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O salto da escrita
rompe cêrcos, liberta o sentido: constelação significante que se ergue e se
fragmenta, e em seus movimentos ejeta nacos de real.
Em Joyce, a língua
inglesa já não é... em acrobacias, driblando literalmente o
significante, ele enxerta, recheia, emprenha a língua... vem à luz n'alingua
miríades de artifícios,de invenções... soam ressonâncias nos
trocadilhos brincantes, que levam aos quatro cantos estranhas formas, e num
repicar de sinos marcam a hora Joyceana.
Na saga diurna da
odisséia do Ulysses, ou no trânsito noturno de Finnegans Wake ...
o personagem principal é a linguagem .Bloom, Stephen, Molly... e
Humphrey Chimpden Earwicker (Here Comes Everybody)... entre outros,
evoluem na montagem da letra... rompendo todos os padrões
estabelecidos; provocativa e instigante, sua textura é fator de incansáveis
estudos e confrontos paralelos. Várias leituras são feitas... aqui,
o Joyce de Lacan.
A insustentável
exigência do ‘O’ presentifica o invocante enigma Joyceano... seu texto
compõe harmonias dissonantes... dança de palavras carregadas de pai...
instrumenta a partitura o "parasita letrista"... no oito interior , a
trama textual arquiteta um sinthome.
No seminário 23,
um gênio se debruça sobre outro... logo no início Lacan diz: "é
porque o corpo tem alguns orifícios, e o mais importante deles é o ouvido,
porque não se pode fechar, que responde no corpo o que chamei a voz"...
e logo em seguida , cita a concorrência que a voz sofre do olhar...
então , eu penso: no olho, o olho... tem feito uma cortininha; que se
pode fechar, no piscar dos olhos... E piscando os olhos , a
apreensão cativa.
E se completam,
som e imagem... ecos no corpo... dizeres ehaveres...
avatares sensíveis da fala..enigmas enunciantes arbitrados entre
significantes. A palavra rouba a cena, habita o corpo (lembro aqui o
capítulo do Ulysses” As sereias"... uma festa do pequeno "a"...
).
Joyce e seu
corpo. Corpo do qual algo se desprende... . O episódio da surra
que levou de alguns alunos de sua classe. (este episódio é corroborado
por seu irmão Stanislaus, e citado minuciosamente por um dos seus
biógrafos, Chester Anderson em seu livro "James Joyce") a cena, desliza
para Stephen no "Retrato do artista quando jovem"... na jesuítica
sala de aula, Joyce/Stephen se viu acusado por ter feito numa redação
elogios ao poeta Byron... tido como imoral.e se recusou, a afirmar, (
quando acuado por Heron e seus comparsas , no caminho de volta para a casa
), que a poesia de Tennyson é melhor que a de Byron... entre pauladas
e chicotadas... jogado contra uma cerca de arame farpado, imobilizado
enquanto era batido por dois ao mesmo tempo, mas ainda assim, seus algozes
não conseguiram fazê-lo ceder em seus pontos de vista... nem a pau...
Stephen resistiu.
O texto de Joyce
diz assim:" Naquela mesma noite, enquanto trôpego ia para casa pela Jone's
Roade, sentiu que algum tipo de poder o despojava daquela súbita raiva
enleante , tão facilmente quanto uma fruta é desinvestida de
sua casca macia e madura"...
Na lição de 11 de
março de 76 , no mesmo seminário.23 , Lacan diz que aí Joyce metaforiza sua
relação com seu corpo... algo foi posto fora ... e em seguida,
comenta a relação dos seres humanos com seu corpo... que é imperfeita.
Quem sabe o que acontece dentro do seu corpo? E ele diz que há ai algo
confuso: os afetos, as sensações, são algo psicológico... não tem a
ver com o inconsciente:aí há reações... e então fala das reações de
nojo... algo que enoja, que é posto entre parênteses... e diz
que "espanta a má lembrança"... e Lacan acentua, continuando:
"o corpo :o temos, não o somos, em nenhum grau"..e é isso que nos faz crer
na alma".. .então, é uma forma de deixar pra lá o próprio corpo. Os
sentimentos, como uma pele nojenta, se desprendem, ... são
excretados... este deixar para lá da relação com o corpo... tem
algo de peso... .
Algo de peso, que
é o ego , .que suporta o corpo como imagem. No caso de Joyce, não ocorreu a
relação imaginária... Lacan nos diz que Joyce se serve de seu corpo:,
seu corpo em si, não serve... e diz também que seria como na dança...
a dança se serve do corpo... e Lacan cita que a metáfora
Joyceana é uma "condansação "... fluência enunciante, enigmática...
elevada à potência da escrita...
James Joyce
:artífice da letra... tece a emenda, textualiza funções reparatórias
nesta pére-version, neste sinthomem... Aí acontece a hora
universal de sua arte.
A manifestação
epifânica atesta o enlace do inconsciente ao real. O real, campo do sentido
na escrita. Escrita,essencial ao seu ego. .E Lacan o demonstra no seu
esquema ... ele diz: "aqui está o real, aqui o imaginário, aqui o
inconsciente, aqui o ego de Joyce.. .o imaginário, cai fora... a
ruptura do eg , libera a relação imaginária, se o inconsciente permitir...
Lacan afirma que no caso de Joyce, permite ,incontestavelmente... e assim
ele termina o seminário 23.
Na textura de
Joyce, o enganchamento significante ... já no sem. 20, no Encore,
Lacan demonstrava que a escrita não vem senão deste efeito... ele nos
diz isto na sessão de 09 de janeiro de 73 , "N'a função do escrito"...
e ali então, ele cita Joyce, e exorta que leiam Joyce, que leiam Finnegans
Wake... : os efeitos da letra na errância significante.
Nos vôos da
palavra, no ballet da escrita Joyceana, a linguagem se aperfeiçoa...
Lacan diz que temos que "ler o lapso"... e faz alusão à escrita como
algo "além do significante."A escrita é este enganchamento, este efeito...
é aí que o nó borromeano acontece... e é passagem de uma escrita à
outra... na escrita que, Joyce acontece... e funciona, na sua
genial poética concreta, no seu realismo esfuziante, contagiante...
Voltando á última
sessão do seminário "Le Sinthome"... Lacan nos fala do seu embaraço,
confessa que quebra a cabeça sobre algo não evidente... é a questão do
nó na estrutura de Joyce... Lacan considera o nó bo um apoio ao
pensamento, um "apenso"... (diz que a cadeia borromeana, não é fácil
vê-la funcionar... é preciso escrever, para vê-la funcionar...).
Nas psicoses , o
nome-do pai não funciona como articulador, e então isto conduz a tipos de
foraclusão... Joyce era psicótico?
Questiona-se...
na sua genial loucura, a articulação acontece numa suplência,enganchada em
onomatopéias., sinédoques, hipérboles e elipses... seus textos,
realistas, trágicos, dramáticos, líricos, cômicos, hilariantes... são
como a partitura de uma sinfonia wagneriana... coro epifânico, onde
bailam fragmentos do real..
Na engrenagem
reparatória, a letra é bailarina leve e prodigiosa... seus passos nos
monólogos interiores deslizam em associações livres escriturais... nas
páginas finais do Ullysses, Molly Bloom salta livremente, em acrobacias
incomparáveis... e Joyce, quebra e requebra palavras impostas...
inaugura incríveis possibilidades de escritura;, em pauta, um pai...
que se ergue, e se presentifica ... fio condutor no sinthome que
Joyce conjuga...
Joyce, filho
único entre muitos filhos... seu pai, John Stanislaus Joyce, o elege
filho único, e o único amado, e.amado até o fim ... e Joyce o
reconhece.. Quando John Joyce morre, em seguida Lucia, filha de James
piora, em caráter definitivo. Passa então a ter várias internações, e
sucessivas crises.
.John, pai carente
e brilhante, controvertido e cativante... James admirava sua retórica,
seu fino senso de humor, sua bela voz... da qual se considerou
herdeiro... assim como admirava seus malfeitos... dos quais
alguns , se considerava também herdeiro... uma certa tendência à
licensiosidade...
A trajetória
familiar, de James Joyce... dolorosa, e extremamente conflituada,
falências, humilhações, perdas... é como se estas doses de amargura
fossem sendo deixadas cair pelo caminho... como as cascas caem de um
fruto... Ellmann comenta que ele como que cultivava a indiferença em
relação a esses assuntos... (págs. 62 e 63) e que já aos 12
anos, aprendera a seguir seu caminho... entre as ruínas da família...
Nos monólogos
interiores, e nas epifanias, fluem os resíduos das feridas familiares, das
frustrações, dos preconceitos, das repressões religiosas, da Irlanda
dominada, das traições... Ele é o herói, redentor de sua
raça, o criador, o libertador... ele é o Pai, o Filho e o Espírito
Santo... e diz amém no exílio voluntário... "Para forjar a consciência
incriada de sua raça"... (no final do Retrato).
O tom litúrgico e
apaixonado impregna suas obras... apaixonado pela Irlanda... e o
Deus deposto e renegado se faz presente Onipotente, nos passos da saga
diurna do Ulysses. Em sua Odisséia dublinense, os passos de um judeu
errante, em flor, sem pátria, à deriva, na tragicomédia urbana irlandesa...
até o Deus de uma palavra de cem letras, a voz do trovão, no sonho noturno
de Finnegans Wake.
Todos os livros de
Joyce são sobre Dublin.transfiguram a língua e resgatam e redimem a Irlanda
de Parnell. Numa insurreição reparadora... o reerguimento do campo do "O".
Última frase de
Stephen Dedalus no" Retrato do artista quando jovem":
"Velho pai, velho
artífice... mantém-me agora e sempre em boa forma"...
E ele Joyce, data
e situa:
Dublin, 1904
Trieste,1914..
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