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Simpósio do Rio de Janeiro/RJ: 2003

 

A Textura Joyceana
Sonia Sarmento

 
 

O salto da escrita rompe cêrcos, liberta o sentido: constelação significante que se ergue e se fragmenta, e em seus movimentos ejeta nacos de real.

Em Joyce, a língua inglesa já não é...  em acrobacias, driblando literalmente o significante, ele enxerta, recheia, emprenha a língua...  vem à luz  n'alingua miríades de artifícios,de invenções...   soam ressonâncias nos trocadilhos brincantes, que levam aos quatro cantos estranhas formas, e num repicar de sinos marcam a hora Joyceana.
 

Na saga diurna da odisséia do Ulysses, ou no trânsito noturno de Finnegans Wake ...   o personagem principal é a linguagem .Bloom, Stephen, Molly...  e Humphrey Chimpden  Earwicker (Here Comes Everybody)...  entre outros, evoluem na montagem da letra...  rompendo todos os padrões estabelecidos; provocativa e instigante, sua textura é fator de incansáveis estudos e  confrontos paralelos.   Várias leituras são feitas...  aqui, o Joyce de Lacan.
 

A insustentável exigência do ‘O’  presentifica o invocante enigma Joyceano... seu texto compõe harmonias dissonantes...  dança de palavras carregadas de pai...  instrumenta a partitura o  "parasita letrista"...  no oito interior , a trama textual arquiteta um sinthome.
 

No seminário 23, um gênio se debruça sobre outro...  logo no início Lacan diz:  "é porque o corpo tem alguns orifícios, e o mais importante deles é o ouvido, porque não se pode fechar, que responde no corpo o que chamei a voz"...  e logo em seguida , cita a concorrência que a voz sofre do olhar...  então , eu penso: no olho, o  olho...  tem feito uma cortininha; que se pode fechar, no piscar dos olhos...   E piscando os olhos , a apreensão cativa.
 

E se completam, som e imagem...  ecos no corpo...  dizeres ehaveres...  avatares sensíveis da fala..enigmas enunciantes arbitrados entre significantes. A palavra rouba a cena, habita o corpo (lembro aqui o capítulo do Ulysses” As  sereias"...  uma festa do pequeno  "a"...  ).
 

 Joyce e seu corpo. Corpo do qual algo se desprende...  . O episódio da surra  que levou de alguns  alunos  de  sua classe.  (este   episódio é corroborado por seu irmão Stanislaus, e citado  minuciosamente   por um dos   seus biógrafos, Chester Anderson em seu livro  "James  Joyce") a cena, desliza para Stephen no  "Retrato do artista quando jovem"...  na jesuítica sala de aula, Joyce/Stephen se viu acusado por ter feito numa redação elogios ao poeta Byron...  tido como imoral.e se recusou, a afirmar, ( quando acuado por Heron e seus comparsas , no caminho de volta para a casa ), que a poesia de Tennyson é melhor que a de Byron...  entre pauladas e chicotadas...  jogado contra uma cerca de arame farpado, imobilizado enquanto era batido por dois ao  mesmo tempo, mas ainda assim, seus algozes não conseguiram fazê-lo ceder em seus pontos de vista...  nem a pau...  Stephen resistiu.

O texto de Joyce diz assim:" Naquela mesma noite, enquanto trôpego ia para casa pela Jone's Roade, sentiu que algum tipo de poder o despojava daquela súbita raiva enleante , tão facilmente quanto uma fruta é desinvestida de
sua casca macia e madura"... 

Na  lição de 11 de março de 76 , no mesmo seminário.23 , Lacan  diz que aí Joyce metaforiza sua relação com seu corpo...  algo foi posto fora ...  e em seguida, comenta a relação dos seres humanos com seu corpo...  que é imperfeita.  Quem sabe o que acontece dentro do seu corpo?  E ele diz que há ai algo confuso: os afetos, as sensações, são algo psicológico...  não tem a ver com o inconsciente:aí  há reações...  e então fala das reações de nojo...  algo que enoja, que é posto entre parênteses...  e diz que  "espanta a má lembrança"...   e Lacan acentua, continuando:  "o  corpo :o temos, não o somos, em nenhum grau"..e é isso que nos faz crer na alma"..  .então, é uma forma de deixar pra lá o próprio corpo. Os sentimentos, como uma pele nojenta, se desprendem, ...  são excretados...  este deixar para lá da relação com o corpo...  tem algo de peso...  .

Algo de peso, que é o ego , .que suporta o corpo como imagem. No caso de Joyce, não ocorreu a relação imaginária...  Lacan nos diz que  Joyce se serve de seu corpo:, seu corpo em si, não serve...  e diz também que seria como na dança...  a dança se serve do corpo...  e Lacan cita que a metáfora  Joyceana é uma  "condansação "... fluência  enunciante, enigmática...  elevada à potência da escrita... 

James Joyce :artífice da letra...  tece a emenda, textualiza funções reparatórias nesta pére-version, neste sinthomem...   Aí acontece a hora universal de  sua arte.
 

A manifestação epifânica atesta o enlace do inconsciente ao real. O real, campo do sentido na escrita. Escrita,essencial ao seu ego. .E Lacan o demonstra no seu esquema ...  ele diz: "aqui está o  real, aqui o imaginário, aqui o inconsciente, aqui o ego de Joyce.. .o imaginário, cai fora...  a ruptura do  eg , libera a relação imaginária,  se o inconsciente permitir...  Lacan afirma que no  caso de Joyce,  permite ,incontestavelmente... e assim ele termina o seminário 23.

Na textura de Joyce, o enganchamento significante ...  já no sem. 20, no Encore, Lacan  demonstrava que a escrita não vem senão deste efeito...  ele nos diz isto na sessão de 09 de janeiro de 73 ,  "N'a função do escrito"...  e ali então, ele cita Joyce, e exorta que leiam Joyce, que leiam Finnegans Wake... : os efeitos da letra na errância significante.

Nos vôos da palavra, no ballet da escrita Joyceana, a linguagem  se aperfeiçoa...  Lacan diz que temos que  "ler o lapso"...  e faz alusão à escrita como algo  "além do significante."A escrita é este enganchamento, este efeito...  é aí que o nó borromeano acontece...  e é passagem de uma escrita à outra... na escrita que,  Joyce acontece...  e funciona, na sua genial poética concreta, no seu realismo esfuziante, contagiante...

Voltando á última sessão do seminário  "Le Sinthome"...  Lacan nos fala do seu embaraço, confessa que quebra a cabeça sobre algo não evidente...  é a questão do nó na estrutura de Joyce...  Lacan considera o nó bo um apoio ao pensamento, um  "apenso"...  (diz que a cadeia borromeana, não é fácil vê-la funcionar...  é preciso escrever, para vê-la funcionar...).

Nas psicoses , o nome-do pai não funciona como articulador, e então isto conduz a tipos de foraclusão...  Joyce era psicótico?

Questiona-se...  na sua genial loucura, a articulação acontece numa suplência,enganchada em onomatopéias., sinédoques, hipérboles e elipses...  seus textos, realistas, trágicos, dramáticos, líricos, cômicos, hilariantes...  são  como a  partitura de uma sinfonia wagneriana...  coro epifânico, onde bailam fragmentos do real..

Na engrenagem reparatória, a letra é bailarina leve e prodigiosa...  seus passos  nos monólogos interiores deslizam em associações livres escriturais...  nas páginas finais do Ullysses, Molly Bloom salta livremente, em acrobacias incomparáveis...  e  Joyce, quebra e requebra palavras impostas...  inaugura  incríveis possibilidades de escritura;, em pauta, um pai...  que  se  ergue,  e se presentifica ...  fio condutor no sinthome  que Joyce conjuga... 

Joyce, filho  único  entre muitos filhos...  seu pai, John Stanislaus Joyce, o elege filho único, e o único amado, e.amado até o fim ...  e Joyce o reconhece.. Quando  John  Joyce  morre, em  seguida  Lucia, filha  de  James piora, em caráter definitivo.  Passa então a ter  várias  internações, e sucessivas crises.

.John, pai carente e brilhante, controvertido e cativante...  James admirava sua retórica, seu fino senso de humor, sua bela voz...  da qual se considerou herdeiro...  assim como admirava seus malfeitos...  dos quais alguns , se considerava também herdeiro...  uma certa tendência à licensiosidade... 

A trajetória familiar, de James Joyce...  dolorosa, e extremamente conflituada, falências, humilhações, perdas...  é como se estas doses de amargura  fossem sendo deixadas cair pelo caminho...  como as cascas caem de um fruto...  Ellmann comenta que  ele  como que cultivava a indiferença em relação a esses assuntos...  (págs.  62 e 63) e que já aos 12 anos, aprendera a seguir seu caminho...  entre as ruínas da família... 

Nos monólogos interiores, e  nas epifanias, fluem os resíduos  das feridas familiares, das frustrações, dos preconceitos, das repressões religiosas, da Irlanda dominada, das traições...   Ele é o herói,  redentor de sua raça, o criador, o libertador...  ele é o Pai, o Filho e o Espírito Santo...  e diz amém no exílio voluntário... "Para forjar a consciência incriada de sua raça"...  (no final do Retrato).

O tom litúrgico e apaixonado impregna suas obras...  apaixonado pela Irlanda...  e o Deus deposto e renegado se faz presente Onipotente,  nos passos da saga diurna do Ulysses.  Em sua Odisséia dublinense, os  passos de um judeu errante, em flor, sem pátria, à deriva, na tragicomédia urbana irlandesa...  até  o Deus de uma palavra de cem letras, a voz do trovão, no sonho noturno de Finnegans Wake.

Todos os livros de Joyce são sobre Dublin.transfiguram a língua e resgatam e redimem a Irlanda de Parnell. Numa insurreição reparadora... o reerguimento do campo do  "O".

Última frase de Stephen Dedalus no" Retrato do artista quando jovem":

 "Velho pai, velho artífice...  mantém-me agora e  sempre em boa forma"... 

E ele Joyce, data e situa:

Dublin, 1904

Trieste,1914..
 

 Intersecção Psicanalítica do Brasil