Inúmeros psicanalistas
e estudiosos da psicanálise vêm questionando por que Joyce? Muitos têm
expressado opiniões e formulado reflexões interessantes e coerentes. Sem
embargo cumpliciam-se tais interesses. Transferência de trabalho se
estabelece cada vez mais entre psicanalistas e literatos. Freud legara a
partir de suas idéias a importância da literatura, considerando-a
imprescindível para a psicanálise.
Movida por
estímulos desencadeados pela transferência de trabalho, intensifiquei
minhas leituras no afã de participar e elaborar um texto para o Simpósio
Joyce-Lacan, Dublin /2005.
Em 1975, foi
comemorado o Bloomsday em Paris, onde Jacques Lacan inaugurou o quinto
Simpósio Internacional Joyce , na Sorbone. A abertura do evento aconteceu
com uma palestra proferida por ele, cujo título dado foi : “Joyce o
Sintoma”. Seus estudos sobre Joyce tiveram continuidade com o Seminário
XXIII, “ Lê Sinthome”.
A partir das minhas
reflexões sobre o assunto em pauta, dei-me conta que o interesse da parte
de Lacan por Joyce já datava de 1953 nos Escritos. Lacan produziu um dos
textos mais frutíferos; Função e Campo da Fala e da Linguagem em
Psicanálise. De fato este trabalho regala as mais prósperas e fecundas
proposições. Quatro anos depois, 1957, publiciza outro texto cujo conteúdo
faz referência à letra. A instância da letra. Lá, explicita o que nos
apresenta como Real da escrita.
Dispus-me refletir
algumas questões importantes sobre a implicação literária dos textos de
James Joyce e os “Escritos” de Lacan, investigando o modo como tais
aproximações incidem na clínica psicanalítica.
Joyce joga com a
linguagem, pelo seu saber fazer com a palavra, por inventar novos sentidos
quando agrega ou desloca letras. Pensar num saber fazer com as letras,
equivale a poder conferir o artifício, artifício que faz um artífice, um
artista, um literato, um psicanalista. Lidou com pedaços, com a letra.
O que os escritores
fazem é ensinar a lidar com a letra e Joyce inventou com esses símbolos
sem ocupar-se com o sentido, mas apontou sobretudo ao não sentido.
Ao ler-se a letra
escrita, ou melhor, a escriturada, aproxima-se a algo da ordem imaginária
a partir da letra como símbolo, que por sua vez remete de algum modo ao
Real.
È esse salto no Real que
caracteriza um saber fazer numa análise. E é esse ensinamento que Lacan
aponta a partir dos tropeços de Joyce. Aproximar-me do Real pela via da
própria letra.
Lacan a partir dos
escritos de Joyce nos avizinha do que chamamos Real, enodando, Real,
Simbólico e Imaginário.
Em seus escritos, Joyce
de alguma maneira faz com que se pense nos vários problemas, sejam da
teoria, sejam da prática psicanalítica e Lacan nos “Escritos”,
inequivocamente estimula uma leitura numa abordagem clínica-teórica.
Instigada a esse
propósito, incluo fragmentos da minha clínica com o intuito de ilustrar e
esclarecer meus argumentos.
Fragmento clínico:
Em março de 1999
recebi um homem em meu consultório. Ao sentar-se na poltrona à minha
frente, comentou: “não sei o quê estou fazendo aqui. Detesto gente gorda.
Desculpe, sou muito sincero. Mas é melhor eu dizer logo que não gosto de
mulher, muito menos gorda. E completou: só gosto de rapaz.”
Meu analisante
fora acometido de um “ distúrbio nervoso”, segundo suas palavras.
Queixara-se de uma crise desenvolvida após a volta de um período de cinco
anos fora do país. Estava de volta ao Brasil. Fora para um país
estrangeiro em busca de paz e voltando também não encontrara paz.
Repetia
insistentemente a falta de paz. Lembrei-me das orientações
lacanianas sobre a função e campo da fala e da linguagem.
Pontuei: de que
paz você está falando? Ele respondeu: “paz com z, é
claro! Ou você vai querer dizer que eu estou falando de pais com
s? É importante registrar aqui sobre os relatórios médicos impressos e
a descrição do próprio analisante, que versam detalhes pessoais no trato à
sua história, sobremaneira com relação à perda dos pais.
Presenciou a morte da
mãe aos cinco anos de idade. Sua mãe era muito gorda e faleceu vítima de
ataque cardíaco fulminante, com laudo causa óbito “obesidade”.
A
valorização dos fenômenos de linguagem é indubitavelmente o mais fecundo
dos ensinamentos psicanalíticos. Portanto, reconhecer as referências
clínicas que aqui esboço, representa exaltar a necessidade em refletir e
contextualizar a pratica e a teoria psicanalítica.
Identifiquei
claramente um enveredamento por parte do meu analisante, em novos
significantes, através da linguagem. Tratava-se do início de uma
travessia, cujo percurso viera do discurso do inconsciente.
Veio-me novamente os
Escritos de Lacan,quando revela a função da historicização, considerando a
cadeia dos acontecimentos na vida de cada sujeito.
“Os acontecimentos se
engendram numa historicização primária, ou seja, a historia já se faz
palco em que será encenada depois de escrita, no foro íntimo e foro
externo”. Lacan, Os Escritos
“Mesmo que não
comunique nada, o discurso representa a existência da comunicação; mesmo
que negue a evidencia, ele afirma que a fala constitui a verdade; mesmo
que se destine a enganar, ele especula com a fé no testemunho”.
Lacan, Os Escritos
É legítimo, por
conseguinte, basear interpretações analíticas na história clínica do
analisante, portador de tanto sofrimento, e quando pode falar, narrar sua
história, resvala por outros significantes, tornando possível fazer
intersecção entre o simbólico, o imaginário e o real, estabelecendo um nó
borromeoniano, fazendo o Sintoma.
Nos “Escritos”,
Lacan define sintoma como uma interpretação inexata do sujeito. Tal
definição de Lacan justifica a premência com que a psicanálise
contemporânea se ocupa incessantemente com o lugar no qual o analista se
coloca face ao analisante, no trabalho de buscar, a partir da linguagem,
seus significantes e seus desejos.
No discurso da
análise, é preciso dar nomes. Foi o que Lacan fez com Joyce, quando
apresenta o seminário XXIII, “Joyce, o Sintoma”. Lacan diz que Joyce é o
sintoma em sua essência. Joyce se identifica à linguagem para desfazer a
língua. Observa-se então um acordo com a subjetividade que impõe uma
báscula de sustentação transferencial, ou seja, uma travessia.
É nos “Escritos” que
Lacan já aponta a importância dos fundamentos subjetivos, que devem ser
investigados em cada história.
Inspirado por
Joyce, Lacan reformulou o próprio conceito de inconsciente. Enfatizando o
inconsciente implicado no gozo que se instala numa “arte do entre linhas”.
“O inconsciente é o
capítulo da minha história que é marcado por um branco ou ocupado por uma
mentira: é o capitulo censurado. Mas a verdade pode ser resgatada; na
maioria das vezes, já escrita em outro lugar. Qual seja: - nos monumentos
, - nos documentos, - na evolução semântica, - nas tradições, - nas
lendas, - nos vestígios”.
Lacan, Os Escritos
Para finalizar meu
escrito reafirmo a relevância das elaborações de Lacan em seus “Escritos”,
sobre os “pedaços” escritos de James Joyce.