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   “... é preciso o passe de mágica”:
A Transferência, a Clínica e “O Homem das Estrelas”
(1)

Rita Smolianinoff
(2)

 
 

Frases de “Estrela”

 “Vi uma caveira sobre um canhão.
Fiquei curioso e pedi uma explicação.
Ela me respondeu com muita tristeza:
- “Morri e nenhum sino tocou. Meus anos fugiram de mim. Fugiram, não sei para onde. E agora tenho 80 anos... Chamo os vivos e os mortos me respondem. Preparem minha cama... Pois os vermes já comeram meu corpo todo. Quero ser enterrado com respeito e com flores vermelhas... flores amarelas e vermelhas
.”

Frases de Analisantes

-  “Posso mesmo lhe contar algo terrível que fiz e que só teve a Deus por testemunha?”
- “Não saio de casa. A senhora sabia que aqui e na Igreja são os  dois únicos lugares onde vou?”
-
 “Toda vez que olho para uma mulher, vejo a minha mãe...”. 
-
“Penso que uma sociedade é que nem a minha análise: os sócios têm  que estar profundamente ligados;  não pode haver dois, mas apenas um”.

 

 Algumas frases de analisantes se repetem muito por diversas sessões; antes eu pensava que era, talvez por isso, que permaneciam por um tempo na minha memória...  Mas, às vezes, elas retornam  tão inesperadamente que me ponho a pensar por que isso acontece; fico me a me perguntar até que ponto elas me dizem respeito...

 Falar sobre transferência em psicanálise sem teorizar é impossível; já teorizá-la sem tê-la vivido, penso que é, no mínimo, absurdo. Por isso, é na  clínica, em alguns momentos que considero especiais, que vou tentar pautar minhas reflexões.

 Sempre fico perplexa quando penso me ver, a partir do  discurso  do analisante, numa cena, num lugar - aquém ou além do meu - onde ele me coloca,  contando com que eu de lá lhe responda, que contracene com ele.  Mesmo quando leio em Lacan que essa minha perplexidade teria a ver com uma “implicação necessária do analista na situação de transferência[2], mesmo assim, fico perplexa.

Medo

 Recordo uma sessão onde o então analisante - um jovem que a família considerava doente mental desde que tinha 13 anos de idade -  vociferava contra mim acusações terríveis; eu estava muda, seguramente assustada e nada me ocorria além de medo pois ele, de pé, apontava para mim ameaçadoramente. Me dizia coisas inusitadas e eu não estava entendendo nada. Mal pude dizer-lhe, quando parou para respirar: “aqui é um lugar onde você pode dizer tudo isso”, com o que ele olhou-me assustado e serenou sua fúria. 

Por muito tempo permaneci impressionada com aquela cena que eu havia acolhido, aquelas frases iradas passando na minha memória como um filme que se repete e, principalmente, com o medo que eu sentira;  só  depois é que fui me dar conta que, naquela poltrona onde eu estava, era a seu pai que ele acusava. Bem,  eu não sou seu pai, mas talvez tenha sido o meu acolhimento à sua fúria - deixando-me ficar no lugar em que ele me colocava -  o que favoreceu a saída de seu  ódio por via da palavra, já que no pai ele batia. 

Lacan fala dos sentimentos do analista provenientes de suas relações com o analisante, dizendo que esse fenômeno da transferência é uma conseqüência necessária[3]. Pareço ver, assim, que  o meu medo talvez não tivesse sido tão descabido.

 Em Observações sobre o Amor de Transferência[4] Freud escreve que “o psicanalista sabe que opera com forças explosivas ... será sempre indispensável a psicanálise inteira e verdadeira, que não se assusta em lidar com tendências anímicas mais perigosas e dominá-las para o maior bem do doente”. Em “Psicanálise Selvagem” ele já tinha falado sobre a resignação do “neurólogo” com uma espécie de projeção, a responsabilidade dos desejos secretos reprimidos dos enfermos”.[5] Ele não falava das forças explosivas da própria pessoa do analista, mas a meu ver já remetia a essa questão, na medida em que evocou a “psicanálise inteira e verdadeira”.  Em “A Dinâmica da Transferência”[6] ele fala da inclusão da pessoa do médico nas “séries psíquicas” do paciente, segundo a imagem do pai, da mãe, dos irmãos, sendo isso característica da própria neurose. O que seria dessa “inclusão” se o analista não consentisse em ocupar esse lugar? Ou, melhor dizendo, “esses lugares”?

 Penso que a angústia de quem se deixa coloca na posição de sujeito-suposto-saber é indizível. Sendo  única de cada analista - por remeter à sua própria história  - não há texto ou sub-texto que a signifique prá valer, pois o inconsciente é inesgotável. Lacan coloca que “É preciso realmente admitir que não existe em ninguém qualquer elucidação exaustiva do inconsciente, por mais longe que seja levada uma análise...[7]. De nada sabe o analista e é nesse espaço de não saber que floresce o discurso do analisante; em segundo lugar,  porque se há algo a ser sabido da parte do analista, são meras suposições;  tomemos como  exemplo o último depoimento clínico:  será que era mesmo ao pai que ele acusava? Como seria o medo que o pai dele  sentia toda vez que o filho, descontrolado, avançava para ele e o agredia fisicamente?

 Esse tema sobre o qual decidi escrever vem de  minhas interrogações sobre a função do  analista,  a partir do dia-a-dia na clínica, dia-a-dia  de  frases  que permanecem, da angústia que concordo em acolher e que também, por vezes, me angustia.  

 “O Homem das Estrelas”

 O filme “O Homem das Estrelas[8], de certa forma, lembrou-me o trabalho do  analista e a imensa responsabilidade que se assume na situação analítica. Como creio que nem todos tiveram a oportunidade de assisti-lo, peço licença para, num aparte, resumi-lo brevemente.

 É  a história de um homem que se dizia chamar Dr. Morelli e que percorria pequenas cidades fazendo testes cinematográficos com as pessoas simples do interior da Sicília, ganhando dinheiro em troca da  promessa de que seus testes seriam vistos por cineastas famosos; ao longo do filme o Dr. Morelli se envolverá com pessoas de todo tipo e, ao final, desmascarado,  morto de pancadas, preso, percebe que nada mais lhe resta do que a solidão. Eis mais ou menos como ele agia:

 “Fale”, dizia o charlatão, ao candidato a estrela de cinema. A população acorria em peso ao teste; gente de todo tipo.  A todos ele convidava a falar perante uma câmera que rodava um filme vencido e que nada registrava. Mandava recitar a frase  “afinal, amanhã é um outro dia”, do filme ‘E o Vento Levou”, mas as pessoas,  às vezes muito ignorantes,  não conseguiam decorar nem esse pequeno texto;  para não perder o dinheiro, o Dr. Morelli inventava: “fale qualquer coisa”.  E acrescentava: “nada prometo, mas se houver talento, em um mês você terá notícias de Roma”. O sujeito, então, falava de si mesmo, revelava segredos e anseios, suas questões mais profundas. Sem sequer importar-se com as conseqüências de sua charlatanice, o Dr. Morelli mexia com o mais profundo do desejo,  nada compreendendo - nem querendo compreender - daquilo que escutava. Estabelecia-se, assim, sem que ele o desejasse,  “a mais misteriosa das relações entre os sujeitos[9]. O  Dr.  Morelli,  pasmado com o que ouvia, muitas vezes chegou a envolver-se. Após o “teste”, as pessoas passavam a fazer algo de suas vidas, como se o fato aparentemente simples  de terem falado seus segredos a alguém, tivesse sido suficiente para fazê-los tomar  outros rumos, alguns deles, inclusive, trágicos[10]. Uma única pessoa ele amou, e por isso desse Dr. Morelli,  não ouso dizer, afinal,  que era bom ou mau, apesar do charlatão que era. Não estava interessado no que as pessoas  diziam, mas as escutava. Ao final do filme apenas frases permaneceram em sua memória...

 

Espera Silenciosa

 “Fale”, espero silenciosamente. E quando o analisante responde “não sei por onde começar”, convido-o a falar a primeira coisa que lhe venha à mente. Do que ele diz, nada compreendo.   Antes eu me perguntava “afinal, onde estará a verdade desse sujeito? Qual será  ela? Para esse manto protetor de tantos disfarces?

 “...é preciso o passe de mágica[11] diz Lacan no Seminário sobre a Transferência, quando considera a opacidade da verdade, a qual nunca se mostra por inteiro; adiante[12] ele alertará sobre a necessidade de desconfiar da aparência do “fenômeno conotado”, sob os termos de transferência positiva e negativa, chamando-nos a atenção para o automatismo da repetição. De fato, como num passe de mágica - pois à primeira vista nada o justifica -,  após algumas sessões, certo sofrimento esmorece no discurso, aparentemente desiste. O analisante já está ocupado com outro sofrimento que deslizou e veio substituir o primeiro. Muitas vezes me havia dito “sou cheio de  vertigens, não agüento mais, por favor, faça alguma coisa para me ajudar” mas, agora, ele diz  - e me dirá repetidas vezes - “já faz bem uns quatro meses que não tenho vertigens, agora tenho muitas dores na cabeça. Por favor, me diga como fazer para acabar com essas dores”.  Sua demanda é clara, mas não é explícita[13].

 Penso na analisante, única sobrevivente da perda trágica de toda sua família, que vem às sessões para chorar seus mortos. Escuto-a, acolho sua dor, mas o que oferecer-lhe como ajuda, a não ser o meu silêncio? Mesmo quando escuto-a dizer-me que perdeu a mãe aos três anos, que seu pai é doente mental, que seus irmãos se perderam no mundo, que sua primeira filha nasceu morta, o que posso oferecer-lhe quando chora a perda de avós, marido e quatro filhos num único momento, a não ser a minha presença?

 Freud, em “A Dinâmica da Transferência”[14] fala que  “o único que poderíamos oferecer à enferma seriam sub-rogados, pois enquanto não fiquem vencidas suas repressões, seu estado a incapacita para toda satisfação real...”. Na lição sobre “A Transferência”[15],  observo: “ ... uma vez que a ação terapêutica domine o paciente, podemos comprovar que a enfermidade muda bruscamente de orientação, referindo agora todas as suas manifestações à relação entre o médico e o enfermo. ... Resulta que não nos achamos frente à enfermidade primitiva, mas ante uma nova neurose transformada, que veio substituir a primeira. ... esta  nova edição da antiga doença nasceu perante os olhos do médico, situado, ademais, no próprio nódulo central da mesma... todos os sintomas do enfermo perdem sua primitiva significação e adquirem um novo sentido dependente da transferência. Penso que esse parágrafo permite-nos ver que a transferência. opera e o que resulta dessa operação.  Talvez seja o nascer dessa “nova doença perante os meus olhos” o que me faça perplexa, pois é como se eu constatasse o efeito que causa a minha presença, sem compreender direito o que operou.

 Será que é o meu aparente silêncio o que permite descortinar a tela onde serão  projetados os desejos daqueles que escuto? Hoje sei que, de fato,  o meu desejo não está ausente nem estou silenciosa; atenta, à espreita, em suspenso dentro desse espaço, aguardo encontrar-me com o analisaste.

 Eis por onde o filme “O Homem das Estrelas” me fez refletir sobre a clínica e a transferência.  Quando o analisante fala, nada quero saber do que ele diz, nada quero compreender do texto que ele me recita na sessão.  Fico à espera de que, na repetição de seu sintoma, um ato falho, um sonho, faça surgir algum elemento significante  novo; enquanto espero, a constatação de que minha presença faz ato, principalmente quando percebo que algo mudou na vida deles, uma decisão que tomou, um outro rumo que deram às suas vidas: o rompimento de uma antiga sociedade mercantil antiga desfavorável, a evitação de uma desnecessária cirurgia de grande porte, a separação do cônjuge perverso e tantas outras situações aparentemente inesperadas...

 Em Lacan leio: “Há algum tempo admite-se efetivamente na prática analítica que o analista deve levar em conta, em sua informação e em suas manobras, os sentimentos, não que ele inspira, mas que experimenta na análise, aquilo a que se chama sua contra-transferência.”[16]Acho que é nesses momentos, principalmente, quando a angústia do analisante me angustia, que isso ocorre.   

É claro que tudo  isso nada tem a ver com o Dr. Morelli - ele era apenas um charlatão, e, afinal, é só um filme. Um filme que me levou a refletir, uma vez mais, sobre a imensa responsabilidade que significa aceitar alguém em análise.

 Quando escuto parte de minha própria história na fala de um analisante é que fica mais claro para mim que só posso nomear o que conheço. O significante que está em pauta é aparentemente igual ao meu, dele eu posso dizer no meu silêncio “ah, está bem, eis algo que me diz respeito, você tem razão de ter medo, é algo tenebroso, tenho medo também”. 

 No livro “A Transferência e o Desejo do Analista[17], Moustapha Safouan escreve que “...o próprio mecanismo da transferência, como substituto de um objeto que poderíamos dizer qualquer (pois esse objeto pode ser qualquer analista)[18] no lugar  de um outro, autoriza uma conclusão bem outra, a saber, que o amor é fundamentalmente indiferente ao objeto ao qual remete...” . Reflito que a angústia que surge pela escuta clínica, essa não é uma “angústia qualquer”; pode parecer que emana da angústia do analisante, mas não nasce nele;  penso que a angústia do analista já existe nele próprio e é convocada pela impossibilidade de dar conta do demanda do analisante.

 As sessões se sucedem, novas frases se apresentam, algumas se repetem, permanecem. Creio que todas elas - as dos analisantes, as minhas, as que leio em Freud e  Lacan e em outros autores - fazem parte da minha construção enquanto analista. E, no deslumbramento-horror desse texto, permaneço me questionando.

 O Engano

 Logo quando comecei a escrever esse trabalho, eu enfocava o que era da ordem do engano. Pensava no charlatão Morelli que enganava as pessoas prometendo algo que não tinha a intenção de dar, levando-as a assumirem seus desejos, a terem coragem de mudar suas vidas. Pensava no analista cujo lugar de semblant é também da ordem do engano, movendo as pessoas a confrontarem-se com seus desejos. 

 Depois, percebi que o engano era apenas meu, porque a questão maior que se colocava - e agora sei, se coloca -, são esses lugares aos quais sou convocada e que devo ocupar, apesar de quaisquer angústias - ou poderia dizer, principalmente por causa delas.   O que está em pauta é a transferência.  E sempre estará. 

 P.S. A autora continua interessada em manter interlocução sobre seu texto e sobre o tema, a qualquer tempo, com ênfase especial no campo clínico.


(i) II Jornada Freud-Lacaniana - 30 de novembro de 1996 - Mar Hotel - Recife/PE

(2) Psicanalista, participante de Intersecção Psicanalítica do Brasil


 Notas:  

[1]Lacan, Seminário 8, A Transferência.

[2]Lacan, Seminário 8, A Transferência, pág. 184.

[3]Lacan, Seminário 8, A Transferência, pág. 190

[4]S.Freud, Obras Completas, Tomo II, Cap. XLVIII, pág. 1689, Biblioteca Nueva, Cuarta Edicion, 1981

[5][5]S.Freud, Obras Completas, Tomo II, Cap. XLVIII, Biblioteca Nueva, Cuarta Edicion, 1981,pág. 1571

[6]Idem, Cap. LVIII, pág. 1648

[7]Lacan, Seminário 8, A Transferência, pág. 184

[8]”O Homem das Estrelas”, filme de Giuseppe Tornatore, produção Mario e Vittorio Cecchi Gori, Paris Video Filmes.

[9]Lacan, Seminário 8, A Transferência.

[10]A moça que queria matar-se, o burocrata que matou o filho mongolóide, o homossexual que mudou  de cidade, o silencioso que falou de sua saudade, os bandidos que  pagaram, a fotografia do mafioso morto.

[11]Lacan, Seminário 8, A Transferência, pág. 193

[12]Idem

[13]Idem,  pág. 198.

[14] S.Freud, Obras Completas, Tomo II, Cap. LVII),  Biblioteca Nueva, Cuarta Edicion, 1981

[15] Idem, Lição LVII, pág. 2391

[16]Lacan, Seminário 8, A Transferência, pág. 190.

[17]Ed. Papirus, SP, 1991, pág.23 e seguintes

[18]O grifo é meu

 Obras Consultadas: 

Sigmund Freud, Obras Completas, Ed. Biblioteca Nueva, Madrid, Quarta Edição, 1981, Tomo II:

      A Dinâmica da Transferência
Observações sobre o Amor de Transferência
Conselhos aos Médicos que exercem a Psicanálise

 
A Psicanálise Selvagem
 
Cap. XCVII - Lições Introdutórias À Psicanálise: Parte III: A Angústia; A Transferência.

Jacques Lacan:

O Seminário, Livro 1, Os Escritos Técnicos de Freud, Jorge Zahar Editor,  3a. Edição
 Seminário, Livro 3, As Psicoses
, Jorge Zahar Editor, 3a Edição.
O Seminário, Livro 8, A Transferência
, Jorge Zahar Editor, 3a  Edição.

Moustapha Safouan, A Transferência e o Desejo do Analista, Papirus Editora, SP, 1991.

Charles Melman, Estrutura Lacaniana das Psicoses, Ed. Artes Médicas, RS, 1991.


[i] II Jornada Freud-Lacaniana - 30 de novembro de 1996 - Mar Hotel - Recife/PE

Setembro/2001.

[2] Psicanalista, participante de Intersecção Psicanalítica do Brasil


 Intersecção Psicanalítica do Brasil