da natureza sexual da amamentação. Ele lembra ainda que se um bebê pudesse falar, certamente diria que o ato mais importante de sua vida é o sugar o seio materno. Sugar o seio materno é o ponto de partida para toda a vida sexual. Esse sugar resulta em fazer do seio o primeiro objeto da pulsão sexual. Em seguida o bebê vai substituir esse objeto seio por uma parte de seu próprio corpo, o polegar ou a própria língua. Desse modo torna-se independente do mundo externo para obter prazer. O passo seguinte será a passagem para a masturbação, descobre o prazer nos seus genitais.

A sucção sensual é inicialmente auto-erótica. As excreções também provocam sensações prazerosas através da evacuação da urina e das fezes. É nessa ocasião que os bebês se defrontam com o mundo externo como limite ao seu eu- prazer.

As investigações sexuais infantis são características da sexualidade da criança e têm uma grande importância para a sintomatologia das neuroses. O primeiro interesse sexual da criança é saber a origem dos bebês, é aí que irão se formar as teorias sexuais infantis que serão a base do desenvolvimento de toda sexualidade do ser humano.

Inicialmente, algumas crianças pensam que as pessoas comem algo especial e que esse alimento é a origem dos bebês, depois abandonam essa teoria, apesar dela permanecer nos contos de fadas e percebem que o pai tem algo a ver com essa história, só não conseguem adivinhar qual o papel que esse pai desempenha aí. Isso ocorre sempre por ocasião do nascimento de um irmãozinho ou pela observação de uma mulher grávida. Só depois é que a criança irá despertar para as diferenças sexuais.

  Freud, no texto “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” de 1905, fala da importância das primeiras relações mãe-bêbe e de como ela se origina dos sentimentos dessa mãe com a sua própria sexualidade. É através dessa relação que ela vai ensinar seu filho a amar, a ser uma pessoa forte e capaz de enfrentar as dificuldades. Ela vai ensinar o “comércio” sexual a seu filho, como nos dizem Bergès e Balbo nos seminários sobre as teorias sexuais infantis.

A palavra detém os meios de gozar enquanto que ela implica o sujeito. É importante supor que no campo do Outro exista esse mercado.  O excesso de mimo na criança pode torná-la incapaz de lidar com a falta de amor ou com uma pequena quantidade dele.

Joyce MacDougall em seu livro "Teatros do corpo", de 1989, fala não só da importância das interações mãe-filho mas também da necessidade de separação entre eles. Algumas vezes a mãe pode entravar os avanços de seu bêbe em direção à sua diferenciação, em função de seus próprios conflitos inconscientes e a criança também permanece nesse lugar. A criança para aceder a um saber, tem que esse saber, ser suposto pela mãe a esse filho e, a criança, da mesma forma, deverá se apoderar desse saber.

Na psicose não vai acontecer a função materna como mediadora da lei, o Outro é completo, não há lugar para o conjunto vazio, esse Outro tem a consistência máxima.

Lacan, em 1946, no texto "Propósitos sobre a causalidade psíquica", posteriormente publicado nos Escritos, fala de como Freud foi brilhante tendo a intuição de notar a importância psíquica dos primeiros jogos das crianças, esconde-esconde, etc. e cita o exemplo do Fort-Da. Ninguém podia imaginar a importância de seu caráter interativo, da repetição, em relação a toda separação do objeto amado, incluindo o desmame.

 Esse processo vai estruturar todo o desenvolvimento psíquico, com a possibilidade de renúncia. No final desse desenvolvimento nós encontramos a ligação do Eu (Moi) primordial, essencialmente alienado, e o sacrifício primitivo essencialmente suicida, quer dizer a estrutura fundamental  da loucura. Essa discordância entre o Eu (Moi) e o ser , será o que vai dar o tom fundamental ao longo das fases da história psíquica, onde a função será a resolução do desenvolvimento. Toda resolução dessa discordância terá um eco nas profundezas do imaginário da agressão suicida narcísica. Rapidamente essa miragem que acontece, por exemplo, na intoxicação orgânica, pode representar o papel de uma aparente liberdade.

O desmame não deve ser feito de uma forma brusca, como todo processo, deve ir acontecendo progressivamente. Nessa ocasião a função materna será essencial, momento de passagem que será decisivo para a vida futura dessa criança.

E para concluir, observamos que o desmame que não se inscreve num processo de simbolização e separação, deixa no psiquismo humano o traço permanente da relação biológica que ele interrompeu. É um traumatismo psíquico, portanto os efeitos individuais podem tomar a forma por exemplo, de anorexia ditas mentais, toxicomania pela boca, neuroses gástricas e revelam-se à psicanálise.

 

 Intersecção Psicanalítica do Brasil