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Transmissão, autorizar-se e reconhecer

 

TRANSMISSÃO, AUTORIZAR-SE E RECONHECER

 

“(...) O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.
Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender (...).”
(Pessoa, 1911-1912, p. 223)

 
 

          A psicanálise, como corpo teórico, nasceu originalmente a partir da clínica de Freud, isto é, antes de ser teoria, a psicanálise era trabalho.

          Para Renato Mezan a análise não é a aplicação de um conhecimento, mas invenção de um saber. Sendo que nesta invenção encontra-se um nível estritamente singular, particular e, ao mesmo tempo, universal, que diz das constantes do funcionamento psíquico que Freud extraiu como corolário de seu trabalho. (Mezan, 1988, p. 329)

          Pensando na clínica, não creio que seja possível um trabalho de psicanálise sem que os conceitos estejam presentes, em surdina, na escuta do analista. Mas, só isto não basta, é necessário que o psicanalista esteja atravessado por estes conceitos, e que eles encontrem eco nas significações pessoais próprias de cada um.

          Ao pensar o trabalho de análise surgiu-me um questionamento acerca da idéia da transmissão, do autorizar-se e do reconhecimento do analista. Pois a transmissão é muito mais que um repasse de um aparato teórico-conceitual, é algo que se funda em torno de um não sabido, de um vazio, e neste sentido, parece-me muito mais pertinente pensar a transmissão em psicanálise, do que a transmissão da psicanálise. O que vai em direção ao perguntado por Lacan em "A psicanálise e seu Ensino": "Como ensinar o que a psicanálise nos ensina?" (Lacan, 1957, p. 439). Isto é, como apreender a experiência de atravessamento que o sujeito tem na clínica, tanto como analista, quanto como analisando?

          A prática analítica é uma situação extraordinária, em que somente a apropriação pela experiência permite uma saída singular, pois a experiência do inconsciente, na análise pessoal, é o que situa cada um em relação ao "ser analista".

          Embora a psicanálise tenha como parâmetros básicos algumas afirmações que não podem ser ignoradas sob pena de se excluir do campo balizado pelo inconsciente, existem maneiras diferentes de praticá-la e de pensá-la, que são determinadas pela análise pessoal, pelos estudos teóricos e supervisões, que marcam cada um.

          Ao pensar o autorizar-se, surgiu-me o significante experimentar. Experimentar o quê? Experimentar a clínica? Como experimentar?

          Fui ao Aurélio procurar saber os significados que tem esta palavra. E, alguns "sentidos" fizeram "sentido".

          Experimentar como pôr em prática – que traz o trabalho analítico como uma prática, prática fundada na transferência, prática de um saber, saber sobre o inconsciente, com o inconsciente, saber proveniente dos livros, saber nascido da análise pessoal.
Experimentar com o significado de vestir. A psicanálise como um saber que é "vestido", incorporado. Um psicanalista não é analista só em uma parte do seu tempo, seu saber se impregna. É um saber "de cor", isto é, de coração.

          Experimentar no sentido de sentir, sofrer, suportar. Suportar saber de si e do outro. Onde em cada análise iniciada analista e analisando sofrem os efeitos deste trabalho.

          E, pensar o início deste experimentar, desta prática, deste sentir, me remete ao que li um dia a respeito da formação de um jovem artista. Cabral de Melo Neto diz que a formação de um artista novo diz respeito a um paradoxo: o reconhecimento do novo – re-conhecer o novo. No sentido de que se trata de uma obra cuja identidade vem da criação de sentidos novos, ao mesmo tempo em que depende de um repertório já estabelecido para o seu reconhecimento. Paradoxo de reconhecer o novo, e de afirmar a sua identidade, quando reconhecer é da ordem da repetição do já conhecido. Neste sentido, o reconhecimento de um novo analista é da ordem de reconhecer uma nova prática, prática do particular, do singular, mergulhada no inconsciente, amparada em bases teóricas consistentes e conhecidas.

          A psicanálise em intenção, lugar primeiro de responsabilidade. "O analista só se autoriza de si mesmo (...)". De si mesmo? Desde seu lugar de analisante? "(...) e por alguns outros". O que é necessário saber encontrar para reconhecer um saber em uma experiência privada?

          Como reconhecer e acolher a criação e a novidade que se produz a cada analista que surge?

 

BIBLIOGRAFIA:

  1. Lacan, J. (1957). A Psicanálise e seu ensino. Em Escritos. (438-460) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 1996.
  2. Mezan, R. (1988). A Vigança da esfinge. Ensaios de Psicanálise. São Paulo: Ed. Brasiliense.
  3. Pessoa, F. (1914-1935). O Guardador de rebanhos. Em Ficções do interlúdio. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
  4. Sussekind, F. (org.). Correspondência de Cabral com Bandeira e Drummond. São Paulo: Nova Fronteira. 2001.
 

Patricia C. Pacheco

 
 

 

Intersecção Psicanalítica do Brasil
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