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A psicanálise, como afirma Lacan
no Seminário XI (1964), é uma praxis orientada para aquilo que no coração
da experiência é o núcleo do real. A importância que o conceito de
Repetição assume na teoria psicanalítica está intimamente vinculada a
esta demarcação do vetor de orientação do campo psicanalítico, na medida
em que ela não pode ser pensada independentemente de uma praxis.
Foi justamente a partir de observações clínicas que
Freud teve a sua atenção despertada para o fenômeno da Repetição. Desde a
formulação da noção de uma representação coercitiva (
Zwangsvorstellungen), que apresenta em 1894 no texto “As
psiconeuroses de defesa”, ele já esboça o conceito de repetição como algo
constituinte do funcionamento psíquico. Em 1914, ao se deter sobre os
fenômenos da transferência na clínica, dá à noção o estatuto de um
conceito, ao identificar a compulsão à repetição a uma maneira de
recordar que se presentifica no tratamento. Nesse momento procura
articular os conceitos de repetição, transferência e resistência, o que
faz com que a força do conceito fique enfraquecida pela interseção com o
conceito de transferência.
É em 1920, em “Além do princípio do prazer”, que vai
atribuir ao fenômeno da compulsão à repetição o caráter de uma força
demoníaca que sobrepuja o princípio do prazer, o que o leva a formular o
conceito de pulsão de morte, como a tendência a retornar que funda a
orientação do sujeito humano na busca do objeto. A partir desse momento
fica evidenciada a importância do conceito de repetição, que pode ser
considerado como constitutivo do próprio conceito de inconsciente, na
medida em que revela o movimento da pulsão que está na base da
constituição do iconsciente. Repetição, inconsciente e pulsão estão,
assim, intimamente ligados e é por isso que Lacan os considera, juntamente
com o conceito de transferência, como os quatro conceitos fundamentais da
psicanálise, dedicando a eles um de seus Seminários (Seminário XI
(1964-65)).
Ao dar destaque ao conceito de repetição enquanto conceito
fundamental, Lacan é sensível à ligação que Freud estabelece entre
repetição e pulsão de morte, na medida em que esta última denuncia o que
há de essencial na repetição, que ele designa como encontro do real.
Para Lacan, a repetição é esse trabalho fundamental da pulsão de morte que
relança insistentemente algo inassimilável, da ordem do real. É
esse encontro, essencialmente faltoso, que os sonhos traumáticos trazem de
volta, no movimento de retorno a uma impossível origem, a um estado de
repouso absoluto, com a eliminação de todas as tensões. No lugar desse
objeto impossível de encontrar, o que se encontra sempre é o real,
o que introduz a diferença no circuito da repetição. É este inassimilável
à cadeia simbólica, traumático, que determina o movimento do desejo, que é
sempre desejo de outra coisa.
Lacan se valeu do vocabulário de Aristóteles para tratar as
duas faces da repetição: tiquê e automaton. Enquanto o
automaton aponta para a repetição sintomática, como insistência dos
signos comandada pelo princípio do prazer, a tiquê indica esse
encontro do real, que vigora sempre por trás do automaton, para
além do princípio do prazer. Para ele, em toda pesquisa de Freud fica
evidente que é desse real que se trata.
Para trabalhar melhor estas formulações, em particular a
relação entre repetição e pulsão de morte, nos valeremos da narrativa
trazida por um filme de Dariush Merjui (Irã,1997), que apresenta de forma
pungente o drama do desejo humano, através do destino de uma mulher de
classe média na sociedade iraniana atual. O filme leva o seu nome: Leila
e pode ser pensado como uma história clínica. Ele se desenvolve num
cenário de cenas repetidas: entre a primeira e a última, uma narrativa que
vai do drama à tragédia, em que a repetição, em sua face de automaton,
traz em si um real insuportável que evidencia a ação da pulsão de
morte.
No primeiro tempo do filme, a ação tem início numa refeição
festiva, ao ar livre, em que é acertado o casamento de Leila. Seu irmão
traz um amigo que se tornará seu marido. Tudo já está previsto no contexto
dos arranjos familiares e não parece haver escolha para ela, nem
tampouco para ele. Apesar disso, o amor surge como um imprevisto e a vida
em comum desenvolve-se de forma apaixonada.
Neste percurso, entretanto, algo se interpõe como um
sintoma, cujo sentido, como diz Lacan, é o real, enquanto aquilo
que se coloca em cruz para impedir que as coisas andem bem.( Lacan,
1986:24). Após algum tempo de casados, as famílias se inquietam pelo
herdeiro que não chega e o jovem casal procura especialistas para ver o
que está ocorrendo. Esta situação preocupa principalmente a mãe do rapaz,
uma vez que este é seu único filho homem, responsável, portanto, pela
continuidade do nome da família. Ela aguarda ansiosamente um neto que lhes
assegure a imortalidade. Sintoma social, onde estão traçados os papéis de
homens e mulheres numa sociedade patriarcal fortemente hierarquizada e
tradicional, em que o valor de uma mulher está ligado ao filho que pode
dar a um homem.
Nesse momento começa o drama de Leila: tal como vaticinado
por sua sogra, que não admite que o filho possa falhar, ela constata, após
algumas visitas ao médico e uma série de exames, que não poderá cumprir
este papel, já que está impossibilitada de gerar um filho. A princípio
isto não parece incomodar seu marido que reafirma o amor por ela e chega a
sugerir que adotem uma criança. Após algumas visitas a orfanatos, Leila se
recusa a optar por esta solução, assumindo a sua falha e dizendo ao marido
que esta impossibilidade não o atinge, uma vez que ele pode gerar um filho
que seja sangue do seu sangue. Pesa sobre ela a culpa por não cumprir o
seu papel social, assim como por não satisfazer a demanda do Outro que a
intima a produzir o falo enquanto potência imaginária e referência
simbólica de uma determinada ordem. As mulheres, como diz Lacan, são
falóforas, na medida em que produzem meninos.
O que move Leila ao assumir uma postura em que recusa o
amor de seu marido, reduzindo-se à função de procriadora, numa posição
marcada pelo real da privação? É sob a pressão da sogra, que não por acaso
ela chama de “A Mãe”, que surge como um supereu insaciável, inscrição
arcaica de uma imagem materna onipotente, que Leila caminha, como Édipo,
para a maldição consentida. É “A Mãe” que insiste em lembrar-lhe o desejo
inconfesso de seu filho de ter um filho, exigindo que ela consinta que ele
se case com outra mulher que possa satisfazer esse desejo, apesar dos
protestos do próprio e até mesmo do pai deste e de suas irmãs. A este
desígnio Leila se submete, na tentativa de satisfazer não o desejo de seu
marido, mas o desejo da Mãe. Parecem estar soldados aí a busca de
satisfação do desejo da Mãe e o desejo de ser Mãe, na medida em que este
lhe dá acesso ao “tornar-se mulher”.
O desejo da mãe é original e fundador, mas ao mesmo tempo
destrutivo e mortal. Ele deve ser mediado pela função paterna que opera
uma metaforização, permitindo o surgimento do sujeito. O Nome-do-Pai surge
como substituição significante ao desejo da mãe
[i].
No filme esta função parece enfraquecida, a partir da existência de uma
tensão na sociedade iraniana entre antigos e novos valores. Os novos
valores que se insinuam expressam-se na defesa do marido de uma relação
amorosa exclusiva, em que a mulher não se reduz à função de reprodutora,
assim como na revolta das cunhadas que tentam convencer Leila a não seguir
as imposições da Mãe. Há, portanto, uma valorização do feminino para além
do papel que é destinado às mulheres pela tradição e uma mudança na
relação entre os sexos. Até mesmo o pai do rapaz reprova o comportamento
da Mãe, considerando absurda sua pressão sobre Leila. Do outro lado está a
inquebrantável determinação da Mãe em atingir seu objetivo: seguindo a
tradição, dar continuidade à linhagem masculina. As figuras masculinas que
poderiam barrar esse caminho são, contudo, demasiadamente passivas, como o
pai do rapaz e o próprio rapaz que acaba por também se submeter ao desejo
materno. Parecem estar na fronteira, indecisos entre duas ordens. É a Mãe
que, paradoxalmente, surge como representante da ordem tradicional
masculina, que outorga aos homens o poder de ter várias mulheres, em que
estas aparecem veladas, cobertas por xales, dessubjetivadas.
Neste contexto, o supereu se manifesta, como diz Lacan
(1953-54), como uma instância cega e repetitiva. É o “tu deves” que é, ao
mesmo tempo, a lei e a sua destruição. A presença constrangedora e
repetitiva da Mãe leva Leila a engajar-se na busca de uma outra mulher
para o marido, numa posição passiva, masoquista, que revela o poder desse
supereu arcaico.
É nesta busca que a função da repetição se instala,
revirando a posição de Leila de uma passividade masoquista para uma
atividade silenciosa. Como a netinha de Freud, no jogo do Fort-da,,
ela procura dominar a experiência de perda através de uma atividade
repetitiva em que supostamente controla a situação. Após convencer o
marido a escolher outra mulher que lhe possa dar um filho dentre as
candidatas arranjadas pela Mãe, sucedem-se cenas que configuram um ritual
onde Leila prepara cuidadosamente a roupa do rapaz para o encontro com a
candidata, seguindo-o em quase todos os passos que o levam a ela. A partir
de um acordo entre eles, que determina que este só poderá aceitar uma
mulher aprovada por Leila, ela o acompanha no carro até um certo ponto do
percurso para o encontro, para onde ele retorna ao final, narrando o que
aconteceu. Eles conversam na volta para casa, momento em que ela rompe seu
silêncio, divertindo-se com os defeitos que o rapaz sempre encontra nas
candidatas, o que preserva a relação entre eles.
Podemos considerar este como o segundo tempo do filme, em
que a repetição assume a forma sintomática do automaton, uma vez
que o ritual surge como uma formação substitutiva que vem em lugar da
falta de relação que passa a marcar o convívio do casal. Ele tem a função
de impedir a irrupção de um real traumático, garantindo que o encontro com
a outra não se consume, o que aplaca o sofrimento e permite um certo gozo
ao casal. A insistência deliberada de Leila em submeter-se ao desejo da
Mãe, que a cada candidata recusada apresenta outra, anuncia, contudo, um
desfecho trágico. Como Antígona, Leila mascara, com seu heroísmo, o drama
de não poder ser mãe[ii].
Ironicamente, como se fosse um acaso, o rapaz se interessa
por uma das candidatas e o ritual, pela ação da pulsão de morte,
desenvolve-se até o seu ponto máximo, onde vem à tona aquilo que pretende
esconder: o real. Novo encontro é combinado com a mesma moça e
desta vez uma diferença se apresenta: Leila acompanha seu marido no carro,
saltando, como sempre, um pouco antes do local do encontro. É lá que
permanece, não mais para reencontrá-lo, mas para vê-lo passar no carro com
a outra e aprová-la, como fora combinado previamente. A partir disso, o
casamento é acertado e Leila, levando ao ápice sua compulsão, arruma
silenciosamente a casa para receber a nova mulher. Num ritual trágico,
prepara, com mais esmero do que nunca, a roupa de gala que o rapaz usará
na cerimônia, retirando a seguir todos os seus pertences do quarto do
casal e arranjando-o cuidadosamente para a noite de núpcias. Nesta
tentativa de apagar-se a si mesma, apagar seu desejo, recolhe-se ao
quarto dos fundos e aguarda a chegada do novo casal.
O momento em que estes entram na casa, acompanhados dos
convidados para a festa do casamento, inaugura o terceiro momento do
filme. Nele se observa a irrupção de um real insuportável, que
revira novamente a posição de Leila. Diante da alegria dos convidados numa
reunião festiva que, de certa forma, marcadas algumas diferenças, relembra
a primeira cena do filme, ela deixa a casa, correndo enlouquecida pela
rua, refugiando-se na casa de sua família, que nem sequer sabia de seu
drama.
A cena que se segue define o final do filme, pois Leila
vomita compulsivamente, fixando-se em seguida em uma mudez da qual não
mais sairá. Se a cena inicial do filme foi uma refeição coletiva festiva,
em que Leila foi o prato principal através da combinação de seu casamento
e da definição de um destino ao qual ela não poderá fugir, a repetição
desta comemoração traz à boca de cena o real impossível, como algo
inassimilável que retorna no vômito de Leila.
Daí em diante, o filme se encaminha na direção do fracasso:
fracasso do novo casamento, pois o rapaz não se conforma com a ausência de
Leila e fracasso da tentativa de satisfazer o desejo da Mãe, pois do novo
enlace nasce uma menina. Em vão são as tentativas do rapaz, após
separar-se da segunda esposa, de retomar a relação com Leila. Isto não é
mais possível. Tendo ido longe demais na traição de si mesma, ela está
muda e morta para a vida, evidenciando de forma radical a ação da pulsão
de morte como tendência para o retorno ao estado de não-vida, anterior à
vida, que pressupõe a passagem pela morte.
A
última cena do filme repete integralmente a primeira, neste retorno à
origem. Uma refeição coletiva, festiva, ao ar livre. Como no início, o
rapaz é novamente convidado pelo irmão de Leila, mas desta vez chega
acompanhado de uma menina. Leila, sem ser vista, o observa à distância, de
uma janela, mas não desce para a festa. Tudo está acabado para ela, que
surge, nesta cena, como a demonstração viva da impossibilidade. A presença
da menina, contudo, deixa a pergunta: será tempo de recomeçar?...
[i]
Em “Uma questão preliminar a todo tratamento possível da
psicose”(Escritos,1998:563), Lacan apresenta a fórmula da metáfora
paterna em que o Nome-do-Pai vem em substituição significante ao
desejo da mãe.
[ii]
Cf. Guyomar (1996:49).
Referências Bibliográficas
FREUD, Sigmund -
“Recorda, repetir e elaborar” (1914), Obras Psicológicas Completas.,
Edição Standard Brasileira, Rio de Janeiro, Imago Ed. 1976.
________________ -
“Além do princípio do prazer” (1920), Obras Psicológicas Completas.,
Edição Standard Brasileira, Rio de Janeiro, Imago Ed. 1976
GUYOMARD,
Patrick - O gozo do trágico: Antígona, Lacan e o desejo do analista.
Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1996.
LACAN, Jacques -
Seminário XI, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964),
Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1979.
________________ -
Seminário I, Os escritos técnicos de Freud (1953-54), Rio de
Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1983.
________________ - “A
terceira”(1974), Che vuoi?, outubro , ano 1, no., Porto Alegre,
Cooperativa Cultural Jacques Lacan,1986.
________________ - “De
uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose”, Escritos,
Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1998.
[i]
Em “Uma questão preliminar a todo tratamento possível da
psicose”(Escritos,1998:563), Lacan apresenta a fórmula da metáfora
paterna em que o Nome-do-Pai vem em substituição significante ao
desejo da mãe.
[ii]
Cf. Guyomar (1996:49).
[i]
Trabalho apresentado no Simpósio da Intersecção Psicanalítica do Brasil,
realizado em São Paulo, de 26 a 28 de novembro de 1999.
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