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“Variantes do
tratamento-padrão”
é o nome de um dos textos que serviu de inspiração ao nosso encontro deste
ano. O estudo e a discussão de alguns tópicos, especificamente a questão
da formalização teórica e a teoria dos critérios terapêuticos (tratados
logo no início do artigo), trouxeram-me à lembrança a palavra garantia.
Em, pelo menos, dois momentos, Lacan lança mão desse termo para falar de
assuntos, aparentemente, distintos:
1º)
Proposição de 09 de Outubro de 1967:
“Que a
escola possa garantir a relação do analista com a formação que ela
ministra, está então estabelecido”.
“O fim deste
documento precisa o modo pelo qual poderia ser introduzido aquilo que,
abrindo uma experiência, só tende a tornar, finalmente verdadeiras as
garantias buscadas”.
2º)
Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano
(1960):
“Partamos
da concepção do Outro como lugar do significante. Qualquer enunciado de
autoridade não tem nele outra garantia senão sua própria
enunciação, pois lhe é inútil procurar por esta num outro significante,
que de modo algum pode aparecer fora desse lugar. É o que formulamos ao
dizer que não existe metalinguagem que possa ser falada, ou, mais
aforisticamente, que não há Outro do Outro”.
Na
tentativa de encontrar a ligação entre o estudo do texto e essas
lembranças, nasceu a idéia deste trabalho.
Preferi começar por
uma pesquisa semântica. Vejamos, então, o que nos diz o Dicionário
Houaiss da língua portuguesa:
GARANTIA:
Ato ou efeito de
garantir (-se).
1-
Ato ou palavra com que se assegura o cumprimento de obrigação,
compromisso, promessa, etc.
2-
Fiança, penhor, caução.
3-
O período em que vigora tal garantia
4-
Garantias: Contratual, de evicção, fiduciária, legal, pessoal,
real, constitucionais, individuais, solidária e subsidiária.
Etimologia francesa “garantie”, “compromisso de quem se coloca como
garantia de algo, caução. Ver sinonímia de comprovação”.
GARANTIDO:
1-
Que se garantiu, que está sob garantia.
2-
Diz-se de sujeito afiançado.
Etimologia part. de
garantir. Ver antonímia de perigoso.
GARANTIDOR:
1-
Que ou aquele que garante.
2-
Diz-se de ou sujeito que afiança outra pessoa.
Etimologia rad. de
garantido + ar.
GARANTIR:
1-
Responsabilizar-se por, abonar, afiançar.
2-
Tornar seguro; assegurar.
3-
Obrigar-se a receber de volta caso as condições estabelecidas
durante a venda não sejam cumpridas.
4-
Afiançar a veracidade de; asseverar, atestar.
5-
Obrigar-se a, prometer, jurar.
Etimologia fr.
Garantir “assegurar algo sob sua responsabilidade, responder a qualquer
coisa com a verdade”. Antonímia de desabonar, desacreditar.
Através dessa
pesquisa, observamos a diversidade de idéias que surgem em torno da
palavra “garantia”.
Como seria, então, no
campo da psicanálise? Que tipo de diversidade e entrecruzamentos
poderíamos encontrar?
Penso em começar
estabelecendo diferentes enfoques, desde clínicos até os institucionais.
Vejamos, então:
1)
Garantia no/do sujeito:
- Do inconsciente
- Do desejo
2)
Garantia na/da análise:
- Transferência
-
Interpretação
-
Ética do desejo
3)
Garantia do analista em sua função:
- Análise pessoal
-
Formação na
instituição
-
Supervisão
4)
Garantia da Psicanálise na sociedade:
-
Resultados
clínicos
-
As instituições
psicanalíticas e seus enlaces
-
Fala na sociedade
Vejamos cada um desses
tópicos:
1) O sujeito:
É importante lembrar
o contexto em que foi apresentada aquela frase do artigo “Subversão do
sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano”.
Naquele momento Lacan
tratava com especial interesse da questão do pai, como significante, no
Édipo. Por isso utiliza a expressão “enunciado de autoridade” para,
em seguida, remeter ao campo do Outro como lugar dos significantes,
afinal, o “nome do pai” é um significante. A afirmação dele nos leva a
pensar sobre o sujeito do enunciado e o sujeito da enunciação, já que é
justo na enunciação que ele deposita aquilo que denominou de “garantia”.
“Qualquer enunciado de autoridade não tem nele outra garantia
senão sua própria enunciação”. Então, é na enunciação que está situada
a idéia de garantia do lugar simbólico de pai, que aparece no enunciado?
Lacan continua sua
defesa em prol do Outro como único lugar dos significantes, esclarecendo
que não seria possível encontrá-lo em qualquer outro lugar. É exatamente
nesse ponto que ele afirma não haver metalinguagem que possa ser falada,
ou segundo ele mesmo, que “mais aforisticamente”, “não há Outro
do Outro”. Apesar da clareza com que Lacan propõe a equação “não há
Outro do Outro” e, portanto, não haveria um garantidor, se é que podemos
assim chamar; não podemos deixar de lembrar sua posição sobre esse tema
alguns anos antes, em 57/58, durante os seminários sobre “As formações do
inconsciente”. Naquele momento ele teria, aparentemente, não só afirmado
que há Outro do Outro, como inclusive esboça uma definição para esse uso.
“Mas o para-além que se articula na linha de cima de nosso esquema é o
Outro do Outro. O Outro do Outro é o lugar em que a fala do Outro se
desenha como tal”.
Estaríamos aí numa
certa encruzilhada conceitual? Alguns estudiosos acreditam que Lacan não
teria afirmado que existe Outro do Outro e que se trata, aí, de um
equívoco de tradução. Considerando-se que ele se utiliza dessa expressão
várias vezes, no final dos seminários do ano de 58, achei por bem
considerá-la como uma questão, que certamente não será objeto de estudo no
presente trabalho. Apenas, delineei, algumas hipóteses:
Teria sido um erro de
tradução?
Teria Lacan evoluído
conceitualmente e, então, reformulado essa idéia dois anos depois, em
1960?
Estaria Lacan, de
fato, falando de perspectivas diferentes em torno do conceito de Outro?
Aí me ocorre a idéia
de que em 1958 ele apresentava o Outro do Outro como um “horizonte”,
“marcado pelas condições da fala”, “invocado todas as vezes que há fala” e
situado como “o lugar onde se articula o discurso do inconsciente”.
Já em 1960, podemos
observar o empenho de Lacan em sustentar solidamente a posição do Outro
como lugar dos significantes, juntamente com a afirmação categórica de que
“não existe metalinguagem que possa ser falada”, portanto,
não há Outro do Outro. Essa é a posição que Lacan manterá
posteriormente, em seus seminários.
Em 1967, seminários
sobre “A lógica do fantasma”, Lacan ratifica integralmente a idéia
iniciada em 1960: Não há metalinguagem , portanto, não há Outro do Outro.
E ainda acrescenta que Outro do Outro não passa de uma força de expressão
quando se refere a Outro-Mãe e Outro-Pai, que sua vez, têm apenas valor
operatório, no Édipo.
Ao meu ver, Lacan
promove, aí, uma saída estratégica com o intuito de apresentar a evolução
conceitual dos seus estudos. E, ao que parece, manteve essa posição até o
final de sua obra.
Seja com for, fica a
impressão de que para o sujeito, não há garantidor, e que qualquer
“garantia” no campo do desejo está vinculada à constituição dos
significantes.
2) A análise:
Poderíamos dizer que o
enquadramento analítico garante a análise? De certa forma sim, mas o que
isso quer dizer? O que significa enquadramento?
Em “Variantes do
tratamento-padrão”, Lacan nos lembra que “a psicanálise não é uma
terapêutica como as outras”. O termo “variantes”, do qual ele lança
mão, não está vinculado a nenhum tipo de adaptação no tratamento, nem
tampouco a variáveis através das quais se diferencia o campo da
psicanálise. Esse termo revela a preocupação inquieta, de Lacan, com a
pureza dos meios e fins numa clínica específica, situada dentro de um tipo
de rigor ético que exige o que ele denominou de formalização teórica.Uma
formalização que vai além de formalismo prático, quer dizer, aquele que
estabelece o que se pode ou não se pode fazer. A partir daí Lacan recorre
à teoria dos critérios terapêuticos como ponto de partida num caminho que
nos leva indiscutivelmente ao cerne do enquadramento analítico, quer
dizer, a transferência e a interpretação. Ele nos lembra que apenas o
conhecimento teórico não garante uma análise. Então, penso eu, eis a
diferença: o estabelecimento da transferência e a interpretação vinculada
à verdadeira ética psicanalítica - a ética do desejo. Aí está nosso
enquadramento, do ponto de vista teórico, já que, na prática, algo mais
define esse quadro: o particular de cada inconsciente, de cada história e
de cada relação analista-analisante. Talvez Lacan, assim como o fez Freud
nos primórdios, tenha pretendido nos lembrar que devemos nos manter
inquietamente atentos diante do nosso trabalho.
3) O analista:
Quem de nós
discordaria do tão conhecido tripé: análise pessoal, estudos e supervisão?
Em essência, talvez, nenhum analista o faça. Mas porque essa idéia tão
antiga e tão claramente estabelecida retorna tantas vezes nos encontros de
psicanalistas em todo o mundo?
A análise pessoal,
que parece ser a mais indiscutível e fundamental, por exemplo, para a IPA,
só é considerada como parte da formação se for uma análise didática, feita
com um analista didata. Já para Lacan toda análise é didática.
No campo dos estudos
teóricos, a primeira questão á sempre institucional, aliás, há também os
que defendem nem haver necessidade de instituição num percurso de
formação.
Na “Proposição de 09
de Outubro de 1967” Lacan mostra sua posição com uma bela frase:
“Que a escola possa
garantir a relação do analista com a formação
que ela ministra, está
então estabelecido”.
Lacan não se refere a garantias para pessoas ou para
funções, ele
fala da relação do analista com a formação ministrada pela escola.
Garantir a relação, ou porque não dizer, assegurar, atestar,
responsabilizar-se por, etc... Tudo aquilo que, na prática, se
reverte, mesmo que em moldes diferentes, nos estudos teóricos e
clínicos, apresentações de trabalhos, projetos, simpósios, congressos,
enlaces, etc...
A supervisão, solicitada
por um analista a outro analista, surge quase como uma unanimidade, embora
alguns poucos a considerem dispensável. Para Lacan, os trabalhos de
controle, como eram chamadas as supervisões, ocupavam lugar de destacada
importância no percurso de formação dos analistas.
As polêmicas persistem,
as posições pessoais evoluem e as instituições delineiam seus perfis.
4-Comecemos com uma
pergunta:
A sociedade sabe o
que é a psicanálise? De que informação dispõe um sujeito quando necessita
de um tratamento? Não temo em afirmar que o veículo mais fidedigno vem do
testemunho de cada sujeito que está ou esteve submetido a uma análise. É
ele quem melhor sabe para que serve uma análise; portanto, os resultados
clínicos me parecem ser, em si mesmos, a maior comprovação da
eficácia do trabalho psicanalítico. Exemplo disso, quando um analisante
nos pede uma indicação para um familiar ou mesmo um amigo, é como se,
nesse momento, esse sujeito servisse a um outro, num certo sentido de
garantia; quer dizer, a garantia de uma possibilidade. Um dia uma criança,
que começava sua análise, me disse: “Eu acho que meus medos podem
desaparecer, porque eu sei que os medos de Aninha (uma amiga dele que
havia se tratado comigo) desapareceram”. Essa, digamos,
pré-transferência, auxilia no estabelecimento da análise propriamente
dita, mesmo que apenas como garantia imaginária de uma possibilidade. Há
também os que nos dizem: “Quem me indicou seu nome foi o Dr.
Fulano, então, isso já me faz confiar em você”.
Por outro lado, temos as
instituições que, por vezes, servem de elo de ligação entre a psicanálise
e/ou o analista e a sociedade. São instituições que tem nomes, que
aparecem através de suas publicações, que programam eventos que por sua
vez são divulgados. Há pequenos encontros, há também os mega encontros; há
ainda os chamados trabalhos de enlace entre pequenos grupos. Enfim, há uma
sociedade psicanalítica que apresenta à macro sociedade, seus trabalhos.
Nos últimos anos temos presenciado e participado de um novo tipo de
trabalho - A Articulação Das Entidades Psicanalíticas do Brasil, que vem
tratando da difícil questão sobre a regulamentação( ou da
não-regulamentação) da psicanálise. Momento em que somos convocados para
defender nossos princípios e apresentarmos nosso trabalho tanto àqueles
que regem as leis do país, como àqueles que delas desfrutam.
Além disso, nós
também falamos diretamente à sociedade quando escrevemos livros, artigos
para jornais, quando concedemos entrevistas; enfim, quando falamos sobre a
psicanálise e sobre nosso trabalho. Se não o fazemos, certamente, alguém o
fará por nós, de modo indevido. Não seria isto também de nossa
responsabilidade? Assegurar a manutenção daquilo que Freud iniciou,
tão bravamente, diante de tantas críticas e percalços? Diante, ele sim, de
uma sociedade médica que só poderia começar a entendê-lo muito tempo
depois. Diante de uma sociedade pudica e ignorante; perplexa com tudo
aquilo que, de fato, foi escrito para o futuro. E hoje, como pretendemos
afiançar a veracidade de nossa prática? Como pretendemos nos
responsabilizar pelo futuro da psicanálise?
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