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XI Jornada Freud-Lacaniana
02 e 03.12.2005,
Hotel Best Western Manibu,
Recife/PE
 

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“Os trabalhos artísticos não são produtos do inconsciente”
(Pontuações do livro de Collete Soler “A Psicanálise na Civilização”)

Sonia Coelho

 

 Lendo essa afirmativa “Os trabalhos artísticos não são produtos do inconsciente” me perguntei mais uma vez sobre o lugar da arte para o tratamento psicanalítico. Em que o estudo dos escritos de personagens literárias, especialmente a  leitura de Ulisses de James Joyce,tão citado por Lacan em toda a sua obra, nos interessa,especialmente quando diante da ‘estrutura psicótica.Resolvi dialogar com o texto de Soller,e trazer para esta jornada,essas questões.
 

 1.       O que Freud fez com a literatura?
 

 Soller: “nos artistas ele viu seus precursores e nos textos literários a oportunidade de validar o método analítico”... Encontrou na ficção uma antecipação da descoberta do inconsciente....

O neurótico é aquele que parece copiar a fabula ao narrar sua historia-o romance familiar- para dizer que sua fantasia é estruturada como um romance. Entretanto ele entrou na psicanálise aplicada ao tratar do “savoir-faire” do artista como equivalente do que ele próprio chamou de o trabalho do inconsciente, colocando as obras artísticas e literárias no mesmo nível dos sonhos, lapsos, atos falhos e dos sintomas -todos estes interpretáveis.
 

2. E Lacan?Como viu a obra literária?
 

 S. - Lacan inverteu a posição freudiana. O texto escrito não deve ser psicanalizado é o psicanalista que deve ser bem lido.A psicanálise não se aplica à literatura.
 

0 recurso de Lacan à literatura segue estritamente seu recurso à lingüística. Os trabalhos artísticos não são produtos do inconsciente” é bem possível interpretar um romance ou poema- isto é compreendê-lo, porem este sentido não tem nada a ver com a criação do próprio trabalho.
 

 3. Seguindo Lacan, como a literatura pode ser um sintoma?
 

 S “A literatura serve como um veiculo de Gozo, gozo do significado- em outras palavras , do Imaginário”.
 

O sintoma inventa,escolhe, seleciona, o termo singular que não é programado pelo Outro e que fixa o gozo. Neste sentido a criação- a verdadeira criação que produz uma novidade radical- é um sintoma,e o artista criador está sempre sem pai.0 artista é filho de seu trabalho.”
 

 4. Mas se a operação analítica não é uma operação lingüística, como a linguagem opera sobre o sintoma?
 

 S “A questão é saber como o uso literário da linguagem pode ser denominado de um sintoma. A criação literária pode ser um sintoma porque o sintoma é por si só uma invenção. E criar é trazer algo á luz lá onde antes não havia nada, embora nada já implique em um lugar, e não há lugar sem o simbólico e suas marcas, toda marca simbólica engendrando como vazio o lugar que ele cria,. Toda criação supõe que o simbólico suscitou uma falta no Real,onde por definição —nada pode faltar.A criação traz alguma coisa a luz lá onde nada existia,exceto um buraco que não é nada. Este vazio é constatado em todos os níveis da experiência analítica:como falta do sujeito,sendo o efeito inicial da fala,transformar o vivente no sujeito do querer-ser simbolizado por nós pelo- menos-fi- da castração”.
 

5. Qual a afinidade entre psicose e criação artística, notadamente a literária, convocada por Lacan desde sua tese sobre a paranóia de autopunição?
 

 S-”Pode-se conceber que a falha do Simbólico que a foraclusão descobre se traduza, de um lado, em efeitos desorganizadores, designados com o termo “perda da realidade” mas que por outro funcione como um starter para produções inéditas”.Elas nem sempre chegam ao sumo da arte,mas todas são o traço de que a foraclusão libera um efeito que podemos chamar de “empuxo à criação”.
 

6. Como pensar a escrita de Joyce então?
 

 S-“Lacan reconheceu em Joyce aquele que levou esse empuxo até seu limite extremo identificável, até a função do sintoma, uma vez que dá o salto do Simbólico ao Real. Ele foi artesão de si mesmo, tanto de seu nome como de sua saúde, o senhor da letra, demiurgo de uma linguagem sem Outro, de uma arte inteiramente neológica que brilha com a ocultação de um gozo estranho e fora de sentido.”.
 

 7. O que isto quer dizer de forma mais simples?
 

S - Significa que como todo escritor ele goza de escrever, mas que sua escrita preenche a função de sintoma. Ele atinge a um o gozo da letra,fora do sentido,desconectado do Outro e dos efeitos de comunicação.O sintoma implica que ele publique,pois é através disso que de seu sintoma da letra ele faz um nome pelos séculos,assim ele acreditou,corrigindo então a falta do Imaginário pelo qual foi afetado”.
 

 8-Quero entender melhor sobre sintoma versus gozo.
 

  S-“Um sintoma represa, crava o gozo, ao passo que o inconsciente desaloja o gozo. Um sintoma coloca alguma coisa no lugar, um substituto para encarnar o gozo. A noção freudiana de formação de compromisso implica que o sintoma constitua o retomo do Gozo recalcado. Para Lacan no sintoma o significante é assim ligado com algo mais, com o que é manifestado no sofrimento e reside na fantasia encontrando-se transformado. Quando Lacan diz que o significante retoma na experiência da letra, significa que a letra é fora do significado e, portanto Real”.
 

9-Retomo a pergunta para que ler Joyce, em que interessa aos analistas?
 

S-“O que interessa a estes é o limite da ação analítica.... O sintoma de Joyce é um sintoma não analisável; ele é em seu próprio gozo fechado aos efeitos de sentido, ou seja, ele é fora da transferência, e a psicanálise é precisamente uma pratica que opera através do sentido. Ela assume que o sujeito permita a ele próprio ser seduzido e cativado pelo significado, como efeito da articulação significante. A escrita de Joyce é destruidora da linguagem. Ele desfaz os elementos da língua. Não respeita nem o Outro, nem a língua”.
 

10-E por onde passa essa questão de ver psicose na obra de Joyce?Como Lacan fundamentou essa questão?
 

S-São2 pontos diferentes em que ele suspeitou da tal ‘estrutura’ O sintoma literário e o abandono do corpo próprio.. O principal é a sua maneira de tratar a língua até o ponto que realiza o simbólico, isto é, considerando a linguagem como o campo do Simbólico, Joyce o eleva á dignidade do sintoma, á dignidade do Real. O Simbólico que se encontra no Real ou que se torna Real é a definição de psicose segundo Lacan. Em Joyce da expulsão do sentido resta somente um pequeno vestígio: o enigma. Trata-se de um procedimento metódico de foraclusão de sentido.O outro ponto é a relação com o próprio corpo.O sentido esta sempre ligado ao Imaginário do corpo,e a expulsão de sentido faz supor que não há enlace do Imaginário com o Simbólico.Mas o Imaginário é a consistência do corpo e não devemos reduzi-lo ao estádio do espelho,à imagem do corpo.pois tanto no RSI como no Sinthoma,Lacan evoca o corpo em termos de superfícies e de orifícios. Não o evoca em termos de forma mas de saco, o corpo é um saco com orifícios em que objetos vêm desempenhar seu papel eventualmente de tampões o que permite entender que é um Imaginário relacionado com o objeto ‘a’ como consistência corporal.O incorporal da literatura joyceana ocorre porque entre Real e Simbólico trata-se de um gozo que não é do corpo mas da letra.
 

11-E Joyce desabonado do inconsciente, o que significa?
 

S-“O sintoma faz objeção ao sentido comum. O neurótico em seu sintoma esta parcialmente desabonado do seu sentido comum. Quando Lacan disse que Joyce é um desabonado do inconsciente significa que é um desabonado voluntário, diligente e consciente de se-lo. Seus personagens lutam contra o obvio, o sentido comum, o consenso ou acordo. Da às palavras um valor alem do dito no contexto usual.”
 

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Tento concluir
 

Tudo isto na pratica de nossas escutas, como pode ser utilizado?
 

È ponto de acordo entre vários colegas que nas psicoses publicar significa entrar em correlação com o leitor e vale como articular um segundo significante, permitindo a reconstrução de uma cadeia rompida.. Mas na escuta o psicanalista, ocupa-se  também o lugar de leitor?
 

A grande diferença é que nas analises desses pacientes, alem do surto já ter surgido, a transferência presente é um elemento que conta. Lidamos com a tal Verwerfung de fato,ou de sentido como no caso especial de Joyce?.
 

A tese da escuta de apresentação de doentes- defende que o publico faz o segundo significante.Lacan no Seminário do sintoma refere-se ao artesão assim: “S2, aí está o artesão:o artesão enquanto que pela conjunção de dois significantes,ele é capaz de produzir o que agora a pouco chamei de objeto ‘a’ minúsculo.”
 

Gostaria de ouvir quem trabalha com esta ‘estrutura’ e que experiências podem confirmar ou não estas imensas teorias......
 

 

 Intersecção Psicanalítica do Brasil