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Em
março de 2001 comecei a análise de uma moça com idade de 22 anos.
Magra, estatura mediana, feições delicadas, abatida. Seu rosto carregava
expressão tensa e penosa. Seu semblante transparecia nitidamente a marca
do raquitismo. Ombros curvados e mãos tremulas, denotavam seu contato com
a doença.
Pseudonimomizei-a,
Rosangela. Rosangela portava um diagnóstico de anorexia nervosa e seu
remédio montava-se numa composição entre vitaminas, estimulantes de
apetite, calmantes e antidepressivos.
Ainda na primeira visita ao
meu consultório, Rosangela comentara; “Estou aqui porque já estive com
seis médicos e eles não descobrem como posso parar de vomitar. Há seis
meses sou acompanhada por eles sem êxito. [...]. Meus vômitos se
repetem, se repetem, e não tem fim”. Calou. Minutos após
silêncio profundo, continuara; “meu pai morreu faz um ano e meio, mas isso
para mim não é um problema. Ele morreu porque Deus quis. Eu não tenho
culpa não”. Denega. “A gente só tem culpa quando a gente quer que morra.
Mas o caso do meu pai não foi assim. Ele morreu num acidente”.
Falou sobre o sinistro no
qual acontecera a morte do pai O pai saíra para comprar feijão verde por
exigência dela. Estava bêbado quando colidiu com outro automóvel.
Acrescentara o fato do pai ser alcoólatra e confessara já esperar a morte
do pai. Exclamara; “Qualquer dia vai chegar só a noticia que ele bateu e
morreu. E o dia chegou!
Alguns fragmentos na fala
de Rosangela, naturalmente me fizeram pontuar com firmeza a seqüência das
sessões posteriores.
Remontando a primeira
sessão, recordo o momento quando ela construiu a seguinte frase: “Preciso
curar-me da minha anorexia nervosa”. Chamou-me atenção à ênfase
que ela dera ao pronome possessivo e refleti: Teria Rosangela tomado posse
da doença em forma de recalque?
Pensei ser a anorexia e a
bulimia aproximação acomodada numa estrutura psíquica, de natureza
histérica, uma vez que remete a algo da ordem do recalcado.
Foi na prática da
psicanálise que Sigmund Freud a partir de um caso clínico, observou a
relevância dos estudos sobre histeria. Sabe-se que os estudos sobre
histeria são apontados como ponto de partida da psicanálise. Este é o
motivo que para nortear minhas reflexões, elegi rastrear os primeiros
passos do próprio Freud, não esquecendo a abordagem lacaniana, para marcar
considerações que parecem procedentes.
No volume XIV das obras completas, Freud expõe suas idéias sobre luto e
melancolia. Apresenta o luto como a perda e a melancolia como o afeto da
perda. Estabelece uma correlação entre esses dois estados psíquicos,
apontando: “O luto de modo geral, é a reação à perda de um ente querido, à
perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o
país, a liberdade ou o ideal de alguém, e assim por diante. Também vale a
pena notar que, embora o luto envolva grandes afastamentos daquilo que
constitui a atitude normal para a vida, jamais nos ocorre considerá-lo
como sendo uma condição patológica e submetê-lo a tratamento médico”.
Registro essa remetência a Freud referindo o paciente à submissão ao
tratamento médico para justificar o apontado anteriormente sobre minha
analisante.
Rascunhos de Freud em 1897
constam passagens, tais como os impulsos hostis contra os pais. O luto
incidiria, pois, na compaixão pela doença ou morte dos pais. Este por sua
vez corresponderia à abulia, perda consciente. Recriminar-se pela doença
ou morte dos pais, aproxima-se à melancolia, condição segundo Freud
voltada à instância inconsciente, retorno ao recalque e gerência da culpa.
Culpa gerada pelo desejo de morte e conseqüentemente pela perda objetal,
ou seja, do objeto perdido, o luto. O luto que se articula com a perda,
perda que estabelece a falta e, portanto o recalque.
Reflui então a repetição.
Repetição em busca do objeto.
Freud em 1894 apresenta o
Zwang (compulsão), indicando o caráter insistente, de perseverança, de
necessidade. É então que se pode identificar os atos obsessivos e
repetitivos, estes abrindo o campo para o termo neurose compulsiva. Um ano
antes (1893) Freud enuncia; “Os histéricos sofrem, pois, em sua maior
parte, de reminiscências” Desde então Freud já passeia pelos avatares da
compulsão, localizando os mecanismos desse movimento ao recalcamento e ao
retorno ao recalcado, lugar onde se situa a repetição. Poucos anos depois
(1896) identifica o mecanismo acima citado, quando comenta em um artigo
seu, neste ano, sobre psicoses de defesa.
Freud define muito bem daí
por diante, o ponto onde se situa o atributo ao mecanismo de defesa na
estrutura de repetição. Por tal, insisto. Mesmo que já tenha feito
referências a alguns trechos da obra de Freud no transcorrer deste
trabalho, evidencio repetitivamente as suas idéias, por estas terem sido e
ainda são, consideradas efetivamente como fundamentos básicos dos
postulados psicanalíticos. Em toda produção freudiana, há espaço para
conferir a lógica da compulsão à repetição.
Embora o título deste
trabalho destaque Freud, não é possível desprezar proposições lacanianas,
uma vez que Lacan refere-se à idéia de repetição como algo capaz de
estabelecer uma ordem. Ordem que impõe limites, conferindo desse modo, um
sentido. Sentido que remete a uma série, um conjunto de elementos, uma
cadeia significante.
Conceber tais princípios
indica refletir a repetição não como uma produção unificante, mas, como
uma reprodução distintiva. Por isso Lacan se arvora utiliza-se de
matemas, cuja construção funda-se em princípios matemáticos, onde
a série dos elementos (significantes) estabeleça um sentido. A repetição
é, pois para Lacan, a possibilidade de equacionar a partir das revelações
do inconsciente, o um, o traço unário, o ato inaugural.
Pode-se então pensar que esse
ato inaugural remonta ou pode remontar a um sintoma representando um
traumatismo, gerando recalque. O que recalca, falta, o que falta pede ou
exige uma repetição distintiva, na tentativa de suplência. Acrescenta-se,
pois que “a essência do significante é a diferença” (Lacan). Cada
significante tem um lugar próprio e único. Repetir não é encontrar a mesma
coisa. “A compulsão à repetição se estrutura em torno da perda, na medida
em que o que se repete não coincide com o que se repete”.
Ainda referindo Lacan,
lembrar o momento quando ele introduz o conceito de traço unitário, tenta
mostrar que esse traço que sempre se evoca se repete por não ser jamais o
mesmo. Produzem-se dessa maneira repetições constitutivas, possíveis de a
partir dela mesma se reconstruir, se recriar.
Freud provocara turbulências
em ocasião do texto “o estranho” em 1920, doravante Lacan evolui em suas
reflexões sobre compulsão à repetição. Foi em “Mais além do princípio do
prazer”. Pouco tempo antes, o filósofo Kierkegaard, em “la repétition
(1979) alude:” “a repetição, de certo modo, representa a própria pulsação
da teoria, na medida em que esta está marcada pela tendência a retornar
sempre ao mesmo lugar.”. Abstrair da premissa de Kierkegaard uma leitura,
pode-se concluir que se trata a repetição de um conceito amplamente
relevante, pois esta noção não apenas certifica as várias noções teóricas
psicanalíticas, bem como perpassam inexoravelmente por questões da
clínica.
Tamanha importância dedica
Lacan ao assunto, que inclui a repetição como um dos quatro conceitos
fundamentais da psicanálise (seminário 11- 1964). Neste seminário Lacan
associa a repetição ao inconsciente e observa que a repetição inconsciente
não se trata da reprodução do idêntico, trata-se de uma repetição que gera
movimento, movimento que vai em busca de um objeto. Por tal,
irrecuperável.
Lacan afirma; “O que se
repete, com efeito, é sempre algo que se reproduz”. Ainda no mesmo texto,
Lacan inclui a compulsão à repetição como a única forma possível de acesso
ao traumático. Ele destaca; “Com efeito, o trauma é concebido como devendo
ser tamponado pela homeostase subjetivante que orienta todo funcionamento
definido pelo princípio do prazer”. [...]. “A realidade está lá em
souffrance, lá esperando. E o Zwang, o constrangimento, que Freud
define pelo Wiederholung, comanda as voltas mesmas do processo primário”.
No capítulo V do seminário
11, Lacan faz alusão a questões sobre bulimia e anorexia quando engendra a
necessidade à repetição, atrelando o retorno da necessidade ao consumo
posto a serviço do apetite.
Pretendi esclarecer esse
movimento compulsivo aos processos bulímicos e anoréxicos enquanto tendo
como causa algo do traumático e só assimilável a partir da repetição.
O sujeito anoréxico mantém
uma relação mortífera com o objeto de necessidade, ampliando, pode-se
dizer, com o mundo.
Discuto, pois, anorexia e
bulimia articulados nesta sistemática pulsional onde os sintomas emergem
em oposição às perdas. E os sintomas se repetem, repetem numa busca
incessante pelo objeto perdido.
Freud afirma nos estudos
sobre histeria; “O sintoma tem sua palavra a dizer”. Lembrando dessa frase
de Freud, deduzo que o bulímico ou anoréxico não podendo falar, opta por
vomitar. Logo transparece a necessidade de falar, falar e ser ouvido. Os
sintomas dessas doenças expressam um apelo, apelo esse que através de sua
persistência resgata o caráter reconstitutivo do próprio sujeito.
Assim como Freud, quando
investigava o caso Emmy, fui instigada pela clínica a aprofundar minhas
pesquisas sobre abulia-bulimia. Mas..., Freud já
sabia!
Bibliografia:
FREUD, Sigmund. Obra Completa Vol. II. Imago
LACAN, Jacques. Escritos. Jorge Zahar Editor, 1998.
LACAN, Jacques. Seminário I. Os escritos técnicos de Freud. Jorge Zahar
Editor
LACAN, Jacques. Seminário III. Psicose. Jorge Zahar Editor
ROUDINESCO, Elizabeth. Dicionário de psicanálise. Jorge Zahar Editor,
1998.
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