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Apresentado no Simpósio Joyce-Lacan
Dublin-Irlanda, 16 a 19 de junho de 2005

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OS ESCRITOS DE JOYCE NOS "ESCRITOS" DE LACAN

Rachel Rangel Bastos  

 Inúmeros psicanalistas e estudiosos da psicanálise vêm questionando por que Joyce? Muitos têm expressado opiniões e formulado reflexões interessantes e coerentes. Sem embargo cumpliciam-se tais interesses. Transferência de trabalho se estabelece cada vez mais entre psicanalistas e literatos. Freud legara a partir de suas idéias a importância da literatura, considerando-a imprescindível para a psicanálise.

 

            Movida por estímulos desencadeados pela transferência de trabalho, intensifiquei minhas leituras no afã de participar e elaborar um texto para o Simpósio Joyce-Lacan, Dublin /2005.

 

            Em 1975, foi comemorado o Bloomsday em Paris, onde  Jacques Lacan inaugurou o quinto Simpósio Internacional Joyce , na Sorbone. A abertura do evento aconteceu com uma palestra proferida por ele, cujo título dado  foi : “Joyce o Sintoma”. Seus estudos sobre Joyce tiveram continuidade com o Seminário XXIII, “ Lê Sinthome”.

 

A partir das minhas reflexões sobre o assunto em pauta, dei-me conta que o interesse da parte de Lacan por Joyce já datava de 1953 nos Escritos.  Lacan produziu um dos textos mais frutíferos; Função e Campo da Fala e da Linguagem em Psicanálise. De fato este trabalho regala as mais prósperas e fecundas proposições. Quatro anos depois, 1957, publiciza outro texto cujo conteúdo faz referência à letra. A instância da letra. Lá, explicita o que nos apresenta como Real da escrita.

 

Dispus-me refletir algumas questões importantes sobre a implicação literária dos textos de James Joyce e os “Escritos” de Lacan, investigando o modo como tais aproximações incidem na clínica psicanalítica.

 

Joyce joga com a linguagem, pelo seu saber fazer com a palavra, por inventar novos sentidos quando agrega ou desloca letras. Pensar num saber fazer com as letras, equivale a poder conferir o artifício, artifício que faz um artífice, um artista, um literato, um psicanalista. Lidou com pedaços, com a letra.

 

O que os escritores fazem é ensinar a lidar com a letra e Joyce inventou com esses símbolos sem ocupar-se com o sentido, mas apontou  sobretudo  ao não sentido.

 

Ao ler-se a letra escrita, ou melhor, a escriturada, aproxima-se a algo da ordem imaginária a partir da  letra como símbolo, que por sua vez  remete de algum modo ao Real.

 

È esse salto no Real que caracteriza um saber fazer numa análise. E é esse ensinamento que Lacan aponta a partir dos tropeços de Joyce. Aproximar-me do Real pela via da própria letra.

 

Lacan a partir dos escritos de Joyce nos avizinha do que chamamos Real, enodando, Real, Simbólico e Imaginário.

 

Em seus escritos, Joyce de alguma maneira faz com que se pense nos vários problemas, sejam da teoria, sejam da prática psicanalítica e Lacan nos “Escritos”, inequivocamente estimula uma leitura numa abordagem clínica-teórica.

 

Instigada a esse propósito, incluo fragmentos da minha clínica com o intuito de ilustrar e esclarecer meus argumentos.

 

 

                                Fragmento clínico:

 

Em março de 1999 recebi um homem em meu consultório. Ao sentar-se na poltrona à minha frente, comentou: “não sei o quê estou fazendo aqui. Detesto gente gorda. Desculpe, sou muito sincero. Mas é melhor eu dizer logo que não gosto de mulher, muito menos gorda. E completou: só gosto de rapaz.”

 

Meu analisante fora acometido de um “ distúrbio nervoso”, segundo suas palavras. Queixara-se de uma crise desenvolvida após a volta de um período de cinco anos fora do país. Estava de volta ao Brasil. Fora para um país estrangeiro em busca de paz e voltando também não encontrara paz.

 

Repetia insistentemente a falta de paz. Lembrei-me das orientações lacanianas sobre a função e campo da fala e da linguagem.

 

Pontuei: de que paz você está falando? Ele respondeu: “paz com z, é claro! Ou você vai querer dizer que eu estou falando de pais com s? É importante registrar aqui sobre os relatórios médicos impressos e a descrição do próprio analisante, que versam detalhes pessoais no trato à sua história, sobremaneira com relação à perda dos pais.

 

Presenciou a morte da mãe aos cinco anos de idade. Sua mãe era muito gorda e faleceu vítima de ataque cardíaco fulminante, com laudo causa óbito “obesidade”.

 

            A valorização dos fenômenos de linguagem é indubitavelmente o mais fecundo dos ensinamentos psicanalíticos. Portanto, reconhecer as referências clínicas que aqui esboço, representa exaltar a necessidade em refletir e contextualizar a pratica e a teoria psicanalítica.

 

Identifiquei claramente um enveredamento por parte do meu analisante, em novos significantes, através da linguagem. Tratava-se do início de uma travessia, cujo percurso viera do discurso do inconsciente.

 

Veio-me  novamente os Escritos de Lacan,quando revela a função da historicização, considerando a cadeia  dos acontecimentos na vida de cada sujeito.

 

“Os acontecimentos se engendram numa historicização primária, ou seja, a historia já se faz palco em que será encenada depois de escrita, no foro íntimo e foro externo”.                 Lacan, Os Escritos

 

“Mesmo que não comunique nada, o discurso representa a existência da comunicação; mesmo que negue a evidencia, ele afirma que a fala constitui a verdade; mesmo que se destine a enganar, ele especula com a fé no testemunho”.      

Lacan, Os Escritos
 

É  legítimo, por conseguinte, basear interpretações analíticas na história clínica do analisante, portador de tanto sofrimento, e quando pode falar, narrar sua história, resvala por outros significantes, tornando possível fazer intersecção entre o simbólico, o imaginário e o real, estabelecendo um nó borromeoniano, fazendo o Sintoma.                       

Nos “Escritos”, Lacan define sintoma como uma interpretação inexata do sujeito. Tal definição de Lacan justifica a premência com que a psicanálise contemporânea se ocupa incessantemente com o lugar no qual o analista se coloca face ao analisante, no trabalho de buscar, a partir da linguagem, seus significantes e seus desejos.   

No discurso da análise, é preciso dar nomes. Foi o que Lacan fez com Joyce, quando apresenta o seminário XXIII, “Joyce, o Sintoma”. Lacan diz que Joyce é o sintoma em sua essência. Joyce se identifica à linguagem para desfazer a língua. Observa-se então um acordo com a subjetividade que impõe uma báscula de sustentação transferencial, ou seja, uma travessia. 

É nos “Escritos” que Lacan já aponta a importância dos fundamentos subjetivos, que devem ser  investigados em cada história. 

Inspirado por Joyce, Lacan reformulou o próprio conceito de inconsciente. Enfatizando o inconsciente implicado no gozo que se instala numa “arte do entre linhas”.
 

“O inconsciente é o capítulo da minha história que é marcado por um branco ou ocupado por uma mentira: é o capitulo censurado. Mas a verdade pode ser resgatada; na maioria das vezes, já escrita em outro lugar. Qual seja: - nos monumentos , - nos documentos, - na evolução semântica, - nas tradições, - nas lendas, - nos vestígios”.

                                      Lacan, Os Escritos
 

Para finalizar meu escrito reafirmo a relevância das elaborações de Lacan em seus “Escritos”, sobre os “pedaços” escritos de James Joyce.
 

 Intersecção Psicanalítica do Brasil