|
Durante um longo tempo, acreditei que o conceito de
inconsciente não cabia em se tratando de Psicose. Fiz algumas leituras do
sem 3, mas falar de inconsciente parecia uma grande loucura. Entretanto, o
que eu me perguntava era: se não tem inconsciente, pode-se falar em
psicanálise das psicoses? A frase de Freud no estudo do caso Schreber “o
inconsciente do psicótico é bom gramático e mau filólogo” ressoava entre as
minhas interrogações.
Voltamos a ler o Sem
das Psicoses, no Grupo das Psicoses, quando voltou a questão: psicótico
tem inconsciente? Dispus-me a pesquisar embora meio desconfiada como quem
ia pela contra-mão dos estudos. Fui e me surpreendi com as afirmações de
Lacan, pois logo no inicio do texto, lição de 15/02/56 pode-se ler: “nosso
ponto de partida é o seguinte: o inconsciente está ai nas psicoses. Os
analistas o admitem com ou sem razão, e nós admitimos com eles, que em
todos os casos é um ponto de partida”.
Há 26 referencias ao
inconsciente no Sem das Psicoses, e algumas delas especificas ao
inconsciente nas psicoses, são elas: “à flor da terra, a céu aberto,
excluído para o sujeito, sustentado por uma linguagem de alcance reduzido,
submetido a uma inércia especial, martirizador do psicótico Se Lacan
insistiu que o “inconsciente é estruturado como uma linguagem”, também
retomou Freud - “o delírio é tentativa de reconstrução”.
Na lição de 30/11/55
está escrito: “desde que o sujeito fala, há um Outro com A maiúscula,sem
isso não haveria problema na psicose.Os psicóticos seriam máquinas de
fala”.
Observamos que estamos diante de um discurso que
sabemos desarticulados da realidade, mas que tenta reconstruir de forma
estranha, no registro do Real, uma parametáfora paterna. O desafio que enfrentamos no quotidiano é lidar
com um Real que aparece como lugar de reconstrução.
Há
outras foraclusões
?
Falar em foraclusão é
dizer que a estrutura é Psicose. É o oposto do recalque. Não teve êxito a
operação da metáfora paterna. Mas há outras foraclusões?
No sem O sinthoma,
16/03/76 Lacan diz que lhe colocaram esta pergunta:se havia outras
foraclusões além da que resulta da foraclusão do Nome-do-Pai?
Resposta: “é certo que a foraclusão tem algo de mais radical,já
que o nome do pai é algo, afinal de contas, de leve. Mas é certo que aí
pode servir no lugar da foraclusão do sentido pela orientação do Real.”
Tento entender essa Foraclusão de sentido.
É no
sem R.S.I que aparece mais claro esse conceito de sentido. Na aula
de10/12/74 é Lacan quem pergunta:que historia é essa de sentido?
Diz que na pratica analítica é para reduzir o sentido que se opera. E o
sentido é aquilo porque responde algo que é diferente do Simbólico; e esse
algo que é diferente do Simbólico, não há meio de suportá-lo senão pelo
Imaginário. Diz ainda que também existe um máximo admitido no desvio de
sentido,ou seja,o máximo permitido da substituição de um significante por
um outro. Embora não tenha ficado claro para mim,em que sentido opera essa
orientação do Real, me parece uma referencia às neuroses.Trazendo o
conceito para a pratica clínica, ainda no R.S.I. 16/11/55 Lacan diz: “o
sentido não é o que se compreende.O sonho tem um sentido; algo se pode ler
nele, mas jamais o sonho fala. A pergunta que cabe ao sonho é: “o que isso
quer dizer, dizendo isso”? Aqui fico com mais uma pergunta: reduzir o Gozo
nas psicoses.quando surge um objeto para anodá-lo, alcançaria algum
sentido?
A foraclusão
local é tese,defendida por
Nasio, em seu livro Os olhos de Laura (pág 78-79) e me pareceu também
pouco clara.Transcrevo: “a realidade psíquica, a da castração, é
intolerável porque comporta uma representação particularmente
intolerável,entre o conjunto geral das representações, mas todas as outras
representações são intoleráveis também?” Nasio diz que os Nomes-do- Pai
são múltiplos, locais e factuais como as castrações. E se o acontecimento
é o da foraclusão, a realidade forma-se diferente das outras, mas não
incompatível com elas.
Foraclusão
defensiva
é um termo de
M.Safouan e refere-se ao caso do Homem dos Lobos quando alucina ou
delira.
Pareceu-me que esses
nomes dados às outras formas de foraclusão guardam uma relação com a
foraclusão de sentido anotada por Lacan. São nomes diferentes para o mesmo
conceito.
Há um recalcado
anteriormente... Como é isso?
Que tipo de recalque
existe nas psicoses?
Lacan no sem 3 (11/01/56) diz: “no começo das psicoses
quando o não simbolizado aparece no Real, há respostas do lado do
recalque, mas são inadequadas” Confirma essa questão ao
comentar o caso de Schreber e a relação imaginaria com os raios divinos,
onde Freud fala da existência de uma dupla polaridade e refere-se então ao
recalcado anteriormente. Gerard Pommier em seu Ensaio sobre A
Transferência em Psicanálise quando particulariza as psicoses, faz o mesmo
questionamento sobre o movimento do recalque secundário:o sintoma
neurótico resulta de um retorno do recalcado que procede da sucessão de
dois traumatismos: o do recalque primordial e depois do recalque
secundário. Nas psicoses só encontramos a metade do segundo
traumatismo. Então a tese de Nasio parece repetir Freud e
Lacan em relação ao recalcado. Neste ponto surge uma grande
questão: aprendemos que a estrutura não muda,e que onde há recalque, não
tem foraclusão...Será essa uma tese a ser melhor entendida? Concordamos
que nas psicoses há um recalcado pela metade, que capenga diante da
forclusão? A figura do banquinho de 4 pés em que um capenga citado por
Lacan para dizer sobre uma função que não responde quando chamada estará
nos mostrando uma certa parcialidade do recalcado nas psicoses?.
E sujeito, tem nas Psicoses?
Sim, tem sujeito nas psicoses. Representado pelo
significante foracluído ou alucinado.Para Lacan o sujeito psicótico “está
ali literalmente no discurso alucinatório”.Trata-se de um sujeito mais
ponto de interrogação, que reage à ausência do significante de forma
enigmática, e que vive a despossessão primitiva do significante, através
de uma série de identificações conformistas a personagens. Partindo do
Caso Schreber, Lacan diz que há uma significação essencial que não remete
a nada, mas diz respeito ao sujeito.O sujeito nas psicoses não pode fazer
uma mediação simbólica entre o que é novo e ele próprio.
Para Isidoro
Vegh o sujeito psicótico carece do inconsciente como lógica de
incompletude e disto resulta a impossibilidade de articular seu desejo, o
que configura um sujeito não desejante.
Chegamos
no fantasma.Psicótico tem tudo
isso,até fantasma?
Embora Lacan use sempre a palavra fantasmagoria,
quando se refere às psicoses no Seminário 3, literalmente
define:”partamos da idéia de que um buraco,uma falha,um ponto de ruptura
do mundo exterior, está preenchido pela peça agregada que é o fantasma
psicótico”.
Gerard
Pommier,em Luis de la Nada (pág 109 n.1) diz que existe uma diferença
substancial entre fantasma neurótico e seu correspondente psicótico: o
primeiro corresponde a um desejo estruturado por uma proibição; sua
realização o relança de imediato por toda satisfação que engendra; o
segundo,ao contrário,quando se realiza, se precipita em um incesto cuja
única saída é o negativismo.O delírio se desencadeia
justamente ao culminar nas psicoses um “fantasma” que busca realizar-se. O
delírio sucede à realização do fantasma. É uma tentativa de
reconstrução.
Observa-se até aqui
que na psicanálise com psicóticos todos os conceitos que fundamentam a
escuta analítica conservam seus nomes, mas estão literalmente
modificados.Vamos ver agora a
transferência e que pressupostos adotará.
Primeira diferença: o
lugar de Suposto Saber não será ocupado pelo analista. A demanda sempre
vem por terceiros e o candidato à análise busca ser ouvido em sua certeza
delirante, da qual não tem dúvidas. Logo esse semblante de “a” lugar do
analista também não vai operar.
Lacan no texto Uma
Questão Preliminar a todo tratamento possível das Psicoses,(pag580) diz
que a relação com o outro como semelhante, e até uma relação tão elevada
quanto à da Amizade, no sentido em que Aristóteles faz dela a essência do
laço conjugal, são perfeitamente compatíveis com a relação fora-do-eixo
com o grande Outro e com tudo que ela comporta de anomalia radical. Outra
referência ao amor, agora no Sem 3: para o psicótico uma relação amorosa é
possível abolindo-o como sujeito, enquanto ela admite uma heterogeneidade
radical do Outro, mas esse amor é um amor morto.
.Resumindo: esse
amigo que escuta, é um lugar diferente. Há quem pergunte se ser amigo não
será querer o bem do outro. Se o investimento sexual ,na amizade,está além
do corpo, e direciona-se ao social,é a única via que pode permitir que
algo surja e possa fazer nó ali, onde o Gozo reina absoluto....
Sem
concluir....
Uma questão retorna
agora sem conclusão:diante desses conceitos modificados, pode-se falar de
uma técnica psicanalítica?
Eduardo Foulkes em seu livro El Saber de lo Real diz
que “nossas intervenções nas psicoses jamais poderiam ser consideradas uma
técnica psicanalítica,mas guardam indubitavelmente coerência
com um principio metodológico:o Real do gozo do psicótico não se
interpreta,não se acede a sua simbolização com o simbólico da palavra,
muito ao contrario,é o Real da palavra que o ato psicanalítico
presentifica em sua recusa a ser um Outro do Gozo do psicótico. Também não
é o lugar do psicanalista puro, pois opera um saber do Real desde
que se opõe a ser o Outro do gozo do psicótico, o que nos diferencia
também do Psicoterapeuta, embora às vezes sejamos diretivos”.
Se nas psicoses há um inconsciente,mesmo que adotemos o
que define Isidoro Vegh...Um inconsciente que carece da lógica de
incompletude, na nossa prática clinica, esses conhecimentos teóricos,
parecem ter como lugar privilegiado, além do manejo da transferência, o de
tentar que algo surja para barrar o gozo absoluto que faça buraco nesse
Real que comanda sem Lei. Entretanto, na maioria das vezes que enfrentamos
esse desafio, não recuando diante das psicoses, temos o sentimento de
estar “remando na areia” .
------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Psicanalista Participante da Intersecção Psicanalítica
do Brasil
Fone: 34239021-Consultório
Endereço eletrônico: screcife@uol.com.br
Agradeço se houver algum colega que queira
discuti-lo,via internet.
Bibliografia
-
Freud, Sigmund
-O caso Schreber. Em: Edição
Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund
Freud. Rio de Janeiro, Imago editora. Vol. XII, 1969.
-
Lacan,Jacques.Escrits.Editions
du Seuil,Paris,1966.
-
________
Seminário 3 - As Psicoses. Ed Paidós, 1975-76
-
____________
O Sinthoma. Texto não publicado oficialmente. S/d.
-
________
R.S. I. Texto não publicado oficialmente. S/d.
-
Vegh, Isidoro.
Uma cita com la Psicose. Homo Sapiens Edicions, 1995
-
Nasio, J-David.
Os Olhos de Laura. Artes Médicas, 1991
-
_______ A
alucinação. 1997. Ed Zahar
-
_______ A
psicossomática. 1993
Ed.Zahar
-
_______
Cinco Lições sobre a teoria de Jacques Lacan. Ed. Zahar, 1991
-
Pommier,
Gerard. Louis de la Nada - La melancolia de Altusser. Argentina,
Amarrortu Editores, 1998.
-
Zentner, Oscar.
A escuta Psicanalítica-Efeitos de uma ética.Publicação do
C.E.F-Recife
-
Julien, Philipe. As
Psicoses. Companhia das letras, 1997
|