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  O LUTO E A LUTA

Rachel Rangel Bastos

Simpósio de São Luís, 03 e 04 de setembro de 2004.

                         

        Anuncio meu texto, retomando uma marca pungente que se registra nos anos 1914, na história do movimento psicanalítico.

Refiro-me às controvérsias do pensamento freudiano com Adler e Jung.

As diferenças entre Freud e seus colegas denotaram uma fase beligerante na constituição da psicanálise.

 Sabe-se que Freud dispensava enorme apreço aos contemporâneos daquela época. Contudo, desde então, seus postulados teóricos incompatibilizaram-se, sem dúvida. Mas, apesar das divergências teóricas, o peso decisório montava-se na técnica cujo exercício refletia-se na clínica.

 Não pretendo deter-me na luta entre os grandes nomes da psicanálise, nem insistir no relato do luto vivido pelos protagonistas do movimento psicanalítico, mas localizar meu discurso na posição do psicanalista e, sobretudo, como tal lugar pode preservar o caminho em direção ao tratamento.

 Os pressupostos de Freud prevaleceram. Seu luto serviu de suporte para a sua luta. Luto e luta, se prestam como aproximação essencial da noção psicanalítica.

 No vol XIV da Obra Completa, Freud nos ensina : “O consolo que tive em face da reação negativa provocada, mesmo no meu círculo de amigos mais íntimos, pelo meu ponto de vista de uma etiologia sexual nas neuroses – pois formou-se rapidamente um vácuo em torno de mim, - foi o pensamento de que estava assumindo a luta por uma idéia nova e original”.             

O enlutamento de Freud fez-me refletir a questão transferencial.

 Lacan em seu Seminário 8, “A transferência”, salienta: “quanto ao luto, é absolutamente certo que sua duração, sua dificuldade estão ligadas à função metafórica dos traços conferidos ao objeto do amor na medida em que são privilégios narcísicos. De uma maneira tanto mais significativa já que ele diz isso já se espantando, Freud insiste muito sobre o que está em questão – o luto consiste em identificar a perda real, peça por peça, pedaço por pedaço, signo por signo etc, até o esgotamento. Quando isso já está feito acaba”.

  Sem restrições Lacan, afirma que nos tratamentos psicanalíticos as partes envolvidas no processo são submetidas a forças impulsionadoras da vida sexual e aponta essa premissa como argumento decisivo das suas descobertas no campo do trabalho analítico.

 No afã de tornar mais lúcido o que aqui elaboro, volto ao artigo de 1914. Freud ressalta a teoria da repressão como mola mestra da estrutura psicanalítica, incluindo a resistência, considerando esses dois conceitos como alicerce das suas descobertas. 

Enfatizo tais referências por conceber uma relação estreita entre a noção de repressão e resistência, com a noção de luto e luta. Naturalmente considerando que o luto é para a psicanálise, uma expressão de perda, mas não relativo a aspecto patológico, e pode remeter ao sintoma. Conceito também que, numa perspectiva psicanalítica, não remete à doença . Tendo elucidado, suponho, a intersecção que situo nessas articulações teóricas, aproveito a inserção da palavra sintoma para aludir ao corte epistemológico que proponho à reflexão: O Luto e a Luta, sintomas na direção do tratamento. 

Nos “Escritos”, Lacan define sintoma como uma interpretação inexata do sujeito. Tal definição de Lacan justifica a premência com que a psicanálise contemporânea ocupa-se incessantemente com o lugar no qual o analista se coloca face ao analisante, no trabalho de buscar, a partir da linguagem, seus significantes e seus desejos. 

Recorro a Lacan, quando em seus pronunciamentos sobre “Variantes do tratamento padrão” (1953) interroga sobre os cuidados que se espera de um analista, a finalidade do analista e o que o analista deve saber.  

O luto do analista está presente constantemente na construção teórica de Lacan. Categoricamente afirma: “Durante o trabalho prolongado a cada dia, ele não pode em absoluto, entregar-se ao prazer de esgotar livremente seu narcisismo e seu egoísmo na realidade geral, mas apenas na imaginação e por leves momentos”. 

É notório que ao analista não cabe responder à demanda do analisante e, portanto, deve calar e pontuar apenas quando necessário. Os ensinamentos lacanianos sugerem o silêncio, não como mudez, mas como lugar de escuta, pois o saber cabe somente ao analisante. Teria então o analista que calar para destituir seus próprios desejos e assumir o lugar do suposto saber, fazendo uso da “douta ignorância”.

Em 1958, Jacques Lacan profere conferência onde discute propriamente a direção do tratamento e os princípios de seu poder. Questionando quem analisa hoje, sinaliza pontos extremamente relevantes sobre o luto e a luta do analista. Acerca da luta, aponta a condução do tratamento, a empreitada em si. Em relação ao luto, indica a não direção sobre o analisante: ao contrário, o analista deve tornar-se paciente. 

Gostaria ainda de comentar sobre a metáfora de que Lacan se utiliza para esclarecer seus fundamentos teóricos. Ele narra o procedimento do jogo de canastra, onde existe um morto (o analista), mas em algum momento esse morto se faz vivo apenas para continuar o jogo, sem sequer saber quem está ganhando ou o que se está ganhando. Insiro aqui um fragmento da minha clínica para ilustrar a direção do tratamento numa luta que parecia perdida. 

      Uma jovem de 18 anos chegou ao meu consultório por intermédio de um amigo seu. Ele pedira que a atendesse urgente, pois ela estava quase louca. Mentia todos os dias e chorava desesperada quando alguém dizia que algo era mentira dela. Percebi que havia grandes perdas (luto) para serem trabalhadas (luta). E decidi dirigir o processo. Claro que não sabia nada sobre ela e silenciei para que ela falasse. Na volta ao consultório, na semana seguinte, ela contou que tinha um namorado e que ele foi assassinado já há algum tempo:  reagiu a um assalto e foi morto. Disse-me acreditar que ele não havia morrido e ia voltar a qualquer momento. Em algumas sessões sucessivas só falara que a família não acreditava no que ela dizia e que tudo era mesmo mentira. Confirmava. Então me propôs um pacto, indagando se poderia mentir na análise. Fiquei imaginando como poderia ajudá-la a sair daquele desespero. Imediatamente me dei conta que não tinha como ajudá-la, salvo permitindo que ela pudesse falar e, ao falar, revelar a si mesma suas verdades. Pensei ainda que teria a garota seus motivos para tantas mentiras, ou seja, suas mentiras teriam seus sentidos. Ficou claro para mim que as mentiras deveriam encobrir algo das suas lutas e o luto fazia-se necessário. E pensei: é preciso que ela revele para si mesma o que me parece claro, mas posso estar equivocada. Lembrei-me dos ensinamentos de Lacan no Seminário XI, sobre verdade e mentira. Algumas sessões depois ela me disse que não estava mais mentindo para a família. Parecia perplexa ao mesmo tempo em que entusiasmada, concluindo que agora podia mentir na análise e que eu não devia acreditar nela. 

Vieram-me à mente “Os Escritos” de Lacan: “Vamos adiante. O analista é ainda menos livre naquilo que domina a estratégia e a tática, ou seja, em sua política, onde ele faria melhor situando-se em sua falta – a – ser do que em seu ser” [...] “analistas teriam a essa experiência outras facetas, se tivessem tido que se enfiar em seu senso de realidade para inventá-la eles próprios: Prioridade escabrosa de imaginar. Eles têm certas dúvidas, por isso são tão meticulosos na preservação de suas formas”. Logo ao analista não cabem interpretações. Cito ainda Lacan, “se o analista só lidasse com resistências, pensaria duas vezes antes de fazer uma interpretação, como evidentemente lhe acontece, mas ele ficaria quite com essa prudência”. 

Em uma outra sessão minha analisante chega falante e relata ter tido uma ótima semana. Sugeri que ela passasse para o divã. Tranqüilamente aceitou e, subitamente, ao deitar, contou-me: “Meu pai vai vir me encontrar. Não sei quando, mas ele prometeu voltar, aparecer a qualquer momento”. Questionei: Seu pai está aonde? Ela falou: “Desde pequena ele vive fora. É caminhoneiro. Ganha a vida no mundo e eu vivo esperando que ele volte a qualquer momento”. Perguntei-lhe: - e o seu namorado? “Eu acho que estou desistindo dele, acho que vou ter que me acostumar com ele morto”. 

Observei que tendo (eu) me colocado no lugar do morto (analista), ela pode iniciar o reinvento da sua própria história.  

Faço uso das palavras de Jean Allouch em “No Tempo da Morte Seca”: “Que o luto seja levado a seu estatuto de ato. A psicanálise tende a reduzir o luto a um trabalho; mas há um abismo entre o trabalho e a subjetivação de uma perda. O ato, este, é suscetível de efetuar no sujeito uma perda sem qualquer compensação, uma perda seca” [...] “Que a morte induza o luto ao ato”.  

Finalizo, portanto meu trabalho afirmando a partir do acima exposto: O analista deve ocupar o lugar do morto, para que o analisante possa -  oxalá! -ocupar o lugar do vivo. Que o morto possa vivenciar o luto e abrir espaço para uma luta viva. 

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Bibliografia: 

LACAN, Jacques. Escritos. Jorge Zahar Editor, 1998.

LACAN, Jacques. Seminário XI. Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Jorge Zahar Editor, 1988.

LACAN, Jacques. Seminário VIII. A transferência. Jorge Zahar Editor, 1992.

ALLOUCH, Jean. Erótica do luto. No tempo da morte seca. Companhia de Freud, 2003.

FREUD, Sigmund. História do movimento psicanalítico. Obra Completa. Imago.

 Intersecção Psicanalítica do Brasil