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Do Rio sem discurso para o discurso-rio

 

Do Rio sem discurso para o discurso-rio

 

        A posição inicial do paciente quando ele procura uma análise está representada pela queixa que denuncia uma desordem com a qual o sujeito ainda não pode se comprometer, aquilo que dói, que faz sofrer. Seu sintoma é um dizer que ainda não encontrou seu dito.

        João Cabral de Melo Neto, no seu “Rio sem discurso”:

 

“(...) O discurso-rio (...)
&cortado, a água quebra-se em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária;
isolada, estanque no poço dela mesma,    
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.
.................................................”.

 

        Preso, estanque em água paralítica, água cortada em poços, o sujeito, em sua queixa inicial, parece surdo ao escutar. Surdo, não percebe outra voz que não a que lhe é familiar, estranhamente familiar, a da repetição no sintoma.

        Mas, o que opera as mudanças? O que possibilita que os poços se enfrasem, tornando-se sentença-rio?

        O significante é a expressão involuntária de um ser falante, um gesto desajeitado e imprevisto, executado fora de qualquer intencionalidade, e, como tal, o sintoma é um significante se considerado como um acontecimento do qual o sujeito não domina nem a causa, nem o sentido, nem a repetição. Segundo Lacan, o significante é a causa do gozo, e, como causa é o caminho que o gozo efetua, que traça os canais por meio dos quais o corpo goza, que promove seus compartimentos e comportas, estreita, aperta e impossibilita. E, é nas vias de gozo do significante que a análise opera, abrindo compartimentos, transpondo outros, modificando as vias significantes do gozo. E, para que isso se dê, no início de uma análise é necessário que o sujeito se interrogue, que possa se dar conta de que há algo que ele sabe e algo que não sabe do que o faz sofrer. Que há um saber que lhe escapa, algo de sua verdade que seu sintoma detém, como um enigma, que em alguns momentos vela e, em outros, desvela. Pois é no que escapa ao ser, no não senso, no ato falho, no estranho, que a verdade do sujeito emerge. E importante assinalar, ainda que, na teoria lacaniana, a verdade é inseparável da linguagem ou, nas palavras de Lacan "dos efeitos de linguagem", pois "nenhuma verdade pode ser localizada a não ser no campo onde ela se enuncia". De acordo com Garcia-Roza, não é a partir do caráter formalizado do discurso que a verdade se insinua, "mas precisamente quando o discurso falha". O referido autor, citando Lacan, escreve: "são nossos atos falhados, atos que são bem-sucedidos, nossas palavras que tropeçam são palavras que confessam e revelam uma verdade detrás". 

        Lacan afirma que a verdade não pode ser toda dita, ou seja, dizer toda a verdade é materialmente impossível. "Nenhuma evocação da verdade pode ser feita se não for para indicar que ela só é acessível por um semi-dizer que ela não pode ser inteiramente dita, porque além de sua metade não há nada a dizer".

        O "semi-dizer" é um enigma, que é colhido na trama do discurso do psicanalisando, para o qual cabe a interpretação do psicanalista, que se caracteriza por transformar a enunciação em enunciado. Pelo trabalho de análise, se possibilita que este discurso se enrede, desenrede, convirja e divirja, num fluir que refaz, que coloca o discurso em curso.

        A posição do analista, cedida pelo analisando, é de sustentáculo da ação da fala deste sujeito, a qual se produz para ser ouvida, endereçada a um Outro. No seu lugar, o analista faz como se fosse o que não é, oferece seu corpo como suporte imaginário deste Outro, abstendo-se de seu Eu, para possibilitar o surgimento do desejo inconsciente do sujeito. Possibilitar que o sujeito se reconheça no lugar do equívoco, do ato falho, lá onde a fala se esquece, na diferença entre o que ele pretendia dizer e a verdade que surge no seu dito. Isto é, a operação da psicanálise vai de uma semi-verdade, porque recalcada, que surge no sintoma, nas formações do inconsciente, numa falta de esquecimento que teima em se fazer recordar, ao bem dizer a verdade do sintoma. Por outro lado, bem dizer o sintoma não é eliminá-lo, dada a sua impossibilidade, pois a psicanálise o considera um signo, uma marca do sujeito, mas saber lidar com ele de tal modo que ele sirva ao sujeito e o sujeito possa deixar de servi-lo.

        O trabalho de análise possibilita ao sujeito fazer do sintoma o fundamento de seus próprios atos, numa opção ética no que diz respeito às escolhas singulares de cada um. A psicanálise possibilita que o sujeito se perceba autor, ator e juiz de seu próprio existir, que ele se assenhore de sua história exclusiva, que se torne agente de seu discurso.

 
Patricia C. Pacheco
 

 

 

 

Intersecção Psicanalítica do Brasil
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