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Inicio este
texto citando o Contracanto de Luiz Aragon, para enfatizar
sobremaneira a natureza do próprio em relação à noção de identificação.
Proponho refletir o contraponto entre o eu e o mim, evocando uma
referência singular, a diferença.
O título
deste trabalho, "Uma fábrica de Sonhos", foi inspirado por uma sentença
pronunciada, anunciada e enunciada por uma analisante enquanto narrava um
sonho em sessão.
“O
eu e o mim, uma fábrica de sonhos”.
Contrapontuei comigo
mesma: a análise não seria uma experiência de diferenciação entre o
eu e o mim?
Uma,
fez-me pensar em traço unário.
Fábrica,
fez-me pensar em série, produção.
De,
fez-me pensar em de si mesmo
Sonhos,
fez-me pensar em significantes.
“Uma
fábrica de sonhos”
sugere pensar na relação de um sujeito com seus
significantes. Pensar em relação sujeito/significante indica
pensar em identificação.
Ocorreu-me
produzir um trabalho, cuja articulação teórica envolvesse essas noções
colocadas por Jacques Lacan.
Para
explicitar minhas formulações, exponho posteriormente fragmentos de sonhos
falados em análise, com a finalidade de contextualizá-los no que diz
respeito à identificação.
Sabe-se
sobre a dificuldade que o conceito de identificação nos traz. O próprio
Lacan, já no início do Seminário IX (A identificação, 1961-1962), declara
e torna público o incômodo em lidar com tal conceito. Apropria-se de
leituras filosóficas na intenção de clarificar suas premissas. Contudo,
mais do que valer-se dos enunciados filosóficos a fim de dar um tom mais
claro ou mesmo mais erudito à sua fala, Lacan faz uso dos operadores e
conceitos da Tradição por ter a certeza de não ser possível pensar este
conceito nuclear,o de identificação, sem levar em conta algumas das
principais metáforas históricas construídas sobre este conceito basilar,
bem como o que disso advém.
É neste
intuito que Lacan resgata estas principais metáforas. Das inúmeras
citações de filósofos e de seus sistemas, abarca caminhos. Neste
seminário,de Parmênides a Heidegger postulados são passados a limpo.
Filosofia e
Psicanálise se interceptam. Com o Real, ambas, guardam uma relação de
comum pertença (Zusanmengehörigkeit, a pertencência comum). Pertencem-se e
interceptam-se como tentativas de dizer o indizível, de exaurir o
inexaurível, de identificar o inidentificável. As duas, interpeladas e
entrelaçadas neste seminário, pensam “o significante e seus efeitos”
a partir
e em contraposição ao que no campo da Filosofia se constituiu na fundação
do conceito de idêntico (identidade), algo datado e que o tempo não se
acanhou de canonizar como sendo a medida de todas as coisas do que tange
ao ser do homem.
Disse
Parmênides:
“...
to gar auto noein estin te kai einai.”
ou, “... pois o mesmo é pensar e ser”. E se o mesmo é pensar e ser,
significa que as coisas que são, só o são por serem inteligíveis (por
poderem ser pensadas)
e inteligíveis por meio de um mesmo que daria suporte à existência (o A =
A que Lacan exaustivamente questiona em todo o seminário IX).
Parmênides e
os que o leram matematicamente,
inaugurarão para o mundo o homem a partir de um mesmo, de um idêntico, de
uma essência, de uma potência atualizável que nos destinava como tarefa o
ser igual ao “si mesmo”.
Por mais de
18 séculos este modo de pensar o homem ganhou uma hegemonia incontestada,
de maneira que perdido entre um sistema ou outro o homem vagou amarrado
ocupando uma posição acessória em relação à natureza (na antiguidade), a
Deus (na escolástica), ao ideal humanista de liberdade (modernidade):
sendo que cada um destes sistemas imperava ao homem uma de suas vozes
aniquiladoras, impondo-lhe não mais do que uma forma possível de fazer-se,
compreender-se, tomar-se, identificar-se. Cada homem era, pois, igual a si
e diferente dos demais e sua tarefa não era outra senão a busca e o
assumir este si (eu imaginário). O
homem era a mesmificação do homem.
Em
Psicanálise, o termo identificação fora abordado por Sigmund Freud desde
1895, quando exibiu o caso clínico de uma jovem que tentava ocupar o lugar
de um filho junto ao pai. Naquela época, atendendo a Irma, Freud
dedicava-se em especial aos seus estudos sobre histeria.
Á estas
reflexões interessa o tratamento dado por Freud à identificação, exaltando
em especial a histeria e o sintoma, em seus aprofundamentos sobre sonhos,
no ano de 1900, na construção de “A interpretação dos Sonhos”.
A
formalização do termo identificação para Freud, registra apenas a relação
do sujeito com o objeto. É Lacan quem subverte essa relação,
estabelecendo um novo conceito em que a relação do sujeito vincula-se ao
significante, buscando um traço comum entre os significantes. E o faz a
partir do momento em que pensa o mundo como constituído não de objetos mas
de coisas que significam e que se amarram em cadeia: os significantes.
Vejamos - o
desafio lacaniano, por conseguinte, não visa o mesmo, mas a sua derrocada:
visa abrir o homem às múltiplas possibilidades do seu “si mesmo”. Um mesmo
amarrado e frouxo: metaforicamente amarrado e
metonimicamente frouxo. O que caracteriza a identificação, pois, não é a
atribuição de uma identidade, mas a aproximação do sujeito a uma cadeia
significante (de onde emergiria um sujeito do inconsciente) na qual ele
próprio figura como significante (e como tal... tarefa sempre em aberto,
fala que nunca se inscreve). É nesta marca comum aos significantes que o
sujeito se sustenta.
Neste
ínterim, retomo de passagem as concepções lacanianas sobre identificação,
apontando as articulações procedidas pela tríade: real, simbólico e
imaginário.
Nisso, a
identificação simbólica produz o sujeito do inconsciente. É o signo
traçando a singularidade, mesmo que desencadeie significantes. A
identificação imaginária, por sua vez, determina a estrutura do eu. Logo,
a identificação se revela um processo de formação de nova instância
psíquica.
É mister
salientar que em ambos os casos não se trata de nomear como sendo
“identificação” uma experiência de identificar (mesmificar) algo com sua
essência. Não se trata de restaurar o império do mesmo (para sempre
derrocado) e do idêntico, mas senão o de dar ao sujeito do inconsciente,
por força de sua cisão simbólica, um
divórcio irreversível deste com a natureza, o mundo e as essências. O
sujeito ($) é tarefa sempre aberta e nunca mesma, e a identificação de
significantes não nos trás outra coisa senão a certeza de que esta é uma
identificação de diferenças, diferenças significantes (de significantes
desessenciados e que não arrastam, acorrentados, a si próprios, nenhum
significado).
Inicialmente
Lacan qualifica a identificação a partir do que chamou estado do espelho,
processo inaugural em que o eu era ilustrado, salientado e refletido para
constituir o próprio eu. O eu é antes de tudo a marca da imagem
especular, ou melhor, a marca de uma experiência perceptiva excepcional. É
vendo sua própria imagem que o eu se vê a si próprio, capturado pela visão
da sua própria imagem espelhada. Nesse momento o eu, vendo sua imagem no
espelho, registra uma marca da própria imagem.
Diante do
que se constituiu no grande desafio do filho de vinagreiros (fagocitar
para a Psicanálise o que já fervilhava na antropologia e na filosofia
contemporâneas, a saber, a reviravolta lingüística), arvoro-me a inserir
neste contexto uma fábrica de sonhos como temática possível para ilustrar
e assinalar algo relativo à identificação, seus efeitos e sua superação.
Lacan nos apresenta o
sonho como elemento constitutivo do inconsciente. O sonho enquanto
metáfora vai servir de amarra ao desejo da analisante aqui apresentada.
Deslizaremos nos trilhos de metonímia para tentar entender os
desdobramentos de seus processos identificatórios.
Retomo aqui
uma verdadeira insistência e até mesmo redundância a palavra própria
(em adversidade à mesmidade). É necessário salientar na
propriedade a causa da diferença que Lacan propõe tornar evidente na
noção de identificação, cuja repercussão acontece pela diferença e não
pela igualdade.
Kaufmann nos
esclarece :
“Um caminho possível
da reflexão é função da própria série. Ela institui uma ordem que se
incorpora a cada elemento. Nesse sentido não podemos dizer que os
elementos de uma série do tipo 111111 são absolutamente idênticos, pois
cada um tem lugar único e muito preciso numa cadeia. Mesmo ao repetir o
mesmo, o mesmo ao ser repetido, se inscreve como distinto. Eis porque
Lacan assinala que a essência do significante é a
diferença.”
No Seminário VIII, Lacan
evidencia algo sobre a eficácia do ideal do eu na medida em que ele
intervém na função da transferência. Na experiência clínica psicanalítica
é possível apreender a eficácia do ideal do eu organizado de certo modo no
interior do sujeito.
Lacan escreve: “A
noção de interior é função topológica capital no pensamento analítico, já
que mesmo a introjeção se refere a ela. O campo organizado é considerado
de forma bastante ingênua, na medida em que não se fazem de modo algum
distinções, nessa época, entre o imaginário e o real. Nesse estado de
imprecisão e de indistinção de noções topológicas, somos realmente
forçados a dizer que, grosso modo, devemos representar esse campo de
maneira espacial ou quase espacial, digamos – a coisa não é indicada, mas
é implicada pela maneira como nos falam dela – como uma superfície ou como
um volume, em ambos os casos como uma forma de alguma coisa que, pelo fato
de ser organizada à imagem de outra coisa, apresenta-se como dando seu
suporte e seu fundamento à idéia de identificação. Em suma, trata-se de
uma diferenciação produzida no interior de um certo campo topológico pela
operação particular que se chama identificação.”.
Lacan nos propõe pensar
não apenas no campo topológico, mas, sobretudo, no aspecto econômico. E é
sobre a função econômica que ele se ocupa no seminário seguinte – A
identificação.
A propósito ainda da
referência apenas feita por mim, sobre tal função econômica, esclareço
fazendo uso das próprias palavras de Lacan: “Trata-se
de conceber este campo e sua função econômica de uma maneira que se torne
utilizável tanto em sua função própria de ideal do eu quanto no fato de
que é no lugar desse ideal do eu que o analista será convocado a
funcionar”.
Expostas algumas
reflexões teóricas, transcrevo a seguir a narrativa do sonho de uma
analisante:
“... meus sonhos têm
se repetido. Sábado tive um sonho que emendei com outros sonhos. Acho que
estou descobrindo o meu mim. O eu e o mim. O sentimento que eu tenho era
que os sonhos se mostravam como uma avalanche que saíam de dentro de mim
em série. Uma série de sonhos, mas cada um era um.
(...)
Antes da minha
análise saíam como foguinhos. Agora eles saem em série. Parece uma fábrica
de sonhos.
(...)
Eu consegui
interpreta-los. Sonhei com um monte de duendes. Vários duendes.
Todos iguais. Tantos. Todos vestiam azul. Curioso é que eu sabia
que apesar de todos serem iguais, havia uma diferença em cada um. Cada um
tinha uma florzinha no dente, quase não se via, como se fosse uma
florzinha de confeitar bolo. Tinha um duende que tinha uma florzinha
vermelha no dente. Eu me identificava com ele, na minha essência, no
detalhe, no que há de singular, o vermelho. Meu carro é vermelho. Meu
carro é uma extensão de mim. Poxa! O vermelho!No dente do duende. Sai de
dentro de mim! É sangue! É vida! É parto.”
Dentre as lições que
Lacan preconiza, a de 10 de janeiro de 1962, bem esclarece essa tal de
identificação, segundo ele próprio: um número pode ser representado de
várias maneiras, mesmo que composto por elementos diferentes. É a essa
diferença que Lacan atribui a noção de identificação. Essa noção explicita
portanto a relação entre o sujeito e os significantes. Significantes estes
que constituem uma forma identificatória.
Por fim, dado que quem
escreve se inscreve, repensando o caso a fim de buscar os recortes do que
compuseram este trabalho, ocorreu-me algo em relação a este caso, algo com
o qual encerro esta apresentação.
Disse-me certa feita:
“Acho que estou
descobrindo o meu mim. Antes descobri o meu eu e agora estou descobrindo o
meu mim. Meus sonhos estão parecendo uma fábrica de sonhos.”
Saindo da mesmidade do
idêntico onde se constituem as ilusões do eu nas 1001 faces de suas
armadilhas imaginárias, minha analisante descobriu o seu eu, seu
imperativo categórico de uma busca angustiosa por uma verdade inexistente.
No dente do duende fez sua demanda, assumiu um compromisso com sua neurose
quando descobriu a diferença no “dente do duende”, no “dente doente”, no
“ente doente”. Assumindo-se um ente doente, marcada na diferença. No
“dente do duende” residia a diferença, a diferença do que até então havia
sido desejado e determinado para a sua vida e que a partir disso começaria
a ser assumido por ela como sujeita, como autora.
Em “A Instância da
Letra” Lacan não se cansa de exortar o tempo contra as “armadilhas do amor
próprio”, contra o que se esconde sobre as certezas imaginárias de se
saber senhor de si e dono de uma marca essencial, de um significante que
emperrou em sua marcha prospectiva rumo ao que não pode deixar de sempre
rumar.
Esta analisante, ao
contrário disso, encontrou uma possibilidade de pôr-se sempre em marcha.
Sua fábrica fabricava, e fabricava em série no sentido de que todos os
sonhos eram seus e ela os assumia. Assumia a todos e a cada um em sua
força aterradoramente reveladora que a empurrava mais para adiante. Eram,
portanto feitos em série porque levavam seu traço e ela não os negava. No
entanto, eram também distintos, ricamente distintos. Sua fábrica era
fáb-RICA, era uma RICA produção de significantes que a colocaram no seu
lugar de sujeito.
Nesta diferença ela
encontrou a RICA-eza e a dignidade de uma vida de diferenças, de uma vida
pronta para as adversidades, de uma vida aberta à tarefa de ser.
Mesmo
numa fáb-RICA de sonhos, cada Um sonho resguarda suas diferenças e
significações próprias.
Rachel Rangel Bastos
rachelrangel@oi.com.br
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B. A Historia da Identidade ou A Essência da Identificação: um
Significante Desessenciado. Trabalho apresentado na Jornada de IPB
sobre identificação ocorrida em 17 de marco de 2006 – (Recife- PE)
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