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Sonia Coelho |
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Lendo essa afirmativa
“Os trabalhos artísticos não são produtos do inconsciente” me perguntei
mais uma vez sobre o lugar da arte para o tratamento psicanalítico. Em que
o estudo dos escritos de personagens literárias, especialmente a leitura
de Ulisses de James Joyce,tão citado por Lacan em toda a sua obra, nos
interessa,especialmente quando diante da ‘estrutura psicótica.Resolvi
dialogar com o texto de Soller,e trazer para esta jornada,essas questões.
1.
O
que Freud fez com a literatura? Soller: “nos artistas ele viu seus precursores e nos textos literários a oportunidade de validar o método analítico”... Encontrou na ficção uma antecipação da descoberta do inconsciente....
O neurótico é aquele que
parece copiar a fabula ao narrar sua historia-o romance familiar- para
dizer que sua fantasia é estruturada como um romance. Entretanto ele
entrou na psicanálise aplicada ao tratar do “savoir-faire” do artista como
equivalente do que ele próprio chamou de o trabalho do inconsciente,
colocando as obras artísticas e literárias no mesmo nível dos
sonhos, lapsos, atos falhos e dos sintomas -todos estes interpretáveis.
2. E Lacan?Como
viu a obra literária?
S. -
Lacan inverteu a posição freudiana. O texto escrito não
deve ser psicanalizado é o psicanalista que deve ser bem lido.A
psicanálise não se aplica à literatura.
0 recurso de Lacan à
literatura segue estritamente seu recurso à lingüística. Os
trabalhos artísticos não são produtos do inconsciente” é bem
possível interpretar um romance ou poema- isto é compreendê-lo, porem este
sentido não tem nada a ver com a criação do próprio trabalho.
3. Seguindo Lacan, como a literatura pode ser um
sintoma?
S “A literatura serve como um veiculo de Gozo, gozo do
significado- em outras palavras , do Imaginário”.
O sintoma inventa,escolhe,
seleciona, o termo singular que não é programado pelo Outro e que
fixa o gozo. Neste sentido a criação- a verdadeira criação que produz uma
novidade radical- é um sintoma,e o artista criador está sempre sem
pai.0 artista é filho de seu trabalho.”
4. Mas se a
operação analítica não é uma operação lingüística, como a linguagem opera
sobre o sintoma?
S “A questão é saber como o uso literário da linguagem pode
ser denominado de um sintoma. A criação literária pode ser
um sintoma porque o sintoma é por si só uma invenção. E
criar é trazer algo á luz lá onde antes não havia nada, embora nada já
implique em um lugar, e não há lugar sem o simbólico e suas marcas, toda
marca simbólica engendrando como vazio o lugar que ele cria,. Toda
criação supõe que o simbólico suscitou uma falta no Real,onde por
definição —nada pode faltar.A criação traz alguma coisa a luz lá
onde nada existia,exceto um buraco que não é nada. Este vazio é constatado
em todos os níveis da experiência analítica:como falta do sujeito,sendo o
efeito inicial da fala,transformar o vivente no sujeito do querer-ser
simbolizado por nós pelo- menos-fi- da castração”.
5. Qual a
afinidade entre psicose e criação artística, notadamente a literária,
convocada por Lacan desde sua tese sobre a paranóia de autopunição?
S-”Pode-se conceber que a falha do Simbólico que a
foraclusão descobre se traduza, de um lado, em efeitos desorganizadores,
designados com o termo “perda da realidade” mas que por outro funcione
como um starter para produções inéditas”.Elas nem sempre chegam ao sumo da
arte,mas todas são o traço de que a foraclusão libera um
efeito que podemos chamar de “empuxo à criação”.
6. Como pensar a escrita de Joyce então?
S-“Lacan reconheceu em Joyce aquele que levou esse empuxo
até seu limite extremo identificável, até a função do sintoma, uma vez que
dá o salto do Simbólico ao Real. Ele foi artesão de si mesmo, tanto de seu
nome como de sua saúde, o senhor da letra, demiurgo de uma linguagem sem
Outro, de uma arte inteiramente neológica que brilha com a ocultação de um
gozo estranho e fora de sentido.”.
7.
O que isto quer dizer de
forma mais simples?
S - Significa que como todo escritor ele goza de escrever, mas
que sua escrita preenche a função de sintoma. Ele atinge a um o gozo da
letra,fora do sentido,desconectado do Outro e dos efeitos de
comunicação.O sintoma implica que ele publique,pois é através disso que de
seu sintoma da letra ele faz um nome pelos séculos,assim ele
acreditou,corrigindo então a falta do Imaginário pelo qual foi afetado”.
8-Quero entender
melhor sobre sintoma versus gozo.
S-“Um sintoma
represa, crava o gozo, ao passo que o inconsciente desaloja o gozo. Um
sintoma coloca alguma coisa no lugar, um substituto para encarnar o gozo.
A noção freudiana de formação de compromisso implica que o sintoma
constitua o retomo do Gozo recalcado. Para Lacan no sintoma o significante
é assim ligado com algo mais, com o que é manifestado no sofrimento e
reside na fantasia encontrando-se transformado. Quando Lacan diz que o
significante retoma na experiência da letra, significa que a letra é fora
do significado e, portanto Real”.
9-Retomo a pergunta para que ler Joyce, em que interessa
aos analistas?
S-“O que interessa a estes é o limite da ação
analítica.... O sintoma de Joyce é um sintoma não analisável; ele
é em seu próprio gozo fechado aos efeitos de sentido, ou
seja, ele é fora da transferência, e a psicanálise é precisamente uma
pratica que opera através do sentido. Ela assume que o sujeito permita a
ele próprio ser seduzido e cativado pelo significado, como efeito da
articulação significante. A escrita de Joyce é destruidora da
linguagem. Ele desfaz os elementos da língua. Não respeita nem o
Outro, nem a língua”.
10-E por onde passa essa questão de ver psicose na obra de Joyce?Como
Lacan fundamentou essa questão?
S-São2 pontos diferentes em que ele suspeitou da tal
‘estrutura’ O sintoma literário e o abandono do corpo próprio.. O
principal é a sua maneira de tratar a língua até o ponto que realiza o
simbólico, isto é, considerando a linguagem como o campo do Simbólico,
Joyce o eleva á dignidade do sintoma, á dignidade do Real. O
Simbólico que se encontra no Real ou que se torna Real é a definição de
psicose segundo Lacan. Em Joyce da expulsão do sentido resta
somente um pequeno vestígio: o enigma. Trata-se de um
procedimento metódico de foraclusão de sentido.O outro ponto
é a relação com o próprio corpo.O sentido esta sempre ligado ao Imaginário
do corpo,e a expulsão de sentido faz supor que não há enlace do Imaginário
com o Simbólico.Mas o Imaginário é a consistência do corpo e não
devemos reduzi-lo ao estádio do espelho,à imagem do corpo.pois tanto no
RSI como no Sinthoma,Lacan evoca o corpo em termos de superfícies e de
orifícios. Não o evoca em termos de forma mas de saco, o
corpo é um saco com orifícios em que objetos vêm desempenhar seu papel
eventualmente de tampões o que permite entender que é um Imaginário
relacionado com o objeto ‘a’ como consistência corporal.O
incorporal da literatura joyceana ocorre porque entre Real e Simbólico
trata-se de um gozo que não é do corpo mas da letra.
11-E Joyce
desabonado do inconsciente, o que significa?
S-“O sintoma faz objeção ao sentido comum. O neurótico em seu
sintoma esta parcialmente desabonado do seu sentido comum.
Quando Lacan disse que Joyce é um desabonado do inconsciente significa que
é um desabonado voluntário, diligente e consciente de se-lo.
Seus personagens lutam contra o obvio, o sentido comum, o consenso ou
acordo. Da às palavras um valor alem do dito no contexto usual.” --------------------------------------------------------------------------
Tento concluir
Tudo isto na pratica de nossas escutas, como pode ser
utilizado?
È ponto de acordo entre
vários colegas que nas psicoses publicar significa entrar em correlação
com o leitor e vale como articular um segundo significante, permitindo a
reconstrução de uma cadeia rompida.. Mas na escuta o psicanalista,
ocupa-se também o lugar de leitor?
A grande diferença é que
nas analises desses pacientes, alem do surto já ter surgido, a
transferência presente é um elemento que conta. Lidamos com a tal
Verwerfung de fato,ou de sentido como no caso especial de Joyce?.
A tese da escuta de
apresentação de doentes- defende que o publico faz o segundo
significante.Lacan no Seminário do sintoma refere-se ao artesão assim: “S2,
aí está o artesão:o artesão enquanto que pela conjunção de dois
significantes,ele é capaz de produzir o que agora a pouco chamei de
objeto ‘a’ minúsculo.”
Gostaria de ouvir quem trabalha com esta ‘estrutura’ e que
experiências podem confirmar ou não estas imensas teorias......
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| Intersecção Psicanalítica do Brasil | |||||||||