|
“A
identificação, este é meu título e meu assunto deste ano.
É um bom título, mas não é um assunto cômodo.”
(Jacques Lacan).
Em acordo com a assertiva acima transcrita inicio este
breve escrito sobre identificação.
Identiferenciação. É o meu título. Parece-me um bom título,
entretanto não um assunto muito cômodo.
Pretendo neste trabalho instigar reflexões e possíveis
debates a cerca deste tema. Tema este que o próprio Lacan, (exímio
teórico, cujos pressupostos vêm norteando nossos estudos) anuncia, a
priori, como conteúdo não muito fácil.
Mesmo assim ouso desenvolver um texto a partir do
neologismo criado pelo nosso grupo de estudos e por mim eleito.
Parece-me pertinente a conjuminância entre identificação e
diferenciação.
O Seminário IX é denso. Traz em seu corpo inferências
permanentes, sejam da filosofia, da mitologia, mas em especial, da
matemática. É a álgebra o alicerce para referenciar as explicações sobre
como um objeto pode ser idêntico (A = A), ou ainda diferente (A ≠ A). (1
= 1) ou (1 ≠ 1). (Palas = Palas) (2) ou (Palas ≠ Palas).
Lacan subverte a equação matemática e produz o que chama
significância. A primazia do significante.
Ainda no início do volume de numero nove da sua obra,
Lacan convoca a si mesmo, seus próprios seminários
anteriores para acrescentar elucidações eminentes. Lembremos a ênfase dada
por ele aos seminários sobre à Ética e à Transferência. Este último
antecede a Identificação.
.
As referencias feitas por Lacan ao Seminário VII,
direcionam-se à ética. Ética enquanto questão não moral, amoral e sim a
uma ética que implica o sujeito, na relação deste sujeito com o objeto. A
posteriori, enlaça a Transferência com a Identificação.
Sob essa ótica, Lacan envolve outra forma relacional.
Objeto x Significante. Para ele o importante na identificação deve ser a
relação do sujeito com o significante.
Arvoro-me então ilustrar com exemplos da minha clínica o
que apenas argumentei. Acreditando fazer pares com os ícones da
psicanálise, quando assim como Lacan, fez de modo marcante e
decisivo, relatos recorrentes da sua clínica.
Chamarei meu analisante: José.
José chegou a mim com queixas de angustia e muito medo. Sua
mãe fora acometida de crise “psicótica” e internada num manicômio. Na
primeira sessão diz andar com o coração na mão. Ele chega à segunda sessão
e pergunta (sentado na poltrona), quando vai para o manicômio? Apontando
para o divã. Com o braço indiquei o sentido do divã e sugeri deitar-se.
Ele imediatamente toma a palavra e diz: “Eu só vou para o divã quando
contar meu primeiro sonho após o inicio da minha análise”.
Então vamos lá. Conte seu primeiro sonho.
“Eu sonhei com meu coração nas mãos. Era mesmo meu coração.
Próprio ele. É verdade. Verdade verdadeira. Eu trazia meu coração para
você de presente”. (José)
Chamou-me atenção o fato dele gesticular como se o coração
estivesse naquele momento em suas mãos, mãos que faziam menção transferir
aquele objeto para um sujeito. Percebi que ali se instalará uma
identiferenciação. Presentificava-se um processo identificatório
diferenciado. O objeto que parecia estar ali, não estava. Algo que ia e
vinha, aparecia e desaparecia, basculando em busca de um objeto.
Transpareceu o desejo. Desejo de busca. Busca que denotava uma falta.
Falta que não se cessa de se inscrever.
Retomo Lacan em seus ensinamentos categorizando: “são as
ocorrências clínicas, a forma possível de ser estabelecida a
transferência”. Complemento essa premissa me posicionando. A transferência
está passível à identificação.
“Falarei exatamente da identificação mesma. Para
precisar logo o que entendo por isso, direi que, quando se fala de
identificação, o que se pensa primeiro é no outro a quem nos
identificamos, e que a porta me é facilmente aberta para enfatizar, para
insistir sobre essa diferença entre o outro e o Outro. Entre o pequeno
outro e o grande Outro”. (Lacan)
O Outro não é um sujeito, o Outro é sim um suposto sujeito.
Sujeito suposto saber. É no Outro que é depositado os restos da suposição
do saber. É nesse confronto com o outro que se revela o saber. O
conhecimento teórico pode não passar de um acumulo de informações,
necessários para uma formação, é claro. Mas, o que a psicanálise exige é
uma implicação relacional. Relação essa que denuncia uma transferência,
uma identificação.
Para continuar minhas elaborações teóricas, convoco mais
uma vez Lacan.
“O que quero dizer é que, para nós analistas, o que
entendemos por identificação, porque é isto que encontramos na
identificação, naquilo que há de concreto em nossa experiência referente à
identificação, é uma identificação de significante”. (Pg.23 Seminário
IX).
Seguindo esses princípios, constatamos uma aproximação do
significante com o sujeito. Concepção esta que explicita a possibilidade
do sujeito surgir no lugar do significante. Ou seja, o sujeito sendo o
próprio significante.
A identificação não é apenas o um. Ele pode ser um um. Não
se trata de um Traço único, mas do que é cada traço unário.
Para caracterizar essa diferença, Lacan insere a
importância da estrutura da linguagem. É o dar nomes que veicula o
sujeito à sua cadeia significante e, conseqüentemente à relação do sujeito
com o verbo.
É o verbo a palavra que firma portanto os laços
identificatórios. A identificação é então para a psicanálise algo que
podemos nomear, como identiferenciação? Parece-me procedente, uma vez que
os processos identificatórios se relacionam face ao ser falante.
Lembrar mais uma vez Lacan, se faz necessário. Ele diz:
“isto, para moderar, ou mais exatamente, para estabelecer o sentido da
questão que coloco, no que diz respeito às relações da fala (porole) com a
linguagem, destina-se à introduzir o que tentarei distinguir para vocês,
referente ao que especifica uma linguagem como tal, a língua (langue)”.
Em seguida nos é apresentado a relevância da função da
identificação. A função reside no conceber-se a si mesmo e não em ser o
mesmo.
Reconhecer esse em si mesmo, representa tornar possível só
existir na linguagem e graças à linguagem, podendo-se assim considerar
que A pode ser igual a A (A=A) e ou, A pode ser diferente de A ( A≠A).
Ilustro essa possibilidade com duas produções
inventadas por mim, as quais denominei Palas, Palas1. Onde podemos
verificar uma verdade, mas não uma verdade verdadeira, que Palas=Palas1 e
Palas≠Palas1. Palas1=Palas2, Palas1≠Palas2 e uma série de combinatórias
entre si mesmas.
Palas
Palas
1
No capitulo 4 do seminário 9, Lacan retoma a noção do um.
Destaca a noção do um como sendo o problema da identificação. Por quê?
Porque ressalta o enfoque subjetivo da perspectiva psicanalítica. A
subjetividade, ou ainda, e experiência subjetiva.
Na experiência subjetiva, melhor dizendo, na experiência
analítica A pode ser diferente (≠) de A. A igual a (=) A não passa de uma
crença. Quando o homem não dispunha de A, A não era nada. O homem nomeou
A, logo, há a possibilidade de A ser diferente de A.
“É justamente desse nada que vai se tratar, porque
é esse nada que tem valor positivo para dizer o que isso significa”.
(Lacan).
Então, aqui introduzo o fragmento clínico de Jose, sobre
aquele coração, que está, mas não está, aparece e desaparece, é e não é.
Esse vai e vem infindável. Vai e vem que Freud chamou; Fort-da. Freud pode
perceber o gesto inaugural no jogo, jogo que expressa um desejo.
A partir desse jogo inaugural, Lacan nos aproxima dos
segredos da identificação. Cita o jogo de ping-pong. Vai e vem. Então
nesses segredos da identificação, o que aparece e desaparece, parece ou
não parece, existe. Existe no Real, onde o crédito é uma função.Uma
identidade com duas aparições, no entanto bem diferentes.
Deduzimos naturalmente que aparece uma função. Função de A
em A. O valor significante como tal. Logo, o que aparece e ou desaparece é
justamente o significante.
A experiência subjetiva nos mostra, portanto, diferentes
ângulos e diferentes modos nas combinatórias assujeitadas pelos símbolos
e imagens.
Um signo difere de um significante, pois os significantes
não manifestam senão a presença da diferença como tal e nada mais.
Se considerarmos a primazia para o significado, A=A.
Se a primazia valorativa for o significante A≠A.
“O
significante, ao contrário do signo, não é o que representa alguma coisa
para alguém, é o que representa,
precisamente, o sujeito para outro
significante”. (Lacan).
Sabemos que é no nível do particular (singular) que surge o
que para nós é função universal. A função da identificação se passa
essencialmente no nível da estrutura.
Esse ordenamento estrutural, se assim podemos dizer,
permite entrar em jogo a tríade do símbolo, do imaginário e do real. É
exatamente com a entrada desse terceiro elemento que se organiza essa
cadeia significante, onde o sujeito é implicado como sujeito desejante.
“Digo que é enquanto o que está recalcado é o
significante, que o ciclo de comportamento real se apresenta em seu
lugar”. (Lacan)
Convidaria ainda Gerard Pommier, para aqui debatermos, com
seu “Ensaio sobre a transferência em psicanálise”, virando o amor pelo
avesso, amor de transferência, confabulando as diferenças atravessadas ou
transferenciadas na quadradura da identiferenciação.
1-Neologismo inventado pelo
Grupo de Estudos sobre Seminário IX – (A Identificação) 1961 -1962.
Participantes: Arlete Lourenço, Gina Andrade, Rossane
Wanderley, Rachel Rangel Bastos e Tereza Cunha.
2 – Palas. Nome dado às
fotogravuras por mim produzidas e apresentadas para ilustrar meu texto;
Identiferenciação
___________________________________________________________
Bibliografia:
LACAN, Jacques. Seminário VII (1959/1960) – A Ética da
Psicanálise
LACAN, Jacques. Seminário VIII (1960/1961) – A
Transferência. Jorge Zahar Editor
LACAN, Jacques. Seminário IX (1961/1962) – A Identificação.
Jorge Zahar Editor
MEDEIROS,Amélia. Inventar-se Analista. Publicação do Centro
de Estudos Freudianos do Recife (2003)
POMMIER, Gerard. O Amor pelo Avesso – Companhia de Freud
Editora - 1998
NASIO, Juan. Os 7 Conceitos Cruciais da Psicanálise. Jorge
Zahar Editor (1991)
KAUFMANN,Pierre.Dicionário Enciclopédico de
Psicanálise.Jorge Zahar Editor(1995)
|