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Apresentado no Simpósio de Brasília/DF - 2002

 

Mesa Temática: Psicoses

 

Psicose: Há constituição do sujeito?
 Luiza Bradley Araújo

 
 

A mensagem é constitutiva para o sujeito.

É pelo Outro que o sujeito se constitui, o código vem do Outro e é através dele que o sujeito recebe a mensagem que emite. Mensagens de código e códigos de mensagem se distinguirão em formas puras no sujeito da psicose, aquele que se contenta com esse Outro prévio.

Lacan, no Seminário “As formações do inconsciente”(1957/1958), na lição “A foraclusão do Nome do pai” diz que “ a questão que se coloca a propósito das psicoses é saber o que acontece com o processo da comunicação quando, justamente, ele não chega a ser constitutivo para o sujeito”. No mesmo seminário, na lição “Os três tempos do Édipo”, indaga “o que é um sujeito? Será alguma coisa que se confunde, pura e simplesmente, com a realidade individual que está diante de seus olhos quando vocês dizem o sujeito? Ou será que, a partir do momento em que vocês o fazem falar, isso implica necessariamente uma outra coisa? Quero dizer, será que a fala é como que uma emanação que paira acima dele, ou será que ela desenvolve, que impõe por si só, uma estrutura?...Quando há um sujeito falante, não há como reduzir a um outro, simplesmente, a questão de suas relações como alguém que fala, mas há sempre um terceiro, o grande Outro, que é constitutivo da posição do sujeito enquanto alguém que fala...”

Essa palavra como apelo à voz, ou seja , para aquilo que sustenta a fala. Não para a fala mas para o sujeito como portador dela. É o processo da invocação.

Entre as palavras tem que haver uma que funde a fala como ato no sujeito, alguma coisa que se coloca como conferindo autoridade à lei, lei a nível do significante, o Nome-do-Pai.

A Verwerfung, a foraclusão, é o que acontece na psicose. Esse Nome –do- Pai não está inscrito no Outro, tudo que se produz na psicose ordena-se em torno disso. Verworfen, é quando falta um significante ou uma letra na cadeia de significantes. O espaço do significante, o espaço do inconsciente, é realmente um espaço tipográfico, que é preciso tratar de definir como se constituindo de acordo com linhas e pequenos quadrados, e correspondentes a leis topológicas.

Para ilustrar melhor essa questão podemos trazer um exemplo que Bergès e Balbo falam no seminário sobre o grande Outro, em 30 de novembro de 1988, da criança que mal sabia conversar e que diz que seu jogo preferido era “o jogo do carteiro”. Quando indagada sobre as cartas ela diz “é o jogo do carteiro que não passará”. Em seus significantes as cartas não passam, não são distribuídas.

Não foi à toa que Lacan utilizou o conto de Poe para trabalhar o significante. No texto “O seminário sobre a carta roubada”, nos Escritos, Lacan diz :

“Mas, quanto à carta / letra, quer a tomemos no sentido de elemento tipográfico, de epístola ou daquilo que  faz o letrado, diremos que o que se diz deve ser entendido à letra, que há uma carta à espera de vocês com o carteiro, ou que vocês têm cartas/ letras-- mas nunca que haja de la lettre em alguma parte, não importando a que  título ela lhes diga respeito, nem que seja para designar a correspondência em atraso.” (p.27)  

Essa criança teve progressos incríveis em quinze dias, passou a escrever entre as linhas . É nesse grande Outro da criança que a mãe transitiva o lugar dos significantes que a criança se apropriou em seu grande Outro. É pelo discurso dessa mãe quando diz  por exemplo, “você está com frio”, ela faz uma suposição de saber à criança, logo há sujeito.

Podemos introduzir esse Outro através da teoria do Édipo. Chamar de triângulo simbólico, como instituído no real a partir do momento em que há uma cadeia significante, a articulação de uma fala.  

         Trata-se da lei do interdito do incesto que está incorporada como um traço paternal e que constitui a identificação primária.      

         A identificação primária é realizada com o traço unário paterno, com a lei da proibição do incesto. É a metáfora paterna que produz o significante da falta do outro que permite que o sujeito seja representado por um significante em relação a outro significante. Sem o significante da falta, não falta nenhum significante ao Outro. Se a mãe assume todo espaço no Outro, não há falta de significante. Ela ocupa o lugar do pai sem portanto conter o significante da falta do Outro.

O traço unário é essa marca invisível que o sujeito recebe do significante e que aliena esse sujeito na identificação primeira que forma o ideal do Eu.

Tudo é outro ao sujeito, considerando a exigência do eu primordial, há um tempo onde a língua dos outros é rejeitada, situada como totalmente exterior, outra ao sujeito, ele prefere “lalangue”, ou seja o que resulta da relação privada de seu eu com sua mãe. Eis aí a presença do narcisismo primário, tudo no início é exterior e para sair desse narcisismo é preciso que a libido invista no outro, que o sujeito se apaixone por esse outro, estrangeiro, ao ponto desse estrangeiro tornar-se esse outro eu-mesmo. 

Para o recém-nascido tudo é outro, inclusive sua mãe, tudo é não sentido, apenas o discurso da mãe em lugar do Outro, pode fazer sentido, mensagens. A partir do momento em que em torno dos seis meses a criança se depara com sua imagem no espelho, ela percebe que esse Outro é sua própria imagem, que a mensagem que o discurso lhe trazia se destinava a fazer do eu (moi), tudo que lhe era outro, e de repente esse “sou eu” se torna outro e familiar.

Esse Outro irá instituir um lugar a partir do qual, o mundo poderá ser organizado, um mundo onde o imaginário pode incluir o real e ao mesmo tempo formá-lo.

O estádio do espelho marca a divisão entre o imaginário, a partir da imagem formadora mas alienante e o simbólico, a partir da nominação da criança.  

É pela voz, considerada como um objeto “a”, que se pode dizer que a mãe está no lugar do Outro. A voz situa-se do lado dos objetos “a” e também como vetor, pela palavra, dos significantes da mãe. A mãe não fala apenas em voz alta mas é por meio da voz, com um “não” que ela usa o significante (supereu) que interdita o transbordamento do funcionamento, opera como limite ao gozo.

No seminário sobre o R.S.I., Lacan demonstra essa ligação do real, simbólico e imaginário através do nó borromeu, de forma que se um dos círculos for desfeito, os outros dois também se desfazem. Isso mostra a impossibilidade de pensar o registro do imaginário senão atrelado ao registro do real e ao registro do  simbólico.

A palavra detém os meios de gozar enquanto que ela implica o sujeito.

Na psicose não vai acontecer a função materna como mediadora da lei, o Outro é completo, não há lugar para o conjunto vazio, esse Outro tem a consistência máxima.

Lacan, em 1946, no texto "Propósitos sobre a causalidade psíquica", posteriormente publicado nos Escritos, fala de como Freud foi brilhante tendo a intuição de notar a importância psíquica dos primeiros jogos das crianças, esconde-esconde, etc. e cita o exemplo do Fort-Da. Ninguém podia imaginar a importância de seu caráter interativo, da repetição, em relação a toda separação do objeto amado, incluindo o desmame.

 Esse processo vai estruturar todo o desenvolvimento psíquico, com a possibilidade de renúncia. No final desse desenvolvimento nós encontramos a ligação do Eu (Moi) primordial, essencialmente alienado, e o sacrifício primitivo essencialmente suicida, quer dizer a estrutura fundamental  da loucura. Essa discordância entre o Eu (Moi) e o ser , será o que vai dar o tom fundamental ao longo das fases da história psíquica, onde a função será a resolução do desenvolvimento. Toda resolução dessa discordância terá um eco nas profundezas do imaginário da agressão suicida narcísica.

Bergès e Balbo no seminário sobre o Outro, afirmam que há um inconsciente sem sujeito.Esse inconsciente é composto unicamente dos significantes que tem uma certa relação entre eles. Portanto, desde que o conceito de recalque é retido, é preciso pensar um inconsciente sem sujeito, constituído somente de significantes. É nesse momento que Lacan evoca a disparidade subjetiva, porque é questão da transferência e do inconsciente.

Esse inconsciente, não existe por ele mesmo, existe porque pelo menos dois sujeitos nas suas disparidades vão ter entre eles uma certa troca discursiva.

O inconsciente supõe dois sujeitos e é sempre de um registro completamente outro, no movimento instaurado por esse ato que é preso ao ato da psicanálise e que é o ato de suportar a transferência. É na medida em que esse ato  psicanalítico suporta a transferência, é capaz de suporta-la, que precisamente o inconsciente aparece. Existe desde o início dois sujeitos e dois grandes Outros, na relação mãe-criança não pode ter um só sujeito e um só grande Outro. Esse conceito vai de encontro às teorias desenvolvimentistas segundo as quais teria inicialmente uma mãe e seu grande Outro e depois progressivamente viria se instalar um grande Outro e um sujeito na criança. O inconsciente não é o fundo do poço, supõe a psicanálise, a transferência e que tenha dois sujeitos e dois grandes Outros. Esse fato que há desde o início dois sujeitos e dois Outros entre a mãe e a criança permite dizer que a problemática da psicose e do autismo nasce aí.

Considerar dois sujeitos e dois grandes Outros torna necessário o recurso ao simbólico, onde a disparidade subjetiva, a desarmonia, a fenda (béance), são fundamentais. O sujeito representado por um significante do grande Outro da mãe ao lado de um outro significante do grande Outro da criança.

Há um problema que deve ser abordado, Lacan no Seminário 11 e no Ato Psicanalítico, faz a diferença entre o grande Outro e o inconsciente. Há realmente um inconsciente sem sujeito, ou seja, um conjunto de significantes que tem apenas entre eles uma relação de pura significância lógica, a cadeia significante. É necessário pensar esse inconsciente como tal, senão a idéia de recalque não pode mais se sustentar. Lacan fala também na existência de um grande Outro, constituído de significantes, porém não podem ser pensados na sua articulação lógica, independente do sujeito. Há significantes sem sujeitos mas, os significantes, a partir do momento que o recalque existe, não podemos concebê-los fora do sujeito, independente do sujeito. Esse sujeito, é aquele que origina tanto o inconsciente quanto o grande Outro. O sujeito pelo seu discurso, é constitutivo do grande Outro, da demanda e do desejo. A relação mãe-criança não é somente esse imaginário especular do qual sempre se fala. É também outra coisa, disparate, díspar, ou seja alguma coisa que não é dividido igualmente.

Em relação ao transitivismo, é precisamente a mãe que vem constituir o grande Outro da criança, quando diz “você está com frio!” . Ela faz apelo ao sujeito que sabe, ela faz apelo ao saber da criança e como diz Lacan, não tem saber sem sujeito. A mãe vai constituir o grande Outro da criança a partir de seus significantes mas não dos significantes que ela tomaria de seu grande Outro, mas dos significantes que ela lhe envia à medida em que lhe faz uma suposição de saber, portanto há um sujeito. Não é o grande Outro da mãe que transborda sobre a criança, é necessário que a mãe lhe suponha um sujeito para enviar significantes ao grande Outro.

A pulsão é o que obriga, o que pulsiona como exigência da psique de dar a isso que vem do orgânico representações e grupos de representações, quer dizer, significantes. Esses grupos de representações quando eles se sexualizam, se erotizam, produzem libido, como diz Freud.

Bergès e Balbo trazem o exemplo da usina elétrica dado por Freud e retomado por Lacan na segunda lição do seminário A Relação de Objeto. É a máquina que faz a energia, não é a energia que inventa a máquina. Tomando como exemplo a central elétrica, as turbinas são transmissores. Há de um lado, a altura da água e do outro lado, depois da turbina, a eletricidade.  A central elétrica não surgiu do nada, não foi o rio que a fabricou, houve desejo para a criação da usina portanto existe sujeito. Nào há sujeito sem desejo. A pulsão é o imaginário. A noção de significante sem sujeito, ou de pulsão acéfala é muito difícil de entender porque é a destituição do analista.

Na clínica, os significantes desalojados que fazem parte do recalcado, para  integrarem o grande Outro da criança, devem se juntar aos significantes próprios à criança em seu grande Outro. Na clínica, os significantes que são desalojados são os que fazem parte do recalcado, no processo de análise é importante que isso aconteça a fim de possibilitar que a criança não permaneça recalcada. Esses significantes desalojados devem se juntar aos significantes que são próprios da criança em seu grande Outro, não no grande Outro da mãe nem no inconsciente da mãe. Há um grande Outro da criança do qual cuidamos na clínica, alguma coisa que está à espera dos significantes que devem ser inscritos.

Uma das primeiras preocupações do analista, na clínica, é o da constituição desse grande Outro da criança. É porque o grande Outro existe em um e outro que o inconsciente vai poder se constiruir.

Bergès e Balbo no livro “Jogo de posições da mãe e da criança: ensaio sobre o transitivismo”, (2002), falam :                

“No que diz respeito à mãe, é comum observar que ao ver o filho em perigo de cair, por exemplo, ou vendo-o levar um tombo e não apresentar reação alguma, sua mãe se mostra afetada por isso e não hesita em lhe exprimir esse afeto de dor de modo certamente demonstrativo, mas , sobretudo, perfeitamente articulado e demonstrado na fala. O que ela experiencia e comunica desse modo é uma certeza, porque ela sustenta seu afeto em um real. É precisamente porque seu afeto se sustenta em um real que seu filho lhe dá razão a partir do que ela lhe diz.

 

O transitivismo não é somente o que a  mãe experiencia e demonstra, é também este processo que ela introduz quando se dirige a seu filho, porque faz a hipótese de um saber nele, saber em torno do qual seu apelo vai circular, como em torno de uma polia, para a ela retornar sob a forma de uma demanda; demanda que supõe ser a de uma identificação de seu filho ao discurso que ela lhe dirige. Essa circulação descreve um processo muito geral que tem relação com o acesso ao simbólico.” (págs. 9 e 10)  

Será que a ausência desse transitivismo não seria um dos fatores que poderá ocasionar a psicose? Devido o fato da mãe não ter feito uma suposição de saber na criança.

E para encerrar esse trabalho permanece a questão:

Há sujeito na psicose?

 Intersecção Psicanalítica do Brasil