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“Uma
escritura é, assim, um saber que dá suporte ao pensamento.”
Jacques
Lacan
Há
limites para a Linguagem? - Com essa pergunta, provocada pela releitura de
Análise Terminável e Interminável, e tendo em mente a clínica,
tentei avançar algo a respeito da estrutura do discurso.
Entendo
que falar da palavra e de suas articulações é falar da Psicanálise em si,
tarefa que demandou a Freud e Lacan o empenho de toda uma vida. Obra tão
interminável, quanto à leitura do discurso do inconsciente, estruturado
como uma linguagem e inesgotável.
Em
Análise Terminável e Interminável Freud aprecia a possibilidade de
encurtar a duração da análise, afirmando que, seria mesmo desejável que
isso fosse possível, mas constata que a técnica analítica, por lidar com
um tempo lógico (e aqui já é uma formulação posterior de Lacan), não
poderia estabelecer suas premissas sobre bases de um tempo marcado
cronologicamente.
Apesar
da grande complexidade desse tema e seus inúmeros vieses, decidi continuar
enfocando-o pelo prisma do monólogo interior, um dos mais
enigmáticos e sedutores artifícios de que se vale James Joyce em sua obra
e que me faz prosseguir tentando verificar o que isso poderia nos dizer de
um possível final de análise ou não.
O Modernismo
Ao mesmo
tempo em que Freud descobria o poder da cura pela palavra, surge o
movimento modernista atingindo diversos segmentos da expressão humana, com
destaque para as artes plásticas e literárias. Na Literatura, revelou-se
como uma desconstrução da velha ordem narrativa, caminho esse mais cômodo
para a desmontagem dos cânones poéticos tradicionais, sob um clima de
desordem da época em que predominava o Realismo da segunda metade do
Século XIX.
Os
prosadores ficcionistas, então, um a um, revolucionaram as formas de
romance, inaugurando novos formatos literários. Entre os gênios da
Literatura Modernista encontramos Ernest Hemingway, Virginia Woolf,
Fernando Pessoa, Pablo Neruda, Proust e muitos outros; James Joyce, que
sabia muito bem o que fazia com as letras, figura como o mais genial de
todos e nos presenteia com o texto literário mais importante do Século XX,
na opinião dos grandes conhecedores do assunto.
Trouxe
esse breve relato para destacar a importância de se apreciar, também pelo
ângulo literário propriamente dito, a obra de James Joyce, cuja
contribuição para a Psicanálise é incontestável; ao mesmo tempo, perceber
que a revolução da e na palavra foi muito ampla e não se
limitou apenas à psicanálise.
Com seu
apaixonante estilo literário, uma excêntrica e surpreendente forma de
utilização da língua, a partir do emprego de formações linguageiras como
o monólogo interior - que faz escapar o sentido -, esse escritor
irlandês esquisitíssimo suscita a refletir sobre as possíveis formas de
constituição do Sujeito, através da linguagem.
Monólogos Interiores
O
monólogo interior foi inventado no século XIX por Édouard Dujardin (Aguiar
e Silva, 1976); outros reivindicam sua criação para Lawrence Sterne em
1761 (apud Avanilda Torres, 2005). Tornou-se largamente conhecido com seu
emprego por Joyce no Ulisses, em 1922. Outra pioneira na utilização
deste dispositivo literário foi Dorothy Richardson, cuja novela “Peregrinação” foi publicada em capítulos em 1919, ao
mesmo tempo em que eram publicados capítulos do
Ulisses.
Trata-se de um dos recursos de que Joyce se vale de forma magistral,
quase a guisa de epifania, para a revelação abrupta – e via de regra fugaz
-, dos pensamentos e vivências mais íntimas de suas personagens centrais:
Stephen Dedalus, Leopold Bloom e Molly. Dujardin assim
descreve essa técnica literária,
“O
monólogo interior é o discurso da personagem posta em cena,
com o objetivo de introduzir o leitor diretamente na sua vida interior,
sem explicações ou comentários do autor. É uma expressão do pensamento
mais íntimo, mais próximo do inconsciente, anterior a qualquer organização
lógica, reproduzido em sua forma nascente, com frases reduzidas ao mínimo
de sintaxe, constituindo um discurso impronunciado e sem auditor que se
desenrola de forma desordenada e até caótica, sem qualquer intervenção
disciplinadora e esclarecedora do narrador; fluindo livremente, é formado
por idéias e imagens de todo tipo que se atraem ou repelem na consciência
da personagem.”.
Saliento
aqui que o “discurso impronunciado e sem auditor”, talvez diga
algo da ordem do pré-consciente freudiano.
Lígia Chiappini Moraes Leite, em seu livro O Foco Narrativo,
acentua a fragilidade da linguagem em termos de nexos lógicos do
monólogo interior. Para John Mepham (2002), este seria a segunda forma
principal da técnica
fluxo da consciência,
com a qual costuma ser confundida erroneamente; por ser textualizado, se
constitui como um artefato, uma criação da escrita. Este estudioso coloca
que o Ulisses é, provavelmente, o mais famoso texto de monólogo
interior.
Tal
artifício literário é, sem dúvida, notável, pela estrutura – ou
desestrutura – de que é tecido, pois instiga o leitor a percorrer o texto
várias vezes – diga-se a repetir a leitura-, com a incumbência de
interpretar o que está lendo, como uma mimese da personagem em si, em vez
de processos de pensamento caóticos. Na prática e considerando-se o
ponto de
vista da
narrativa
literária, o
que transparece é
um
atropelo das
palavras, que emanam de
um
agente muitas
vezes
impessoal, instaurando um campo
acidentado e aparentemente indecifrável, ao tempo em que determinam o
imperativo sistemático de uma leitura sincrônica e, ao mesmo tempo,
diacrônica. Tanto mais indecifrável e insuficiente, na medida em que,
segundo afirmação oportuna de Dujardin (Aguiar e Silva, 1976), no
monólogo interior a palavra não está endereçada a alguém que, de fora,
possa ouvir. Assim, o movimento de revelar, desvelar e ocultar parece
estar ausente.
Uma das
perguntas que mais se impõe ao leitor ao longo de diversos trechos da obra
é “quem fala?”, na tentativa de se identificar o emissor, pois o
período pode começar na voz do narrador, passar repentinamente para a
primeira pessoa e, em seguida, tomar a forma de um endereçamento a alguém
que não se consegue identificar. A impessoalidade é uma de suas principais
características.
Eis um
exemplo a partir da personagem Bloom, no capítulo 5, “Comedores
de Lótus”:
“O
senhor Bloom avançou o rosto para pegar as palavras. Inglês.
Atira-lhes o osso. Lembro-me vagamente. Faz quanto desde a tua última
missa? Glória e virgem imaculada. José seu esposo. Mais interessante
quando se entende tudo a que se refere. Organização maravilhosa sem
dúvida, anda como relógio. Confissão. Todos querem fazer uma. Então
eu lhe direi tudo. Penitencia..
Puni-me, por favor”
(...)
Essas
questões me lembraram a situação da clinica analítica, pois, a
partir da
pergunta “Quem
fala
em Bloom?” durante um
monólogo interior, fui levada à pergunta “Quem fala no analisante?”,
redirecionando a questão para o endereçamento do discurso deste último
durante o decorrer de uma análise.
Os
estudos de Lacan trazem a pergunta “Quem fala?” na teoria e na
prática analíticas em diversos pontos de seus seminários, pois, sendo o
inconsciente estruturado como uma linguagem, é pela linguagem, pela
maneira como os analisantes conseguem articular a linguagem ao nível mesmo
da palavra, que o analista poderá dirigir o tratamento.
No
seminário 1, Os
Escritos
Técnicos de Freud (1981),
acerca da
constituição do
sujeito e
sua
relação ao
desejo do
Outro e abordando o endereçamento
do
discurso ao
analista, os
desenvolvimentos se voltam
para a
dinâmica
própria das
estruturas neuróticas, do
sujeito barrado, dividido, marcado
pela
falta.
Em uma
relação
direta à
função da
palavra no
funcionamento da
análise, Lacan diz
que a
palavra
não é
feita
para
mediar à
relação
analítica, existindo
diversos
momentos
em
que
não se
endereça a
alguém,
nem
mesmo ao
analista. No
Seminário A
Transferência (1992),
quando enfoca o
discurso do neurótico no
ponto de se
saber
quem
fala, Lacan coloca que, constituído
como
sujeito de
seu
próprio
desejo, o neurótico
não
deixa,
entretanto, de
estar submetido ao
desejo do
Outro,
objetivo
central de
sua
demanda,
cujo
lugar deve
ser situado no
mesmo
ponto
onde
falta
saber
quem
fala.
Para o neurótico, o
ser habitado
pelo
discurso abre
para a possibilidade de
apropriação de um discurso próprio.
O
sujeito neurótico, ao falar, o faz de forma organizada e endereça a sua
demanda ao analista, a quem supõe o saber. Ele instaura, no início e no
decorrer da análise, uma dialética em que se dirige ao analista, o qual
deve “responder” do lugar de um dos Outros do analisante. Ao final da
análise já poderá dar-se conta de quem fala quando ele fala e,
principalmente, dar-se conta de a quem fala.
A
respeito da pergunta “Quem fala?” pensada ao campo das psicoses, no
Seminário 3 de Lacan (1985) a resposta a essa pergunta é central para
delimitar também todo o campo da paranóia, onde não se encontra a
dialética do discurso, na medida em que não há demanda. Preenchido por sua
certeza radical, o psicótico dispensa o saber suposto ao Outro e afirma “Venho
do salsicheiro”. Lacan interroga o que faz com que tal sujeito seja
falante, indagando também se seria o outro imaginário aquele que expulsa a
dialética do narcisismo e que é todo semelhante na medida em que fornece a
própria imagem. O “somos falados” faz o psicótico estar imerso na
Linguagem, mas não abre espaço para que ele ingresse na
ordem do discurso. Não haveria
final de análise com pacientes psicóticos, na medida em que, não tendo
sido submetido à castração, jamais poderá assumir a falta.
Voltando
aos monólogos interiores, se, por um lado e enquanto formato
literário, não deixa de desafiar constantemente o leitor, podemos pensar
também que, pela sua estrutura discursiva, aponta o não sentido próprio da
fala do psicótico, perante o qual o analista se sente desafiado a não
desistir, a insistir na espreita de uma brecha por onde possa se dar a
emergência de uma ponta do Desejo que instaure ou restaure - nem que seja
em parte –, uma possível dialética com o Outro constitucional.
Com
Freud, a partir dessa “terapia da palavra”, como foi inicialmente
denominada a Psicanálise, se inaugura o descentramento do sujeito,
deslocando o cogito em relação ao inconsciente; Lacan dá o grande salto
para a nossa disciplina, com os primeiros desenvolvimentos e elaborações
posteriores sobre a função da palavra.
Penso
que qualquer analogia entre o monólogo interior, enquanto técnica
literária, e apreciado do ponto de vista da psicanálise enquanto fenômeno
de escritura do inconsciente, só pode ser estabelecida se apreciada sob
dois parâmetros distintos, de acordo com as diferentes estruturas
freudianas e as formações do inconsciente.
Sabemos
que no monólogo interior
encontramos a
emissão da
palavra a partir do que emana
não
apenas do
consciente,
mas
também do
inconsciente. Desta
forma, pode-se pensar essa
questão
pelo
prisma do
conteúdo e da
estrutura
que, no
caso do
discurso neurótico, apresenta
semelhança, reveladas
pelos
lapsos,
chistes,
atos
falhos,
erros de
concordância e de sintaxe, da
consistência de um emissor e de uma mensagem que possa estabelecer uma
comunicação eficaz entre duas pessoas.
A
analogia do monólogo interior
com a
fala do
psicótico, também apreciada viés da
estrutura, revela que, à
falta de endereçamento
por
parte da personagem
posta
em
cena
pelo monólogo interior, corresponderia a
ausência de uma
dialética do
psicótico, na medida em que
sua
fala permanece encerrada
em
um
circuito
que prescinde de
alguém
que de
fora possa
ouvir. Sabendo-se que o monólogo interior
é uma criação, um artefato da escrita, qualquer comparação seria
apenas um artifício aproximativo, pelo qual se percebe que, ao nível da
estrutura do discurso, se aproximaria mais da fala do psicótico.
Joyce
nos lançou o desafio de, por um tempo de 300 anos tentarmos desvendar os
enigmas de sua obra – tentativa essa que alguns de nós perseguem
obstinadamente, apesar de sabe-la interminável. Afinal, quem vive 300
anos?
Para
Joyce o tempo se conta de forma cronológica. Para nós, analistas, o tempo
de que se trata é outro e não se conta.
APUD Aguiar e Silva (1976)
Bibliografia:
-
AGUIAR
E SILVA, Vitor Manuel de. Teoria da literatura. São Paulo:
Martins Fontes, 1976. 1ª ed.
brasileira.
-
FREUD,
Sigmund, Análise Terminável e Interminável, Editorial
Biblioteca Nueva, Madrid,
Espanha, Tomo III, 4ª edição, 1981.
-
________,Escritos 1, Función y Campo de la Palabra y del Lenguaje en
Psicoanálisis, Siglo
Veintiuno Editores, Edición 14, 1984, Madrid, España
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