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Inicio com um fragmento de
análise. Beatriz chega à sessão e deita-se, como faz costumeiramente, para
desfiar relatos de seu cotidiano, na tentativa de “fugir de seus
pensamentos”. Começa dizendo que não tem nada para contar, mas,
subitamente, de forma pouco habitual, lembra-se de um sonho - um pesadelo
- que teve na noite anterior. Algo se impôs a ela, do qual não pôde fugir.
O que a surpreende neste sonho é que ele lhe parece extremamente real.
Mesmo após despertar, permanece esta sensação, que se acentua à medida que
fala dele. Que estranha realidade é essa do sonho que transborda para a
vigília, como algo real?
Freud, ao longo de sua obra, deteve-se várias vezes sobre a
sensação de realidade provocada pelos sonhos, como o fez na Interpretação
dos Sonhos e na análise do Homem dos Lobos. De início supôs que tais
sonhos reproduziam na totalidade ou em parte acontecimentos de fato
ocorridos. Insistia que o sentimento de realidade depois do despertar era
justificado, pois alguma coisa ocorreu que foi repetida no sonho. Logo em
seguida, contudo, nos diz que, na verdade, esta sensação de realidade
refere-se a pensamentos oníricos latentes, ou seja, está ligada à
realidade psíquica, reino da fantasia. Ainda que no caso do Homem dos
Lobos procure estabelecer uma ligação entre a convicção de realidade
provocada pelo sonho e a suposta existência factual da cena primária, é
neste mesmo texto que reconhece que as cenas primitivas da infância não
são simples lembranças, mas resultam de uma construção no decorrer do
trabalho de análise. Sua emergência nos sonhos e a convicção de realidade
que provocam, fazem do sonho um modo privilegiado de elaboração em
análise, em que a realidade psíquica governada pela fantasia mostra seu
valor de verdade para o sujeito.
Dessas considerações podemos concluir que no sonho referido
acima, e na sensação que ele provoca, o que está em jogo é a realidade
psíquica.
Tomemos agora um sonho clássico, apresentado por Freud no
início do Capítulo sobre “A psicologia dos processos oníricos” no livro da
Interpretação dos Sonhos. Não se trata de um sonho relatado em um processo
de análise, mas Freud dá a ele grande valor, nomeando-o como sonho modelo.
Trata-se de um pai que adormeceu no quarto contíguo àquele onde o corpo de
seu filho morto era velado, em cujo sonho este filho o pega pelo braço e
diz: “Pai, não vê que estou queimando?” (Freud, (1900)1976:543).
Para Freud este sonho é de fácil interpretação, pois o que
desperta o pai é o clarão de luz que vem do quarto contíguo, onde as
roupas de seu filho começam a se incendiar após a queda de uma vela sobre
seu corpo. Em um paralelo com o sonho a que nos referimos no início deste
trabalho, em que a realidade do sonho transborda para a vigília,
tratar-se-ia, no sonho relatado por Freud, do movimento inverso, de
invasão da realidade no sonho, provocando o despertar? Será isso que
aproxima, pelo avesso, estes dois sonhos? Neste jogo entre sonho e
realidade, que excesso seria esse que, como um resto, invade o sonhador?
Nos comentários que Freud tece acerca deste sonho, reafirma
sua teoria da realização de desejo, dizendo que o conteúdo do sonho é
sobredeterminado pelas relações entre pai e filho. Assinala, entretanto,
que há algo de altamente emocional no apelo do filho ao pai – Pai, não vê?
- do qual nada sabemos.
Este impossível de saber, presente na realidade trazida
pelo sonho chama a atenção de Lacan quando se pergunta sobre o que
desperta este pai. Será a realidade do clarão que lhe invade os olhos ou
será a frase do filho que, como uma tocha, aponta para este impossível
encontro entre um pai e seu filho morto? Mais além da realidade, o que o
sonho evidencia é o real desse encontro faltoso, que só um sonho pode
propiciar. Somente o sonho, como diz Lacan, “um rito, um ato sempre
repetido, pode comemorar esse encontro imemorável – pois ninguém pode
dizer o que seja a morte de um filho – senão o pai enquanto pai – isto é,
nenhum ser consciente”. (Lacan, (1964)1973:.60). A importância que Freud
dá a este curto sonho no contexto de sua teoria do desejo indica que o
sonho não é apenas uma fantasia que preenche uma aspiração, mas, por traz
da falta de representação, há um real traumático que comanda o desejo, que
aparece no sonho sob a forma da perda de objeto. É ele que provoca o
despertar.
O que essa análise pode ensinar sobre o sonho de Beatriz?
Relatado em análise, este sonho evidencia uma urgência, algo a ser
realizado que, similarmente ao sonho analisado por Freud, diz respeito à
relação entre pais e filhos. Trata-se de uma missão que ela se atribui:
arranjar pais para várias crianças, na tentativa de sanar uma falta,
reconstituir um elo que se perdeu. A urgência que aparece no sonho é a
mesma que a desperta e a faz chegar mais cedo à sessão, quando o hábito é
atrasar-se. É isso que se impõe a ela como o real que transborda do sonho
e que mostra sua estranha presença à medida que fala dele. Ao fim do
relato, ao ser indagada pela analista sobre o que lhe vem à cabeça a
propósito deste sonho, remete-se à situação traumática que a levou à
análise, tantas vezes repetida, referida neste momento pelo significante
abandono. Este significante surge de forma pregnante quando a falta
se transforma em perda, na qual se vê implicada de duas formas: de um
lado, algo lhe foi arrancado, o que a coloca na posição de objeto;
de outro, a culpa através da qual reconhece a sua responsabilidade no ato
de abandono a faz emergir como sujeito. Convocada pelo real do sonho, do
qual não pode fugir, Beatriz se apresenta dividida pelo significante,
significante da castração, ao contar este sonho em análise, endereçando-o
ao analista.
Freud recomenda que tomemos tudo que o analisante diz a
propósito do sonho, além do seu estrito relato - comentários, julgamentos,
sentimentos - como fazendo parte do conteúdo latente do sonho, devendo
ser, portanto, incluído na interpretação. Neste sonho, em que também se
trata de uma realização de desejo, os comentários sobre a estranheza da
sensação provocada por ele são, nesse sentido, partes do sonho. É esta
sensação que faz retornar o trauma, na sua insistência repetitiva, ouvida
naquilo que o sonho, ao mesmo tempo que recobriu, desvelou. A
multiplicação numérica do objeto nos sonhos – neste aparecem várias
crianças – indica, como também nos lembra Freud, a “repetição temporal de
um ato” (Freud, op.cit: 398), através da qual a realidade do inconsciente
se atualiza atravessada pelo real. Guardadas algumas diferenças, este
sonho nos faz lembrar da 3ª. fase da fantasia de espancamento apresentada
por Freud no texto “Bate-se em uma criança”(1919), onde se trata do
sujeito enquanto indeterminado, ponto real em torno do qual se expande o
inconsciente.
Se a transferência é a atualização da realidade do
inconsciente, ela é essencialmente resistente, como indica esta
experiência, ao evidenciar o movimento pulsátil do inconsciente, que mal
se abre, se apressa em se fechar. À sessão que descrevemos seguiu-se, na
sessão seguinte, um silêncio e apenas a frase – estou introspectiva,
estou fugindo de meus pensamentos – seguida de sucessivas faltas às
sessões subseqüentes.
A interrupção das associações do analisante e a falta às
sessões são índices de resistência, já dizia Freud. Quando o analisante se
cala, é provável que a interrupção de seu discurso se deva a algum
pensamento relacionado ao analista. A noção de “presença do analista”,
introduzida por Lacan para pensar esta questão, nos parece bastante
oportuna, justamente quando ele enfatiza que se trata de “um fenômeno
infinitamente mais puro” (Lacan, (1953-54)1975:52) do que as simples
referências à presença física do analista ou ao imaginário que o cerca, ou
mesmo a transferência para a sua pessoa de arquétipos infantis. Há algo de
misterioso e enigmático nesta presença, que é da ordem do real. A presença
do analista não pode ser separada do conceito de inconsciente – é ela
própria uma manifestação do inconsciente - e aqui cito Lacan, “no
movimento do sujeito que só se abre para tornar a se fechar, numa certa
pulsação temporal – pulsação mais radical do que a inserção do
significante que sem dúvida a motiva, mas que não lhe é primária ao nível
da essência” (Lacan, (1964) 1973:121). Longe de enveredar por alguma tese
essencialista do inconsciente e do sujeito, Lacan chama a atenção nesse
momento para a presença do real, como aquilo que, fora da representação,
causa o movimento do sujeito, provocando uma inflexão no discurso. A
resistência, nesse sentido, longe de ser coerente com a idéia de que o
inconsciente resume-se ao recalcado, apresenta-se de forma mais radical,
como proveniente do real.
Ao ser relatado em análise o sonho tem um endereço certo: o
analista. Um encontro ao qual somos chamados, encontro faltoso com um
real que sempre escapa. O inconsciente é o evasivo e é nas repetições que
tentamos cercá-lo. O sonho tem aí um papel fundamental, pois como um rito,
um ato sempre repetido, é no seu texto que podemos seguir o caminho do
sujeito em seu movimento de abertura e fechamento. Não cabe, portanto, ao
analista interpretar o sonho, porque o inconsciente já procedeu por
interpretação – o relato do sonho já é uma interpretação. A intervenção do
analista deve partir disso.
No fragmento de caso que trouxemos, ao levar este sonho
para análise, rompendo um circuito de repetições do mesmo, em que atrasos
e faltas eram constantes, a analisante se viu ultrapassada por uma certa
premência – die Not des Lebens
– a pressão, a urgência da vida, que evidencia o
fracasso do princípio de realidade, mostrando sua precariedade. Ela sabe
que se trata de um sonho, mas é o real que a desperta que traz para
análise. Por que ela se cala nas sessões seguintes?
A hipótese que levantamos é de que o relato deste sonho
comemora o encontro com o analista, encontro faltoso em que este se
apresenta como testemunha de uma perda, “perda seca”,
onde nada há mais a puxar, senão aguardar o movimento de pulsação do
sujeito na retomada da palavra. O significante abandono se
presentifica em ato na relação transferencial, nas faltas às sessões. No
seu retorno, após um pequeno período de interrupção (duas semanas),
refere-se à profunda tristeza em que esteve mergulhada, que a retirou do
convívio social, dando notícias do início de um trabalho de luto, que
ressignifica sua mudez e suas faltas. Como ela diz, é preciso saber
perder. Com isso recomeça um trabalho de contorno simbólico da perda,
anunciado por esta fala.
Referências Bibliográficas
FREUD, S. A Interpretação dos
Sonhos (1900) Obras Psicológicas Completas, Edição Standard
Brasileira, Rio de Janeiro, Imago, Ed., 1976.
LACAN, J. Seminário 1, Os escritos
técnicos de Freud (1953-54), Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed. 1975.
__________ Seminário 7, A ética da
psicanálise, (1959-60), Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed. 1988.
___________ Seminário 11, Os
quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964), Rio de
Janeiro, Jorge Zahar Ed. 1973.
___________ “O simbólico, o imaginário
e o real”(1953), in Nomes-do-Pai, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed.,
2005.
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