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EU, EUS, ZEUS, DEUS
Rachel Rangel Bastos

Apresentado no Simpósio de Brasília/DF - 2002

"Eu digo que é preciso ser vidente, fazer-se vidente. O poeta faz-se vidente por meio de um longo, imenso e racional desregramento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura: ele busca por si mesmo, procura nele mesmo todos os venenos e deles só guarda as quintessências – Pois EU é um outro”. 

“Se os velhos imbecis só tivessem encontrado do eu a falsa significação, nós não teríamos que varrer esses milhões de esqueletos que, desde a um tempo infinito, têm acumulado os produtos da sua inteligência zarolha, proclamando-se os seus atores! Eu digo que é preciso ser vidente, fazer-se vidente.”.  

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 “Madame Bovary sou eu” 

 

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 “A descoberta dele, é que o homem não está completamente dentro do homem.”.

 

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 “ Je dis qu'il faut être voyant, se faire voyant. Le poète se fait voyant par un long, immense et raisonné dérèglement de tous les sens. Toutes les formes d'amour, de souffrance, de folie ; il cherche lui-même, il épuise en lui tous les poisons, pour n'en garder que les quintessences – Car JE est un autre.”.
 

“Si les vieux imbéciles n'avaient pas trouvé du Moi que la signification fausse, nous n'aurions pas à balayer ces millions de squelettes qui, depuis un temps infini, ont accumulé les produits de leur intelligence borgnesse, en s'en clamant les auteurs! Je dis qu'il faut être voyant, se faire voyant.”.

Arthur Rimbaud


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 “Madame Bovary c’est moi.” 

Gustave Flaubert 

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“Sa découverte, c’est que l’homme n’est pas tout à fait dans l’homme.”.

 Freud – Lacan 

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Selecionei dois expoentes da literatura francesa para possibilitar uma análise e um confronto com as abordagens lacanianas. Tal procedimento deu-se a partir das evidências que conferi ao fato de os três fulgurantes terem como língua materna o francês. Além do que de maneira unânime apontaram a questão do JE e do MOI, articulado na linguagem como estrutura do inconsciente. Pareceu-me pertinente apropriar-me de alguns aspectos literários e alguns códigos lingüísticos, para viabilizar uma inferência psicanalítica.

 

Rimbaud (1854-1891) é um caso sui generis na história da literatura tendo se revelado gênio poético desde a adolescência. Aos 16 anos foi descoberto por um dos professores como dono de extrema precocidade e originalidade na criação literária. Ainda garoto, contrariando a autoridade e severidade de sua mãe fugiu duas vezes. Na primeira é preso por viajar sem bilhete e na segunda, fá-la já convidado por Paul Verlaine, outro grande nome da poesia francesa, com quem teve uma relação extremamente tumultuosa. O fato é que Verlaine, que o introduzira nos meios literários parisienses, abandona a família para correr o mundo com aquele que o seduziu. Viajam os dois pela Inglaterra e pela Bélgica, onde em conseqüência de atritos constantes, Rimbaud é baleado pelo amante. Vê-se que sua vida oscilou entre o brilhantismo e a contradição, da imagem física de beleza pueril, a sensualidade subversiva e o estandarte da revolta contra todas as ordens estabelecidas, e não é de admirar que Rimbaud se tenha tornado um desses “anjos malditos”, verdadeiro mito, mitificação causadora de fascínio pelo seu próprio caráter sacrificial. Rimbaud foi um revolucionário, rompe com a “velharia poética”, para ele o poeta tem que ser um verdadeiro vidente. (cf. a célebre “carta do vidente”)

Apesar de sem dúvida ateu, a sua experiência adquire uma dimensão que se poderia considerar mística, uma vez que se identifica como busca do absoluto, de poderes sobrenaturais, como tentativa de alcançar uma “alma universal”. O poeta vidente, empenhou-se em “roubar o fogo”. E essa aventura prometeica implica a audácia de se tornar o grande doente, o grande criminoso, o grande maldito, e o supremo Sábio! Aventura que representa a apropriação do poder divino contra toda divindade. A contradição. Desagregamento das alucinações, descida aos infernos, contra Deus.  

            Nesse combate rumo ao desconhecido, faz-se a viajem para abraçar o universo de todas as sensações, de todas as alucinações (cf. o poema  “O Barco Ébrio”- Lê Bateau Ivre).           

No parágrafo primeiro do trecho de que me utilizei como epígrafe deste trabalho encontra-se a frase: “Pois EU é um outro.”.           

Rimbaud distinguiu, portanto, o EU aparente do EU das profundezas do desconhecido e essas “Iluminações” (“Lês Iluminations”), que inclusive poderiam ser traduzidas por “Iluminuras”, somente se farão possíveis com uma descida aos subterrâneos da alma, com uma “temporada no inferno”. Alusão que me faz ainda poder refletir o “percurso dantesco”.

Na frase de Rimbaud estão presentes o JE e o MOI, palavras às quais Lacan tanto se refere. “ Je est un autre », para observar a   diferença  do Moi. 

Se ele não tivesse dado essa ênfase, então seria moi c’est. Não teria sido então necessário subverter a língua, ele teria dito mais banalmente “ je sui un autre” ( “Eu sou um outro”). Na realidade ele usou o “ je”, mas com o verbo na terceira pessoa do singular. “Je est um autre” (“Eu é um outro”) . Ou ele teria dito na língua corrente francesa “moi, je suis un autre”. Por conseguinte, apareceriam os dois elementos, os dois termos do EU. Grosso modo, poderíamos dizer que o “MOI” seria o sujeito do inconsciente e o “JE” propriamente sujeito gramatical.           

Lacan aponta essa diferença fazendo um confronto entre a comparação do EU sujeito e do EU gramatical. Quando esse  EU é o sujeito do desejo e esse EU que é o EU da ação, do verbo, do verbo enquanto conjugação.             

            Gustave Fleubert, outro dos maiores representantes da literatura francesa, ou da literatura “tout court”. Destaca-se pela criação do famoso “Madame Bovary”, romance que lhe valeu um longo processo em justiça, provocado pelo escândalo que o mesmo suscitou por ocasião da sua publicação. Com efeito a obra desencadeou uma imensa polêmica como “choque”: o livro cuja história foi inspirada num caso de adultério, foi considerado uma ofensa à moral e aos bons costumes, pois os personagens  são constituídos de forma tão cotidiana e verdadeira que os acusadores pensaram que ele estaria de fato retratando alguma senhora da sociedade. O romance insere-se por excelência na corrente realista, e o autor é guiado, inclusive, por uma visão extremamente "determinista" do comportamento humano: a posição social, o concurso das circunstâncias determinam o movimento anímico das personagens que deveriam ser verdadeiras "cópias" da realidade.  

Flaubert pretendia trabalhar a questão literária segundo o modo propriamente científico (note-se que seu pai era médico cirurgião, e que ele passou toda a sua primeira juventude no convívio do mundo médico, “das dissecações”), transpondo o método de observação rigorosa dos fenômenos biológicos para a elaboração literária. A crença que tinha no determinismo fisiológico, projeta-se portanto dessa forma, numa escrupulosa obediência à noção de determinismo psicológico. 

Esta "obsessão" de reconstrução do real deveria poder verificar-se nos dois sentidos, ou seja, a realidade das personagens deveria poder ser remetida especularmente à realidade da vida, de maneira objetiva e universal. 

Emma Bovary, provinciana, sonhando sempre com um mundo romanesco de ebriedade, de paixão, casa-se com um médico de província, medíocre, que embora extremamente apaixonado por ela, não lhe traz a "felicidade", o universo imaginário que ela nutre de ilusórios prazeres desde as suas leituras românticas de adolescência. Na frustração, na constatação da mediocridade, Madame Bovary mergulha no tédio, do tédio passa à mentira, daí à infidelidade, e finalmente ao suicídio (envenenamento descrito por Flaubert de maneira extremamente crua). 

Madame Bovary é, como todo grande personagem (e, como se dizia acima, assim o entendia Flaubert) um arquétipo que se tece nesse ponto de confluência do desejo, no abismo da eterna insatisfação, da falta, na desilusão do prazer já saciado, no querer ser outro, estar/ser alhures. 

E, para o caso em questão, o mais competente de "todos nós", aquele que deu à luz a própria Emma, indagado no processo sobre a origem da sua criatura, respondeu: "Madame Bovary, c'est moi" ("Madame Bovary, sou eu"). 

A esta compulsão de Madame Bovary, a esta pulsão que é a de todos nós de nos crermos o que não somos, a esta faculdade de sonharmos felicidades quiméricas deu-se o nome de "bovarysmo". 

A posição de Flaubert, bem como a de Rimbaud, é uma posição divina, capaz de conhecer a alma e os personagens. E como o texto é uma projeção  do mundo, o autor insere-se na sua criatura e vice-versa. 

Tentar compreender as tensões de dada personagem, as tensões entre as personagens, é tentar compreender o conflito do mundo, o caos. Quando há uma contraposição a Deus, já há uma relação direta com ele. Da mesma forma que quando Flaubert diz: Madame Bovary c’est moi, há também aí uma contradição, pois ele se coloca no lugar dela. 

Do ponto de vista lacaniano, Madame Bovary não é Deus. Reportemo-nos ai ao aspecto da dialética do texto criado, a onisciência dos conflitos da estrutura de cada personagem. Mas ele coloca-se num personagem, postura que seria algo de natureza especular em cada sujeito na busca do desejo. Tentando ainda explicitar, façamos aqui uma breve aproximação. É por se sentir vítima de Deus, que Prometeu pretende roubar o fogo de Deus. É por que eu sou Madame Bovary, que pretendo roubar Madame Bovary.           

Expostas algumas considerações sobre Rimbaud e Flaubert pretende-se então analisar esse vínculo da psicanálise com a literatura partindo neste caso da concepção constitutiva do eu.

 

 

“pois se, desde a origem, é na linguagem que se dão a conhecer seus efeitos, suas astúcias, que desde então aprendemos a reconhecer, elas não denotam menos, em sua trivialidade como em seus requintes, em processo linguageiro”

Lacan (os escritos)

 

As idéias lacanianas provocaram conflitos na sociedade psicanalítica depois da década de 50 do século passado. Lacan formulou novos conceitos e acessou o inconsciente, reavivando o movimento psicanalítico a partir do “retorno a Freud”, tornando-se um referencial na psicanálise contemporânea. Assim como Rimbaud e Flaubert, Lacan pretendeu tirar os homens da certeza religiosa, do ocultismo e mergulhar “nas profundezas da alma”, no inconsciente. 

Foi das palavras escritas a punho pelo próprio Lacan, “desde a origem”, que estabeleci intelecção da psicanálise com o conjunto de estudos lingüísticos e literários, intentando discutir o eu, o sujeito constituído no outro.        

    Lacan, centralizou seus seminários, na palavra, na  letra, não apenas mas sobretudo em toda estrutura da linguagem. Apresenta em seus fundamentos o inconsciente estruturado como linguagem.           

Sabe-se que Freud já permeara esse terreno, embora voltado para o campo prático, onde descobre a relevância da fala, a partir da “associação livre”, doravante permanecendo como alicerce na construção teórica lacaniana. Os princípios teóricos de Lacan são apoiados numa inscrição subjetiva. Para Lacan há uma equivalência da linguagem com o significante. Lacan então se utiliza da lingüística de Saussure. Ferdinand de Saussure, antecedeu Lacan no trato com a esquematização da diferença entre o significado e o significante. Daí evocar algumas relações não-ficcionais com a lingüística, bem como com a literatura. Em Saussure a primazia é do significado, do conceito.  Lacan inverte o esquema de Saussure quando apresenta a primazia do significante, possibilitando o ponto de estofo. É por conta dessa operação que o significante detém o deslizamento, momento onde o significante se associa ao significado na cadeia discursiva. Cadeia esta que segundo Lacan se estabelece a partir do discurso do outro.           

O EU “sujeito do inconsciente é o desejo do outro”. No seminário 3-“As psicoses”, Lacan, falando de narcisismo destaca: “é exatamente para isso que serve o estádio do espelho”. O EU é uma imagem que corresponde à imagem especular. 

O EU especular, apresentando-se como um primeiro objeto e tendo características fundamentais. É um EU que procura evitar feridas narcisistas, sendo um EU do narcisismo que, por isso, procura ser completo, fechado. Sendo o lugar do amor, da agressividade e da angústia. O lugar dos afetos. Esse EU fica  narcisicamente ferido pelo desejo. Pois o desejo sempre supõe uma falta e o EU da imagem procura fechar a possibilidade de desejar. 

 Todavia há um outro EU, o EU do discurso. Ele, “põe em evidência a natureza dessa relação agressiva e o que ela significa. Se a relação agressiva intervém nesta formação chamada o eu é que ela constitui, é que o eu é desde já por si mesmo um outro, que ele se instaura numa dualidade interna ao sujeito”, aponta Lacan. O EU é esse outro.          

  Já na abertura do Seminário 1 - “Os escritos técnicos de Freud”, Lacan refere-se à importância da palavra quando revela os conceitos científicos a partir da palavra. A palavra entravada na linguagem. É neste seminário que Lacan inicia perscrutar a noção de sujeito: “quando se a introduz, introduz-se a si mesmo. O homem que lhes fala é um homem como os outros” [...] “se é dois – e não apenas dois” EUS. Foi pensando nesse EU estruturado no outro que pratiquei o “pleonasmo”, EU, EUS, ZEUS, DEUS. Quando escrevi no título esses quatro termos, foi mesmo para me utilizar da repetição do EU, EU, EU, EU. A preocupação reside em abrir discussão desse EU e da relação com o outro, enfatizado a articulação que Lacan teoriza com a letra, com a palavra, com a linguagem. A letra que Lacan apresenta como unidade mínima da linguagem, cuja importância mantém desde o primeiro até o seu último seminário.  

Atualmente, de maneira bastante legítima, a psicanálise vem estabelecendo laços cada vez mais estreitos com a literatura. Por tal motivo incluí Rimbaud e Flaubert nesta exposição de idéias. É que a literatura é a expressão do que está reprimido no sujeito e se exprime a partir da linguagem. A exemplo, os termos que  usei no título deste trabalho. EU, EUS, ZEUS, DEUS.

Quando dizemos ; EU + EU, dizemos dois EUS que ressoa, dois  (Z)EUS.    

        Parece pertinente falar dessa construção do eu tanto no aspecto da sonoridade, como no aspecto da literação, como do próprio sentido. ZEUS/DEUS, poderia ser ZEUS ou DEUS; de qualquer forma o ZEUS está incluído no DEUS, ou o DEUS implícito no ZEUS. É justamente aí onde podemos identificar o grande Outro.

Escutei de um professor de línguas da Sorbonne (Paris) algo que me chamou muita atenção. Doutamente observara que dos alunos que  começam a aprender  línguas como o português e começam a conjugar os verbos  lançando-se  ao aprendizado dos pronomes, ouve com freqüência, quando interpelados, como que num “reflexo espontâneo”  a forma “EUS” como plural de “EU”. E não é por acaso que o EU sofre a pluralização. É como uma volta ao arcaico no mais inato da língua, ou seja :

 EU + TU = EUS ( referência semântica).

 EU + TU = NÓS ( referência morfológica).

            O sujeito dá a volta ao passado arcaico na formação mesmo da estruturação da língua, o que parece enunciar esse EU de forma extremamente espontânea do abismo da língua; emerge a marca morfológica do plural, a saber, o S é matematicamente a função de dois singulares, então EU mais EU é igual a “EUS”. Morfologicamente EUS não existe. Surgem as anfractuosidades da língua. Mas se pensarmos no aspecto semântico, se pudermos mergulhar no EU da cadeia discursiva do inconsciente, encontra-se sentido na função dos dois EUS, que na realidade é eu + tu, ou seja, eu + outro. Eu + o outro produzindo um a’. a+a=a’, como matematiza Lacan. Citei Saussure neste trabalho face à emergência de apoio da lingüística para contrapor  significado/significante.

  O pleonasmo que endosso aqui se presta para lembrar que a psicanálise pensa e prioriza a semântica, ou seja o sentido. Quando digo prioriza é porque que a forma também é importante, porem Lacan aponta o significante em primazia ao significado, o símbolo.

  Para Lacan o importante é o sentido, a análise vai em busca do sentido.  Lacan foi justo buscar na lingüística a forma dessa construção do EU, que vai formando do EU, EU, EU, EU as palavras EU, EUS, ZEUS, DEUS e um sentido para elas, sobretudo numa perspectiva psicanalítica buscando a partir das revelações, das “iluminuras”, o sentido. A análise nada mais é que encontrar esse sentido que está no inconsciente estruturado como linguagem e deve vir para o consciente via linguagem que para Lacan equivale ao sintoma.

  Nessa perspectiva pode-se de fato tomar Rimbaud e Flaubert  para investigação lacaniana em relação à construção do EU. Como já observamos, para Lacan a letra é a unidade mínima da linguagem cuja  importância é mantida na fundamentação à qual dedica um seminário inteiro, Seminário 2 – “O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise”, inclusive no capítulo VI- Freud, Hegel e a máquina, ele salienta uma frase onde explicita  a importância do EUS: “vocês estão vendo esses dois eus de braço dado, o eu do analista e o eu do sujeito?”.

             No seminário 11 –  “Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise”, capítulo 17, quando se  refere ao sujeito e o outro, constata a submissão entre o eu e o outro. É essa ênfase que pretendi conferir em meu trabalho, a pluralização do EU. EU + EU = EUS, ZEUS, DEUS. 

 Intersecção Psicanalítica do Brasil