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A ESCRAVIDÃO.

O DISCURSO DA LIBERDADE É MÍTICO.

                                                                                                     RACHEL RANGEL

               Pretendemos aqui discutir a questão da dominação e servidão, independência e dependência, como noções que vinculam o desejo ao desejo do Outro. Para tal discussão, emerge a necessidade de conferir o pensamento lacaniano, sobretudo quando expressa suas idéias no seminário sobre "As Psicoses", onde escreve o seguinte texto: O discurso da liberdade. O mesmo se encontra incluído no capitulo: Do significante no real e do milagre do uivo.

              Todavia parece-nos interessante, a princípio, fazer uma ponte com a filosofia, centralizando esse enfoque a Hegel, uma vez que seu pensamento nodal enfatiza a consciência–de-si, como sendo o próprio desejo.

              Elegemos o pensamento hegeliano porque, no momento em que se ocupa da Fenomenologia do Espírito, destaca a consciência de si para clarificar questões sobre escravidão. Questões que ora são nosso foco de atenção.

              Constatamos tal proposição quando, a exemplo, Lacan em seus escritos, aborda o pensamento de Hegel, utilizando-se das leituras de sua principal obra, já citada, para confrontar vieses da Psicanálise com a Filosofia.

              Justificada nossa proposta em relacionar Hegel a Lacan, enquanto convergência de idéias comuns no que se refere ao desejo como desejo do Outro, implicado na relação senhor-escravo, explanaremos então considerações que permeiam o pensamento hegeliano e subseqüentemente o pensamento lacaniano.

               Transcreveremos aqui uma pequena mostra das idéias de Hegel com a intenção de introduzi-lo a partir dos seus feitos.

               Adentrando em sua obra, constatamos que, em 1807, houve o aparecimento da Fenomenologia do Espírito, fato que provoca e marca a ruptura filosófica entre seus amigos. A partir daí Hegel conquista seu próprio espaço e desenvolve um pensamento original, construindo seu grandioso sistema filosófico.

               É Hegel quem aproxima o ser do conceito. Considerando que até então sua ênfase se fundamentava numa metafísica onde o ser era substancializado, Hegel concluiu que o conceito é um conhecimento mediato e mediado pela palavra, sendo o esse sujeito um retorno a si a partir do Outro (o outro da palavra). Eis a noção central do pensamento de Hegel: Os três momentos lógicos da dialética do sujeito, que compreende, o Em–si, Para-si e Consciência–de-si..

               A filosofia, segundo Hegel, atinge as coisas, a natureza e a história em sua verdade, ou seja, como momentos da realização de um espírito que, através deles, toma consciência-de-si.

              Paulo Menezes, escritor paraibano, que vem dedicando seus estudos à filosofia e especialmente a feno¬menologia hegeliana, muito contribuiu conosco neste percurso. Ele destaca que a intenção de Hegel na fenomenologia é articular com o fio do discurso cientifico, ou com a necessidade de uma lógica - as figuras do sujeito ou da consciência que se desenha no horizonte do seu afrontamento com um mundo objetivo- "Ciência da Experiência da Consciência."

              Eis a questão: Selbstbewusstsein - (consciência-de-si)

             Em relação ao que apenas referimos, Paulo Menezes destaca dois pontos fundamentais. Independência e dependência da consciência-de-si, e enfatiza a dominação e a escravidão. É justo aí que deparamos com os vieses que acima citamos. Movimentos da consciência-de-si. A consciência-de-si é o retorno a partir do objeto trazido para o sujeito para nele desaparecer, portanto é desejo. E o objeto do desejo é o ser vivo, é reflexo sobre si. Nada porém satisfaz a inquietude do de¬sejo enquanto não encontra outro eu.

              Paulo Menezes aborda veementemente a questão da dialética do senhor e do escravo, dizendo que num primeiro encontro de ambos não há uma identificação amorosa, mas uma luta de vida ou morte. Uma consciência- em- si abdica para conservar a vida, o escravo. A outra emerge como autêntico ser para-si, o senhor.

              O senhor é para-si, enquanto o escravo é para o outro, uma consciencia alienada. O escravo, mesmo abdicando de sua liberdade, encontra um movimento na consciência natural, assumindo sua Condição de objeto, ou seja, um ser para-o-outro.

               A consciência-de-si é o desejo. A busca tautológica do eu sou eu. Vai a busca do outro para ser e o destrói como outro. O desejo é pois o movimento em que a consciência de si suprassume a oposição, ao produzir a identidade consigo mesmo.

               Como podemos observar, reside aí a importância em conectar Hegel às noções psica¬nalíticas, sobretudo lacanianas, pois como compreender consciência-em-si, consciência-para-si e consciência-de-si, sem nos determos a duas noções básicas que seriam exatamente as questões de dominação e escravidão, independência e dependência da consciência-de-si.

               Retomaremos a partir daqui o Seminário 3 de Lacan – As Psicoses-, com a finalidade de explicitar o tema em evidencia.

               O discurso da liberdade é mítico.

               Essa premissa é verdadeira na medida que Lancan afirma: "Vivemos numa sociedade em que a escravidão não é reconhecida". Entretanto, nem por isso está abolida. E continua: "Isso é mesmo objeto de reivindicações bastante notórias. É claro também que, se a escravidão não está abolida, ela aí está, se podemos dizer, generalizada". [...] "Assim, a duplicidade senhor-escravo está generalizada no interior de cada participante de nossa sociedade".

               Lancan atribui a servidão básica da consciência ao discurso. E reforça que, atrás da servidão generalizada, há um discurso secreto, que subsiste de algum modo sob forma de recalcado.

               No Seminário 1 – Os escritos técnicos de Freud – Lacan já houvera referido à dialética do senhor e do escravo. Ele escreve; "A relação do senhor e do escravo é um exemplo-limite, porque, é claro, o registro imaginário em que se desdobra só aparece no limite da nossa experiência. É definida num outro plano que não o plano imaginário – o plano simbólico".

               E Lacan prossegue, apontando Hegel, comentando que esse filósofo dá conta do laço inter humano, tendo que responder seja pela sociedade, seja pela história. Esclarece ainda não ser possível negligenciar a luta entre os homens, assertiva que fundamenta o conflito entre dominante e dominado como marcado pela negatividade, condição essa que estrutura o mito original.

               Continuaremos argumentando sobre escravidão com base na dialética hegeliana, uma vez que Lacan insiste; "Não se trata pois, na relação do senhor e do escravo, de domesticação do homem pelo homem. Isso não pode bastar". E questiona em que se funda essa relação; "Não o fato de que aquele que se confessa vencido peça mercê e grite, é que o senhor se tenha engajado nessa luta por razões de puro prestígio, e que tenha arriscado sua vida. Esse risco estabelece a superioridade, e é em nome disso, não da sua força, que é reconhecido como senhor pelo escravo".

               O reconhecimento pelo dominado não vale nada para o dominador, considerando que é o dominado que reconhece o dominador. É por conta de argumentos como esse que defendemos o discurso da liberdade sendo de natureza mítica. Uma lei se impõe ao dominado, lei que se alicerça na satisfação do desejo do outro.

               Para concluir o trabalho que desenvolvemos, traremos à tona Lacan, com a questão da dialética do significante, onde situa o desejo no desejo do Outro. Para Lacan a submissão do sujeito está associada à estrutura lingüística e enfatiza ainda o desejo do homem como sendo o desejo do Outro.

                                                                                                                              Rachel Rangel Bastos

 

 

 

 

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