Introdução
Para desenvolver este trabalho localizo-me nas notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranóia. Trata-se do caso Schreber.
Conforme Lacan; "Entre todas as produções literárias do tipo discurso de defesa de advogado, entre todas as comunicações dos que, passados além dos limites, nos falam da experiência estranha que é a do psicótico, a obra de Schreber é certamente uma das mais notáveis. Há aí um encontro excepcional entre o gênio de Freud e um livro único".¹
Ainda na introdução do seminário 3, As estruturas freudianas das Psicoses, Lacan apresenta a questão das psicoses, enfatizando o interesse pela paranóia.
Como se constituiria essa loucura? Quais as condições organizadoras para o desenvolvimento da paranóia? Lacan não se restringe em colocar a Metáfora Paterna em evidência, mas preocupa-se em explicitar a importância veemente da Metáfora Paterna no processo da paranóia. Reforça que, quando não acontece a metáfora paterna, acontece a psicose. Não se metaforizando, não há significante, na falta do significante surge o delírio como sintoma tácito que vem diferenciar a neurose da psicose. Na psicose é vivido o automatismo mental. As palavras vêem de fora, algo do real. Sendo esse real o que resiste ao simbólico. O psicótico alucina porque não simboliza e é na tentativa de simbolizar que delira.
Freud faz toda uma reconstrução a partir da língua de Schreber, reconstitui os signos. Utiliza-se do que o próprio Schreber chamou de língua fundamental. Isso solidifica a posição de Lacan quando afirma que a interpretação analítica se demonstra simbólica, no sentido estruturado do termo. Uma vez que estamos articulando o limite simbólico no discurso, e aqui referenciando no caso Schreber, lembramos Freud citado por Lacan quando diz: o inconsciente é uma linguagem. Mesmo que a linguagem seja articulada não implica que esta seja reconhecida . Pode-se constatar isso no momento que verificamos a forma como Freud analisou o caso Schreber, como se traduzindo uma língua estrangeira. O psicótico ignora a língua que ele próprio fala.
Numa estrutura onde o sujeito não metaforiza, esse sujeito se fragmenta e pensando no modelo na linguagem como estrutura é que Lacan funda suas idéias e caracteriza o delírio numa estrutura psicótica.
É a metáfora paterna o elemento determinante para barrar o sujeito, ou seja, para que surja a lei e interdite o sujeito. Logo, se Schreber não metaforizava, emergia o delírio.
Sigmund Freud empenhou-se em analisá-lo cuidadosamente por considerar material de importância determinante, interessando-se sobretudo por uma apreciação sobre a técnica e a teoria de ordem psicanalítica.
Freud inspirou-se nas memórias de Schreber, visto que “a investigação psicanalítica da paranóia seria completamente impossível se os próprios pacientes não possuíssem a peculiaridade de revelar exatamente aquelas coisas" [...] “ só dizem o que resolvem dizer, decorre disso ser a paranóia um distúrbio em que um relatório escrito ou uma história clínica impressa podem tomar o lugar de um conhecimento pessoal do paciente”. *²
Por isso pensamos legítimo basear interpretações analíticas na história clínica de um paciente que sofria de paranóia.
A história clínica
Schreber fora acometido de dois grandes distúrbios nervosos. Ele mesmo atribuiu tais distúrbios à condição de níveis em freqüente tensão mental.
A primeira doença do Dr. Schreber começou no outono de 1884, quando assumiu a função de juiz presidente de um tribunal. Em fins de 1885, ele estava restabelecido. Na verdade é importante registrar que tanto os relatórios médicos impressos quanto a descrição do próprio paciente, expõem o suficiente sobre detalhes pessoais no trato à sua história anterior.
Fora casado, no entanto não teve filhos, embora fosse desejo do casal.
A primeira doença manifestou-se em um período de um ano. Oito anos depois houve uma reincidência. Vivia drásticas experiências patológicas. Mantinha-se sentado, sem se mexer durante horas. Apesar do corpo usufruir de muita rigidez, suas idéias gozavam de delírios de caráter místico e religioso.
Incorporava sentimentos de perseguição, além de julgar-se prejudicado sobretudo pelo seu médico, Dr. Flechsig. Seis anos depois, Schreber apresentou melhoras, conseguindo inclusive viver independentemente.
O cerne do seu delírio residia na idéia de ser transformado em uma mulher. Proclamava que, como sua doença era incurável, perderia a alma e se transformaria em mulher, e nesta condição, seria usada sexualmente. Acreditava também ser o próprio Deus. Freud relacionava as duas idéias centrais de Schreber na adoção de uma atitude feminina para com Deus.
Tentativas de interpretação
Freud destaca dois pontos como sendo de suma importância na história clínica das memórias de Schreber: o papel de redentor e a sua transformação em mulher, ou seja, a sua emasculação. Segundo relatório de 1899 do Dr. Weber, os delírios do paciente incidem também sobre a questão do desejo de transformar-se em mulher. Entretanto enfatiza que “não se deve supor que ele deseje ser transformado em mulher, trata-se antes de um dever baseado na Ordem das Coisas, ao qual não há possibilidade de fugir, por mais que, pessoalmente, preferisse permanecer em sua própria honorável e masculina posição na vida”. Em assumindo como alternativa a feminilidade manteria uma fecundação direta com Deus e promoveria uma nova raça de homens, obtendo assim permissão divina para morrer de morte natural. Alivia-se portanto, ao resto da humanidade, reconquistando o estado de beatitude. No decurso da purificação da alma, este aprende a língua que é falada pelo próprio Deus.
Lacan, por sua vez, valoriza a ordem simbólica. "Na ordem simbólica, todo elemento vale como oposto a um outro."³
Os relatórios médicos demonstram que para Schreber Deus poderia ser seu pai. Acreditava ser filho de Deus.
Schreber fala de distúrbios nervosos e lapsos eróticos, como se as duas coisas fossem inseparáveis.
Além dos delírios de perseguição, Schreber experimentou visões e afirmara receber revelações sobrenaturais. A causa ativadora de sua doença foi uma manifestação de libido homossexual e o objeto desta libido, segundo Freud, fora seu médico, o Dr. Flechsig e concluíra que suas lutas contra o impulso libidinal produzira o conflito que deu origem aos sintomas. Freud responsabilizara Flechsig como objeto de desejo de Schreber, mas em seguida, inclui a questão da transferência, e argumenta que tanto o irmão quanto o pai de Schreber eram de fato seu objeto de desejo, pois amava originalmente alguém mais importante e este alguém era justo o pai, representado na figura de Deus. Destaca que seu pai era médico. Mais uma vez deparamos no terreno do complexo paterno.
Freud fez uma articulação. Realça que nos delírios Schreber aparece como uma fantasia feminina (o desejo de transformar-se em mulher, plena de fantasias homossexuais passivas ), que desloca para a figura do seu médico. A partir deste deslocamento converte seu desejo em perseguição. Freud interpretou que a perseguição que delegara a Flechsig confundia-se com o conflito com Deus, conflito este originariamente infantil, ligado ao pai que ele tanto amava. Freud afirma: “Os detalhes desse conflito é que determinam o conteúdo de seus delírios”.
Schreber temia as ameaças do pai, especialmente quando lhe cobrava respeito e temor a Deus. Para Freud, Schreber, em seu estágio final de delírio, revela, através da castração, o desejo de tornar-se mulher e obtém a possibilidade de rever e reformular o temor a Deus, ao próprio pai.
Considerando-se a compreensão de Lacan sobre a paranóia, da linguagem como estrutura pode-se inferir uma perspectiva de estrutura, onde difere de Freud quando alude a estágio no que concerne a posição da doença.
Lacan estabelece uma relação do sujeito com a linguagem e apresenta Deus como essencialmente linguagem. Extrai uma frase do livro: "As memórias de um nevropata" - Os raios de Deus devem falar. É com base nesta sentença que Lacan ilustra a relação do criador com o que ele cria. A relação do pai com o filho. Ao mesmo tempo que, segundo Lacan, esse Deus é marcado por uma espécie de feminização, caracterizando o conflito e o enigma que leva Schreber ao delírio, pois inserido esse conflito se instala a castração,não ocorrendo a metáfora paterna e consequentemente a castração passa a ser o delírio de feminização.
A mistura de reverência e rebeldia na atitude de Schreber em relação a Deus é amplamente debatida. Num de seus delírios era o próprio Deus e simultaneamente instigava uma trama com ele mesmo.
Sobre o mecanismo da paranóia
No seminário, na lição de 15/12/1955, Lacan questiona a respeito do seu método com relação a Schreber. Em seguida sugere que se pense metodicamente e aponta a importância da palavra na estruturação dos sintomas e o quanto se pode avançar na investigação e análise dos mecanismos sobre a paranóia.
Lacan esclarece que no caso Schreber pode-se observar, com base nos depoimentos do jurista e através de uma análise interna que se trata de uma estrutura, cabendo inserir a premissa de que o discurso do sujeito é o que vem constituir os mecanismos da paranóia.
A valorização dos fenômenos de linguagem é indubitavelmente o mais fecundo dos ensinamentos psicanalíticos.
Para distinguir a paranóia das outras estruturas psíquicas é fundamental observar os sintomas, que conforme Lancan são transtornos de linguagem, que o piscótico apresenta ao analista,como já foi dito. Pode-se aludir algumas características que se sobressaem na paranóia. Alguns dos sintomas são apresentados nas notas sobre o caso que ora nos ocupamos. Estão entre eles destacados, delírios de perseguição, eretomania, ciúme e megalomania.
Reconhecendo essas referências que Freud apresenta sobre o caso Schreber, percebemos a necessidade em exaltar e esboçar o que se pode refletir e contextualizar na prática e teoria psicanalítica.
A partir dessa idéia parece-nos indispensável expor a dialética da paranóia. Para Freud esta se alicerça em um única proposição: “eu (um homem) o amo (um homem)” *4. Entretanto desmembra essa premissa em três fórmulas que se lhe apresentam possíveis.
1- Delírios de perseguição.
“Eu não o amo - eu o odeio”.
A proposição eu o amo transforma-se por projeção em outra, “ele me odeia” (persegue), o que o livrará da culpa por odiá-lo, logo : eu não o amo porque ele me persegue.
Freud observa que não há como duvidar que o perseguidor é alguém que foi amado.
2 - O passo seguinte seria a contradição na eretomania. “Eu não o amo- eu a amo”. E em consonância com a mesma necessidade de projeção a proposição é transformada em “eu não o amo- eu a amo”, porque ela me ama. Então, não sou eu quem ama o homem- ela o ama.
3 - Surgem os delírios de ciúmes. Não sou eu quem ama as mulheres, ele as ama. Os conflitos aparecem em formas de delírios, perseguição, e por fim, na paranóia, transparece “não amo de modo nenhum- não amo ninguém.”
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