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Para além das vozes.


 RACHEL RANGEL

                                                            "Muitas vozes", Ferreira Gullar

Muitas vozes
Meu poema
é um tumulto:
a fala
que nele fala
outras vozes
arrasta em alarido.

(estamos todos nós
cheios de vozes
que o mais das vezes
mal cabem em nossa voz:

se dizes pêra,
acende-se um clarão
um rastilho
de tardes e açúcares
ou
se azul disseres,
pode ser que se agite
o Egeu
em tuas glândulas)

A água que ouviste
num soneto de Rilke
os ínfimos

rumores no capim
o sabor
do hortelã
(essa alegria)
a boca fria
da moça
o maruim
na poça
a hemorragia
da manhã

tudo isso em ti
se deposita
e cala.
Até que de repente
um susto
ou uma ventania
(que o poema dispara)
chama
esses fósseis à fala.

Meu poema
é um tumulto, um alarido:
basta apurar o ouvido.

               

               Inicio o texto fazendo uso do poema "Muitas vozes" de José Ribamar Ferreira Gullar. Tal ilustração se presta aos primeiros passos para uma discussão e reflexão sobre Pulsão Invocante. Sobre a voz na clínica lacaniana e suas conseqüências para a formação e transmissão da psicanálise. Justifico a pertinência entre a voz e clínica, porque a voz por si só não diz nada, pelo menos numa perspectiva psicanalítica. Ela só existe articulada ao desejo, desejo do Outro.
               O que estaria para além das vozes? Muitas vozes. Vozes distintas. Vozes que podem representar um grito, uma gritaria, uma celeuma, uma algazarra, uma balbúrdia, ou mesmo uma confusão de vozes. Um alarido. Um clamor de vozes. Outras vozes. Outras vozes que podem ser muitas vozes em suas vezes. Fala. Fala que falta ou que falha. Fala que na falta ou na falha se implica numa forma de linguagem. Vozes que por vezes dizem respeito ao discurso de quem fala, onde o dizer ou o não dizer tem um curso. É desta voz que desta vez falamos. Fala que não tem idade, portanto atemporal. Fala que pode presentificar-se no infans, no infantil, na infância, no pré-adolescente, no adulto e mesmo no ancião. Passemos então " ao rés da fala". (outro poema de Ferreira Gullar).
               Destaco o fato de ora contextualizar minhas elaborações no infans ou infante, por considerar ser nesse momento o desabrochar inaugural para a constituição de um sujeito e ser nesse alicerce que monto minhas idéias para refletir a voz fazendo vez de muitas vozes ( nomeando, fazendo Lei, promovendo corte ) na pulsão invocante e sua inserção na linguagem. Portanto, o sujeito desejante colocado aqui em evidencia é esse recém-nascido, a majestade o bebê. Receberam o nome de infante todos os filhos legítimos dos reis e rainhas que não herdaram a coroa na corte. Isso pode significar que há outro dizer para a relação mãe/bebê. A relação outro/Outro. Lugar onde a verdade de um sujeito se legitima não na relação propriamente mãe/bebê, mas no vinculo com o Outro.
               A voz à qual será enfatizada e articulada com a clínica lacaniana nesta elaboração, é aquela que Lacan nomeou de pulsão invocante. A voz enquanto objeto a. Objeto que promove resto e por conseguinte, tem como meio um sujeito falante. A voz que remete a um chamamento, a um laço que estabelece linguagem. O que faz laço entre os falantes. Laço esse que faz suplência ao discurso, ou melhor dizendo, ao curso do dizer.
               Certa feita, no ano de 2008, em uma reunião cuja pauta era discutir a concepção do Núcleo de Estudos e Pesquisa Psicanálise com Bebês e Crianças - NEPP, tivemos o privilégio de contar com a presença de Marie Christine Laznik. Psicanalista ocupada com clínica com bebês e suja voz e escrita vem ecoando dentre nós. Lá pelas tantas, ela me perguntara sobre minha clínica com bebês. Informei que salvo algumas experiências eventuais não havia ainda atendido bebês no consultório, nem crianças. Contudo exercia meu ofício fazendo atenção a uma composição que para mim versava entre um outro e um Outro.
               No parágrafo acima enfatizo o ocorrido, pelo fato de aquela oportunidade ter-me acordado para a importância da escuta de bebês e não com bebês. No trabalho com bebês e crianças, o cuidado deve endereço ao infans na busca natural e incessante em constituir-se sujeito. Conclui que a clinica, com bebês e crianças, envolve outra forma de escuta. Essa clinica exige uma nuance a mais. A voz sobressalta importância destacada. A voz estabelece chamamento. Chamamento estabelece relação entre um sujeito e o Outro. Entre um sujeito e um Outro há fala , ou melhor explicitando, falasser. Estabelece-se ai um apelo que convoca. Convoca o sujeito a uma relação com o Outro. É nesse instante que aparece uma mãe atuando uma espécie de chamamento à linguagem. Função que pede um acontecimento inaugural. Inaugural porque atua enquanto apelo à possibilidade de fala.
               Mas é necessário criar laços e cortar laços. Entrar e sair desse barulho. Lembrar e esquecer. Só assim o bebê (infans) faz salto à língua e se constitui enquanto sujeito. Sujeito desejante.
               Sabe-se que a Lei, a interdição, o corte, vem suprir o nome do Pai. Assumindo então a tríade necessária para o enlaçamento ao linguageiro. É desse corte que surge uma fenda que permite a entrada de uma outra voz. Algo que diz respeito a um para além das vozes. A fala.
               A voz está presentificada com função distinta. Ela pode aparecer apenas no lugar de um grito ou pode ainda aparecer com função constitutiva de linguagem. É ai que aponto a vez da voz.
               Nesta busca por desvendar o que está para além das vozes, convoco Jean Michel Vivés quando em seu texto intitulado "A pulsão invocante e os destinos da voz". Elucida: "Os psicanalistas abordam pouco a questão pulsão invocante. Isso pode parecer bastante espantoso visto que é, essencialmente, com ela que eles trabalham na intimidade de seus consultórios. Invocante ou vocificante, assim como a denominou Lacan, é a primeira a ser destacada e isolada enquanto pulsão. Invocare, em latim, reenvia a chamamento. O circuito da pulsão invocante declinar-se-á, pois entre um "ser chamado", um "fazer-se chamar" (como ocorre com todos os nomes...), um "chamar". Mas, para chamar é preciso oferecer a voz." Para isso é preciso que o sujeito tenha percebido do Outro, que terá respondido ao grito interpretado como uma demanda, depois que a tenha esquecido para poder dispor de sua própria voz sem ser saturado pela voz do Outro.
               Ao investigar esse circuito apontado por Vivés, fiz uma associação com o circuito mostrado por Lacan, quando fala de sua clínica, destacando o tempo de ver, o tempo de compreender e o tempo de concluir. Parece-me que esses tempos elaborados por Lacan, de alguma maneira coincidem com a mecânica apresentada por Vivés. Há uma equivalência entre o "ser chamado" e o "ver", o "fazer-se chamar" e o "compreender" e o "chamar" com o "concluir". Seriam elucubrações o que meus olhos vêm e os meus ouvidos escutam? Está posto em discussão.
               Outro texto de Vivés me despertou interesse. "Para introduzir a questão da pulsão invocante". Nele, o autor deixa claro a vinculação da voz com a pulsão, da pulsão com o desejo, do desejo com a constituição do sujeito, do sujeito com o inconsciente, do inconsciente com a fala e da fala com a linguagem. Constato portanto, que a voz do Outro é a manifestação de seu desejo, razão que nos permite reforçar a premissa de que o desejo do sujeito se funda como desejo do grande Outro, através da voz.
               No seminário 11, os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, Lacan introduz o que entende por alienação. É neste seminário que esclarece as questões que dizem respeito aos processos relacionados à psicose. Entretanto, é no seminário sobre angustia que apresenta o conceito de separação (processo divisor). Para demonstrar seus propósitos utiliza-se das figuras topológicas para explicitar a forma como os cortes promovem as fendas, criando bordas. E é dessas frestas que emergem os significantes encadeados, circulando e exercendo movimento. Movimento capaz de criar bordas e limites nas superfícies. Esses vazios podem proporcionar aberturas para preenchimentos e ou esvaziamentos. O dentro pode ser fora e vice e versa. Podendo aparecer e desaparecer, separar ou alienar o sujeito em sua constituição.
               Separação e Alienação. Aparição do sujeito. Aparição legitimada nos nomes recebidos a partir do "corte", interdição paterna. É o corte que promove um outro lugar para o sujeito. Lugar de sujeito falante e consequentemente desejante. Donde o sujeito abdica do lugar do Outro. Quando o sujeito assume sua voz, está patenteando sua fala e se representando por uma linguagem que mesmo não tendo sentido, faz sentido. Encontra uma direção, um destino distinto. Distinto do que apenas regulava num grito, sem vez à voz. Sem lugar representante de desejo. Voz expressando desejo a partir da fala. Nesse processo o sujeito vai em busca do contorno da voz perdida, "objeto perdido" e desse modo sai do vazio da voz e passa a bordejar as superfícies do que quer dizer essa voz (chamamento). Do que está para além dela.
               Jacques Lacan aprofunda seus postulados sobre a voz em seus seminários. Mas foi em especial no Seminário sobre Identificação (Sem. 9) e no seminário sobre Angustia que articula através da topologia seus conceitos a esse respeito. Explicita de maneira determinante, a partir das figuras supra citadas, a noção de corte na superfície.
               Sobre a imperatividade da voz ele descreve: "O objeto voz coloca em cena a voz".
               A voz aparece fazendo acting out. É com o corte que pode haver uma passagem ao ato.
               Não pretendo estender mais ainda minha fala. Faço então um corte para concluir. Um corte com a ultima frase do poema de Ferreira Gullar e que se presta para lembrar sobre a clinica, a formação e a transmissão da psicanálise e sua intersecção com a pulsão invocante. Muitas vozes. "Meu poema é um tumulto, um alarido: basta apurar o ouvido".

                                                                                                                        Rachel Rangel Bastos
                                                                                                                        rachelrangel@gmail.com

 

Referências Bibliográficas:

LACAN, Jacques. Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
                        Escritos. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998.
                        O seminário, livro 4, A relação de objeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.
                        O seminário, livro 9, A Identificação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1961/1962.
                        O seminário, livro 10, A angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.
                        O seminário, livro 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1979.
KAUFMANN, Pierre. Dicionário Enciclopédico de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1995.
VIVÉS, Michel Jean. A Pulsão Invocante e os destinos da voz. Psicanálise e Barroco em revista. V.7, n.1:186-202, jul 2009.
VIVÉS, Michel Jean. Para introduzir a questão da pulsão invocante.

 

 

 

 

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