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Simpósio do Rio de Janeiro/RJ: 2003

 

Um pedido de ajuda:
     Na direção do tratamento

Rachel Rangel Bastos

 

 Elegi um caso clínico por parecer-me muito próprio apresentá-lo em um Simpósio sobre Estruturas Clínicas e Formações do Inconsciente: A Direção do Tratamento na Clínica Psicanalítica. Começo por introduzir o relato do caso, crendo possibilitar reflexões e  debate.

 

Certo dia, recebi uma carta pelo correio:  Um pedido de ajuda.  

 

 Registro fragmentos que pretendo discutir.  

 

 Dra Rachel,

eu
estou escrevendo para a senhora porque gostaria de marcar um horário para um amigo meu que está precisando muito de sua ajuda.
Ele está tendo crises de angústia tão fortes e eu não sei mais o que fazer.
Ele é meu amigo e eu preciso ajudá-lo. Eu não suporto mais vê-lo sofrer. Eu o acho uma pessoa muito inteligente, mas bastante infantil.
A família dele está desesperada e eu tenho tentando confortá-la .
Eu tenho certeza que ele não precisa de intervenção medicamentosa, nem de consultas psiquiátricas. Eu acredito que o que ele precisa mesmo é de psicanalista. Se ele falar com a senhora eu acho tudo se resolverá.
Eu
penso que ele precisa falar da morte da mãe. Eu sei que é isso que está enlouquecendo ele. A mãe dele morreu de AIDS quando ele era adolescente.Ele ainda parece um adolescente, como eu disse à senhora.
Dra, pelo amor de Deus, marque um horário para o meu amigo. Aguardo uma resposta e agradeço antecipadamente sua atenção.

Ass.: (APELIDO)

 

Observei o fato de não constar assinatura do nome próprio. Não havia nenhum  nome registrado no verso do envelope, nem sobrenome, apenas um apelido.  

 

 Estranhei um pedido de ajuda sem remetente. A demanda de um horário completamente indefinido. Reli e chamou-me atenção tantos  eu

 

Três dias depois recebi um telefonema do autor da carta, dizendo:  

 

" Dra Rachel, a senhora nem respondeu a minha carta, então eu estou telefonando para marcar um horário para o meu amigo que  está precisando muito de ajuda”.

Respondi: Diga pro seu  amigo ligar para mim e eu marcarei com ele um horário.

Ele completou: “Meu amigo não tem coragem de ligar, então  marque comigo e eu o levo, nós somos muito amigos e eu até  posso ir para consulta dele ajudá-lo”.

Concluí: Diga para ele  que me telefone e reservarei um horário.

 

                                

 Deste modo estabelecida a transferência eu precisava dizer-lhe de alguma forma sobre a possibilidade de  análise. Antes de desligar o telefone, pontuei : Até logo.

 

 Cinco minutos depois ele ligou novamente dizendo: “Dra, eu vou marcar uma hora para mim, assim vou poder ajudar”. Pensei: Ajudar é verbo transitivo bilateral. Quem ajuda, ajuda alguém ou a alguém que poderia ser ele mesmo. Marquei um horário para o dia seguinte.

 

  Ao término da primeira sessão ele exclamara: “que alívio!”.

 

 Vemos nessa exclamação uma constatação dos postulados lacanianos. Observamos num caso como esse um acordo com a intersubjetividade que impõe uma báscula de sustentação transferencial.   

 

"Boca ingênua há de  ocupar meus derrradeiros dias, abre-te mais uma vez para me ouvir. Não é preciso fechar os olhos. O sujeito vai muito além do que o indivíduo experimenta subjetivamente: Vai, exatamente tão longe quanto a verdade que ele pode atingir e que talvez saia dessa boca que você já acaba de fechar outra vez. Sim, essa verdade de sua história não está toda em seu desenrolar, mas o lugar se marca aí, nos choques dolorosos que ele experimenta por conhecer apenas suas réplicas ou então em páginas cuja desordem mal lhe proporciona algum alívio”.

 Lacan, Os Escritos.

 

 Pude identificar claramente algo em direção ao tratamento num mesmo momento que meu analisante enveredara pelos caminhos do seu inconsciente, ao penetrar em novos significantes através da linguagem. Eu achara, mesmo resvalando por avatares tortuosos, deslizamento dos significantes, que se tratava do início para sua travessia, embora ele se referisse sempre ao outro. Sabemos que fora a partir do Outro que se constituíra como sujeito.

 

 Cabe  lembrar Lacan, em Função e Campo da Fala e da Linguagem em Psicanálise, nos Escritos (1953), quando releva a função da historicização, considerando o engendramento dos acontecimentos na vida de cada sujeito, que de algum modo, são encadeados depois, na escrita.

 

Para clarificar minha exposição.

 

 “ Os acontecimentos se engendram numa historicização primária, ou seja, a história já se faz palco em que será encenada depois de escrita, no foro íntimo e no foro externo” .

  Lacan, Os Escritos.

 

 Retomo Lacan quando enfatiza nos Escritos, a propósito de fala vazia e de fala plena na realização psicanalítica do sujeito, o seguinte fundamento. 

 

 mesmo que não comunique nada, o discurso representa a existência da comunicação; mesmo que negue a evidencia, ela afirma que a fala constitui a verdade; mesmo que se destine a enganar, ele especula com a fé no testemunho”. .

  Lacan, Os Escritos.

                                      

  “Quer se pretenda agente de cura, de formação ou de sondagem, a psicanálise dispõe de apenas um meio: a fala do paciente. Toda fala pede uma resposta”. [...]“ Aliás, o psicanalista sabe melhor do que ninguém que a questão aí é ouvir a que “parte” desse discurso é confiado o termo significativo, e é justamente assim que ele opera, no melhor dos casos: Tornando o relato de uma história cotidiana por um apólogo que a bom entendedor dirige suas meias-palavras, uma longa prosopopéia por uma interjeição direta, ou, ao contrário, um simples lapso por uma declaração muito complexa”.

  Lacan, Os Escritos.

                                                                   

                    A transferência que se revelava pela demanda de pedido de ajuda, garantiu o tratamento desde o início. O suposto-saber aliado ao amor de transferência,  evidenciavam-se. O mistério mascarava o sujeito presentificado por um apelido que ocupava o lugar de um nome próprio. Anunciava-se  possível deslizamento de significantes ao longo da cadeia que a associação livre iria possibilitar. Sobre esses pressupostos o tratamento se apoiava.

 

Bibliografia:

LACAN, Jacques. Escritos. Jorge Zahar Editor, 1998.

LACAN, Jacques. Seminário IV. As formações do inconsciente. Jorge Zahar Editor, 1999.

LACAN, Jacques. Seminário XI. Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Jorge Zahar Editor, 1988.

ROUDINESCO, Elizabeth. Dicionário de psicanálise. Jorge Zahar Editor, 1998.

 

 Intersecção Psicanalítica do Brasil