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APRESENTAÇÃO
No trabalho que ora apresento procuro fazer uma análise de
alguns pontos que me chamaram atenção quando fiz a leitura do livro
“Gêmeas Silenciosas”. Para essa análise tomo por base alguns conceitos
discutidos nos grupos de estudos que venho participando aqui em São
Luís.
HISTÓRICO
“Gêmeas Silenciosas” é um livro escrito pela
Jornalista Inglesa, Marjorie Wallace. Trata-se de um fato verídico, que
ocorre com uma família de negros de Barbados (ilha localizada na
América Central) que migram para a Inglaterra. Uma família composta por
cinco filhos, sendo que dentre os cinco filhos existem duas Gêmeas, que
segundo a autora são idênticas. A mãe porém acha que elas apresentam uma
pequena diferença. A jornalista teve conhecimento do fato em abril de
1982, quando era redatora do “Sundy Times” e escreveu um artigo sobre o
julgamento no qual June e Jennifer (as gêmeas) foram acusadas de roubo e
de provocar incêndio. Segundo a escritora foi o conhecimento da sentença
que a levou a procurar os pais das gêmeas .
RESUMO
June e Jennifer nascem em 11 de abril de 1963 na
Inglaterra, os pais já tinham outros dois filhos que nasceram no Caribe,
também nasce na Inglaterra mais um filho deste casal. Segundo a autora o
pai envolvia-se muito pouco com as crianças. Era como muitos homens de
Barbados ( ilha do Caribe); ele achava que sua contribuição para a vida em
família começava e acabava em promover abrigo, também era constante a
mudança de base, pois sua profissão era de controlador de tráfego aéreo
e consequentemente, a família o acompanhava. Todas as outras atividades
domésticas ficavam por conta de sua esposa, que sozinha tinha que cuidar
das gêmeas e de duas outras crianças pequenas, tinha poucos amigos e
nenhum apoio. Na hora do parto das gêmeas, June foi a primeira a nascer,
contudo, era a mais fraca e logo nos primeiros meses Jennifer venceu-a em
todos os marcos do desenvolvimento: sentar, engatinhar, andar. Apesar de
Jennifer ter superado sua irmã nesses marcos, mesmo assim, foi notado
pela mãe que desde a fase de bebês, as gêmeas queriam fazer tudo junto.
A mãe amamenta esses bebês durante os primeiros meses e, de acordo com o
livro a mãe ficava exausta porque as garotas lutavam para mamar ao mesmo
tempo.
O livro ilustra várias
fotos dessas garotas, onde se pode observar que na infância suas roupas
eram iguais, a mãe fazia o mesmo penteado nas duas.
Aos três anos de idade June e Jennifer só conseguiam
juntar as frases mais simples de duas ou três palavras, fato este que não
preocupou a mãe pois sabia que era freqüente o atraso na fala de gêmeos.
Em 1967, quando nasce o quinto filho, elas já estavam na escola, mas
ainda não falavam muito. Na escola, as gêmeas começam a escrever. Contudo,
de acordo com um relatório da professora, June começa a escrever, mas
ainda não se sente segura para falar ou ler. Aos oito anos de idade
conforme relatório escolar as gêmeas escreviam e liam fluentemente,
contudo, não falavam. Em 1977, June e Jennifer foram submetidas à uma
cirurgia para soltar a língua, momento este que as deixou muito
ressentidas e infelizes. Elas nunca falaram com o pai e os dois irmãos
mais velhos, porém, gostavam de brincar com a irmã caçula. A comunicação
entre as mesmas era em forma de código secreto para evitar que os outros
as entendessem.
No mesmo, ano elas são
levadas para uma nova escola, ou melhor, para um Centro de Educação
Especial que cuidava de crianças com comportamento destrutivo.
Apresentavam uma lentidão física e também uma rigidez dos corpos. As
gêmeas reagiam as críticas desligando-se totalmente do que estavam
fazendo e quando atacadas elas se abraçavam com força, de pé, como forma
de se protegerem e darem força uma a outra. Quando uma atacava a outra,
ficavam cara a cara revezando-se nos golpes . Outro ponto que é observado
nesse livro é que conforme o relato, as gêmeas andavam sempre juntas,
envolvidas numa espécie de jogo de “passo de ganso”, uma andando uns cinco
metros atrás da outra, bem devagar, como se participassem de uma estranha
e majestosa procissão. Na escola, ninguém as via indo ao banheiro ou
comendo. Enquanto frequentavam a escola conseguiram fazer amizade com uma
única garota que era asmática e religiosa, a mais nova de oito filhos, de
uma família fervorosa de cristãos pentecostais. June e Jennifer chegaram
a ir para um grupo terapêutico, o qual o livro não relata que dinâmica é
usada.
Naquele ano, fizeram
uma tentativa de separação das gêmeas. June escreve em seu diário que será
bom para elas a separação. Jennifer também escreve em seu diário seu
posicionamento a respeito da separação e chega a dizer: “queremos levar
nossas vidas independentes, mas quando estamos juntas sempre dependemos
demais uma da outra” (pg 38).
No dia 13 de março de
1978, o plano da separação foi efetivado. Quatro dias depois da separação
retornaram para casa para passar o feriado da páscoa e retornam no dia
10 de abril, um dia antes do aniversário delas. June caiu num estado de
angústia do qual ninguém da unidade residencial podia livrá-la. Os 15 anos
de June segundo a autora, foram o pior de sua vida; ela ignorou os cartões
e os presentes, parou praticamente de se mover, rígida como um pequeno
animal ameaçado, rejeitou a comida. O único momento que June dava sinal de
vida era na hora do almoço, quando deixavam ela telefonar para Jennifer.
Aquela tentativa de separação foi um fracasso. June entra em uma profunda
depressão. No dia 8 de maio de 1978, a idéia da separação foi abandonada,
depois que June foi passar um final de semana em casa e não retornou à
unidade. E nesse mesmo dia Jennifer fugiu do abrigo onde estava. A
aparência física das duas após esta tentativa tinha deteriorado
refletindo a tristeza que sentiam.
Segundo o livro, Jennifer exercia um poder sobre June.
Porém em um dos diários de June - pois as duas escreviam compulsivamente-,
ela escreve de maneira paradoxal: “Ninguém nos conhece melhor do que
nós mesmas. Podemos ser Gêmeas, mas somos gêmeas diferentes. Somos
exatamente iguais em tudo o que fazemos....”. June queria ser diferente,
mas era repetido constantemente por ambas o seguinte: “Você é Jennifer.
Você é eu”. (pg . 45 e 46)
A autora também relata
que depois de deixar a escola, as meninas não falaram mais com ninguém,
exceto com a irmã caçula, Rosi. Até a mãe, Glória, com quem antes
trocavam umas poucas palavras práticas, foi incluída na lista do silêncio.
A mãe recebia ordens por meio de notas rabiscadas deixadas no topo da
escada, e já havia algum tempo que elas tinham resolvido não mais sentar à
mesa com nenhum membro da família.
Aos dezesseis anos, June
e Jennifer passavam o dia brincando com seus bonecos. Nessas brincadeiras,
os bonecos que faziam o papel dos pais, eram exigente para com seus filhos
imaginários, insistiam nos padrões de educação e disciplina.
As gêmeas amarraram
bandagens bem apertadas nos seios, pois não queriam crescer preferiam
continuar como crianças.
No natal de 1979, as
gêmeas ganharam de presente diários vermelhos, nos quais passaram a
registrar meticulosamente os detalhes corriqueiros de suas existências.
No dia 12 de janeiro de
1980, June começou a escrever seu primeiro romance “Viciado em Pepsi-Cola”,
o qual ainda conseguiu publicar. Neste período foi solicitado uma foto de
June para ilustrar na capa do livro. Por causa disso as gêmeas passaram a
tirar fotos de maneira obsessiva, pois queriam melhorar a aparência.
Jennifer diante desse fato, também tomou a iniciativa de escrever o seu
primeiro livro o qual intitulou de “O Pugilista”. Contudo, o mesmo foi
rejeitado pela editora. Jennifer ainda escreveu outros livros que também
foram rejeitados pela editora. Então, em meio a toda aquela frenética
atividade literária, a irmã caçula Rosi, foi excluída.
Elas mantinham em dia
seus diários, liam vorazmente, participaram de vários concursos de
poesias. Diante do desapontamento pela recusa das editoras, começaram a
achar frustrante a presença uma da outra, chegaram a pensar em cada qual
descobrir outras partes de si mesma, que não pertencesse à companheira.
Mas, sempre voltavam atrás. Chegaram a relacionar-se com dois garotos, foi
um relacionamento bastante tumultuoso e de curta duração.
A passagem das gêmeas
para a vida de delinquência não se limitou à invasão de uma única
instituição, atearam fogo em escolas e por esses crimes foram julgadas e
condenadas. Ao lê a sentença o Juiz diz que as provas apresentadas
mostram que as duas acusadas sofrem de distúrbios psicopáticos, com isso
ordenou a detenção de ambas no hospital de Broadmoor. Em 18 de junho de
1982, já com 19 anos de idade June e Jennifer foram transferidas para o
referido hospital.
Após o término da
leitura do livro, levantei dois questionamentos que me levaram a tecer
alguns comentários sobre esse caso: o primeiro, refere-se a questão de um
ambiente saudável na infância, diante de uma situação de migração; e o
segundo, diz respeito a função de espelho no gêmeo.
AMBIENTE FAMILIAR X
MIGRANTE
Quanto à questão do migrante, a abordagem foi feita no
capítulo I do livro “O migrantre na rede do Outro”, de Ademir Pacelli
Ferreira, cujo livro foi escrito a partir de observações feitas pelo
autor brasileiro no hospital Pedro Ernesto no Rio de Janeiro. Aí, o autor
relata os dramas, as tragédias e as lutas dos migrantes nordestinos,
quando se deslocam para o sul do país Essa abordagem é iniciada com o
argumento de que alguns estudos têm por tendência atribuírem ao
migrante à idéia de carência.
Nesse livro, Pacelli esforça-se para remar contra essa
corrente e diz que existe um outro lado da moeda e tenta mostra a
positividade e a riqueza da experiência do migrante, que seria um
complexo processo de enfrentamento da diferença, de elaboração da
estranheza intrigante, que remete o sujeito a uma reinvenção de si, a uma
reconstrução de suas referências, a um processo complicado, doloroso, mas
potencialmente criativo de afirmação de si.
O que ora questiono é: como se deu a reconstrução das
referências dessa família? E que fantasmas foram ressurgidos naquela
mãe? O que a levou-a a parir gêmeos logo após a quebra de vínculo com seu
país de origem, onde foi deixado para trás todo um grupo familiar?
Freud em seu texto “O Estranho”, de 1919, diz que diante
do estranho pode emergir eventos que nunca, ou muito raramente, acontecem
de fato. O mesmo também é visto como oriundo de complexos recalcados.
O ambiente saudável na infância é colocado por Winnicott
(1988) como aquele que dá condições a quem exerce a função materna, de
estar presente mais ou menos no momento e no lugar certo, para favorecer
a adaptação às necessidades. E diz mais, que segurar e manipular bem uma
criança facilita os processos de maturação e segura-la mal significa uma
incessante interrupção destes processos, devido às reações do bebê às
quebras de adaptação. Segundo este autor, por terem sido segurados
suficientemente bem, os bebês tornam-se capazes de atravessar bem todas as
fases de seu desenvolvimento emocional. Em um outro artigo sobre os Gêmeos
(Winnicott 1982), diz que a mãe de gêmeos tem uma tarefa extra, acima
de todas as outras, que é dar-se toda a dois bebês ao mesmo tempo.
Assim, partindo dessas considerações o que associei com
essa leitura foi que, devido à mãe dessas garotas encontrar-se sozinha
para cuidar das gêmeas, dos dois filhos menores e mais do marido, que se
preocupava somente em prover abrigo para sua família, faltando-lhe também
o grupo familiar e tempo adequado para atender às necessidades dessas
garotas, a singularidade das gêmeas, sua estrutura como sujeito, ficou
profundamente prejudicada.
FUNÇÃO
DO ESPELHO NO GÊMEO
Nos Escritos de Lacan, encontramos o artigo “O estádio
do espelho como formador da função do eu” , no qual ele diz que devemos
compreender o “estádio do espelho” como uma identificação, ou melhor, como
a transformação produzida no sujeito, quando ele assume sua imagem.
Segundo Berger & Balbo no livro “A Criança e a
Psicanálise” no caso de gêmeos, é preciso que a mãe funcione para dois,
que seja a função de dois. Contudo, o próprio contingente perceptivo está
afetado, marcado, pois o espelho, no gêmeo, é puramente de domínio. Os
movimentos desordenados da jubilação, objetos do enquadramento do espelho
recortados pela mãe, não são recortados tampouco pelo Gêmeo; é isso a
fascinação, pois os objetos em questão mantêm juntos os dois gêmeos; então
como que fascinados um pelo outro. Assim, não há um domínio da imagem que
vá marcar o juízo de atribuições.
Consideram ainda que
existe um estatuto particular da suplementação entre os gêmeos, e que
para o funcionamento de um, o outro é o objeto a .
A agressão entre as
gêmeas, neste caso que está sendo apresentado, levou-me a pensar na
questão colocada por Berger & Balbo de que a imagem em espelho é a do
gêmeo. E esta imagem é continuamente destitutiva do sujeito, que dela
não pode assumir nada, sem desejar a morte do outro que é supostamente a
sua própria perda, existindo sempre um demais: mas qual? Acrescenta, ainda
que a relação gemelar é o próprio exemplo do sadomasoquismo. Aproveito
para citar uma frase escrita por Jennifer Gibbons (a gêmea) em um de seus
diários que retrata muito bem este posicionamento de Bergés&Balbo : “Ela
devia ter nascido morta. Caim matou Abel. Nenhum gêmeo devia se esquecer
disso”. (pg . 147)
Na linguagem comum dos
gêmeos, esse código de comunicação desenvolvido por eles é percebido de
forma bem singular, como no caso dessas gêmeas, que para Bergês & Balbo
é um dos mecanismos usados pelos gêmeos para jamais perder uma relação
especular.
Analisando o
comportamento das gêmeas, pode-se dizer que foi um comportamento
agressivo entre elas, um isolamento de seus familiares, uma total
reclusão no seu quarto e uma comunicação codificada que só elas
entendiam, que as levou à não tolerança da separação. E o domínio de
Jennifer sobre June leva-me a pensar em um significante que não fez marca
que não conseguiu estabelecer uma diferença nessas meninas. Além disso,
pode-se pensar também em uma falha na função paterna, na falta de um
terceiro para interditar essa relação.
Encerro este trabalho
com um registro feito por June em seu diário, quando já se encontrava no
hospital Broadmoor (1982), depois da sua condenação:
“Sou
imune à sanidade ou à insanidade.
Sou uma caixa de
presente vazia; toda
Desembrulhada para
ser jogada fora por outra pessoa.
Sou uma casca de ovo
jogada fora,
Sem vida dentro de
mim, pois não sou
Tangível, mas uma
escrava do nada.
Nada sinto, nada tenho,
pois sou
Transparente para a
vida; sou uma fita
Prateada num balão;
um balão
Que vai voar para
longe sem
Nenhum oxigênio
dentro. Nada sinto
Pois nada sou, mas
posso
Ver o mundo daqui de
cima”.
June Gibbons
BIBLIOGRAFIA:
· Wallace,
Marjorie – Gêmeas Silenciosas, Círculo do Livro S.A, 1992
·
Bergés,
Jean . Balbo, Gabriel – A Criança e a Psicanálise, 2ª edição, ed. Artes
Médicas
·
Winnicott,
Donald W
______________ Os
Bebês e suas Mães, ed. Martins fontes
______________
A criança e seu mundo –
Rio de Janeiro- 1982
· Bergés,
Jean . Balbo, Gabriel – Psicose, Autismo e Falha Cognitiva na Criança,
ed. CMC
·
Kaufmann, Pierre
– Dicionário Enciclopédico de Psicanálise, ed. Jorge Zahar
· Freud,
Sigmund – O Estranho 1919 – Obras completas
· Ferreira,
Ademir Pacelli – O migrante na rede do outro, Ed. Tecorá
· Piontelli,
Alessandra – Um estudo observacional e psicanalítico, Ed. Imago
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