"Eu digo que é preciso ser vidente, fazer-se vidente. O poeta
faz-se vidente por meio de um longo, imenso e racional desregramento de todos os
sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura: ele busca por si
mesmo, procura nele mesmo todos os venenos e deles só guarda as quintessências –
Pois EU é um outro”.
“Se os velhos imbecis só tivessem encontrado do eu a falsa
significação, nós não teríamos que varrer esses milhões de esqueletos que, desde
a um tempo infinito, têm acumulado os produtos da sua inteligência zarolha,
proclamando-se os seus atores! Eu digo que é preciso ser vidente, fazer-se
vidente.”.
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“Madame Bovary sou eu”
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“A descoberta dele, é que o homem não está completamente dentro
do homem.”.
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“ Je dis qu'il faut être voyant, se faire voyant.
Le poète se fait voyant par un long, immense et raisonné
dérèglement de tous les sens. Toutes les formes d'amour, de souffrance, de
folie ; il cherche lui-même, il épuise en lui tous les poisons, pour n'en garder
que les quintessences – Car JE est un autre.”.
“Si les vieux imbéciles n'avaient pas trouvé du Moi que la
signification fausse, nous n'aurions pas à balayer ces millions de squelettes
qui, depuis un temps infini, ont accumulé les produits de leur intelligence
borgnesse, en s'en clamant les auteurs! Je dis qu'il faut être voyant,
se faire voyant.”.
Arthur Rimbaud
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“Madame Bovary c’est moi.”
Gustave Flaubert
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“Sa découverte, c’est que l’homme n’est pas tout à fait dans
l’homme.”.
Freud – Lacan
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Selecionei dois expoentes da literatura francesa para
possibilitar uma análise e um confronto com as abordagens lacanianas. Tal
procedimento deu-se a partir das evidências que conferi ao fato de os três
fulgurantes terem como língua materna o francês. Além do que de maneira
unânime apontaram a questão do JE e do MOI, articulado na linguagem como
estrutura do inconsciente. Pareceu-me pertinente apropriar-me de alguns
aspectos literários e alguns códigos lingüísticos, para viabilizar uma
inferência psicanalítica.
Rimbaud (1854-1891) é um caso
sui generis na história da literatura tendo se revelado gênio poético desde a
adolescência. Aos 16 anos foi descoberto por um dos professores como dono de
extrema precocidade e originalidade na criação literária. Ainda garoto,
contrariando a autoridade e severidade de sua mãe fugiu duas vezes. Na
primeira é preso por viajar sem bilhete e na segunda, fá-la já convidado por
Paul Verlaine, outro grande nome da poesia francesa, com quem teve uma relação
extremamente tumultuosa. O fato é que Verlaine, que o introduzira nos meios
literários parisienses, abandona a família para correr o mundo com aquele que
o seduziu. Viajam os dois pela Inglaterra e pela Bélgica, onde em conseqüência
de atritos constantes, Rimbaud é baleado pelo amante. Vê-se que sua vida
oscilou entre o brilhantismo e a contradição, da imagem física de beleza
pueril, a sensualidade subversiva e o estandarte da revolta contra todas as
ordens estabelecidas, e não é de admirar que Rimbaud se tenha tornado um
desses “anjos malditos”, verdadeiro mito, mitificação causadora de fascínio
pelo seu próprio caráter sacrificial. Rimbaud foi um revolucionário, rompe com
a “velharia poética”, para ele o poeta tem que ser um verdadeiro vidente. (cf.
a célebre “carta do vidente”)
Apesar de sem dúvida ateu, a
sua experiência adquire uma dimensão que se poderia considerar mística, uma
vez que se identifica como busca do absoluto, de poderes sobrenaturais, como
tentativa de alcançar uma “alma universal”. O poeta vidente, empenhou-se em
“roubar o fogo”. E essa aventura prometeica implica a audácia de se tornar o
grande doente, o grande criminoso, o grande maldito, e o supremo Sábio!
Aventura que representa a apropriação do poder divino contra toda divindade. A
contradição. Desagregamento das alucinações, descida aos infernos, contra
Deus.
Nesse combate rumo
ao desconhecido, faz-se a viajem para abraçar o universo de todas as
sensações, de todas as alucinações (cf. o poema “O Barco Ébrio”- Lê Bateau
Ivre).
No parágrafo primeiro do trecho
de que me utilizei como epígrafe deste trabalho encontra-se a frase: “Pois EUé um outro.”.
Rimbaud distinguiu, portanto, o
EUaparente do EU das profundezas do desconhecido e essas “Iluminações”
(“Lês Iluminations”), que inclusive poderiam ser traduzidas por “Iluminuras”,
somente se farão possíveis com uma descida aos subterrâneos da alma, com uma
“temporada no inferno”. Alusão que me faz ainda poder refletir o “percurso
dantesco”.
Na frase de Rimbaud estão
presentes o JE e o MOI, palavras às quais Lacan tanto se refere. “ Je est un
autre », para observar a diferença do Moi.
Se ele não tivesse dado essa
ênfase, então seria moi c’est. Não teria sido então necessário subverter a
língua, ele teria dito mais banalmente “ je sui un autre” ( “Eu souum
outro”). Na realidade ele usou o “ je”, mas com o verbo na terceira pessoa do
singular. “Je est um autre” (“Eu é um outro”) . Ou ele teria dito na língua
corrente francesa “moi, je suisun autre”. Por conseguinte, apareceriam
os dois elementos, os dois termos doEU.Grosso modo, poderíamos
dizer que o “MOI” seria o sujeito do inconsciente e o “JE” propriamente
sujeito gramatical.
Lacan aponta essa diferença
fazendo um confronto entre a comparação do EU sujeito e do EU gramatical.
Quando esse EU é o sujeito do desejo e esse EU que é o EU da ação, do verbo,
do verbo enquanto conjugação.
Gustave Fleubert,
outro dos maiores representantes da literatura francesa, ou da literatura
“tout court”. Destaca-se pela criação do famoso “Madame Bovary”, romance que
lhe valeu um longo processo em justiça, provocado pelo escândalo que o mesmo
suscitou por ocasião da sua publicação. Com efeito a obra desencadeou uma
imensa polêmica como “choque”: o livro cuja história foi inspirada num caso de
adultério, foi considerado uma ofensa à moral e aos bons costumes, pois os
personagens são constituídos de forma tão cotidiana e verdadeira que os
acusadores pensaram que ele estaria de fato retratando alguma senhora da
sociedade. O romance insere-se por excelência na corrente realista, e o autor
é guiado, inclusive, por uma visão extremamente "determinista" do
comportamento humano: a posição social, o concurso das circunstâncias
determinam o movimento anímico das personagens que deveriam ser verdadeiras
"cópias" da realidade.
Flaubert pretendia trabalhar a
questão literária segundo o modo propriamente científico (note-se que seu pai
era médico cirurgião, e que ele passou toda a sua primeira juventude no convívio do mundo
médico, “das dissecações”), transpondo o método de observação rigorosa dos
fenômenos biológicos para a elaboração literária. A crença que tinha no
determinismo fisiológico, projeta-se portanto dessa forma, numa
escrupulosa obediência à noção de determinismo
psicológico.
Esta "obsessão" de reconstrução
do real deveria poder verificar-se nos dois sentidos, ou seja, a realidade das
personagens deveria poder ser remetida especularmente à realidade da vida, de
maneira objetiva e universal.
Emma Bovary, provinciana,
sonhando sempre com um mundo romanesco de ebriedade, de paixão, casa-se com um
médico de província, medíocre, que embora extremamente apaixonado por ela, não
lhe traz a "felicidade", o universo imaginário que ela nutre de ilusórios
prazeres desde as suas leituras românticas de adolescência. Na frustração, na
constatação da mediocridade, Madame Bovary mergulha no tédio, do tédio passa à
mentira, daí à infidelidade, e finalmente ao suicídio (envenenamento descrito
por Flaubert de maneira extremamente crua).
Madame Bovary é, como todo
grande personagem (e, como se dizia acima, assim o entendia Flaubert) um
arquétipo que se tece nesse ponto de confluência do desejo, no abismo da
eterna insatisfação, da falta, na desilusão do prazer já saciado, no
querer ser outro, estar/ser alhures.
E, para o caso em questão, o
mais competente de "todos nós", aquele que deu à luz a própria Emma, indagado
no processo sobre a origem da sua criatura, respondeu: "Madame Bovary, c'est
moi" ("Madame Bovary, sou eu").
A esta compulsão de Madame
Bovary, a esta pulsão que é a de todos nós de nos crermos o que não somos, a
esta faculdade de sonharmos felicidades quiméricas deu-se o nome de
"bovarysmo".
A
posição de Flaubert, bem como a de Rimbaud, é uma posição divina, capaz de
conhecer a alma e os personagens. E como o texto é uma projeção do mundo, o
autor insere-se na sua criatura e vice-versa.
Tentar
compreender as tensões de dada personagem, as tensões entre as personagens, é
tentar compreender o conflito do mundo, o caos. Quando há uma contraposição a
Deus, já há uma relação direta com ele. Da mesma forma que quando Flaubert
diz: Madame Bovary c’est moi, há também aí uma contradição, pois ele se coloca
no lugar dela.
Do ponto de vista lacaniano,
Madame Bovary não é Deus. Reportemo-nos ai ao aspecto da dialética do texto
criado, a onisciência dos conflitos da estrutura de cada personagem. Mas ele
coloca-se num personagem, postura que seria algo de natureza especular em cada
sujeito na busca do desejo. Tentando ainda explicitar, façamos aqui uma breve
aproximação. É por se sentir vítima de Deus, que Prometeu pretende roubar o
fogo de Deus. É por que eu sou Madame Bovary, que pretendo roubar Madame
Bovary.
Expostas algumas considerações
sobre Rimbaud e Flaubert pretende-se então analisar esse vínculo da
psicanálise com a literatura partindo neste caso da concepção constitutiva do
eu.
“pois se, desde a origem, é na linguagem que se dão a conhecer seus efeitos,
suas astúcias, que desde então aprendemos a reconhecer, elas não denotam
menos, em sua trivialidade como em seus requintes, em processo linguageiro”
Lacan (os escritos)
As idéias lacanianas provocaram
conflitos na sociedade psicanalítica depois da década de 50 do século passado.
Lacan formulou novos conceitos e acessou o inconsciente, reavivando o movimento
psicanalítico a partir do “retorno a Freud”, tornando-se um referencial na
psicanálise contemporânea. Assim como Rimbaud e Flaubert, Lacan pretendeu tirar
os homens da certeza religiosa, do ocultismo e mergulhar “nas profundezas da
alma”, no inconsciente.
Foi das palavras escritas a punho
pelo próprio Lacan, “desde a origem”, que estabeleci intelecção da psicanálise
com o conjunto de estudos lingüísticos e literários, intentando discutir o eu, o
sujeito constituído no outro.
Lacan, centralizou seus
seminários, na palavra, na letra, não apenas mas sobretudo em toda estrutura da
linguagem. Apresenta em seus fundamentos o inconsciente estruturado como
linguagem.
Sabe-se que Freud já permeara
esse terreno, embora voltado para o campo prático, onde descobre a relevância da
fala, a partir da “associação livre”, doravante permanecendo como alicerce na
construção teórica lacaniana. Os princípios teóricos de Lacan são apoiados numa
inscrição subjetiva. Para Lacan há uma equivalência da linguagem com o
significante. Lacan então se utiliza da lingüística de Saussure. Ferdinand de
Saussure, antecedeu Lacan no trato com a esquematização da diferença entre o
significado e o significante. Daí evocar algumas relações não-ficcionais com a
lingüística, bem como com a literatura. Em Saussure a primazia é do significado,
do conceito. Lacan inverte o esquema de Saussure quando apresenta a primazia do
significante, possibilitando o ponto de estofo. É por conta dessa operação que o
significante detém o deslizamento, momento onde o significante se associa ao
significado na cadeia discursiva. Cadeia esta que segundo Lacan se estabelece a
partir do discurso do outro.
O EU “sujeito do inconsciente é o
desejo do outro”. No seminário 3-“As psicoses”, Lacan, falando de narcisismo
destaca: “é exatamente para isso que serve o estádio do espelho”. O EU é uma
imagem que corresponde à imagem especular.
O EU especular, apresentando-se
como um primeiro objeto e tendo características fundamentais. É um EU que
procura evitar feridas narcisistas, sendo um EU do narcisismo que, por isso,
procura ser completo, fechado. Sendo o lugar do amor, da agressividade e da
angústia. O lugar dos afetos. Esse EU fica narcisicamente ferido pelo desejo.
Pois o desejo sempre supõe uma falta e o EU da imagem procura fechar a
possibilidade de desejar.
Todavia há um outro EU, o EU do
discurso. Ele, “põe em evidência a natureza dessa relação agressiva e o que ela
significa. Se a relação agressiva intervém nesta formação chamada o eu é que ela
constitui, é que o eu é desde já por si mesmo um outro, que ele se instaura numa
dualidade interna ao sujeito”, aponta Lacan. O EUé esse outro.
Já na abertura do Seminário 1 -
“Os escritos técnicos de Freud”, Lacan refere-se à importância da palavra quando
revela os conceitos científicos a partir da palavra. A palavra entravada na
linguagem. É neste seminário que Lacan inicia perscrutar a noção de sujeito:
“quando se a introduz, introduz-se a si mesmo. O homem que lhes fala é um homem
como os outros” [...] “se é dois – e não apenas dois” EUS. Foi pensando nesse EU
estruturado no outro que pratiquei o “pleonasmo”, EU, EUS, ZEUS, DEUS. Quando
escrevi no título esses quatro termos, foi mesmo para me utilizar da repetição
do EU, EU, EU, EU. A preocupação reside em abrir discussão desse EU e da relação
com o outro, enfatizado a articulação que Lacan teoriza com a letra, com a
palavra, com a linguagem. A letra que Lacan apresenta como unidade mínima da
linguagem, cuja importância mantém desde o primeiro até o seu último seminário.
Atualmente, de maneira bastante
legítima, a psicanálise vem estabelecendo laços cada vez mais estreitos com a
literatura. Por tal motivo incluí Rimbaud e Flaubert nesta exposição de idéias.
É que a literatura é a expressão do que está reprimido no sujeito e se exprime a
partir da linguagem. A exemplo, os termos que usei no título deste trabalho.
EU, EUS, ZEUS, DEUS.
Quando dizemos ; EU + EU, dizemos
dois EUS que ressoa, dois (Z)EUS.
Parece pertinente falar dessa construção do eu tanto no aspecto
da sonoridade, como no aspecto da literação, como do próprio sentido. ZEUS/DEUS,
poderia ser ZEUS ou DEUS; de qualquer forma o ZEUS está incluído no DEUS, ou o
DEUS implícito no ZEUS. É justamente aí onde podemos identificar o grande Outro.
Escutei de um professor de
línguas da Sorbonne (Paris) algo que me chamou muita atenção. Doutamente
observara que dos alunos que começam a aprender línguas como o português e
começam a conjugar os verbos lançando-se ao aprendizado dos pronomes, ouve com
freqüência, quando interpelados, como que num “reflexo espontâneo” a forma
“EUS” como plural de “EU”. E não é por acaso que o EU sofre a pluralização. É
como uma volta ao arcaico no mais inato da língua, ou seja :
EU + TU = EUS ( referência
semântica).
EU + TU = NÓS ( referência
morfológica).
O sujeito dá a volta ao passado
arcaico na formação mesmo da estruturação da língua, o que parece enunciar esse
EU de forma extremamente espontânea do abismo da língua; emerge a marca
morfológica do plural, a saber, o S é matematicamente a função de dois
singulares, então EU mais EU é igual a “EUS”. Morfologicamente EUS não existe.
Surgem as anfractuosidades da língua. Mas se pensarmos no aspecto semântico, se
pudermos mergulhar no EU da cadeia discursiva do inconsciente, encontra-se
sentido na função dos dois EUS, que na realidade é eu + tu, ou seja, eu + outro.
Eu + o outro produzindo um a’. a+a=a’, como matematiza Lacan. Citei Saussure
neste trabalho face à emergência de apoio da lingüística para contrapor
significado/significante.
O pleonasmo que endosso aqui se
presta para lembrar que a psicanálise pensa e prioriza a semântica, ou seja o
sentido. Quando digo prioriza é porque que a forma também é importante, porem
Lacan aponta o significante em primazia ao significado, o símbolo.
Para Lacan o importante é o
sentido, a análise vai em busca do sentido. Lacan foi justo buscar na
lingüística a forma dessa construção do EU, que vai formando do EU, EU, EU, EU
as palavras EU, EUS, ZEUS, DEUS e um sentido para elas, sobretudo numa
perspectiva psicanalítica buscando a partir das revelações, das “iluminuras”, o
sentido. A análise nada mais é que encontrar esse sentido que está no
inconsciente estruturado como linguagem e deve vir para o consciente via
linguagem que para Lacan equivale ao sintoma.
Nessa perspectiva pode-se de
fato tomar Rimbaud e Flaubert para investigação lacaniana em relação à
construção do EU. Como já observamos, para Lacan a letra é a unidade mínima da
linguagem cuja importância é mantida na fundamentação à qual dedica um
seminário inteiro, Seminário 2 – “O eu na teoria de Freud e na técnica da
psicanálise”, inclusive no capítulo VI- Freud, Hegel e a máquina, ele salienta
uma frase onde explicita a importância do EUS: “vocês estão vendo esses dois
eus de braço dado, o eu do analista e o eu do sujeito?”.
No seminário 11 – “Os quatro
conceitos fundamentais da psicanálise”, capítulo 17, quando se refere ao
sujeito e o outro, constata a submissão entre o eu e o outro. É essa ênfase que
pretendi conferir em meu trabalho, a pluralização do EU. EU + EU = EUS, ZEUS,
DEUS.