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O interlocutor deve estar pensando ao que
remete esse trabalho com um título cujo significado pode ter inúmeras
interpretações. Mas pretendo apenas restringi-lo a uma simples reflexão
sobre a questão identificatória numa perspectiva psicanalítica. Quando
enfatizo uma possível simplificação, preocupo-me destacar a necessidade de
fazer valer um corte epistemológico, para não me perder na multiplicidade
conceitual tão bem elaborada por Lacan ao longo do Seminário IX (A
Identificação).
É curiosa a forma como Lacan articula suas
proposições nos seminários por ele dirigidos nos anos de 1961/1962. Passa
da filosofia à matemática como se as diferentes disciplinas preservassem
suas aproximações. Ele nos esclarece como isso se faz pertinente. Desde
que, se possa refletir cada uma delas a partir de uma
determinada lógica.
Ao formular o parágrafo anterior, distingo
a lógica como podendo ser amplificada em várias lógicas. E é exatamente
disso que nos fala Jacques Lacan. No mínimo duas lógicas. Uma lógica
formal e uma lógica, por ele chamada, simbólica. A função simbólica na
identificação deve ser propriamente a relação do sujeito com o
significante.
O
que Lacan nos diz sobre lógica formal e lógica simbólica?
Comprometo-me dar continuidade a essa
reflexão num estudo vindouro de título: É possível pensar numa lógica do
Real? Ora permito-me apenas perpassar por rasos questionamentos.
Em
um dos seus seminários (19-2-1974) - Lacan destaca: “Se Aristóteles não
tivesse começado (a lógica), ela não estaria ali. Então chego e digo: é o
saber do Real.” Leio aí, Lacan nos falando de uma outra lógica, a lógica
simbólica. Entretanto ressoa aos meus ouvidos,
uma terceira lógica. Uma lógica do Real.
E existe uma lógica do Real? Se existe ou
inexiste de modo formalizado uma lógica do Real, não é a questão
momentânea deste trabalho. A questão é que uma vez que Lacan bipartiu a
lógica, ouso triparti-la. E segundo os seus próprios ensinamentos, essa
lógica do Real, poderia muito bem ser chamada de uma lógica que
transcende a qualquer lógica objetiva e caminha em direção a não mais um
símbolo, mas ao que Lacan denomina de rastro, de traço, de traço unário. A
propriedade a cada um fazendo um registro da diferença,
instituindo uma inscrição.
Explicitarei melhor meus argumentos,
fazendo uso da minha própria experiência analítica, sem desprezar os
pronunciamentos lacanianos.
A exemplo:
Lendo um artigo de autoria de Luiz Felipe
Pondé, especial para a folha de São Paulo, cujo título é, “ O discurso de
Deus”, chamou-me atenção uma peculiaridade em seu depoimento. Pondé chama
o Discurso de Deus de “discurso da incompreensão”. Seria o discurso da
incompreensão algo que se aproxima da lógica simbólica? Ou da lógica que
agora estou atribuindo ao Real. Real que vem marcar uma diferença?
O que pretendo neste trabalho é discutir
a lógica, num contexto processual identificatório, onde cada coisa
tem um nome e cada nome é (de uma maneira ou de outro ) engajado numa
lógica tripartida, em Real, Simbólica e Imaginária.
Em primeiro lugar, falemos sobre a lógica
formal. Entendo-a como uma vizinhança para com a instância imaginária.
Donde se remete a uma forma, a um signo. Forma esta intermediadora da
produção de uma imagem.
É para explicar melhor essa possibilidade
que Lacan recorre aos algoritmos e até confecciona matemas para elucidar o
rastro, a marca, o próprio, o que identifica fazendo a diferença, a
produção, o significante.
“... e que é no objeto do desejo que
imprimi a marca significante, legitimando a relação do objeto do desejo
com o Outro”. Lacan, lição 22/10/1961.
Em segundo lugar falemos da lógica
simbólica, momento em que o mais importante é poder aproximar as
possibilidades à relação significante.
“... o que quero dizer é que, para nós,
analistas, o que entendemos por identificação, naquilo que há de concreto
em nossa experiência referente à identificação, é uma identificação de
significante”. Lacan, lição 22/10/1961.
Então, em terceiro lugar, arvoro-me
circular em torno de uma lógica do Real.
Do pouco que posso compreender sobre esses
conceitos aparentemente incompreensíveis, diria que a lógica do real
estaria enodada ao significante e ao significado (enquanto signo) ao mesmo
tempo. Mas onde esse enodamento circunda um sentido sem sentido. E que ao
mesmo tempo em que se inscreve não cessa de se inscrever.
E para não perder o contato com Deus, peço
auxilio aos escritos bíblicos do apóstolo Paulo na carta que fez aos
irmãos de Coríntios, quando prega:
20: DEUS DIZ:"EU DESTRUIREI TODOS OS
PLANOS HUMANOS DE SALVAÇÃO, NÃO IMPORTA QUÃO SÁBIOS ELES PAREÇAM, E
IGNORAREI AS MELHORES IDÉIAS DOS HOMENS, ATÉ As mais brilhantes!"
25: PORQUE A loucura de Deus é mais sábia
que os HOMENS e a fraqueza de Deus é mais forte do que os
homens...(......)...porque a sabedoria dos sábios é loucura para DEUS.
Para prosseguir com minhas idéias, convido
à assertiva que percebo fabulosa de Luiz Ponde: “Ingênuos os que crêem que
o a priori da linguagem seria a comunicação. Ela é, na melhor das
hipóteses clinicas, o espaço da Neurose: nela o horror indiferente da
Coisa sem nome esculpe mortalmente essa agonia”.
Quando se fala por palavras, a palavra não
é nossa. Não sabemos, ou pelo menos não sabemos que sabemos.
A palavra não se identifica ao poder da posse. Posse da palavra. Mas, a
possibilidade de ir em busca de um sentido e não do sentido. Só há um
sentido para cada um. É esse o investimento lacaniano em
todo seminário IX. O sentido não tem sentido. Mas em cada sentido há
um sentido, sentido este produzido a partir do nome. É o nome que
pode dar um sentido. Sentido às coisas. E a partir desse dar nome, é que
se abre uma possibilidade de aproximação à cadeia significante. Cadeia
esta inacessível, salvo a partir de uma expressão que pode denunciar um
desejo, ou melhor dizendo, permitir o aparecimento do objeto de desejo.
É na busca desse objeto, objeto do desejo,
que Lacan em sua obra sugere uma nova lógica. Lógica que permite uma
circulação e um enveredamento pela cadeia significante de cada
sujeito.
Voltemos à sentença chistosa e, portanto
denunciativa do seu caráter subjetivo.
Graças a Deus não comi meu pai.
Escutei essa frase faz muitos anos.
Poderia passar aqui horas elucubrando e redigindo sobre esse dito, mas
talvez tivéssemos a necessidade de anos para investigar sobre o não dito.
Tudo para dizer; tantos são os significantes e seus desdobramentos nesta
frase! Desdobramentos dos significantes neste discurso. Discurso do
desejo. Desejo que representa uma falta.
“Isso não é nada mais do que o signo
impossível de se apagar, pelo fato de que o objeto do desejo constitui-se
apenas na relação com o Outro, enquanto ele próprio se origina do valor do
traço unário”. Lacan. (lição 28/março/1962)
Para não fugir ao costumeiro de um dos meus
objetos de desejo; a clinica, reporto-me a fragmentos da fala do rapaz que
dissera:
“Eu
queria ser meu pai, ser igual a ele. (...) Será que eu queria mesmo ser
como ele? (...) Às vezes eu acho que eu queria ter meu pai. (...) Como
seria ter meu pai? (...) Mas ter meu pai seria ter sexo. Ter sexo com meu
pai? Come-lo? Comer meu pai? Como posso estar falando disso? Meu pai sabe
beijar, sabe tocar, sabe pegar, sabe comer bem”.
Meu analisante riu e prosseguiu seu
discurso.
“A família do meu pai é muito fria.
Ninguém sabe tocar. Só meu pai. Ele aprendeu a tocar com minha mãe
e com a família dela. Eu vi isso num filme. Você já viu o filme “ A
Poderosa”? Eu vi, e parecia estar vendo a família do meu pai. Eu vi nele a
família do meu pai. Que gelo! Uma rigidez. Isso passou de geração
para geração. Eles não querem afagos, eles não querem carinhos. As
pessoas da família do meu pai, não sabem dar nem receber.”
O que significa para esse rapaz comer o
pai? Ter o pai? Tocar o pai?
Não se saberá jamais. Cada um é cada um.
E cada um só sabe de si mesmo, (sendo esse si mesmo, o próprio)
se é que sabe ou sabe que não sabe. Mas pelo menos se abre uma
possibilidade de nomear e em nomeando, diferenciar e em diferenciando,
identificar.
Identificação é diferença, e a diferença
só se dá a partir dos nomes, do nome do pai. Nome do pai que
rodopia numa relação amorosa com a mãe e então se estabelece uma “relação
sexual ” ( pulsional ), numa relação de no mínimo três. E nesse
endereçamento entre a e o A, entre um outro e o Outro, é
onde pode surgir um Outro. Por isso para Lacan, e por que não dizer para a
psicanálise, a cada Coisa, a cada sujeito, a cada objeto e cada desejo é
preciso ser dado um nome. E a cada nome uns nomes do pai, em nome do pai.
Graças a Deus, meu analisante vem dizendo
que graças a Deus não comeu o pai, nem a mãe. Além de falar repetidamente
“quero trepar com você ”. Conseguiu a partir da sua própria
análise, fazer um contato com ele próprio e poder supor saber, que
cada um pode desejar, comer, bipartir e até mesmo tripartir.
“Gostaria
de trepar com você ” ... “ Não exagero nada, vocês vão ver ”.
Lacan, lição de 24/01/1961: 137
BIBLIOGRAFIA:
LACAN, Jacques. Seminário I (1953/1954) –
Os Escritos Técnicos de Freud. Jorge Zahar Editor
LACAN, Jacques. Seminário IV (1956/1957) –
A Relação de Objeto. Jorge Zahar Editor
LACAN, Jacques. Seminário VIII (1960/1961)
– A Transferência. Jorge Zahar Editor
LACAN, Jacques. Seminário IX (1961/1962) –
A Identificação.
Publicação do Centro de Estudos Freudianos
do Recife (2003)
NASIO, Juan. Os 7 Conceitos Cruciais da
Psicanálise. Jorge Zahar Editor (1991)
KAUFMANN, Pierre. Dicionário Enciclopédico
de Psicanálise. Jorge Zahar Editor (1995)
CAMPOS, Dulce. Identificação e Identidade.
Ed. CEPE – UBE (2002)
CHEMAMA, Roland. Dicionário de Psicanálise.
Editora Artes Médicas. (1996)
BÍBLIA SAGRADA 1975
: IMPRENSA BÍBLICA BRASILEIRA
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