Frases de “Estrela”
“Vi uma caveira sobre um canhão.
Fiquei curioso e pedi uma explicação.
Ela me respondeu com muita tristeza:
- “Morri e nenhum sino tocou. Meus anos fugiram de mim. Fugiram,
não sei para onde. E agora tenho 80 anos... Chamo os vivos e os mortos me
respondem. Preparem minha cama... Pois os vermes já comeram meu corpo
todo. Quero ser enterrado com respeito e com flores vermelhas... flores
amarelas e vermelhas.”
Frases
de Analisantes
- “Posso mesmo lhe contar algo terrível que fiz e que só
teve a Deus por testemunha?”
- “Não saio de casa. A senhora sabia que aqui e na Igreja são os dois
únicos lugares onde vou?”
-
“Toda vez que olho para
uma mulher, vejo a minha mãe...”.
- “Penso que uma sociedade é que nem a minha
análise: os sócios têm que estar profundamente ligados; não pode haver
dois, mas apenas um”.
Algumas frases de analisantes se repetem muito por
diversas sessões; antes eu pensava que era, talvez por isso, que
permaneciam por um tempo na minha memória... Mas, às vezes, elas
retornam tão inesperadamente que me ponho a pensar por que isso acontece;
fico me a me perguntar até que ponto elas me dizem respeito...
Falar sobre transferência em psicanálise sem teorizar é
impossível; já teorizá-la sem tê-la vivido, penso que é, no mínimo,
absurdo. Por isso, é na clínica, em alguns momentos que considero
especiais, que vou tentar pautar minhas reflexões.
Sempre fico perplexa quando penso me ver, a partir do
discurso do analisante, numa cena, num lugar - aquém ou além do meu -
onde ele me coloca, contando com que eu de lá lhe responda, que
contracene com ele. Mesmo quando leio em Lacan que essa minha
perplexidade teria a ver com uma “implicação necessária do analista na
situação de transferência”,
mesmo assim, fico perplexa.
Medo
Recordo uma sessão onde o então analisante - um jovem que
a família considerava doente mental desde que tinha 13 anos de idade -
vociferava contra mim acusações terríveis; eu estava muda, seguramente
assustada e nada me ocorria além de medo pois ele, de pé, apontava para
mim ameaçadoramente. Me dizia coisas inusitadas e eu não estava entendendo
nada. Mal pude dizer-lhe, quando parou para respirar: “aqui é um lugar
onde você pode dizer tudo isso”, com o que ele olhou-me assustado e
serenou sua fúria.
Por muito tempo permaneci impressionada com aquela cena que
eu havia acolhido, aquelas frases iradas passando na minha memória como um
filme que se repete e, principalmente, com o medo que eu sentira; só
depois é que fui me dar conta que, naquela poltrona onde eu estava, era a
seu pai que ele acusava. Bem, eu não sou seu pai, mas talvez tenha sido o
meu acolhimento à sua fúria - deixando-me ficar no lugar em que ele me
colocava - o que favoreceu a saída de seu ódio por via da palavra, já
que no pai ele batia.
Lacan fala dos sentimentos do analista provenientes de suas
relações com o analisante, dizendo que esse fenômeno da transferência é
uma conseqüência necessária.
Pareço ver, assim, que o meu medo talvez não tivesse sido tão descabido.
Em Observações sobre o Amor de Transferência
Freud escreve que “o psicanalista sabe que opera com forças explosivas
... será sempre indispensável a psicanálise inteira e verdadeira, que não
se assusta em lidar com tendências anímicas mais perigosas e dominá-las
para o maior bem do doente”. Em “Psicanálise Selvagem” ele já tinha
falado sobre a resignação do “neurólogo” com uma
espécie de projeção, a responsabilidade dos desejos secretos reprimidos
dos enfermos”.
Ele não falava das forças explosivas da própria
pessoa do analista, mas a meu ver já remetia a essa questão, na medida em
que evocou a “psicanálise inteira e verdadeira”. Em “A Dinâmica da
Transferência”
ele fala da inclusão da pessoa do médico nas “séries psíquicas” do
paciente, segundo a imagem do pai, da mãe, dos irmãos, sendo isso
característica da própria neurose. O que seria dessa “inclusão” se o
analista não consentisse em ocupar esse lugar? Ou, melhor dizendo, “esses
lugares”?
Penso que a angústia de quem se deixa coloca na posição de
sujeito-suposto-saber é indizível. Sendo única de cada analista - por
remeter à sua própria história - não há texto ou sub-texto que a
signifique prá valer, pois o inconsciente é inesgotável. Lacan coloca que
“É preciso realmente admitir que não existe em
ninguém qualquer elucidação exaustiva do inconsciente, por mais longe que
seja levada uma análise....
De nada sabe o analista e é nesse espaço de não saber que floresce o
discurso do analisante; em segundo lugar, porque se há algo a ser sabido
da parte do analista, são meras suposições; tomemos como exemplo o
último depoimento clínico: será que era mesmo ao pai que ele acusava?
Como seria o medo que o pai dele sentia toda vez que o filho,
descontrolado, avançava para ele e o agredia fisicamente?
Esse tema sobre o qual decidi escrever vem de minhas
interrogações sobre a função do analista, a partir do dia-a-dia na
clínica, dia-a-dia de frases que permanecem, da angústia que concordo
em acolher e que também, por vezes, me angustia.
“O Homem das Estrelas”
O filme “O Homem das Estrelas”,
de certa forma, lembrou-me o trabalho do analista e a imensa
responsabilidade que se assume na situação analítica. Como creio que nem
todos tiveram a oportunidade de assisti-lo, peço licença para, num aparte,
resumi-lo brevemente.
É a história de um homem que se dizia chamar Dr. Morelli
e que percorria pequenas cidades fazendo testes cinematográficos com as
pessoas simples do interior da Sicília, ganhando dinheiro em troca da
promessa de que seus testes seriam vistos por cineastas famosos; ao longo
do filme o Dr. Morelli se envolverá com pessoas de todo tipo e, ao final,
desmascarado, morto de pancadas, preso, percebe que nada mais lhe resta
do que a solidão. Eis mais ou menos como ele agia:
“Fale”, dizia o charlatão, ao candidato a estrela
de cinema. A população acorria em peso ao teste; gente de todo tipo. A
todos ele convidava a falar perante uma câmera que rodava um filme vencido
e que nada registrava. Mandava recitar a frase “afinal, amanhã é um
outro dia”, do filme ‘E o Vento Levou”, mas as pessoas, às vezes
muito ignorantes, não conseguiam decorar nem esse pequeno texto; para
não perder o dinheiro, o Dr. Morelli inventava: “fale qualquer coisa”.
E acrescentava: “nada prometo, mas se houver talento, em um mês você
terá notícias de Roma”. O sujeito, então, falava de si mesmo, revelava
segredos e anseios, suas questões mais profundas. Sem sequer importar-se
com as conseqüências de sua charlatanice, o Dr. Morelli mexia com o mais
profundo do desejo, nada compreendendo - nem querendo compreender -
daquilo que escutava. Estabelecia-se, assim, sem que ele o desejasse, “a
mais misteriosa das relações entre os sujeitos”.
O Dr. Morelli, pasmado com o que ouvia, muitas vezes chegou a
envolver-se. Após o “teste”, as pessoas passavam a fazer algo de suas
vidas, como se o fato aparentemente simples de terem falado seus segredos
a alguém, tivesse sido suficiente para fazê-los tomar outros rumos,
alguns deles, inclusive, trágicos.
Uma única pessoa ele amou, e por isso desse Dr. Morelli, não ouso dizer,
afinal, que era bom ou mau, apesar do charlatão que era. Não estava
interessado no que as pessoas diziam, mas as escutava. Ao final do filme
apenas frases permaneceram em sua memória...
Espera Silenciosa
“Fale”, espero silenciosamente. E quando o
analisante responde “não sei por onde começar”, convido-o a falar a
primeira coisa que lhe venha à mente. Do que ele diz, nada compreendo.
Antes eu me perguntava “afinal, onde estará a verdade desse sujeito? Qual
será ela? Para esse manto protetor de tantos disfarces?
“...é preciso o passe de mágica”
diz Lacan no Seminário sobre a Transferência, quando considera a opacidade
da verdade, a qual nunca se mostra por inteiro; adiante
ele alertará sobre a necessidade de desconfiar da
aparência do “fenômeno conotado”, sob os termos de transferência
positiva e negativa, chamando-nos a atenção para o automatismo da
repetição. De fato, como num passe de mágica - pois à primeira vista nada
o justifica -, após algumas sessões, certo sofrimento esmorece no
discurso, aparentemente desiste. O analisante já está ocupado com outro
sofrimento que deslizou e veio substituir o primeiro. Muitas vezes me
havia dito “sou cheio de vertigens, não agüento mais, por favor, faça
alguma coisa para me ajudar” mas, agora, ele diz - e me dirá
repetidas vezes - “já faz bem uns quatro meses que não tenho vertigens,
agora tenho muitas dores na cabeça. Por favor, me diga como fazer para
acabar com essas dores”. Sua demanda é clara, mas
não é explícita.
Penso na analisante, única sobrevivente da perda trágica
de toda sua família, que vem às sessões para chorar seus mortos. Escuto-a,
acolho sua dor, mas o que oferecer-lhe como ajuda, a não ser o meu
silêncio? Mesmo quando escuto-a dizer-me que perdeu a mãe aos três anos,
que seu pai é doente mental, que seus irmãos se perderam no mundo, que sua
primeira filha nasceu morta, o que posso oferecer-lhe quando chora a perda
de avós, marido e quatro filhos num único momento, a não ser a minha
presença?
Freud, em “A Dinâmica da Transferência”
fala que “o único que poderíamos oferecer à enferma seriam
sub-rogados, pois enquanto não fiquem vencidas suas repressões, seu estado
a incapacita para toda satisfação real...”. Na lição sobre “A
Transferência”,
observo: “ ... uma vez que a ação terapêutica domine o paciente,
podemos comprovar que a enfermidade muda bruscamente de orientação,
referindo agora todas as suas manifestações à relação entre o médico e o
enfermo. ... Resulta que não nos achamos frente à enfermidade primitiva,
mas ante uma nova neurose transformada, que veio substituir a primeira.
... esta nova edição da antiga doença nasceu perante os olhos do médico,
situado, ademais, no próprio nódulo central da mesma... todos os
sintomas do enfermo perdem sua primitiva significação e adquirem um novo
sentido dependente da transferência. Penso que esse parágrafo
permite-nos ver que a transferência. opera e o que resulta dessa
operação. Talvez seja o nascer dessa “nova doença perante os meus olhos”
o que me faça perplexa, pois é como se eu constatasse o efeito que causa a
minha presença, sem compreender direito o que operou.
Será que é o meu aparente silêncio o que permite
descortinar a tela onde serão projetados os desejos daqueles que escuto?
Hoje sei que, de fato, o meu desejo não está ausente nem estou
silenciosa; atenta, à espreita, em suspenso dentro desse espaço, aguardo
encontrar-me com o analisaste.
Eis por onde o filme “O Homem das Estrelas” me fez
refletir sobre a clínica e a transferência. Quando o analisante fala,
nada quero saber do que ele diz, nada quero compreender do texto que ele
me recita na sessão. Fico à espera de que, na repetição de seu sintoma,
um ato falho, um sonho, faça surgir algum elemento significante novo;
enquanto espero, a constatação de que minha presença faz ato,
principalmente quando percebo que algo mudou na vida deles, uma decisão
que tomou, um outro rumo que deram às suas vidas: o rompimento de uma
antiga sociedade mercantil antiga desfavorável, a evitação de uma
desnecessária cirurgia de grande porte, a separação do cônjuge perverso e
tantas outras situações aparentemente inesperadas...
Em Lacan leio: “Há algum tempo
admite-se efetivamente na prática analítica que o analista deve levar em
conta, em sua informação e em suas manobras, os sentimentos, não que ele
inspira, mas que experimenta na análise, aquilo a que se chama sua
contra-transferência.”Acho
que é nesses momentos, principalmente, quando a angústia do analisante me
angustia, que isso ocorre.
É claro que tudo isso nada tem a ver com o Dr. Morelli -
ele era apenas um charlatão, e, afinal, é só um filme. Um filme que me
levou a refletir, uma vez mais, sobre a imensa responsabilidade que
significa aceitar alguém em análise.
Quando escuto parte de minha própria história na fala de
um analisante é que fica mais claro para mim que só posso nomear o que
conheço. O significante que está em pauta é aparentemente igual ao meu,
dele eu posso dizer no meu silêncio “ah, está bem, eis algo que me diz
respeito, você tem razão de ter medo, é algo tenebroso, tenho medo também”.
No livro “A Transferência e o Desejo do Analista,
Moustapha Safouan escreve que “...o próprio
mecanismo da transferência, como substituto de um objeto que poderíamos
dizer qualquer (pois esse objeto pode ser qualquer analista)
no lugar de um outro, autoriza uma conclusão bem outra, a saber, que o
amor é fundamentalmente indiferente ao objeto ao qual remete...” .
Reflito que a angústia que surge pela escuta clínica,
essa não é uma “angústia qualquer”; pode parecer que emana da angústia do
analisante, mas não nasce nele; penso que a angústia do analista já
existe nele próprio e é convocada pela impossibilidade de dar conta do
demanda do analisante.
As sessões se sucedem, novas frases se apresentam, algumas
se repetem, permanecem. Creio que todas elas - as dos analisantes, as
minhas, as que leio em Freud e Lacan e em outros autores - fazem parte da
minha construção enquanto analista. E, no deslumbramento-horror desse
texto, permaneço me questionando.
O Engano
Logo quando comecei a escrever esse trabalho, eu enfocava
o que era da ordem do engano. Pensava no charlatão Morelli que enganava as
pessoas prometendo algo que não tinha a intenção de dar, levando-as a
assumirem seus desejos, a terem coragem de mudar suas vidas. Pensava no
analista cujo lugar de semblant é também da ordem do engano,
movendo as pessoas a confrontarem-se com seus desejos.
Depois, percebi que o engano era apenas meu, porque a
questão maior que se colocava - e agora sei, se coloca -, são esses
lugares aos quais sou convocada e que devo ocupar, apesar de quaisquer
angústias - ou poderia dizer, principalmente por causa delas. O que está
em pauta é a transferência. E sempre estará.
P.S.
A autora continua interessada em
manter interlocução sobre seu texto e sobre o tema, a qualquer tempo, com
ênfase especial no campo clínico.
(i)
II Jornada Freud-Lacaniana - 30 de novembro de 1996 - Mar
Hotel - Recife/PE
(2)
Psicanalista, participante de Intersecção Psicanalítica
do Brasil
Notas:
Obras
Consultadas:
Sigmund
Freud, Obras Completas, Ed. Biblioteca Nueva, Madrid, Quarta Edição, 1981,
Tomo II:
A Dinâmica da
Transferência
Observações sobre o Amor de Transferência
Conselhos aos Médicos que exercem a Psicanálise
A Psicanálise Selvagem
Cap. XCVII - Lições Introdutórias À
Psicanálise: Parte III: A Angústia; A Transferência.
Jacques
Lacan:
O Seminário, Livro 1, Os Escritos Técnicos de Freud,
Jorge Zahar Editor, 3a. Edição
Seminário, Livro 3, As Psicoses, Jorge Zahar Editor, 3a Edição.
O Seminário, Livro 8, A Transferência, Jorge Zahar Editor, 3a Edição.
Moustapha
Safouan, A Transferência e o Desejo do Analista, Papirus Editora,
SP, 1991.
Charles
Melman, Estrutura Lacaniana das Psicoses, Ed. Artes Médicas, RS,
1991.
[i]
II Jornada Freud-Lacaniana - 30 de novembro de 1996 -
Mar Hotel - Recife/PE
Setembro/2001.
[2]
Psicanalista, participante de Intersecção Psicanalítica
do Brasil
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