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Identiferenciação (1)

Rachel Rangel Bastos

 

 

                                                                     “A identificação, este é meu título e meu assunto deste ano.
 É um bom título, mas não é um assunto cômodo
.”                 
(Jacques Lacan).

 

  

 

Em acordo com a assertiva acima transcrita inicio este breve escrito sobre iden­tificação.

 

Identiferenciação. É o meu título. Parece-me um bom título, entretanto não um assunto muito cômodo.

 

Pretendo neste trabalho instigar reflexões e possíveis debates a cerca deste tema. Tema este que o próprio Lacan, (exímio teórico, cujos pressupostos vêm norteando nossos estudos) anuncia, a priori, como conteúdo não muito fácil.

 

Mesmo assim ouso desenvolver um texto a partir do neologismo criado pelo nosso grupo de estudos e por mim eleito.

 

Parece-me pertinente a conjuminância entre identificação e diferenciação.

 

Sabemos que fora a noção de diferença, o suporte semântico para o conceito lacaniano de identificação.

 

O Seminário IX é denso. Traz em seu corpo inferências permanentes, sejam da filosofia, da mitologia, mas em especial, da matemática. É a álgebra o alicerce para refe­renciar as explicações sobre como um objeto pode ser idêntico (A = A), ou ainda dife­rente (A ≠ A). (1 = 1) ou (1 ≠ 1). (Palas = Palas) (2) ou (Palas ≠ Palas).

 

Lacan subverte a equação matemática e produz o que chama significância.  A primazia do significante.

 

 Ainda no início do volume de numero nove da sua obra, Lacan convoca a si mesmo, seus próprios seminários anteriores para acrescentar elucidações eminentes. Lembremos a ênfase dada por ele aos seminários sobre à Ética e à Transferência. Este último antecede a Identificação.

.

As referencias feitas por Lacan ao Seminário VII, direcionam-se à ética. Ética enquanto questão não moral, amoral e sim a uma ética que implica o sujeito, na relação deste sujeito com o objeto. A posteriori, enlaça a Transferência com a Identificação.

 

Sob essa ótica, Lacan envolve outra forma relacional. Objeto x Significante. Para ele o importante na identificação deve ser a relação do sujeito com o significante.

 

Arvoro-me então ilustrar com exemplos da minha clínica o que apenas argu­mentei. Acreditando fazer pares com os ícones da psicanálise, quando assim como     La­can, fez de modo marcante e decisivo, relatos recorrentes da sua clínica.

 

Chamarei meu analisante: José.

 

José chegou a mim com queixas de angustia e muito medo. Sua mãe fora aco­metida de crise “psicótica” e internada num manicômio. Na primeira sessão diz andar com o coração na mão. Ele chega à segunda sessão e pergunta (sentado na poltrona), quando vai para o manicômio? Apontando para o divã.  Com o braço indiquei o sentido do divã e sugeri deitar-se. Ele imediatamente toma a palavra e diz: “Eu só vou para o divã quando contar meu primeiro sonho após o inicio da minha análise”.

 

Então vamos lá. Conte seu primeiro sonho.

 

“Eu sonhei com meu coração nas mãos. Era mesmo meu coração. Próprio ele. É verdade. Verdade verdadeira. Eu trazia meu coração para você de presente”. (José)

 

Chamou-me atenção o fato dele gesticular como se o coração estivesse naquele momento em suas mãos, mãos que faziam menção transferir aquele objeto para um su­jeito. Percebi que ali se instalará uma identiferenciação. Presentificava-se um processo identificatório diferenciado. O objeto que parecia estar ali, não estava. Algo que ia e vinha, aparecia e desaparecia, basculando em busca de um objeto. Transpareceu o de­sejo. Desejo de busca. Busca que denotava uma falta. Falta que não se cessa de se ins­crever.

 

Retomo Lacan em seus ensinamentos categorizando: “são as ocorrências clíni­cas, a forma possível de ser estabelecida a transferência”. Complemento essa premissa me posicionando. A transferência está passível à identificação.

 

“Falarei exatamente da identificação mesma. Para precisar logo o que entendo por isso, direi que, quando se fala de identificação, o que se pensa primeiro é no outro a quem nos identificamos, e que a porta me é facilmente aberta para enfatizar, para insistir sobre essa diferença entre o outro e o Outro. Entre o pequeno outro e o grande Outro”.  (Lacan)

 

 

O Outro não é um sujeito, o Outro é sim um suposto sujeito. Sujeito suposto sa­ber. É no Outro que é depositado os restos da suposição do saber. É nesse confronto com o outro que se revela o saber. O conhecimento teórico pode não passar de um acu­mulo de informações, necessários para uma formação, é claro. Mas, o que a psicanálise exige é uma implicação relacional. Relação essa que denuncia uma transferência, uma identificação.

 

Para continuar minhas elaborações teóricas, convoco mais uma vez Lacan.

 

 “O que quero dizer é que, para nós analistas, o que entendemos por identificação, porque é isto que encontramos na identificação, naquilo que há de concreto em nossa experiência referente à identificação, é uma identificação de significante”. (Pg.23 Seminário IX).

 

Seguindo esses princípios, constatamos uma aproximação do significante com o sujeito. Concepção esta que explicita a possibilidade do sujeito surgir no lugar do signi­ficante. Ou seja, o sujeito sendo o próprio significante.

 

A identificação não é apenas o um. Ele pode ser um um. Não se trata de um Traço único, mas do que é cada traço unário.

 

Para caracterizar essa diferença, Lacan insere a importância da estrutura da lingua­gem. É o dar nomes que veicula o sujeito à sua cadeia significante e, conseqüentemente à relação do sujeito com o verbo.

 

É o verbo a palavra que firma portanto os laços identificatórios. A identificação é então para a psicanálise algo que podemos nomear, como identiferenciação? Parece-me procedente, uma vez que os processos identificatórios se relacionam face ao ser fa­lante.

 

Lembrar mais uma vez Lacan, se faz necessário. Ele diz: “isto, para moderar, ou mais exatamente, para estabelecer o sentido da questão que coloco, no que diz respeito às relações da fala (porole) com a linguagem, destina-se à introduzir o que tentarei dis­tinguir para vocês, referente ao que especifica uma linguagem como tal, a língua (lan­gue)”.

 

Em seguida nos é apresentado a relevância da função da identificação. A função reside no conceber-se a si mesmo e não em ser o mesmo.

 

Reconhecer esse em si mesmo, representa tornar possível só existir na lingua­gem e graças à linguagem, podendo-se assim considerar que A pode ser igual a A (A=A)  e ou,  A pode ser diferente de A ( A≠A).

 

 Ilustro essa possibilidade com duas produções inventadas por mim, as quais denomi­nei Palas, Palas1. Onde podemos verificar uma verdade, mas não uma verdade verdadeira, que Palas=Palas1 e  Palas≠Palas1. Palas1=Palas2, Palas1≠Palas2 e uma série de combinatórias entre si mesmas.

 

 

                                      

 

                           Palas                                                                        Palas 1

 

 

 No capitulo 4 do seminário 9, Lacan retoma a noção do um. Destaca a noção do um como sendo o problema da identificação. Por quê? Porque ressalta o enfo­que subjetivo da perspectiva psicanalítica. A subjetividade, ou ainda, e experiência subjetiva.

 

Na experiência subjetiva, melhor dizendo, na experiência analítica A pode ser diferente (≠) de A. A igual a (=) A não passa de uma crença. Quando o ho­mem não dispunha de A, A não era nada. O homem nomeou A, logo, há a possibilidade de A ser diferente de A.

 

 “É justamente desse nada que vai se tratar, porque é esse nada que tem valor positivo para dizer o que isso significa”. (Lacan).

 

Então, aqui introduzo o fragmento clínico de Jose, sobre aquele coração, que está, mas não está, aparece e desaparece, é e não é. Esse vai e vem infindável. Vai e vem que Freud chamou; Fort-da. Freud pode perceber o gesto inaugural no jogo, jogo que expressa um desejo.

 

A partir desse jogo inaugural, Lacan nos aproxima dos segredos da identificação. Cita o jogo de ping-pong. Vai e vem. Então nesses segredos da identificação, o que apa­rece e desaparece, parece ou não parece, existe. Existe no Real, onde o crédito é uma função.Uma identidade com duas aparições, no entanto bem diferentes.

 

Deduzimos naturalmente que aparece uma função. Função de A em A. O valor significante como tal. Logo, o que aparece e ou desaparece é justamente o significante.

 

A experiência subjetiva nos mostra, portanto, diferentes ângulos e diferentes mo­dos nas combinatórias assujeitadas pelos símbolos e imagens.

 

Um signo difere de um significante, pois os significantes não manifestam senão a presença da diferença como tal e nada mais.

 

 Se considerarmos a primazia para o significado, A=A. Se a primazia valorativa for o significante A≠A.

   

                                                “O significante, ao contrário do signo, não é o que repre­senta alguma coisa
                                                para alguém, é o que representa
,
pre­cisamente, o sujeito para outro
                                                 significante”. (Lacan).

 

Sabemos que é no nível do particular (singular) que surge o que para nós é fun­ção universal. A função da identificação se passa essencialmente no nível da estrutura.

 

Esse ordenamento estrutural, se assim podemos dizer, permite entrar em jogo a tríade do símbolo, do imaginário e do real. É exatamente com a entrada desse terceiro elemento que se organiza essa cadeia significante, onde o sujeito é implicado como su­jeito desejante.

 

 “Digo que é enquanto o que está recalcado é o significante, que o ciclo de com­portamento real se apresenta em seu lugar”. (Lacan)

 

Convidaria ainda Gerard Pommier, para aqui debatermos, com seu “Ensaio sobre a transferência em psicanálise”, virando o amor pelo avesso, amor de transferência, confabulando as diferenças atravessadas ou transferenciadas na quadradura da  identiferenciação.      

           

 

 

 

 

 

1-Neologismo inventado pelo Grupo de Estudos sobre Seminário IX – (A Identificação) 1961 -1962.

Participantes: Arlete Lourenço, Gina Andrade,  Rossane Wanderley, Rachel Rangel Bastos e Tereza Cunha.

2 – Palas. Nome dado às fotogravuras por mim produzidas e apresentadas para ilustrar meu texto; Identiferenciação

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Bibliografia:

LACAN, Jacques. Seminário VII (1959/1960) – A Ética da Psicanálise

LACAN, Jacques. Seminário VIII (1960/1961) – A Transferência. Jorge Zahar Editor

LACAN, Jacques. Seminário IX (1961/1962) – A Identificação. Jorge Zahar Editor

MEDEIROS,Amélia. Inventar-se Analista. Publicação do Centro de Estudos Freudianos do Recife (2003)

POMMIER, Gerard. O Amor pelo Avesso – Companhia de Freud Editora - 1998

NASIO, Juan. Os 7 Conceitos Cruciais da Psicanálise. Jorge Zahar Editor (1991)

KAUFMANN,Pierre.Dicionário Enciclopédico de Psicanálise.Jorge Zahar Editor(1995)

http://www.adobe.com/br/products/reader/

 Intersecção Psicanalítica do Brasil