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A formação do analista, diferentemente de outros ofícios,
depende menos do ensino formal e prático no campo que lhe é próprio, do
que da experiência de análise pessoal percorrida pelo candidato à
analista. Quanto aos possíveis destinos desta experiência Freud os
discutiu no texto “Análise terminável e interminável” (1937), onde expôs
as dificuldades de se considerar teoricamente o final desse processo,
tendo em vista um impasse real diante do “repúdio ao feminino”
(Freud.1976: 297). Lacan, diferentemente de Freud, sustentou a
possibilidade do término da análise chamada didática, onde se pode
localizar a passagem de analisante à analista, afirmando que o desejo do
psicanalista é sua enunciação (Lacan, Proposição de 9 de outubro de
1967).
Ao considerarmos o
processo analítico como algo terminável, que, portanto, se desenvolve em
um determinado espaço de tempo, vemos que entre o ponto inicial, de
abertura, com a instauração da transferência, e o ponto de encerramento,
momento de concluir, há um caminho a percorrer que comporta uma gama
imensa de possibilidades. Foi o que Freud indicou ao fazer uso da analogia
com o jogo de xadrez, referindo-se a esse intervalo temporal como aquilo
que escapa a “uma apresentação sistemática exaustiva”
(Freud,(1913)1976:164).
O tempo limitado por
esses dois pontos - tempo para compreender -, implica um desconhecimento
que é interno a seu próprio movimento, em que a ação do analista
permanece, para ele mesmo, em grande parte velada. É no só depois
que precipita o momento de concluir que um saber sobre este
percurso se elabora. Nesse intervalo, temos a transferência que se
apresenta, para o analisando, como amor endereçado ao saber movido pela
demanda, e, para o analista, como sustentação do desejo do analista.
É a partir desse desejo
que o analista, ao convidar o analisante a falar o que lhe vier à cabeça,
o institui como sujeito suposto saber. O sujeito suposto saber,
indicado por Lacan como fundamento da transferência, ao contrário do que
se pensa, não está do lado do analista, mas sim do analisante, mesmo que a
suposição de um saber ao analista alimente a demanda do analisando e
movimente o processo. Quanto ao analista, como afirma Lacan em “As
variantes do tratamento padrão”, ele só pode enveredar por essa prática
“ao reconhecer em seu saber o sintoma de sua ignorância e isso no sentido
propriamente analítico de que o sintoma é o retorno do recalcado no
compromisso e de que o recalcado, aqui como alhures, é a censura da
verdade” (Lacan, (1955)1998:360).
Neste texto, Lacan se pergunta sobre “que deve saber, na
análise, o analista?” respondendo de imediato: “O que o psicanalista deve
saber: ignorar o que ele sabe”(op.cit.:351). A ignorância é considerada
não como ausência de saber, mas como paixão do ser, assim como o amor e o
ódio. É esta paixão que dá sentido à formação analítica, uma vez que é ela
que estrutura a própria situação analítica.
O que isso quer dizer? Que a ignorância como paixão é o que
move aquele que busca uma análise é bem fácil de entender. Menos fácil é
considerá-la em relação ao analista, justamente aquele a quem se dirige a
demanda de saber a partir do amor de transferência e que supostamente
estaria na posição de responder a ela. Essa dificuldade levou muitas vezes
a se confundir o lugar do analista com o lugar do mestre, seja pela
concepção de análise como processo ‘pedagógico” que culmina na
identificação ao analista, insistentemente criticada por Lacan quanto ao
psicanalistas pós-freudianos, seja pela conceituação de transferência como
suposição de saber atribuída ao analista.
Seguindo rigorosamente os passos de Freud, quando este
recomenda que cada caso seja tomado como se fosse o primeiro, indicando
que o saber elaborado em uma análise diz respeito à singularidade do
desejo inconsciente de um sujeito, Lacan reafirma a impropriedade de se
partir de um conhecimento prévio ou de um saber acumulado para sustentar o
lugar de analista, pois o inconsciente se fecha quando o analista acredita
saber o que a fala tem a dizer. Disso decorre a importância que atribui à
dimensão da ignorância considerada em relação ao analista, ainda que a
distinga da paixão da ignorância que move o analisante, ao qualificá-la
como ignorância docta, que não é docens, mas advertida de
que a experiência da análise revela um saber muito particular, que é o
saber inconsciente, saber não sabido, que em grande parte escapa ao ser
falante. O não-saber, nesse sentido, é o que designa como “fruto positivo
da revelação da ignorância, que não é uma negação do saber, porém sua
forma mais elaborada. (Lacan, op.cit:360)
Como Freud já indicara
ao enunciar a regra fundamental da associação livre, em que o analisante
deve falar o que lhe vier à cabeça, a que corresponde, do lado do
analista, o dispositivo da escuta fundado na atenção flutuante, a análise
progride essencialmente no não-saber. Ao mesmo tempo que a fala do sujeito
não deve obedecer ao critério de ordenação lógica a partir de um saber já
constituído, o analista deve ouvir sem dedicar atenção a nada em especial
e sem se preocupar se está lembrando ou compreendendo, pois o sentido só
virá depois. Não se trata, contudo, de uma posição de humildade altruísta
em que o analista se despoja de seu saber para dar voz ao outro. Como diz
Lacan na “Proposição de 9 de outubro de 1967”, o não-saber “não é de
modéstia, o que implicaria em situar-se em relação a si; é propriamente
a produção “em reserva” da estrutura do único saber oportuno” (Lacan,
(1967) s/d:20)
Esta
afirmação nos permite situar melhor a função do não-saber na análise, em
sua dimensão estrutural e estruturante da própria experiência
psicanalítica, uma vez que está intimamente articulada à hipótese
freudiana do inconsciente.
O inconsciente
descoberto por Freud não é o negativo da consciência, revelando-se nos
sonhos, nos atos falhos, nos chistes e na fala das histéricas como um
saber que não se sabe, mas que governa nossas atos e pensamentos.
Quando falamos, dizemos mais do que pensamos dizer, mais do que julgamos
saber. Falamos com nosso corpo sem saber e dizemos mais do que sabemos. É
por isso que uma análise é possível, ao basear-se na palavra do
analisante, na aposta de que algo da ordem do recalcado – isto é, da ordem
do “não querer saber” - será aí elaborado. A elaboração em análise, tem,
contudo, um limite, que Freud aponta desde cedo, à propósito da
interpretação dos sonhos, como o umbigo do sonho – ponto enigmático
que rechaça qualquer saber, ponto de impossibilidade de saber. A
ignorância é aqui estrutural, pois ligada à própria constituição do
inconsciente que, na sua radicalidade, é algo de não-realizado,
não-nascido, não-sabido (Unbewusste).
Lacan, seguindo Freud e
valendo-se da lingüística, concebe o inconsciente como um saber, saber
esse que se baseia no significante como tal, ao qual supõe um sujeito que
se desloca entre os significantes. O que caracteriza o sujeito, contudo, é
que ele não é um eu ou uma consciência, muito menos um ser. Ele tem a
estrutura própria do inconsciente, estrutura pulsátil, elíptica e
surpreendente, que se abre e se fecha assim que é apreendido pela
consciência. Dividido pelo significante, o sujeito é pontual e evanescente,
representando-se de um significante para outro significante.
A noção de sujeito do
inconsciente é, a princípio, paradoxal, pois o inconsciente é um saber
onde o sujeito permanece indeterminado, ou mesmo um saber sem sujeito. Não
se sabe sob que significante encontrar o sujeito. Ele está em movimento e
se desloca no ato de dizer e o que temos são efeitos de sujeito. Sua
determinação só aparece, contudo, onde o saber se detém, justamente nas
falhas do saber, onde a verdade faz sua emergência. Essa verdade não é
outra senão a verdade do sexo, que move o desejo inconsciente. É nesse
lugar de falta que se aloja o sujeito. Diz Lacan no Seminário 12,
Problemas cruciais da psicanálise (1964/65): “Da natureza radical,
fundamentalmente sexual de todo desejo humano o Sujeito toma sua nova
certeza, a de ter sua morada na pura falha do sexo”(19/05/65).
Por isso podemos dizer
que, mais do que um sujeito suposto saber, o sujeito do
inconsciente é suposto não-saber. É o que afirma Lacan:
“Onde está o sujeito do
inconsciente antes que Freud o tivesse descoberto? A resposta é
justamente que o que Freud nos define como sujeito é essa nova relação
original, impensável antes de seu descobrimento, porém afirmada, de um
sujeito a um não saber. .... O que quero dizer: o inconsciente é
que o sujeito rechaça um certo ponto de saber, o sujeito é designado por
haver expresso o não saber.” (Seminário 12:12/05/65).
Se a psicanálise tem a
“presunção” de constituir um saber sobre a verdade, esta só pode ser
semi-dita, pois a verdade que funda o inconsciente e impulsiona o desejo é
a verdade do sexo, que escapa ao saber. O não-saber tem aqui, portanto,
valor de causa do movimento inconsciente, movimento do desejo, na
elaboração em análise de um saber que se sustenta no significante,
significante esse que dirá da verdade do sujeito, na sua singularidade,
sempre de forma parcial, pois é impossível dizê-la toda. Por isso trata-se
de uma “presunção” que tem os seus efeitos, o que nos permite compreender
a afirmação de Lacan, anteriormente citada, de que o não-saber é a
“produção em reserva da estrutura do único saber oportuno”, que é o saber
inconsciente.
Ao juntar o polo do
sujeito com o polo do saber na noção de “sujeito suposto saber” (SsS) para
falar da transferência, Lacan constrói uma ficção operativa que se
fundamenta na estreita relação entre o saber e o amor. O que faz falar o
analisante é a transferência como amor endereçado ao saber, que se
apresenta na figura do analista, como sujeito suposto saber. O amor de
transferência, como qualquer amor, desenvolve-se no campo do narcisismo e
tende à identificação e à idealização do analista. Contudo, é para o campo
do desejo que o analista deve conduzir a análise, “desmontando aos poucos”
a ficção do “sujeito suposto saber”. Como chama a atenção Jacques Laberge,
seguindo os comentários que Lacan faz à obra de Platão, O Banquete,
no Seminário 8 - A transferência (1961/62), da mesma forma que “o
desejo questiona o amor, a verdade do desejo sexual questiona o saber”,
pois não há inscrição significante da diferença sexual no inconsciente. É
por isso que a nossa própria verdade provoca um efeito de estranhamento.
Ela é íntima, mas não nos concerne a um ponto tal que admitamos dize-la
toda. No Seminário 17, O avesso da psicanálise, Lacan alerta para o
amor à verdade que pode turvar a escuta dos analistas, deixando
“escorregar completamente por entre os dedos a impossibilidade do que se
mantém como real”(op.cit:165). A verdade não é o real, mas o que se pode
‘experimentar’ do real, por isso ela só pode ser semi-dita e isto
sustenta a presunção do discurso analítico de formular um saber sobre a
verdade.
O saber inconsciente é
enigmático, porque diz respeito à verdade particular de cada sujeito, o
que faz da psicanálise um ofício impossível. É esse impossível, real, que,
paradoxalmente, nos orienta no convite que fazemos àqueles que nos
procuram para que falem, instituindo-os como sujeitos supostos saber, pois
é na fala que algo da ordem dessa verdade enigmática do sujeito pode ser
contornada. A utilização do significante “contornada” não é gratuita, pois
comporta um duplo sentido, de fazer borda ao mesmo tempo que possibilitar
uma mediação em relação àquilo que se apresenta como estranho a nós, no
mais íntimo de nós mesmos.
Ao abordarmos o final de
análise, constatamos que em uma análise levada muito longe há um
“progresso” tanto no campo da elaboração do saber inconsciente, quanto no
campo dos movimentos do sujeito na relação com seu desejo. Mas em que
sentido estamos concebendo este “progresso”? Será isso que nos habilita a
ocuparmos o lugar de analistas? Como diz Lacan, a psicanálise vem mostrar
que não há progresso senão marcado pela morte.
Em relação ao saber, o
que importa é o reconhecimento do funcionamento do inconsciente como um
saber que se articula no dizer e no inter-dizer, tendo como pano de fundo
o não-saber. Por isso a ética da psicanálise é uma ética do bem-dizer. A
formação do analista depende, portanto, do reconhecimento do
não-saber como o contexto do saber. Sem ela, o candidato a
analista “não será nada além de um robô de analista” (Lacan, (1955) 1998:
360). Isto não significa que o analista não deva ter qualificações tanto
no campo específico da psicanálise quanto no da cultura, mas não são elas
que importam em sua posição essencial. O analista não pode apoiar-se,
todavia, em saber que não sabe nada, pois o que ele precisa saber é do
trabalho com o inconsciente que uma análise promove, o que só é possível a
partir de sua própria análise.
A formação do analista
passa, portanto, pela insistência em sua própria análise, quando pode ter
a experiência de que a um nível do saber não há que supor sujeito, pois
ele é inconsciente e de que o inconsciente é um “saber-fazer com
alíngua” que ultrapassa o que a linguagem pode dar conta (Lacan
(1972-73) 1982:190). O neologismo alíngua é utilizado por Lacan
para referir-se “à ocupação de cada um de nós, alíngua dita materna” (op.cit.:188).
A linguagem já é a elucubração de um saber sobre alíngua.
Quanto ao sujeito, se ao
longo de uma análise se pode observar uma redução da construção
sintomática que o fixava a determinada forma de gozo, o que lhe permite
mais liberdade no movimento do desejo, paradoxalmente é no momento mesmo
de maior possibilidade de subjetivação que o sujeito perde a consistência,
ao se sujeitar ao desejo. Nesse sentido, levar uma análise ao limite que
faz a passagem de analisante à analista é antes de tudo poder tomar o
desejo ao pé da letra, letra essa que dirá desse “saber fazer com
alíngua” próprio do inconsciente, de onde pode nascer o desejo que
sustenta a condução de uma análise.
Esse desejo, indicado
por Lacan como “desejo do analista” é radicalmente distinto do desejo de
ser analista, com suas recompensas narcísicas, e convém mantê-lo vivo em
uma formação permanente onde colocamos à prova nossa capacidade de nos
surpreendermos e de nos abandonarmos à paixão da ignorância. Afinal, como
diz Lacan, “o psicanalista só se sustenta se não tiver contas a ajustar
com seu ser. O famoso não-saber com que caçoam de nós só lhe toca o
coração porque, quanto a ele, ele não sabe nada..... porque o real não é,
antes de mais nada, para ser sabido – é o único dique para conter o
idealismo”. (Lacan, (1970)1992:178)
Referências
Bibliográficas:
FREUD, S. _________
“Sobre o início do tratamento”(1913), Obras psicológicas completas,
Edição Standard Brasileira, Rio de Janeiro, Imago Editora., 1976.
_________ “Análise
terminável e interminável” (1937) Obras psicológicas completas,
Edição Standard Brasileira, Rio de Janeiro, Imago Editora., 1976.
LABERGE, J. “Ele não sabia”, II Jornada Freud-Lacaniana,
Recife, Arte Texto, 1996.
LACAN, J. “Variantes do tratamento padrão”(1955), Escritos, Rio
de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1998.
_________ “A direção
do tratamento e os princípios de seu poder”(1958), Escritos, Rio de
Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1998.
_________
“Proposición del 9 de Octubre de 1967” (Primera versión), Ornicar?,
n. 1, Publicación periódica del champ freudien, edición castellana,
Barcelona, Ed. Petrel s/d.
_________
Seminário XII: Problemas cruciais da psicanálise (1964-65), CD-ROM,
versão em espanhol.
_________ Seminário
XVII: O avesso da psicanálise (1969-70), Rio de Janeiro, Jorge Zahar
Eds., 1992.
_________ Seminário
XX: Mais, ainda
(1972-73), Rio de Janeiro, Jorge Zahar Eds., 1982.
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