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“O
homem é uma substância que não tira sua existência de si mesma,
mas de um outro ser” (...)
Dany-Robert
Dufour, A Arte de Reduzir as Cabeças
A dimensão enigmática do
Ulisses, livro de James Joyce, é fascinante e desafiadora. Entre os
muitos desafios chamaram minha atenção os monólogos interiores,
empregados de forma magistral, quase a guisa de epifania, para a revelação
abrupta - e por vezes fugaz -, dos pensamentos e vivências mais íntimas de
suas personagens.
A breve incursão no
campo da teoria da literatura a seguir poderá nos ajudar a apreciar a
inegável contribuição da obra de Joyce para a clínica analítica:
Monólogos
Interiores
James Joyce sabia muito
bem o que fazia com as letras e seu estilo literário não é um mero produto
de uma eventual desorganização interior. Ao mesmo tempo em que Freud fazia
desabrochar a cura pela palavra, esse estilo brotava no seio do movimento
conhecido como Modernismo, atingindo diversos segmentos da
expressão humana, com destaque para as artes plásticas e literárias. Na
Literatura, revelou-se como uma tentativa de desconstrução da velha ordem
narrativa, na direção de uma desmontagem dos cânones poéticos
tradicionais. Era uma reação ao clima de desordem dessa época em que
predominava o Realismo
e favoreceu uma ampla revolução da e na palavra.
O monólogo interior
foi criado por Édouard Dujardin
no século XIX;
já outros reivindicam sua criação para Lawrence Sterne em 1761.
Tornou-se largamente conhecido com sua utilização por Joyce em seu livro
Ulisses, em 1922.
Dujardin assim descreve o monólogo interior:
“O monólogo
interior é o discurso da personagem posta em cena, com o
objetivo de introduzir o leitor diretamente na sua vida interior, sem
explicações ou comentários do autor. É uma expressão do pensamento mais
íntimo, mais próximo do inconsciente, anterior a qualquer organização
lógica, reproduzido em sua forma nascente, com frases reduzidas ao mínimo
de sintaxe, constituindo um discurso impronunciado e sem auditor que se
desenrola de forma desordenada e até caótica, sem qualquer intervenção
disciplinadora e esclarecedora do narrador; fluindo livremente, é formado
por idéias e imagens de todo tipo que se atraem ou repelem na consciência
da personagem.”.
Vitor Manuel de Aguiar e Silva (1976), Lígia
Chiappini Moraes Leite e John Mepham (2002) - literatos de renome
-, acrescentam:
“É uma forma mais articulada de expressar diretamente estados internos,
constituindo-se como uma radicalização interna da sondagem da mente e
acarretando um fluxo ininterrupto de pensamentos, expressos em uma
linguagem cada vez mais frágil em nexos lógicos. A intervenção do narrador
pode existir ou não. Por ser textualizado, se constitui como um artefato,
uma criação da escrita. É composto por grande variedade de sentenças-tipo
com narrativas psicológicas e estilo indireto livre, empregando o
endereçamento direto dos pensamentos da própria personagem na primeira
pessoa, como um monólogo. Para Mepham, o Ulisses de James Joyce é
o mais famoso texto de monólogo interior”.
Notável, pela estrutura
– ou desestrutura – de que é tecido, o monólogo interior nos
instiga a percorrer o texto por várias vezes: “Não pode ser lido como
um simples fluxo de palavras” (John Mephan, 2002). Nestas passagens
resta ao leitor interpretar o que está lendo como uma mimese da personagem
em si, em vez de processos de pensamento caóticos, o que determina o
imperativo de uma decifração através de uma leitura sincrônica e, ao mesmo
tempo, diacrônica. Esta decifração, no entanto, será sempre insuficiente,
na medida em que no monólogo interior a palavra não está endereçada
a alguém que, de fora, possa ouvir.
Assim, ao que tudo indica, não há uma dialética do discurso.
Quem fala?
Uma das perguntas que
mais se impõe ao leitor ao longo de diversos trechos da obra é “quem
fala?”, na tentativa de delimitar o emissor e o receptor, tornando a
narrativa inteligível. Tomo como exemplo a personagem de Leopold Bloom.
A
partir da
pergunta “Quem
fala
em Bloom?”,
quando da
leitura de
um monólogo interior desta
personagem, fui levada à pergunta “Quem
fala no analisante?”, redirecionando a questão para o endereçamento do
discurso do neurótico e da fala do psicótico durante o decorrer de uma
análise. Se a voz que se escuta é a do Outro, qual a voz que opera nas
ressonâncias deste último?
Entendo que falar da
palavra e de suas articulações é falar da Psicanálise em si, tarefa que
demandou a Freud e Lacan a obra de toda uma vida, na busca da leitura do
discurso do inconsciente, estruturado como uma linguagem e inesgotável.
Entendo também que falar de Pai numa perspectiva psicanalítica é falar de
estrutura.
Abordando a estruturação
do sujeito, Lacan indaga em seus estudos ao longo de seus seminários “Quem
fala?”. Será a través da linguagem do inconsciente que o analista
poderá dirigir o tratamento.
No
seminário Os
Escritos
Técnicos de Freud (1981),
acerca da
constituição do
sujeito e
sua
relação ao
desejo do
Outro e levantando a questão do
endereçamento do
discurso em uma
relação
direta à
função da
palavra no
funcionamento da
análise, Lacan aponta que a
palavra
não é
feita
para
mediar à
relação analítica, existindo mesmo
diversos momentos em que não é dirigida a alguém, nem mesmo ao analista.
Constituído
como
sujeito de
seu
próprio
desejo, o neurótico
não
deixa,
entretanto, de
estar submetido ao
desejo do
Outro,
objetivo
central de
sua demanda. Para o neurótico, o
ser habitado
pelo
discurso abre
para a possibilidade de
apropriação do discurso próprio, favorecendo o
elo entre o sujeito falante e o Pai. Sabemos que no neurótico “quem fala”
é o Outro, que foi perpassado pela voz desse Pai e o transmite como um
legado instituinte e estruturante.
A pergunta “Quem
fala?” dirigida à psicose, entretanto, não propicia a mesma resposta
que no caso da neurose, uma vez que a voz do Pai parece não ter
ressonância, não tendo possibilitando o pleno acesso à ordem simbólica do
discurso. Lacan, em seu Seminário 3 (1985) pontua que a pergunta “Quem
fala?” é central para delimitar também todo o campo da paranóia, onde
não se encontra a dialética do discurso, na medida em que não há demanda.
Sujeito da certeza, o psicótico enuncia “Venho do salsicheiro”, com
irredutibilidade radical. O “somos falados” faz o psicótico estar
imerso na Linguagem, mas não abre espaço para que ele ingresse na
ordem do discurso.
Se, por um lado, o
monólogo interior não deixa de desafiar constantemente o leitor, pela
sua estrutura discursiva aponta o não sentido próprio da fala do
psicótico, que desafia o analista a não desistir de uma brecha eventual
por onde possa se dar a emergência de algo significante, uma ponta do
Desejo que instaure ou restaure - nem que seja em parte –, uma possível
dialética com o Outro constitucional.
Para exemplificar, trago
um parágrafo do Ulisses com um monólogo interior da personagem
Bloom; após a seguinte fala do narrador “O senhor
Bloom avançou o rosto para pegar as palavras”, o parágrafo assim
continua:
“Inglês.
Atira-lhes o osso.
Lembro-me vagamente. Faz quanto desde a tua última missa?
Glória e virgem imaculada. José seu esposo. Mais interessante
quando se entende tudo a que se refere. Organização maravilhosa sem
dúvida, anda como relógio. Confissão. Todos querem fazer uma.
Então eu lhe direi tudo. Penitencia.. Puni-me, por
favor” (...)
.
No sistema monólogo
interior a voz do Pai não parece muito discernível em função da
fragmentação encontrada na tessitura do monólogo. Suas partes não formam
uma unidade em termos de narrativa. Locuções, imprecações, emissões sem
receptores, essas garatujas mentais não proporcionam os ecos mínimos
necessários da subjetividade, aparentando uma não-dialética.
Creio que a sondagem da
incidência da voz do pai, em uma analogia com o monólogo interior, só
poderia se dar tomando-se dois parâmetros distintos: o da neurose e da
psicose (de acordo com as diferentes estruturas freudianas e as formações
do inconsciente). Aqui a idéia de “voz” remete ao conceito mítico
da inserção de uma lei que só é transmissível pelo Outro, que instaura o
pai simbólico. Leio na aula de Lacan de 20 de novembro de 1963,
“Já não podemos
escapar à pergunta: quem, além daquele que fala no lugar do Outro, e que é
o sujeito, de qual sujeito toma a voz cada vez que fala? Está claro que se
Freud põe o mito do pai no centro de sua doutrina, é em razão da
inevitabilidade da pergunta. A voz do Outro deve ser considerada como um
objeto essencial. Todo analista será chamado a dar-lhe seu lugar, suas
diversas encarnações, tanto no campo da psicose como na formação do
supereu”
No
caso do
discurso neurótico – em que o
supereu está implícito -, o monólogo interior apresenta
semelhanças
com as formações do inconsciente
reveladas
pelos
lapsos,
chistes,
atos
falhos,
erros de
concordância e de sintaxe, cujo
sentido, entretanto, pode ser buscado pelo analisante, a partir dos
desdobramentos da cadeia significante instaurados pela falta primordial.
Lacan em seu seminário 6
coloca: “Na formação da instancia do supereu, o vozeirão é para fazer
entrar em jogo algo que representa a instancia de um Outro manifestando-se
como real”. Estamos falando, aqui, do “vozeirão” do Pai. Sem
ele, não há sujeito do próprio desejo. A incidência da voz interior do Pai
se daria, assim, no endereçamento próprio da estrutura neurótica – ou
seja, na demanda marcada pela dialética do narcisismo.
É no campo da psicose
que me parece mais viável que eu me detenha em busca de uma analogia com
a estrutura discursiva do monólogo interior, pois, à
falta de endereçamento
por
parte da personagem
posta
em
cena pelo monólogo interior,
corresponderia a
ausência de uma
dialética do
psicótico, na
medida em que
sua
fala permanece encerrada
em
um
circuito
que prescinde de
alguém
que de
fora possa ouvir e também porque
nas psicoses a obturação da falta primordial não permite a busca do
sentido. Por estar contido no desejo do Outro, não acede ao desejo, não
se constitui em um discurso próprio; a voz do Pai não é transmitida
e seus ecos não reverberam como o produto do Outro, por não ser este
último permeável a essa voz.
Na ausência desse
endereçamento, por sua enigmática e indecifrável mensagem – tanto nas
psicoses como nos monólogos interiores – o ser falante permanece encerrado
num circuito impenetrável aos ecos da voz do Pai. Na ausência da
intermediação da instancia do Outro, o que ressoa na psicose é voz do pai
no real, pelos delírios e alucinações, cujo não sentido nos aproxima da
tessitura da narrativa do monólogo interior.
Comecei a pensar esse
viés a partir dessa Jornada do CEF. Pretendo dar continuidade e agradeço
suas contribuições. Obrigada.
APUD Aguiar e Silva (1976)
Bibliografia:
-
AGUIAR
E SILVA, Vitor Manuel de. Teoria da literatura. São Paulo:
Martins Fontes, 1976. 1ª ed.
brasileira.
-
DUFOUR, Dany-Robert, A
Arte de Reduzir as Cabeças, Ed. Companhia de Freud, RJ, 2005
-
FREUD,
Sigmund, Análise Terminável e Interminável, Editorial
Biblioteca Nueva, Madrid,
Espanha, Tomo III, 4ª edição, 1981.
-
________,Escritos 1, Función y Campo de la Palabra y del Lenguaje en
Psicoanálisis, Siglo
Veintiuno Editores, Edición 14, 1984, Madrid, España
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