Começo esse trabalho com a máxima de La Rochefoucauld acerca das coisas para as quais não podemos olhar fixamente: como o sol e a morte. Na análise existem coisas assim. É justamente para o ponto central da análise que devemos olhar cada vez mais obliquamente e de uma distância cada vez maior.
O freqüente confronto com dificuldades, contradições, e impasses na prática clínica remete-nos a Freud e Lacan como tentativa de nos aproximar de seu verdadeiro alcance.
O estudo, há dois anos, do Seminário as Formações do Inconsciente nos aproxima dessas questões vividas no trabalho enquanto psicanalista, trazendo luzes para a condução que tentamos fazer dele.
O que chamamos formações do inconsciente reporta-nos aos primórdios da linguagem. Chamado de processo primário por Freud, o surgimento da linguagem estaria diretamente relacionado com sua descoberta do inconsciente. O inconsciente possui estrutura de linguagem.
O discurso do inconsciente é sustentado pelo que lhe é essencial, ou seja, o desejo de reconhecimento. Esse desejo, Freud enfatizou em Mais Além do Princípio do Prazer como sendo o pano de fundo da relação analítica. A análise nos mostra sempre o sujeito empenhado num processo de reconhecimento estabelecido para ele de forma inconsciente.
È com os efeitos do desejo que temos que lidar na clínica psicanalítica. O que se manifesta no fenômeno do desejo humano é sua alienação, sua subversão ao significante. O desejo se inscreve inicialmente como demanda, demanda significada na fala do sujeito.
A mãe seria o primeiro objeto simbolizado da criança. A dialética do filho com o desejo da mãe é primordial no desenvolvimento psíquico do sujeito. A expressão criança desejada é um significante constituinte do ser. O mais profundo desejo, aquele que permanece suspenso no inconsciente é o desejo do Outro materno.
Para além da mãe existiria um terceiro termo, o pai, através do qual o sujeito, além de sua relação dual, de cativação imaginária, pede para ser significado. A tríade edipiana implicaria numa aquisição onde o sujeito começa a fazer parte do mundo significante. A confrontação entre significante e desejo seria central em toda interrogação psicanalítica.
Ao passar pelo significante o desejo é profundamente modificado por ele, mas é somente assim que se faz reconhecer. O desejo alienado na demanda pode e deve reintroduzir-se.
A dialética da demanda só é possível quando o “verdadeiro” desejo encontra lugar na relação com o Outro. É no olhar e na fala do Outro que o sujeito assume uma posição desejante. Os significantes se instalam e se cristalizam nessa fala. Esse Outro, na medida que também é barrado ele mesmo, tem condições de promover a barra no sujeito.
A ação da barra distinguindo desejo e demanda é essencial para a boa condução da análise. A impossibilidade de estabelecer essa distinção acarretaria irreparáveis desvios em seu caminho. Basear a análise em termos de frustração e gratificação seria fugir dos seus fundamentos e da sua proposta de ação. Na prática clínica, o analista preocupado em saber o que faz, estará sempre se perguntando sobre o que é do campo do desejo e o que é do campo da demanda.
Na direção do tratamento e os princípios de seu poder, texto contemporâneo ao Seminário as Formações do Inconsciente, Lacan denuncia sobre o que a psicanálise passou a ter de antifreudiano. Chamou de “reeducação emocional do paciente”(1-pg.591), as impropriedades e distorções que havia em nome dela. É em cima dessas imposturas que ora articulo nesse trabalho alguns pressupostos psicanalíticos norteadores de conduta adequada.
O conhecimento insuficiente de Freud na época de suas histéricas fazia-lhe agir de forma diretiva, forçada e até mesmo precipitada. A interpretação feita por ele a Elizabeth von R foi do mesmo teor da que fez a Dora quando disse que ela estava apaixonada pelo Sr. K. Quanto a Elizabeth denunciou a relação existente entre a dor na perna e o desejo recalcado pelo cunhado. A esse tipo de orientação prematura do desejo Lacan chamou intromissão forçada(2-pg.336).
Temos que ter cuidado para não ceder à armadilha de implicar o sujeito de maneira definitiva na situação desejante. O analista participa ativamente do processo, diz Lacan nos Escritos. É ele quem dirige o tratamento. O que ele não deve é dirigir o paciente.
A análise nos mostra o caráter vagabundo, fugidio e inapreensível do desejo. Ele escapa a qualquer síntese do eu, não deixando outra saída senão ser, a todo instante, apenas uma afirmação ilusória de síntese.
A visão da análise como ajustamento à realidade ou adaptação harmoniosa do sujeito, é totalmente contraditória ao caráter inadaptado e inadaptável do desejo. O desejo humano não podemos reduzí-lo, nem lhe dar como causa uma certa economia de prazer. Fazer isso é evitar o que lhe é inerente, seu traço propriamente perverso.
Lacan homenageia Sartre por sua contribuição clínica no que se refere às reflexões sobre o desejo.Trata-se de algo diferente da relação com o objeto. O desejo como desejo aponta para a dimensão do gozo. O sujeito goza por desejar.
Em As formações do inconsciente, assinala: “Nada jamais se esgota, pura e simplesmente, na relação com o objeto. O desejo está ligado a uma posição assumida pelo sujeito diante do objeto, mas também a uma posição que ele assume fora da relação com o objeto”(2-pg.331). O que torna possível nossa experiência aponta o desejo no sentido daquilo que está mais além. Induzir o analisante num caminho de princípios e normatizações, oferecendo-lhe soluções, seria transformá-lo em objeto.
O articulado, mas não articulável do desejo remete à sua ligação com a demanda. O desejo passa pela demanda, fala na demanda, isso tem efeitos que se desdobram.
Na articulação simbólica a demanda sempre pede algo mais do que a satisfação para a qual apela. O que é visado no Outro está para além de qualquer satisfação possível. O que dele se demanda é amor.
“No espaço virtual entre o apelo de satisfação e a demanda de amor o desejo ocupa seu lugar e se organiza”(2-pg.418). Ele sempre pede uma resposta absoluta, ultrapassando o que possa vir da demanda. Nela só se faz reconhecer. O desejo está no além.
A contínua tentativa de destinguir desejo e demanda, nos faz observar o Outro numa posição intermediária. Como lugar da fala, tanto é aquele a quem se dirige a demanda como também onde se torna possível qualquer formulação do desejo.
É nessa contradição que aparecem as dificuldades no manejo clínico. Num Outro lugar, a posição que tomamos diante da demanda faz toda a diferença. Satisfazê-la ou não é o que Lacan distingue de um trabalho no âmbito da transferência, daquele que se baseia na sugestão.
Não há análise que transcorra sem essa confusão entre transferência e sugestão. Daí a neurose de transferência. A operação essencial é abstencionista, nunca satisfazer a demanda. O sujeito satisfeito na demanda não consegue acessar seu desejo. Na transferência pode haver satisfação da demanda, mas ela se dá de forma diferente, visando à articulação significante.
O que insiste é o desejo, o desejo de ter seu próprio desejo. O problema do neurótico é justamente como manter uma articulação com esse desejo. A resistência, diz Lacan nos Escritos, está sempre do lado do analista. O sujeito poderá ir embora se o analista insistir na sugestão. Essa atitude expressaria a necessidade de articular o desejo de outro modo, no plano simbólico. A transferência tende a se degradar no nível regressivo da maternagem psicologizante.
A lei analítica é não satisfazer a demanda. O que funciona não é a frustração do que ocasionalmente o sujeito possa nos pedir: uma resposta, um beijo na mão, um comentário. Trata-se de uma frustração profunda, que intervém na essência da fala e faz surgir o horizonte da demanda de amor, ou demanda de reconhecimento, ou ainda demanda de saber.
A problemática do desejo é ficar submetida à dialética e às formações do inconsciente. Ele deverá está sempre implicado no que se põe a mover na fala, no que resulta para além de qualquer articulação significante.
“A importância do significante na localização da verdade analítica aparece em filigrana”(1-pg.599). A interpretação significante se afigura produzindo algo novo.
Lacan sugere prudência àqueles que interpretam na relação dual. A interpretação nessas bases, observa ele nos Escritos, passa a ser uma exigência da fraqueza à qual precisa acudir. Efeito das paixões do analista, de seu receio que não é de erro, mas da ignorância. Que não é de satisfazer, porém de não decepcionar. Sua necessidade que não é de governar, mas ficar por cima. Não se trata de contratransferência, mas das conseqüências de uma relação a dois, quando o analista não a supera.
- Mas como haveria de superá-la caso faça dela o ideal de sua ação?
O desejo está situado entre o Outro como lugar da fala e o Outro como sujeito de carne e osso(2-pg.488), que passa a existir para satisfazer a demanda. O sujeito barrado cria uma relação de subordinação, tornando seu desejo opaco diante do desejo do Outro. Apagar o desejo do mapa, quando ele já está recoberto na paisagem do paciente, não é recomendável para os que seguem a lição freudiana.
Quando o Outro não responde, o sujeito é remetido ao confronto com a demanda. Essa não resposta faz aparecer na análise somente o Outro como lugar da fala, um ouvido que escuta para além. Como base de nossa experiência, isso permite ao sujeito se desligar das várias formas de fixações e regressões que aparecem nas entrelinhas do discurso.
Não interessa ao analista dar um retorno simbólico ou compensar as insatisfações do sujeito nos diferentes momentos do desenvolvimento da demanda. O importante na análise é saber quais os problemas vividos entre sujeito e Outro em cada uma dessas fases: oral, anal ou genital. É saber que tipo de insatisfação mantém o sujeito retido, ligado num determinado estágio da relação com o objeto.
A castração significante é o Nome do Pai sobre o desejo da mãe, mas também temos que nos desligar dos outros objetos, e considerar como foi vivida a castração com relação a esses objetos. Isso permite o analista, situar a organização subjetiva do analisante no que se refere ao desejo.
A excentricidade do desejo em relação a qualquer satisfação possibilita compreender sua profunda afinidade com a dor. O que o desejo retém, não na forma desenvolvida, mascarada, alienada, mas em sua forma pura e simples, é a dor de existir. Aos olhos de Freud essa dor de existir está ligada ao âmago do sujeito. O masoquismo se encontra na base da exploração analítica do desejo. |