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Tempo lógico

 

TEMPO LÓGICO

 

          Como o sujeito pode dizer de si mesmo? Dizendo o seu nome? Isso só responde à pergunta na medida em que o nome disser alguma coisa, isto é, na medida em que ele estiver inserido em algo. Dizer-se, ..., quem é para quem, quem foi para quem, o que lhe aconteceu, o que fez?  André  Comte-Sponville,  em  seu  livro “O ser-tempo”,  diz: “ (...)  je suis été, eu sou sido, como disse Sartre, sou meu passado muito mais que meu presente.” (fl. 101). Para o psiquismo, como dizia Santo Agostinho: “o espírito é a memória”, pouco importa se memória consciente ou inconsciente. O importante é perceber que o sujeito é o seu passado na medida em que seu passado é. Ser sido é diferente de ter sido. Tudo é presente no sujeito.

          Diante disso, o inconsciente pode ser tomado como um saber não sabido, ou um não saber que precede todos os saberes, que é atemporal, ou melhor, que tem seu tempo próprio, sem a regularidade e a homogeneidade do tempo do mundo ou dos relógios. Há, portanto, uma infância sempre atual que indica uma atemporalidade do inconsciente. Mas, onde estão as lembranças de que o sujeito não se lembra atualmente e que, no entanto, não foram esquecidas? Onde estão as lembranças presentes do passado, quando esse passado não é presente ao sujeito? O inconsciente se faz reconhecer a partir de seus efeitos, numa espécie de retorno do tempo. Retorno onde os tempos passados, alçados pelo desejo, indestrutível, fazem eco no presente. Tempos onde certas marcas inscrevem acontecimentos imaginados e apenas imaginados como produto do desejo.

          As queixas de um sujeito em análise dão testemunho de uma estrutura, de um modo de sofrimento, que só faz sentido porque traz sempre à cena, através da transferência, o que a palavra não pode dizer. Retorno de uma demanda passada, que não pode ser reconhecida porque recalcada, isto é, retorno do passado presente.

          A análise também não tem um tempo padrão, cronometrado, e sim o tempo do inconsciente. Lacan assinala que o inconsciente está presente na fala do analisando. E como a análise é uma experiência de fala, deve seguir este tempo próprio do inconsciente. Para Lacan, é através da pontuação do texto do analisando que o analista faz com que o inconsciente exista.

           Pérez, em seu livro “Do gozo criador”, narra um fragmento de análise em que a um paciente que amontoava sua fala, misturando e emendando as palavras, o analista pergunta: “O que acontece com essas palavras que saem correndo, tal como você quando vem para cá?”

           Ao que o analisando responde: “É que na última sessão fui embora sem chegar a dizer coisa alguma e não queria que isso acontecesse de novo”. “(...) o final de uma palavra junta-se com o começo da seguinte, formando uma grande palavra.”

          O paciente, preocupado em evitar o corte, se agarra à grande palavra, tentando condensá-la num presente atemporal. A atemporalidade, a infinitude, a repetição me remete ao que conta o Padre Bourdin, um dos correspondentes de Descartes, no livro “Sétimas Objeções às meditações”: “Conheci uma pessoa que, um dia quando cochilava, tendo ouvido dar quatro horas, pôs-se a contar as batidas do relógio assim: uma, uma, uma, uma. Então, o absurdo que ela concebia em seu espírito levou-a a exclamar: “Acho que este relógio está quebrado, deu quatro vezes uma hora!”

          A repetição transferencial, dentro da situação analítica, como nos fala Pontalis, no seu livro “A Força de atração”: “(...) é um acontecimento: não ocorreu outrora, ocorre agora, advém. Estranho fenômeno, em que se conjugariam repetição e primeira vez”. (fl. 94)

          É a imutabilidade, a repetição, que o paciente busca, como se no presente cada batida do relógio fosse sempre a primeira, como um perpétuo um.

          O corte, como interpretação, deve apontar para isso, a repetição de significantes na qual o analista ocupa um lugar numa séria de figuras do Outro do sujeito. Pois, com a suspensão de um significante é criada a possibilidade de o sujeito sair da repetição, permitindo-lhe assumir sua história, isto é, inserir nela sua própria participação.

          A escansão, tal como o manejo do tempo da sessão, liga a repetição à rememoração. O atual da fala do analisando, que reinscreve no lugar do Outro o que o sujeito não reconhece como seu, lhe permite ter acesso ao que constitui a indestrutibilidade de seu desejo. O analista, ao cortar a sessão, introduz o analisando na possibilidade de cair de sua fantasia – instante de ver -, momento no qual surge a dimensão do desejo inconsciente como um enigma, como um ato falho, que libera significantes, rompendo o vínculo da linguagem com outras palavras para poder produzir um efeito de sujeito. É por isso que é no só-depois da sessão que ocorre o achado – instante de concluir -, latente enquanto durou a sessão – instante de compreender -, e o sujeito tem pressa de voltar à análise para fazer as conexões com os significantes da sessão anterior. No momento de concluir o sujeito do enunciado coincide com o sujeito da enunciação. O encurtamento da sessão, o corte, o tempo lógico visam precipitar no sujeito o momento de concluir, para que o sujeito se declare.

 
 
Bibliografia:
  • “O Ser-Tempo” – André Comte-Sponville – Martins Fontes
  • “A Força de Atração”- J.-B. Pontalis
  • “Do Gozo Criador” – C. A Pérez
 
 

Patrícia C. Pacheco

 

 

 

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