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A FUNÇÃO DO NÃO-SABER NO FIM DE ANÁLISE E NA FORMAÇÃO DO ANALISTA

 

Doris Rinaldi[1]
 

Simpósio de São Luís, 03 e 04 de setembro de 2004.

                 

 

A formação do analista, diferentemente de outros ofícios, depende menos do ensino formal e prático no campo que lhe é próprio, do que da experiência de análise pessoal percorrida pelo candidato à analista. Quanto aos possíveis destinos desta experiência Freud os discutiu no texto “Análise terminável e interminável” (1937), onde expôs as dificuldades de se considerar teoricamente o final desse processo, tendo em vista um impasse real diante do “repúdio ao feminino” (Freud.1976: 297). Lacan, diferentemente de Freud, sustentou a possibilidade do término da análise chamada didática, onde se pode localizar a passagem de analisante à analista, afirmando que o desejo do psicanalista é  sua enunciação (Lacan, Proposição de 9 de outubro de 1967).

 

Ao considerarmos o processo analítico como algo terminável, que, portanto, se desenvolve em um determinado espaço de tempo, vemos que entre o ponto inicial, de abertura, com a instauração da transferência, e o ponto de encerramento, momento de concluir, há um caminho a percorrer que comporta uma gama imensa de possibilidades. Foi o que Freud indicou ao fazer uso da analogia com o jogo de xadrez, referindo-se a esse intervalo temporal como aquilo que escapa a “uma apresentação sistemática exaustiva” (Freud,(1913)1976:164).

 

O tempo limitado por esses dois pontos - tempo para compreender -, implica um desconhecimento que é interno a seu próprio movimento, em que a ação do analista permanece, para ele mesmo, em grande parte velada. É no só depois que precipita o momento de concluir que um saber sobre este percurso se elabora. Nesse intervalo, temos a transferência que se apresenta, para o analisando, como amor endereçado ao saber movido pela demanda, e, para o analista, como sustentação do desejo do analista.

 

É a partir desse desejo que o analista, ao convidar o analisante a falar o que lhe vier à cabeça, o institui como sujeito suposto saber. O sujeito suposto saber, indicado por Lacan como fundamento da transferência, ao contrário do que se pensa, não está do lado do analista, mas sim do analisante, mesmo que a suposição de um saber ao analista alimente a demanda do analisando e movimente o processo. Quanto ao analista, como afirma Lacan em “As variantes do tratamento padrão”, ele só pode enveredar por essa prática “ao reconhecer em seu saber o sintoma de sua ignorância e isso no sentido propriamente analítico de que o sintoma é o retorno do recalcado no compromisso e de que o recalcado, aqui como alhures, é a censura da verdade” (Lacan, (1955)1998:360).

 

Neste texto, Lacan se pergunta sobre “que deve saber, na análise, o analista?” respondendo de imediato: “O que o psicanalista deve saber: ignorar o que ele sabe”(op.cit.:351). A ignorância é considerada não como ausência de saber, mas como paixão do ser, assim como o amor e o ódio. É esta paixão que dá sentido à formação analítica, uma vez que é ela que estrutura a própria situação analítica.

 

O que isso quer dizer? Que a ignorância como paixão é o que move aquele que busca uma análise é bem fácil de entender. Menos fácil é considerá-la em relação ao analista, justamente aquele a quem se dirige a demanda de saber a partir do amor de transferência e que supostamente estaria na posição de responder a ela. Essa dificuldade levou muitas vezes a se confundir o lugar do analista com o lugar do mestre, seja pela concepção de análise como processo ‘pedagógico” que culmina na identificação ao analista, insistentemente criticada por Lacan quanto ao psicanalistas pós-freudianos, seja pela conceituação de transferência como suposição de saber atribuída ao analista.

 

Seguindo rigorosamente os passos de Freud, quando este recomenda que cada caso seja tomado como se fosse o primeiro, indicando que o saber elaborado em uma análise diz respeito à singularidade do desejo inconsciente de um sujeito, Lacan reafirma a impropriedade de se partir de um conhecimento prévio ou de um saber acumulado para sustentar o lugar de analista, pois o inconsciente se fecha quando o analista acredita saber o que a fala tem a dizer. Disso decorre a importância que atribui à  dimensão da ignorância considerada em relação ao analista, ainda que a distinga da paixão da ignorância que move o analisante, ao qualificá-la como ignorância docta, que não é docens, mas advertida de que a experiência da análise revela um saber muito particular, que é o saber inconsciente, saber não sabido, que em grande parte escapa ao ser falante. O não-saber, nesse sentido,  é o que designa como “fruto positivo da revelação da ignorância, que não é uma negação do saber, porém sua forma mais elaborada. (Lacan, op.cit:360)

 

Como Freud já indicara ao enunciar a regra fundamental da associação livre, em que o analisante deve falar o que lhe vier à cabeça, a que corresponde, do lado do analista, o dispositivo da escuta fundado na atenção flutuante, a análise progride essencialmente no não-saber. Ao mesmo tempo que a fala do sujeito não deve obedecer ao critério de  ordenação lógica a partir de um saber já constituído, o analista deve ouvir sem dedicar atenção a nada em especial e sem se preocupar se está lembrando ou compreendendo, pois o sentido só virá depois. Não se trata, contudo, de uma posição de humildade altruísta em que o analista se despoja de seu saber para dar voz ao outro. Como diz Lacan na “Proposição de 9 de outubro de 1967”, o não-saber “não é de modéstia, o que implicaria em situar-se em relação a si; é propriamente a produção “em reserva” da estrutura do único saber oportuno” (Lacan, (1967) s/d:20)

 

            Esta afirmação nos permite situar melhor a função do não-saber na  análise, em sua dimensão estrutural e estruturante da própria experiência psicanalítica, uma vez que está intimamente articulada à hipótese freudiana do inconsciente.

 

O inconsciente descoberto por Freud não é o negativo da consciência,  revelando-se nos sonhos, nos atos falhos, nos chistes e na fala das histéricas como um saber que não se sabe, mas que governa nossas atos e pensamentos. Quando falamos, dizemos mais do que pensamos dizer, mais do que julgamos saber. Falamos com nosso corpo sem saber e dizemos mais do que sabemos. É por isso que uma análise é possível, ao basear-se na palavra do analisante, na aposta de que algo da ordem do recalcado – isto é, da ordem do “não querer saber” - será aí elaborado. A elaboração em análise, tem, contudo, um limite, que Freud aponta desde cedo, à propósito da interpretação dos sonhos, como o umbigo do sonho – ponto enigmático que rechaça qualquer saber, ponto de impossibilidade de saber. A ignorância é aqui estrutural, pois ligada à própria constituição do inconsciente que, na sua radicalidade, é algo de não-realizado, não-nascido, não-sabido (Unbewusste).

 

Lacan, seguindo Freud e valendo-se da lingüística, concebe o inconsciente como um saber, saber esse que se baseia no significante como tal, ao qual supõe um sujeito que se desloca entre os significantes. O que caracteriza o sujeito, contudo, é que ele não é um eu ou uma consciência, muito menos um ser. Ele tem a estrutura própria do inconsciente, estrutura pulsátil, elíptica e surpreendente, que se abre e se fecha assim que é apreendido pela consciência. Dividido pelo significante, o sujeito é pontual e evanescente, representando-se de um significante para outro significante.

 

A noção de sujeito do inconsciente é, a princípio, paradoxal, pois o inconsciente  é um saber onde o sujeito permanece indeterminado, ou mesmo um saber sem sujeito. Não se sabe sob que significante encontrar o sujeito. Ele está em movimento e se desloca no ato de dizer e o que temos são efeitos de sujeito. Sua determinação só aparece, contudo, onde o saber se detém, justamente nas falhas do saber, onde a verdade faz sua emergência. Essa verdade não é outra senão a verdade do sexo, que move o desejo inconsciente. É nesse lugar de falta que se aloja o sujeito. Diz Lacan no Seminário 12, Problemas cruciais da psicanálise (1964/65): “Da natureza radical, fundamentalmente sexual de todo  desejo humano o Sujeito toma sua nova certeza, a de ter sua morada na pura falha do sexo”(19/05/65). 

 

Por isso podemos dizer que, mais do que um sujeito suposto saber, o sujeito do inconsciente é suposto não-saber. É o que afirma Lacan:

 

“Onde está o sujeito do inconsciente antes que Freud o tivesse descoberto?  A resposta é justamente que o que Freud nos define como sujeito é essa nova relação original, impensável antes de seu descobrimento, porém  afirmada, de um sujeito a um não saber. ....   O que quero dizer: o inconsciente é que o sujeito rechaça um certo ponto de saber, o sujeito é designado por haver expresso o não saber.” (Seminário 12:12/05/65).

 

Se a psicanálise tem a “presunção” de constituir um saber sobre a verdade, esta só pode ser semi-dita, pois a verdade que funda o inconsciente e impulsiona o desejo é a verdade do sexo, que escapa ao saber. O não-saber tem aqui, portanto, valor de causa do movimento inconsciente, movimento do desejo, na elaboração em análise de um saber que se sustenta no significante, significante esse que dirá da verdade do sujeito, na sua singularidade, sempre de forma parcial, pois é impossível dizê-la toda. Por isso trata-se de uma “presunção” que tem os seus efeitos, o que nos permite compreender a afirmação de Lacan, anteriormente citada, de que o não-saber é a “produção em reserva da estrutura do único saber oportuno”, que é o saber inconsciente.

 

Ao juntar o polo do sujeito com o polo do saber na noção de “sujeito suposto saber” (SsS) para falar da transferência, Lacan constrói uma ficção operativa que se fundamenta na estreita relação entre o saber e o amor. O que faz falar o analisante é a transferência como amor endereçado ao saber, que se apresenta na figura do analista, como sujeito suposto saber. O amor de transferência, como qualquer amor, desenvolve-se no campo do narcisismo e tende à identificação e à idealização do analista. Contudo, é para o campo do desejo que o analista deve conduzir a análise, “desmontando aos poucos” a ficção do “sujeito suposto saber”. Como chama a atenção Jacques Laberge, seguindo os comentários que Lacan faz à obra de Platão, O Banquete, no Seminário 8 - A transferência (1961/62), da mesma forma que “o desejo questiona o amor, a verdade do desejo sexual questiona o saber”[1], pois não há inscrição significante da diferença sexual no inconsciente. É por isso que a nossa própria verdade provoca um efeito de estranhamento. Ela é íntima, mas não nos concerne a um ponto tal que admitamos dize-la toda. No Seminário 17, O avesso da psicanálise, Lacan alerta para o amor à verdade que pode turvar a escuta dos analistas, deixando “escorregar completamente por entre os dedos a impossibilidade do que se mantém como real”(op.cit:165). A verdade não é o real, mas o que se pode ‘experimentar’ do real, por isso ela só pode ser semi-dita  e isto sustenta a presunção do discurso analítico de formular um saber sobre a verdade.

 

O saber inconsciente é enigmático, porque diz respeito à verdade particular de cada sujeito, o que faz da psicanálise um ofício impossível. É esse impossível, real, que, paradoxalmente, nos orienta no convite que fazemos àqueles que nos procuram para que falem, instituindo-os como sujeitos supostos saber, pois é na fala que algo da ordem dessa verdade enigmática do sujeito pode ser contornada. A utilização do significante “contornada” não é gratuita, pois comporta um duplo sentido, de fazer borda ao mesmo tempo que possibilitar uma mediação em relação àquilo que se apresenta como estranho a nós, no mais íntimo de nós mesmos.

 

Ao abordarmos o final de análise, constatamos que em uma análise levada muito longe há um “progresso” tanto no campo da elaboração do saber inconsciente, quanto no campo dos movimentos do sujeito na relação com seu desejo.  Mas em que sentido estamos concebendo este “progresso”? Será isso que nos habilita a ocuparmos o lugar de analistas? Como diz Lacan, a psicanálise vem mostrar que não há progresso senão marcado pela morte.

 

Em relação ao saber, o que importa é o reconhecimento do funcionamento do inconsciente como um saber que se articula no dizer e no inter-dizer, tendo como pano de fundo o não-saber. Por isso a ética da psicanálise é uma ética do bem-dizer. A formação  do analista depende, portanto, do reconhecimento  do não-saber como o contexto do saber. Sem ela, o candidato a analista “não será nada além de um robô de analista” (Lacan, (1955) 1998: 360). Isto não significa que o analista não deva ter qualificações tanto no campo específico da  psicanálise quanto no da cultura, mas não são elas que importam em sua posição essencial.  O analista não pode apoiar-se, todavia,  em saber que não sabe nada, pois o que ele precisa saber é do trabalho com o inconsciente que uma análise promove, o que só é possível a partir de sua própria análise.

 

A formação do analista passa, portanto, pela insistência em sua própria análise, quando pode ter a experiência de que a um nível do saber não há que supor sujeito, pois ele é inconsciente e de que o inconsciente é um “saber-fazer com alíngua” que ultrapassa o que a linguagem pode dar conta (Lacan (1972-73) 1982:190). O neologismo alíngua é utilizado por Lacan para referir-se “à ocupação de cada um de nós, alíngua dita materna” (op.cit.:188). A linguagem já é a elucubração de um saber sobre alíngua.

 

Quanto ao sujeito, se ao longo de uma análise se pode observar uma redução da construção sintomática que o fixava a determinada forma de gozo,  o que lhe permite mais liberdade no movimento do desejo, paradoxalmente é no momento mesmo de maior possibilidade de subjetivação que o sujeito perde a consistência, ao se sujeitar ao desejo. Nesse sentido, levar uma análise ao limite que faz a passagem de analisante à analista é antes de tudo poder tomar o desejo ao pé da letra, letra essa que dirá desse “saber fazer com alíngua” próprio do inconsciente,  de onde pode nascer o desejo que sustenta a condução de uma análise.

 

Esse desejo, indicado por Lacan como “desejo do analista” é radicalmente distinto do desejo de ser analista, com suas recompensas narcísicas, e convém mantê-lo vivo em uma formação permanente onde colocamos à prova nossa capacidade de nos surpreendermos e de nos abandonarmos à paixão da ignorância. Afinal, como diz Lacan, “o psicanalista só se sustenta se não tiver contas a ajustar com seu ser. O famoso não-saber com que caçoam de nós só lhe toca o coração porque, quanto a ele, ele não sabe nada..... porque o real não é, antes de mais nada, para ser sabido – é o único dique para conter o idealismo”. (Lacan, (1970)1992:178)


 

 

 

Referências Bibliográficas:

 

FREUD, S. _________   “Sobre o início do tratamento”(1913), Obras psicológicas completas, Edição Standard Brasileira, Rio de Janeiro, Imago Editora., 1976.

_________    “Análise terminável e interminável” (1937) Obras psicológicas completas, Edição Standard Brasileira, Rio de Janeiro, Imago Editora., 1976.

LABERGE, J.  “Ele não sabia”, II Jornada Freud-Lacaniana, Recife, Arte Texto, 1996.

LACAN,  J.   “Variantes do tratamento padrão”(1955), Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1998.

_________     “A direção do tratamento e os princípios de seu poder”(1958), Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1998.

_________      “Proposición del 9 de Octubre de 1967” (Primera versión), Ornicar?, n. 1,  Publicación periódica del champ freudien, edición castellana, Barcelona, Ed. Petrel s/d.

_________    Seminário XII: Problemas cruciais da psicanálise (1964-65), CD-ROM, versão em espanhol.

_________   Seminário XVII: O avesso da psicanálise (1969-70), Rio de Janeiro, Jorge Zahar Eds., 1992.

_________   Seminário XX: Mais, ainda  (1972-73), Rio de Janeiro, Jorge Zahar Eds., 1982.


 

[1] Psicanalista de Intersecção Psicanalítica do Brasil.

[2] Laberge, Jacques  “Ele não sabia” , 1996.

      

        

 Intersecção Psicanalítica do Brasil