|
O
x da questão
O
desejo do analista sempre acompanhado de uma questão é o próprio x da
questão. Tratando-se de escolha de profissão, carreira... o importante é a
decisão calcada nas identificações e idealizações, no entanto, em
oposição, o desejo de ser analista não se apresenta como algo consciente,
da ordem do ser, dos bens e da moral. Não é um desejo egóico, nem parte da
consciência. O “eu quero ser analista” é efeito da análise, de restos da
análise que tendo escapado da cadeia significante terminam por ensejar uma
escritura, um sinthome. Lacan sempre salientou o perigo da identificação
do analisante ao analista ser tomado como fim de análise sublinhando a
identificação marcando o início da análise e não seu fim.
O desejo
Na análise o desejo que conta e está em causa é um só, está do lado do
analisante e não do lado do analista, mas, vai depender do analista, do
Desejo dele, que todo o processo ocorra ou não. Que sentido teria o desejo
do analista no processo? O analista tem desejo, mas, não é o desejo
singular dele que está em causa. Mesmo após uma longa análise, levada a
sério, o analista não fica desprovido de desejo, nem de inconsciente. Os
desejos são sempre infantis, inconscientes e indestrutíveis lembra Freud.
O analista, pela experiência de sua própria análise, adquire tanto uma
nova forma de lidar com seu inconsciente quanto um saber reconhecer o que
é o desejo, essa é uma das vertentes do seu saber fazer que opera no
processo. Assim, quando o analista “joga fora um analisante”, resiste na
sua função, ou seja, está implicado nisso. Trata-se dos pontos cegos
acerca dos quais Freud chamou nossa atenção, e que, em Lacan,
corresponderia a dizermos: o desejo do analista não funcionou, não foi
possível ser operador nesse caso.
O
Desejo do analista é que a análise ocorra, que o analisante venha a sessão
para falar. Não se pode esperar do analisante que ele venha à análise
fazer análise, ele vem sempre fazer outra coisa... O que pode sobrepujar o
desejo do analisante de fazer outra coisa, é o que chamamos, a colocação
em verdade do Desejo do analista, a partir da sua própria análise.
É o
analista quem guia o tratamento, mas isto não tem o sentido de guiar a
vida, a consciência de quem escuta. Guiar o tratamento seria, portanto,
saber fazer advir o saber do analisante, fazer emergir esse saber que
surge tomando como via o analista na transferência.
O saber e o amor
Em
Formações do inconsciente, o saber do analisante é abordado a
partir das falhas do discurso do analisante mas, no Avesso da
Psicanálise, Lacan refere ao inconsciente denominando-o saber sem
sujeito.
O
analisante se dirige ao analista como objeto de seu amor, amor,
propriamente, ao Sujeito suposto saber ler, no entanto, o analista, a
partir de estratégias, reendereça essa suposição de saber ao analisante,
ao inconsciente dele.
O Amor do analisante é uma tentativa de encobrir o desejo. Sabemos que
o amor pertence ao registro do imaginário, conseqüentemente, o amor ao
Sujeito suposto saber é uma ilusão, tentativa de fazer Um. O desejo,
entretanto, é particular, do campo do Simbólico, do Outro, da diferença.
Um analisante me dizia: “Não sei o que dizer” ao que eu lhe disse: “E é
preciso saber?” Não é preciso saber para fazer análise, é preciso,
primordialmente, falar.
O
saber que opera, que funciona na análise, não é o saber consciente, mas,
um outro saber, que analisante e analista ignoram. No seminário sobre a
Transferência, Lacan destaca a “dialética ignorância-verdade” em
detrimento “da dialética mentira-verdade”(Laberge,J) para destacar a
ignorância. O saber do analisante é o S2 - saber inconsciente, recalcado
– que ele ignora e a verdade a que ele pode aceder não pode ser dita toda.
Há uma frase muito comentada de Lacan : Moi, la verité je parle( Eu, a
verdade falo) que coloca, em relevo, a verdade advindo na fala, mas isto
não significa a verdade poder ser dita toda. Há sempre um meio-dizer,
porque estruturalmente, se a verdade pudesse ser dita toda não restaria
nada marcando o recalcado. Assim, a verdade não-toda pode ser dita. Embora
a verdade seja não-toda isso não a torna equivalente à mentira ou ao
engodo. Há algo que escapa sempre, o real do Simbólico chamado, algumas
vezes, o umbigo do sonho, fenda que marca o sujeito para sempre como
barrado, dividido.
O
que se espera de um analista é uma análise diz Lacan no texto Variantes
do Tratamento Padrão. Do lado do analista, supõe-se uma análise
anterior e, conseqüentemente, que ele suporte e reconheça o seu não saber
da particularidade do desejo do analisante. Essa posição remete a
castração. O desejo é sempre desejo do desejo do Outro e é por intermédio
dessa colocação em causa do analista, enquanto semblante de objeto a,
que o analista pode, restaurando a repetição da pulsão na transferência,
fazer advir o que ignora e que concerne unicamente ao analisante. Quando o
analista tenta dirigir a vida do analisante, teme a ignorância, teme não
saber do impossível, o efeito desse temor do analista é a perda da direção
do tratamento no momento em que ele dá consistência ao lugar que ocupa,
que deveria estar esvaziado. Repete, portanto, a condição do analisante de
assujeitado ao desejo do Outro, ao desejo dos pais... Ao dar consistência
a esse lugar o analista se coloca como o próprio grande Outro em causa,
fortalecendo sua posição como de domínio e de prestígio. O desejo do
analista é um desejo advertido: impossível saber da particularidade do
desejo e da história de cada um!
No
seminário o Avesso da psicanálise Lacan ressalta a análise
ocorrendo na passagem de um discurso a outro e não em cada um deles.
Define o sujeito como efeito do discurso abordando os vários discursos: do
mestre, da histérica, do universitário e do analista. É nesse seminário
que Lacan comemora: após dez anos chegou a articulação do que chama
discurso do analista. A posição do analista é “feita substancialmente do
objeto a”( Lacan, 1992, p.40) mas o analista deve saber que não
está nessa posição “por si. O objeto a é opaco, não é dado ao
conhecimento mas ao desejo, é a própria causa do desejo. O analista faz
semblante de objeto a, sabe que não é o próprio objeto de seu
analisante mas, apenas, lugar de promover a articulação.
A
partir dos quatro discursos podemos pensar a posição do analista sendo a
de tentar fazer com que seja produzido um novo S1, que retira o analisante
da incidência de determinantes. Nesse mesmo seminário Lacan salienta a
posição do analista deixando de ser a de suposto saber, exemplificando,
que o que ele deve fazer mesmo é dizer ao analisante: “-Vamos lá, diga
qualquer coisa, vai ser maravilhoso”.
O
analista tem o saber fazer, savoir faire, mas, para que esse saber entre
em função é preciso que ele se ofereça como semblante de objeto a –
causa do desejo - e que saiba operar. O que fazer para que o saber do
analisante se coloque, para nos oferecer enquanto lugar para esse
endereçamento? O que funciona aí? É o desejo do analista que funciona
fazendo com que o analisante possa repetir e elaborar na transferência
conosco. Isso implica que o analisante nos tome, de início, como Sujeito
suposto saber mas, isso não para aí. Essa suposição de saber é,
inicialmente, endereçada ao analista que, a partir do seu Desejo, faz o
analisante reconhecer-se detentor do seu saber, da radical diferença do
Outro.
A posição do analista
No
seminário I Lacan fala em analisar a palavra por andares, mas,
ressalta a transferência como motor da análise. A transferência surge a
partir da resistência do analisante, causada pela aproximação do núcleo
do recalcado. Lacan situa resistência nos momentos de paralisação do
discurso, mas, paradoxalmente, é essa impossibilidade de realização da
palavra que faz com que ela seja “agida”, “atuada”, tomando outra
vertente. Enfim, é a resistência do analisante que realiza a presença do
analista, “incluindo ele na conversa”. A resistência à verdade do discurso
faz surgir a transferência.
Resistência
O
analista dá os meios para o analisante repetir, na relação com ele, a
necessidade da pulsão. Ao mesmo tempo, é preciso estar atento: tudo o que
intervém suspendendo, destruindo ou interrompendo a continuidade do
tratamento é uma resistência do analista. A resistência se expressa quando
o analista não se atém à realidade do discurso, mas, a realidade factual,
empurrando o analisante para o acting out, impedimento da realização
simbólica do imaginário.
A
resistência é sempre do analista explicita Lacan nesse seminário. O desejo
do analista é que o analisante retorne a sessão e continue a experiência
da análise. A transferência é, principalmente, do analista à psicanálise.
A transferência do analisante ao analista é efeito da operação do Desejo
do analista. É nesse aspecto que ele faz entrar seu desejo, Desejo do
analista, esvaziado de conteúdo, desejo de obter a diferença absoluta.
O Sujeito suposto saber, algumas questões...
Posteriormente,
Lacan introduz o conceito de Sujeito suposto saber, algumas vezes,
nomeando-o Sujeito suposto saber ler. Pensamos em seguir a trilha de
questionamentos que surgiram em relação a esses três termos. O Sujeito
suposto saber ler o inconsciente seria a posição de partida da análise
na qual se situa o analista. Pensar no analista na posição de Sss remete a
seus efeitos. A suposição do saber acarreta o amor, o analisante ama o
saber que supõe no analista. O analista não atende a demanda de amor
porque sabe, a partir de sua experiência com o inconsciente, que ignora a
verdade do desejo do analisante. O que é, portanto, próprio à posição do
analista é reendereçar a suposição de saber ao analisante. O amor do
analisante é uma tentativa de encobrir o desejo do Outro: “amo aquele que
imagino saber tudo de mim!”. A resistência do analista seria, servindo-se
da suposição do saber, da ordem do imaginário, ocupar o lugar de amante. O
exercício dessa posição de domínio impede o analisante de des-supor o
saber do analista. O analista nessa posição termina reforçando a demanda
de amor do analisante alimentando a doença, fechando a possibilidade do
surgimento do desejo.
O
termo sujeito também é questionado. Lacan fala do sujeito como efeito do
discurso, sujeito evanescente, no entanto, no seminário 17, O avesso da
psicanálise, apresenta o discurso do mestre, universitário, da
histérica e do analista situando a análise na passagem de um discurso ao
outro e não em cada um deles. Nesse momento, interpreta o inconsciente
como saber sem sujeito. O inconsciente fala por si só. O analista não tem
um lugar ontologizado, compacto, mas é apenas uma função operadora.
Pensamos na resistência do analista em colocar seu desejo em função sendo
a possibilidade dele se colocar com seu inconsciente, dando consistência
ao lugar de sujeito, colocando-se enquanto pessoa ou participando de uma
espécie de comunicação de inconsciente para inconsciente.
Em
relação ao saber suposto se trata do analista não se manter na posição na
qual o analisante o coloca como aquele que sabe do seu inconsciente, do
desejo dele, mas como aquele que sabe fazer aí(Savoir y faire), sabe fazer
com seu sintoma, com a verdade. O saber fazer suposto pode dizer respeito
ao saber fazer com o “não há rapport” sexual”, citado no Seminário XX
Mais, ainda, e saber fazer com os restos do Real do fim de análise ou
com os fenômenos da ordem do Real da psicose.
O Corte
Apesar
de iniciar elaborações, no seminário VI, sobre o corte produzido pelo
analista enquanto algo eficaz, é no seminário A Angústia que Lacan acentua
sua importância. Nesse seminário ressalta o sujeito desejante como
instituído pela falta e não pela presença do desejo do grande Outro. A
aproximação do desejo do grande Outro, a presença do objeto a causa
o apagamento do desejo, do sujeito. Lacan critica, principalmente, as
considerações de Margaret Little acerca da contra-transferência. Para
Margareth Little a análise seria o encontro entre o analista, alguém que
dispõe de algo a mais, com alguém que tem necessidades. O termo
necessidade é questionado. Trata-se na análise de demanda associada aos
desejos e não de necessidades. Os desejos são sempre insatisfeitos, tentar
atendê-los seria responder ao impossível. O analista na posição fálica
resiste à castração, tentando completar o sujeito no que ele tem de
primordial em sua constituição – a falta. Se o analista se coloca nesse
lugar, tamponando a falta, encontramos mais uma vez a fórmula da angústia.
Falha a falta, o suporte da falta. Enfim, é o corte que marca a função do
analista promovendo a articulação do desejo, introduzindo a falta, a
castração.
Bibliografia
LABERGE, J.
Ele
não sabia, Revista da II Jornada Freud- Lacaniana, Recife, 1996
Lacan e o Desejo do Psicanalista Lacan - CEFISO 10 - Revista do Centro de
Estudos Freudianos, Recife, 1991
Do Sujeito Suposto Saber em Lacan -
CEFISO 7 - Revista do Centro de Estudos Freudianos -
LACAN, J.
Variantes do tratamento padrão(1955),
Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1998.
A direção do tratamento e os princípios
de seu poder(1958), Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed.,
1998.
Seminário I Escritos Técnicos
1953-1954, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Eds., 1986
Seminário VII Transferência
1960-1961, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Eds., 1992
Seminário
XVII: O avesso da psicanálise
(1969-70), Rio de Janeiro, Jorge Zahar Eds., 1992
Seminário XX: Mais, ainda
1972-1973, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Eds, 1985
Seminário XXIII O Sinthoma 1975-1976,
Recife, tradução interna do Traço Freudiano Veredas Lacanianas, in mimeo |