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Ao tratar da identidade, sentimento que faz o sujeito dizer-se
identificado a, identificado com, experiência de um devir
em busca do si mesmo, damo-nos conta da existência de um movimento que se
desenvolve à revelia do pensamento lógico e racional. Neste sentido Freud
fala apenas uma vez em toda a sua obra ao referir-se à própria identidade
na homenagem que lhe presta no 70º. aniversário a B’nai B’rith de Londres.
A identidade é o resultado um longo processo de identificações em que o
sujeito assimila, total ou parcialmente, à maneira de uma incorporação
oral, propriedades e atributos de um outro. (1). Trata-se de processo
inconsciente diferente de imitação.
Levantando dados sobre ocorrências ao longo da vida de Freud, ousaremos
focalizar nas suas memórias, fatos, pensamentos, sugestões que revelam a
origem da sua forma peculiar de ser e de existir para entender o
posicionamento de historiadores que procuram marcá-lo por influências
culturais. Procuraremos nos ater às suas palavras, tomando-as ao pé da
letra com o intuito de manter a fidedignidade do que ele deseja comunicar.
Vários autores têm procurado escutar Freud, atribuindo à cultura judaica
sua forma de proceder como cientista e pesquisador. Não nos parece que
tenha sido a cultura judaica o determinante da construção da psicanálise.
Marcado por uma multicultura buscou nos gregos, em Édipo os escopos para a
teoria do inconsciente; nos mitos e nas ciências dos sonhos, vias régias
de abordagem do real; procurou explicar o nascimento da sociedade
contestando as teses vigentes da antropologia, da sociologia, da teologia
e da religião fora do âmbito da antropologia, da sociologia e da teologia.
Ao afirmar palavra e linguagem - matéria prima do trabalho analítico -
lança mão da literatura (Shakespeare, Göethe, os trágicos gregos,
Dostoiewsky) e das artes plásticas (Leonardo da Vinci, Michelângelo).
Utilizou-se do alemão como língua materna, tendo sofrido resistência dos
franceses mais pela influência da cultura germânica do que por ser judeu
como havia acontecido com Einstein. Várias vezes lastimou não dominar o
hebraico, considerando falha na sua cultura, ficando impossibilitado de
ler a dedicatória do seu pai na bíblia que lhe foi presenteada ( Carta a
A.A. Roback a 20 de fevereiro de 1930 publicada em “Correspondances” (5).
A sede pulsional em psicanálise que se situa entre o somático e o
psíquico, é interpretada por Fuks (2, p. ) como a marca judaica no
corpo e na linguagem de Freud: o fato da circuncisão após sete dias do seu
nascimento e a dedicatória na bíblia da família presente recebido do pai
no trigésimo quinto aniversário revela o desejo do pai na constituição do
filho:
“...Filho que me é querido,Shelomoh.. No sétimo dia dos anos de tua
vida, o Espírito do Senhor começou a te animar e falou em ti: “Vai. Vê meu
livro que eu escrevi e nele irromperão para ti as fontes da compreensão,
do conhecimento e da sabedoria. Vê, é o Livro dos livros do qual sábios
escavaram e legisladores aprenderam conhecimento e julgamento. Uma visão
do Todo-Poderoso tiveste, ouviste e te esforçaste para fazê-lo, e te
elevaste nas asas do Espírito”. Desde então o Livro tem sido guardado como
um fragmento das tábuas em uma arca comigo. Para o dia em que seus anos
chegaram a cinco mais trinta, pus nela uma capa de pele nova e chamei-o:
“Brota, ó poço!. Entoai-lhe cânticos.” E o dei a ti como comemoração e
lembrança de amor de teu pai que te ama com perene amor. Jakob filho de R.
Shelomon Freud”(1 Vol. XX)
A palavra escrita transmite o desejo do pai revelando-se como
identificação no discurso pronunciado pelo filho na B’nai B’rith pela voz
do médico e amigo Ludwig Braun: (1, Vol. XX)
“...o que
me ligava ao povo judeu não era (envergonho-me de admitir) nem a fé nem o
orgulho nacional..., mas restavam muitas outras coisas que tornavam a
atração do mundo judeu e dos judeus irresistível - muitas forças
emocionais obscuras que eram mais poderosas quanto menos pudessem ser
expressas em palavras, bem como uma nítida consciência de identidade
interna, reserva segura de uma construção interna comum. E além disso
havia uma percepção de que era somente à minha natureza judaica que eu
devia duas características que se tornaram indispensáveis no curso da
minha vida. Por ser judeu encontrei-me livre de preconceitos que
restringiam outros no uso de seu intelecto; como Judeu estava preparado
para aliar-me à Oposição e passar sem o consenso da maioria compacta ”.
Freud figurou no Index da Igreja Católica em conseqüência do seu ateísmo;
rotulado pelo moralismo da época como pansexualista, resistiu à pressão de
Jung, mantendo-se fiel a um dos postulados fundamentais da psicanálise: a
etiologia sexual das neuroses. Em “O futuro de uma Ilusão” (1, Vol. XX, p.
15) reafirma seu ceticismo religioso, colocando no futuro da ciência a
esperança de solução dos conflitos humanos. A referência a um sentimento
“Oceânico” representa um transcender do puro materialismo de que era
acusado em conseqüência do seu ateísmo.
No trabalho “Uma dificuldade no caminho da Psicanálise” ( 1, vol . XVII )
procura explicar as feridas narcísicas do homem: a primeira de caráter
cosmológico decorrente da afirmação de que a Terra não era o centro do
sistema planetário, mas o Sol. Verdadeira revolução coperniciana aponta
para a indisposição do homem com relação ao novo, suscitando revolta; a
segunda, de caráter biológico, diz respeito à origem animal do homem
oposição à concepção vigente da origem divina do homem – teoria
evolucionista de Darwin; finalmente, um terceiro golpe ao narcisismo
infligido pela psicanálise com a teoria do inconsciente, afirmando não ser
o homem senhor da sua própria casa. O cogito cartesiano é esmagado por
forças internas cuja origem o homem desconhece. As forças pulsionais se
afirmam em detrimento do império da vontade e da razão, provocando no
mundo violenta reação de caráter moral, ético, religioso e científico.
Freud descreve o que tais descobertas produziram nele ao mergulhar nas
profundezas da vida instintiva humana:
“...
alcançara minha primeira compreensão interna das profundezas da vida dos
instintos humanos
... vira certas coisas que eram tranqüilizadoras e,mesmo de início,
assustadoras. Por outro lado, a comunicação das minhas descobertas
desagradáveis teve como resultado a ruptura da maior parte os meus
contatos humanos; senti-me como se fosse desprezado e universalmente
evitado... Em minha solidão fui presa do anseio de encontrar um círculo de
homens de escol de caráter elevado, que me recebesse com espírito
amistoso, apesar da minha temeridade.Vossa sociedade foi-me indicada como
o lugar onde tais homens seriam encontrados. Foi assim que me tornei um
dos vossos... Não houve absolutamente qualquer dúvida em convencer-vos das
minhas teorias. Numa época em que na Europa ninguém me dava ouvidos e eu
não tinha nenhum discípulo nem mesmo em Viena, Vós me concedestes vossa
amável atenção.Vós fostes meu primeiro auditório...”(1, Vol. XX)
Reafirmando sua identidade com o povo judeu neste mesmo discurso
registramos:
“ O fato de serdes judeus só me
poderia ser agradável, pois eu próprio sou judeu e sempre me parecera não
somente indigno como positivamente insensato negar esse fato...” (1, Vol.
XX)
Neste sentido Freud escreveu ao dr. Siegfried Fehl:
“...espero que o senhor não ignore
que sempre me mantive fiel ao nosso povo, e nunca pretendi ser senão o que
sou: um judeu da Morávia, cujos pais provém da Galícia austríaca...” ( 4,
pg. 540-542).
Assim Freud afirma sua cidadania, característica ligada à condição de
pessoa, um dos traços formadores do sentimento de identidade – um
sentimento que liga as pessoas no tempo e no espaço, na profissão e ou em
qualquer outra atividade reveladora de uma pertinência grupal.
A Maria Bonaparte em maio de 1926, após seus setenta anos,
expressa:
“... Têm me festejado como um herói nacional, embora meu mérito na causa
judaica se restrinja ao fato de que jamais neguei meu judaísmo...”
( ).
Em conseqüência do sionismo, levado a opinar sobre o tema, lastima que os
judeus estivessem despertando suspeitas nos árabes:
“... A mim pareceria mais compreensível fundar uma pátria judaica em solo
novo historicamente desobstruído...”
Peter Gay refere-se à identidade judaica de Freud como enfaticamente
singular. Considera assustador o abismo intelectual entre ele e os judeus
batizados que praticavam a fé dos seus pais. Tão ateísta quanto judeu,
Freud nos adverte contra o risco do discurso religioso na psicanálise
(carta a Pfister, 25.11.1928), propondo um modelo de cientificidade
original, ao sugerir as associações livres no trabalho clínico, voltado ao
indizível, à inquietante estranheza do homem que vai além da memória (3
,p. 56).
Por ocasião da morte de David Edler, seu colega e amigo, em carta dirigida
a Bárbara Low, diz Freud: “... éramos judeus e sabíamos que
carregávamos essa coisa milagrosa que - até agora inaccessível a qualquer
análise - faz o judeu ( 3, p. 74).
Ao que interpreta Fuks ( 3, p.74) observando o judaísmo de Freud:
“ É como se fosse possível
surpreender em Freud, para além da identidade judaica, uma judeidade
infigurável e inominável, que se traduz pela busca permanente de si
mesmo!... seu êxodo permanente de uma identidade fixa e
imutável,espelhada em qualquer mimética religiosa e política...”
Até podemos concluir a partir dessa afirmação que tal característica,
avessa ao “fixo e imutável” não se refere exclusivamente a uma
herança recebida por Freud do povo judeu. Nem o seria de uma raça
específica. Diz respeito à sua vocação como homem de ciência que não
obedece aos limites do pensamento dominante – as ciências do século XIX,
notadamente a psicologia e a psiquiatria. Mas um conhecimento que procede
de um outro registro e se constrói por uma metodologia compatível com o
seu objeto de trabalho – o inconsciente e a sexualidade.
Como observa Peter Gay a Judeidade de Freud é absolutamente singular... As
identificações formadoras da identidade são seletivas, parciais e não se
produzem massiçamente. (2) Essa seletividade sempre se faz em função do
desejo que é sempre o desejo do Outro.
Opondo-se à valorização da racionalidade, da coerência e da identidade
como formas de verdade a psicanálise se oferece como método de escuta do
incoerente, do não-idêntico e do deformado, sempre obediente à lógica do
Outro (3 ).
Resultante de um processo de identificações sucessivas, processo
inconsciente que tem início nas primeiras relações interpessoais,
inferimos o quanto a partir das palavras de Jakob, “homem bem vestido,
portando um gorro de pelo novo, num dia de sábado”, após haver se
resignado e obedecido a um pequeno ofensor cristão “Judeu, desça da
calçada....produziu-se em Freud uma identificação com Aníbal.
Podemos ler nesta fantasia identificatória a expressão do desejo de vingar
as humilhações do pai e solapar o cristianismo, substituindo o papado de
Roma por um papado internacional da Razão” ( 3,págs. 154,56). Sua
identificação ao pai neste episódio reforça sua aliança com o judaísmo.
Tais identificações se sucederam, caminhando em direção ao povo
estigmatizado pelo anti-semitismo.
Karl Abraham chama nossa atenção para a homologia estrutural entre a
interpretação talmúdica e a interpretação psicanalítica, vendo nisso um
sinal de identificação de Freud com os judeus, na forma como desenvolve
seus estudos. Numa carta que lhe enviou, diz:
“Fui cativado de um modo
singular na leitura dos” Chistes e sua relação com o Inconsciente” ao
considerá-lo mais detalhadamente por sua técnica e em toda a sua
composição, completamente talmúdico”.(3, p., 120).
Não cremos que as incursões da psicanálise sejam derivadas das formas de
pensar sobre o talmude. Longe de estabelecer esta ligação de caráter
identificatório de Freud com a metodologia do talmude, como afirmam Fuks e
Abraham, o fato de a interpretação psicanalítica não se propor a fazer
sínteses para o paciente e de se abrir à multiplicidade de sentidos, não
significa que seja herança judaica advinda do manejo do talmude. A
metodologia utilizada na descoberta da psicanálise é decorrência dos seus
próprios objetivos, sem apelo a modelos de cunho religioso ou da tradição,
mas da proposta de operar com o desejo do homem na via da subjetivação.
Por isso as sínteses são da alçada do paciente e das suas escolhas. (3 )
Freud sempre reagiu à tradição hermenêutica explicativa e descritiva que
reduziam o sujeito a um mero objeto interpretável dentro de um código
pré-fixado; preferiu convocar a palavra mesmo “vindo de fora para
dentro” priorizando a escuta do outro, apelar para um sentido prévio.
Mas não podemos afirmar que tais orientações sejam uma identificação ao
modo de pensar e de ler o talmude. Coincidência não é decorrência.
Diferentemente desta metodologia e dos objetivos de estudo, a psicanálise,
na busca do conhecimento, dirige-se às “profundezas” do homem, fazendo-o
defrontar-se com a condição de desejante.
Ler o inconsciente é procurar decifrar a língua do “Estranho”, linguagem
do Outro, diz Assoun é reconhecer a força de uma verdade singular e de uma
verdade histórica, é procurar o exílio mais recôndito, onde se escondem as
letras para fazê-las de novo navegar numa narrativa singular de um sujeito
sempre em deslocamento (3, pgs. 27, 81, 126, 164).
Concordando com Fuks, (3,,p. 134) reconhecemos na psicanálise, como no
judaísmo e em outras ciências humanas, uma vocação de pensar e viver a
história, a de reconhecer a relação do passado como cenas conjugadas uma a
outra, o passado convivendo virtualmente com o presente. Virtual,
apresenta-se como um conjunto de singularidades que nada designa, nada
significa até haver uma atualização significante que demande
interpretação. A reconstituição da história do sujeito na psicanálise não
consiste numa simples coleta de dados historiográficos: o recurso à
memória tem como função servir de apoio ao tornar-se sujeito. O
tempo psicanalítico é devir, neste sentido, por sempre remeter a
uma outra história, numa cadeia análoga à cadeia significante.
Com relação a esse devir diz Lévinas:
“ o que marca o judeu é
a impossibilidade de se dizer sempre o mesmo...”
Ao que indagamos sem contestá-lo, procurando universalizar a afirmação:
não será essa uma contingência do humano em torno do que a clínica
psicanalítica se move excluindo a mesmidade? Enfrentar esse dinamismo
montado em um passado que sempre se projeta para um amanhã?
Deixando-nos a impressão de que se tornou um judeu nacionalista ou
religioso, embora o houvesse expressamente negado no seu discurso na B’nai
B’rith, assim se pronuncia Freud quando consultado por Max Graff sobre o
batizado do filho para protegê-lo do anti-semitismo:
“... senão deixar seu filho crescer
como judeu, vai privá-lo dessas fontes de energia que não podem ser
substituídas por nada. Ele terá de combater como um judeu, com toda a
energia necessária para esse combate. Não o prive dessa vantagem...” (3, p 30).
Não é o espírito judaico que leva Freud a fazer tal recomendação, mas sua
crença numa premissa fundamental relativa à formação do sujeito, que não
diz respeito a uma cidadania, a uma raça ou a uma religião. Na teoria
psicanalítica a “vantagem” é estimular a ação evitando os temores,
negações e denegações, priorizando o reconhecimento da pulsão, na via do
desejo passível de ser simbolizado.
Obras consultadas:
1) FREUD, Sigmund - Obras Completas. Imago, Rio
Vol . I - págs.
435-436-439-475-495-501- 503-504-506
Vol. IV pág. 640
Vol. XVII pág. 174
Vol. XVIII pág. 91 em diante
Vol. XX pág. 315
Vol. XXI pág. 15
2) CAMPOS, Dulce - Identificação e Identidade. Tese de Mestrado. Puc,
Rio 1974.
3) FUKS, Betty - Freud e a Judeidade. Zahar, Rio, 2000
4) GAY, Peter - Freud. Uma vida para o nosso tempo. Companhia das Letras.
S.Paulo, 2004
5) ROBACK, A.A. – Correspondances.
6) ROUDINESCO, E. – História da Psicanálise. A Batalha dos Cem Anos. Zahar,
Rio, 1986
Judeidade: o fato, maneira de
ser judeu
Judaicidade: conjunto de pessoas
judias
Judaísmo, conjunto das doutrinas
e instituições judaicas ( p. 405)
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