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Elegi um caso clínico por parecer-me muito
próprio apresentá-lo em um Simpósio sobre Estruturas Clínicas e Formações do
Inconsciente: A Direção do Tratamento na Clínica Psicanalítica. Começo por
introduzir o relato do caso, crendo possibilitar reflexões e debate.
Certo dia, recebi uma carta pelo correio: Um
pedido de ajuda.
Registro fragmentos que pretendo discutir.
Dra Rachel,
eu estou escrevendo para a senhora porque gostaria de marcar um
horário para um amigo meu que está precisando muito de sua ajuda.
Ele está tendo crises de angústia tão fortes e eu não sei mais o
que fazer.
Ele é meu amigo e eu preciso ajudá-lo. Eu não suporto mais
vê-lo sofrer. Eu o acho uma pessoa muito inteligente, mas bastante
infantil.
A família dele está desesperada e eu tenho tentando confortá-la .
Eu tenho certeza que ele não precisa de intervenção medicamentosa,
nem de consultas psiquiátricas. Eu acredito que o que ele precisa
mesmo é de psicanalista. Se ele falar com a senhora eu acho tudo se
resolverá.
Eu penso que ele precisa falar da morte da mãe. Eu sei que é
isso que está enlouquecendo ele. A mãe dele morreu de AIDS quando ele era
adolescente.Ele ainda parece um adolescente, como eu disse à senhora.
Dra, pelo amor de Deus, marque um horário para o meu amigo. Aguardo uma
resposta e agradeço antecipadamente sua atenção.
Ass.: (APELIDO) |
Observei o fato de não constar assinatura do nome
próprio. Não havia nenhum nome registrado no verso do envelope, nem sobrenome,
apenas um apelido.
Estranhei um pedido de ajuda sem remetente. A
demanda de um horário completamente indefinido. Reli e chamou-me atenção tantos
eu.
Três dias depois recebi um telefonema do autor da
carta, dizendo:
| " Dra Rachel,
a
senhora nem respondeu a minha carta, então eu estou telefonando para
marcar um horário para o meu amigo que está precisando muito de
ajuda”. Respondi:
Diga pro seu amigo
ligar para mim e eu marcarei com ele um horário.
Ele completou: “Meu amigo não tem coragem de ligar, então
marque comigo e eu o levo, nós
somos muito amigos e eu até posso
ir para consulta dele ajudá-lo”.
Concluí: Diga para ele que
me telefone e reservarei um horário.
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Deste modo
estabelecida a transferência eu precisava dizer-lhe de alguma forma sobre a
possibilidade de análise. Antes de desligar o telefone, pontuei : Até logo.
Cinco minutos depois ele ligou novamente
dizendo: “Dra, eu vou marcar uma hora para mim, assim vou poder ajudar”.
Pensei: Ajudar é verbo transitivo bilateral. Quem ajuda, ajuda alguém ou a
alguém que poderia ser ele mesmo. Marquei um horário para o dia seguinte.
Ao término da primeira sessão ele exclamara: “que
alívio!”.
Vemos nessa exclamação uma constatação dos
postulados lacanianos. Observamos num caso como esse um acordo com a
intersubjetividade que impõe uma báscula de sustentação transferencial.
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"Boca
ingênua há de ocupar meus
derrradeiros dias, abre-te mais uma vez para me ouvir. Não é preciso
fechar os olhos. O sujeito vai muito além do que o indivíduo experimenta
subjetivamente: Vai, exatamente tão longe quanto a verdade que ele pode
atingir e que talvez saia dessa boca que você já acaba de fechar outra
vez. Sim, essa verdade de sua história não está toda em seu desenrolar,
mas o lugar se marca aí, nos choques dolorosos que ele experimenta por
conhecer apenas suas réplicas ou então em páginas cuja desordem mal lhe
proporciona algum alívio”.
Lacan, Os Escritos. |
Pude identificar
claramente algo em direção ao tratamento num mesmo momento que meu analisante
enveredara pelos caminhos do seu inconsciente, ao penetrar em novos
significantes através da linguagem. Eu achara, mesmo resvalando por avatares
tortuosos, deslizamento dos significantes, que se tratava do início para sua
travessia, embora ele se referisse sempre ao outro. Sabemos que fora a partir do
Outro que se constituíra como sujeito.
Cabe lembrar Lacan, em Função e Campo da
Fala e da Linguagem em Psicanálise, nos Escritos (1953), quando releva a
função da historicização, considerando o engendramento dos acontecimentos na
vida de cada sujeito, que de algum modo, são encadeados depois, na escrita.
Para clarificar minha exposição.
| “ Os acontecimentos se
engendram numa historicização primária, ou seja, a história já se faz
palco em que será encenada depois de escrita, no foro íntimo e no foro
externo” .
Lacan, Os Escritos. |
Retomo Lacan quando
enfatiza nos Escritos, a propósito de fala vazia e de fala
plena na realização psicanalítica do sujeito,
o seguinte fundamento.
| “mesmo
que não comunique nada, o discurso representa a existência da comunicação;
mesmo que negue a evidencia, ela afirma que a fala constitui a verdade;
mesmo que se destine a enganar, ele especula com a fé no testemunho”.
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Lacan, Os Escritos. |
| “Quer se pretenda agente
de cura, de formação ou de sondagem, a psicanálise dispõe de apenas um
meio: a fala do paciente. Toda fala pede uma resposta”. [...]“ Aliás,
o psicanalista sabe melhor do que ninguém que a questão aí é ouvir a que
“parte” desse discurso é confiado o termo significativo, e é justamente
assim que ele opera, no melhor dos casos: Tornando o relato de uma
história cotidiana por um apólogo que a bom entendedor dirige suas
meias-palavras, uma longa prosopopéia por uma interjeição direta, ou, ao
contrário, um simples lapso por uma declaração muito complexa”.
Lacan, Os Escritos. |
A transferência que se revelava pela demanda de pedido de
ajuda, garantiu o tratamento desde o início. O suposto-saber aliado ao amor de
transferência, evidenciavam-se. O mistério mascarava o sujeito presentificado
por um apelido que ocupava o lugar de um nome próprio. Anunciava-se possível
deslizamento de significantes ao longo da cadeia que a associação livre iria
possibilitar. Sobre esses pressupostos o tratamento se apoiava.
Bibliografia:
LACAN, Jacques. Escritos. Jorge Zahar Editor, 1998.
LACAN, Jacques. Seminário IV. As formações do inconsciente. Jorge Zahar
Editor, 1999.
LACAN, Jacques. Seminário XI. Os quatro conceitos fundamentais da
psicanálise. Jorge Zahar Editor, 1988.
ROUDINESCO, Elizabeth. Dicionário de psicanálise. Jorge Zahar Editor,
1998.
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