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Com
o título “les non-dupes errent – rumo a Dublin” , estou articulando à
questão Joyce, uma versão escrita, feita de cortes e notas acrescidas,
de algo de minha fala na reunião mensal de Intersecção Psicanalítica do
Brasil em Recife de 17-9-04 sobre o Seminário 21 de Lacan, Les non-dupes
errent, Os não enganados erram.
Jacques
Laberge
“Rumo a Dublin” indica a
importância do Seminário 21 para ajudar a situar melhor o Seminário 22,
R.S.I, e sobretudo o 23 , Le Sinthome. Neste último, Lacan recorre ao
dublinense James Joyce, que intitulou seu livro de contos Dubliners
, e, sobretudo, fez da cidade de Dublin a personagem principal de
seu Ulysses. Cada capítulo é montado em cima da absolutização de um
órgão que exacerba, no corpo, a sua fragmentação, representada pelo
despedaçado Leopold Bloom, este Bloom que no capítulo sobre as Sereias
perdeu seu Leopold, réplica do Stephen Hero (Joyce) cujo
Imaginário unificador é desvanecido. Lendo Ulysses, vagamos pelas
ruas, entramos nos pubs e lojas de Dublin, cidade que assume assim uma
função unificadora ao mesmo tempo em que oferece estes pedaços de real a
partir dos quais o escritor em Joyce faz sua invenção. Se desaparecesse
do mapa, Dublin poderia ser refeita por seu livro, dizia Joyce.
No Seminário 21, ganha
peso o real da escritura que Lacan chama também real da escrita.
1 - DOS NÃO
ENGANADOS QUE ERRAM
Lacan
considera o cristianismo a verdadeira religião por causa da importância
da Trindade que inspira sua expressão “Nome-do-Pai”. Freud tinha suas
tríades : as três identificações, inibição-sintoma-angústia , consciente e
pre-consciente e inconsciente, id-ego-superego. Freud aborda sua trindade
edípica, sublinhando o desejo da criança pela mãe e conseqüente morte do
pai. Lacan prefere os termos Nome-do-Pai ao termo Édipo, pois se trata
primeiramente do desejo da mãe em relação à criança colocada como sua
compensação fálica. É somente se o pai tiver nome para a mãe que a
castração simbólica será possível. Assim, como a palavra é a morte da
coisa, Nome-do-Pai é associado à morte do Pai.
Mas são os
religiosos que são destacados como os não enganados que erram. Isso, por
causa da primazia dada pela religião ao amor divino, o qual excluí o
desejo, primazia dada ao “amar o próximo como a si-mesmo”, caminho para
o narcisismo, o arianismo, diz Lacan. Este critica um outro aspecto
fundamental na religião, a saber, a posição de viajante, de viator, neste
baixo-mundo em que vivemos, onde estaríamos caminhando em direção à
verdadeira casa que seria o céu. Este caminho aponta uma direção, um
sentido. Esta posição de errante leva ao erro, à primazia do sentido.
O rumo à Dublin nos
dirige para o real do não-sentido.
A
experiência analítica permite se confrontar com o fato que o ser falante,
o fala-ser, é enganado. Cada fala-ser é enganado por seu inconsciente,
este saber feito de significantes. É preciso ser colado ao discurso
analítico, nos diz Lacan . Podemos concluir após esta afirmação que
ser colado ao discurso ou do mestre ou da histeria, ou da universidade
seria uma errância levando um sujeito ao erro.
2 -
DO REAL DA ESCRITURA
Les Noms du Père,
Les non-dupes errent , quando falados ou ouvidos, são títulos que
nos confundem em sua homofonia, embora permitam deslizamentos
significantes. Mas escrevê-los torna gritante sua diferença. O título do
Sem. 21 nos fornece uma radical indicação da importância do Real da
escritura, já anunciado por Lacan mais explicitamente pelo Real da
escrita de Schreber no Seminário de 1955-56 e pelo texto de 1957, A
instância da letra. Mas o tema do Real nos primeiros Seminários não
deixa de ser o parente pobre da tríade que forma com o Simbólico e o
Imaginário. O Real começa a reagir com o Seminário sobre o Real da
angústia de 1962-63 e o Real do desencontro (tuché) a respeito dos “quatro
conceitos” de 1964. Ali o sonho “Pai, não vês que estou queimando”
introduz o tema do desencontro entre pai e filho, via que posteriormente
desemboca no Real como impossível do “rapport-razão” sexual. O tema dos
quatro discursos de 1969-70 destaca o Real da letra, das 4 letras, a, S,
S1, S2. É somente quando o Real chega a ser equivalente ao Simbólico e ao
Imaginário, equivalente em importância, que, no Seminário de 1972-73, onde
aborda a escrita como um “mais”, um aperfeiçoamento do significante, Lacan
pode começar a manejar a escritura do nó borromeu e das fórmulas da
sexuação anunciada no Seminário anterior, ou Pior.. A escritura das
fórmulas da sexuação trata da referência ao falo. Aliás, em 1957, a
fórmula da metáfora paterna, na quarta parte de De uma questão
preliminar a qualquer tratamento possível das psicoses mostra que o
efeito da metáfora paterna é o recalque da significação fálica. É a
escrita, a inscrição do falo justamente que impede a escrita, a inscrição
do “rapport” sexual. Este não cessa de não de se escrever.
3 -
DA CIÊNCIA DO REAL
Aristóteles
nos traz a ciência da lógica que não é nada sem a escrita. A lógica é a
ciência do Real, do três. Partindo do silogismo típico, (recordo aqui:
Pedro é homem // Homem é mortal//Pedro é mortal), a lógica substitui os
três termos por três letras cuja função é esvaziar o sentido. Lacan
anuncia o R.S.I, título do Seminário 22. No Seminário 21, o Simbólico é
deciframento, o Imaginário é sentido e o Real, não-sentido. Se referindo
ao pequeno Hans, Lacan comenta : nisso é neurótico, é que cortando um ,
os dois outros sempre se sustentam . Assim, a respeito dos neuróticos
que Lacan afirma não haver curado, diz que foram sublimes na guerra :
nada os atinge. Podemos concluir que em cada neurótico, um dos três
parafusos está solto, precisando de um Nome-do-Pai, de um quarto, para
amarrar o nó.
4 -
DO SABER NO REAL
O
inconsciente é um saber sem sujeito, um saber feito de significantes. Eis
uma das teses fundamentais de Lacan inspiradas por Freud. Mas a partir
da escritura do nó borromeu no Seminário 20, onde a escrita se destaca
como aperfeiçoando o significante, caminha-se para o real da escrita e
para o saber no real. Neste |Seminário 21, Lacan traz como exemplo o real
do saber com Newton e a lei da gravitação. E, na clínica, podemos pensar
o Real do saber não somente nos sujeitos psicosomáticos e psicóticos, mas
nos distúrbios psicosomáticos e psicóticos dos neuróticos.
Até praticamente 1970,
Lacan falava do saber exclusivamente como saber inconsciente feito de
significantes, dando relevo à criação de sentido pela metáfora. .
Recolhendo os dados do real da escritura, as letras a, S, S1, S2 do
Seminário 17, e o início do manejo do nó borromeu no Seminário 20, o
Seminário 21 sublinha o saber no real, real da letra e da escritura, real
como não-sentido. Isso prepara o caminho para o Seminário sobre Joyce.
Freud havia sublinhado a importância da literatura, a qual ensina
muito aos analistas, reconhece Lacan. Mas este último afirma na
Conferência de 24-11-75 na Yale University que ele se interessa mais pela
letra do que pela literatura e que Joyce o fascina porque tenta ir além
da literatura. O saber feito de significantes, criador de sentido,
encontra seu limite no saber do real, representado por Joyce que fabrica
sua invenção a partir de pedaços de real que são as letras. Não se trata
propriamente de criação, mas de invenção. Pela sua escritura, Joyce seria
o próprio inventor, o Daedalus da mitologia que fabrica asas para sair de
seu labirinto.
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