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Do grito ao laço social

Freud partiu do grito do recém-nascido para construir o seu Projeto, grito enunciado com “a função primária de via de descarga” e re-significado pela ação específica do próximo assegurador como uma “função secundária de comunicação”. Esse grito inaugural convoca o Outro a assegurar a entrada da criança no mundo da Linguagem, condição inicial para a constituição subjetiva e a construção de laço social.

 

I – Introdução: a concepção do NEPP

 A idéia de conceber um núcleo de estudo e pesquisa em psicanálise sobre bebês e crianças nasceu da demanda de um grupo de participantes de Intersecção Psicanalítica do Brasil, desejosos de gerar, na Instituição, um espaço de interlocução com a finalidade de tratar de indagações específicas sobre a clínica da infância .

A emergência do desejo de compartilhar questões essenciais como “o que constitui a clínica psicanalítica com bebês?” e “o que pode compor aquilo que se dinamiza na clínica psicanalítica com crianças” vai na direção de estudar, pesquisar e propor hipóteses somente pensáveis num conjunto de psicanalistas submetidos a um lugar transferencial de trabalho.

Hipóteses geradas, por outro lado, no seio de uma práxis movida pelo lugar transferencial em que o analista se coloca junto à criança e aos pais, para escutá-los em seu sofrimento: escutar a criança em seus primeiros tempos de relação à linguagem, com significantes nem sempre verbais, onde o sujeito falta a dizer; e escutar a demanda do casal parental de recuperação da criança de seus sonhos.

II – Problemática:  a origem do NEPP

            O nascimento da criança nem sempre é condição suficiente para o nascimento do sujeito. Por outro lado, a constituição da subjetividade requer um longo caminho a ser percorrido pela criança e pelos pais. Caminho que se desbrava num tempo (lógico e cronológico) que se inicia antes mesmo do nascimento da criança e que se faz de atropelos e acertos, dúvidas e obstáculos, alegrias e dores, amor e abandono. O psicanalista trabalha com a hipótese de que é possível intervir a qualquer momento, seja porque os pais o solicitam, seja porque a condição da criança o questiona.

Todavia, quanto mais precoce for a intervenção, mais favorecido será o tempo de constituição da subjetividade, como no caso de bebês, em que a expressão “intervenção precoce” tem sua razão de ser no fato de a criança receber atendimento já numa etapa muito precoce da vida.

De todo modo, “a criança é um analisante de pleno direito”, conforme a formulação de Rosine Lefort e Robert Lefort , independentemente de sua idade e de suas condições.

Além das perturbações infantis geradas no núcleo familiar, sejam os sintomas decorrentes da problemática do casal parental ou da subjetividade materna (J. Lacan, 2003), a criança é atualmente confrontada com os problemas decorrentes do chamado mundo pós-moderno. A inconsistência do Outro, a negação da diferença sexual e a incansável produção e oferta de objetos aprisionam a criança num sofrimento sem fim. A agressividade, a violência, a delinqüência, a hiperatividade, o fracasso escolar, a depressão, a anorexia, a bulimia, apontam para uma sintomatologia que, sempre associada aos primeiros passos de construção da subjetividade, não deixam de ter relação também com os sinais dos novos tempos.

Sendo impossível dissociar a questão clínica (tratamento da criança) do contexto familiar e o grupo familiar do cotidiano da cidade, a responsabilidade social com crianças submetidas a tais sofrimentos se adiciona aqui como um dos motivos para a criação do NEPP.

Por último, o estudo, a pesquisa e a clínica com bebês e crianças vai ao encontro do desejo de formação permanente dos participantes de Intersecção Psicanalítica do Brasil, conforme se pode depreender de sua Carta de Princípios:

Intersecção Psicanalítica do Brasil [...] reúne psicanalistas e estudiosos da Psicanálise em torno da transferência a Sigmund Freud e a Jacques Lacan, a partir da inscrição em nome próprio e da produção de cada participante [...] institui-se na articulação de diferenças, levando em conta a singularidade do desejo de cada um de seus participantes, sejam eles associados ou não a outros grupos e instituições [...] acolhe o  percurso de formação permanente de seus participantes. Considera a função do psicanalista como uma posição subjetiva fundamentada na análise pessoal  e sustentada pelos estudos teóricos, supervisões e produções. Esse acolhimento efetiva-se nos espaços das atividades de IPB, que se desenvolvem em âmbito local, nacional e internacional [...] busca construir uma reflexão constante sobre a teoria e a clínica psicanalíticas e realizar uma interlocução da psicanálise com outros campos de saber, suscitando uma interrogação sobre o seu lugar  na cultura. (grifos nossos)

III – Justificativa: os primeiros passos

Os primeiros trabalhos de Anna Freud (1895-1982) e Melanie Klein (1882-1960) surgem “em um momento em que as questões concernentes à analisabilidade das crianças e ao modo como se poderia realizar a análise começavam a ser objeto de um debate aberto na comunidade analítica” (Sílvia Fendrik, 1991:7). Até então, a análise do Pequeno Hans tinha suscitado um grande interesse, mas ao mesmo tempo uma enorme desconfiança em torno das conseqüências futuras para “uma criatura tão precocemente vítima da psicanálise” (op.cit.). Somente após o reencontro com Hans, então com dezenove anos, pôde o próprio Freud manifestar-se sobre a conveniência da análise para todas as crianças.

Melanie Klein vai atribuir ao “preconceito” contido no entendimento de que as crianças não eram consideradas sujeitos aptos para a análise a ausência de produção teórica desde o caso do Pequeno Hans. Fazia-se necessário enunciar com clareza os fundamentos dessa análise, apontando as diferenças em relação a dos adultos. É então através dessa psicanalista e de Anna Freud que os primeiros modos (opostos) de análise para crianças vão surgir: o analítico e o pedagógico. A versão criança-paciente proviria, no caso de Melanie Klein, de uma mãe que analisou o seu filho, e no caso de Anna Freud, de uma filha analisada por seu pai. A partir desse antagonismo (método analítico e método pedagógico), inaugura-se um novo espaço clínico, que tornará as crianças possíveis pacientes do analista.

O início da psicanálise com crianças, conforme Sílvia Fendrik (1991:10), “coincide com um intenso debate acerca da formação do analista e com as primeiras tentativas de institucionalizar essa formação”. Esse debate, em face de sua relevância, nunca foi interrompido, conforme mostra a história das instituições psicanalíticas. No centro das discussões, a questão da transferência, do gozo, da repetição e do inconsciente, assim como dos objetivos da análise para “seres tão imaturos”.

Se Melanie Klein e Anna Freud são as primeiras damas da então chamada psicanálise infantil , René Spitz (1887-1974) e Françoise Dolto (1908-1988) se notabilizaram pelo trabalho desenvolvido com crianças menores. Em 1965, René Spitz publica o que Anna Freud chamou de “uma descrição minuciosa e cuidadosa das inter-relações emocionais entre mãe e filho” , resultantes de “uma investigação sistemática em psicologia psicanalítica infantil”, que cobria justamente o primeiro ano de vida. O objetivo dessa investigação estava concentrado no estágio não-verbal. (René Spitz, 2004:XIII-XVI), cujos resultados permanecem sendo de grande utilidade para a psicanálise.

Françoise Dolto, por sua vez, assim explica o início da história do seu percurso psicanalítico:
[...] ocupei-me, desde muito cedo, de casos com os quais a psicanálise não se ocupava, pois a psicanálise, no início, ocupava-se apenas das neuroses ditas edipianas, ou seja, das crianças que falavam, por volta dos quatro, cinco anos.

É fazendo falar a anomalia desta criança, antes escutando-a, pois ela ainda não fala, escutando, compreendendo o que dá a entender pelos seus comportamentos, que a anomalia cede ...
Vou contar algumas histórias, para mostrar-lhes a fragilidade e, ao mesmo tempo, a fantástica riqueza da dinâmica libidinal por ocasião do nascimento, tanto para a mãe quanto para a criança; vocês verão o trabalho que pode ser feito, ou não, no nascimento, pelas pessoas em torno, para com as quais a mãe é tão sensível e, através da mãe, o bebê, o recém-nascido. (Dolto, 1988:15-17).

O trabalho de Françoise Dolto, de seus seguidores e outros baseia-se na hipótese de que, apesar de não fazerem uso da fala, de articularem palavras, o bebê e a criança pequena são seres de linguagem, estando inteiramente mergulhados na ordem simbólica já a partir da vida intra-uterina.

Jacques Lacan, sem ser psicanalista de crianças, recebeu Rosine Lefort em seu primeiro Seminário, para discutir o caso de Robert, “o menino lobo”.   Rosine, em conjunto com Robert Lefort, acabava de dar início a um trabalho de atendimento a crianças acolhidas em instituições, trabalho que veio se consagrar como um esforço permanente de renovação da psicanálise com crianças a partir do ensino de Lacan. É dos Lefort a formulação “a psicanálise é una”, pois esses analistas consideravam que todo sujeito (bebê, criança, adolescente ou adulto) tem direito a ser escutado. Ainda que pautada nas operações de causação do sujeito (e, ao mesmo tempo, por isso mesmo), a doutrina lacaniana, fundamentada nos registros real, simbólico e imaginário, concerne a qualquer sujeito (ou pré-sujeito).

A intervenção psicanalítica no caso de crianças difere, em princípio, da abordagem com sujeitos que já articulam a fala. A palavra do analista, sustentada num lugar transferencial, vem constituir-se em ato para significar aquilo que atravessa o corpo da criança, permitindo-lhe o acesso à condição de sujeito e a sua inserção na ordem da cultura. Por sua vez, a criança, ainda bebê ou já adiantada em idade, demandando uma subjetividade possível, necessita trilhar o campo do significante, suportado por um semblante encarnado na voz e no olhar do Outro, destacados do corpo do analista e tomados como objetos.

Sem se deixar tomar pelo que sabe, mesmo porque um saber falta, do seu lugar de semblant o analista sustenta uma invenção que conduz a uma nova posição subjetiva no tempo e em outro lugar. Então, na promessa de um sujeito, a criança pode serenar e simplesmente dizer “tchau”, fazendo o analista cair de uma utilidade suposta.

IV - Objetivos do NEPP

            O Núcleo de Estudo e Pesquisa Psicanálise com Bebês e Crianças estabelece como seus objetivos:

  1. Geral: estudar e pesquisar o campo da psicanálise com bebês e crianças.
  2. Específicos:

a) desenvolver um trabalho de intervenção precoce junto a bebês e crianças, em consultórios, creches, instituições de ensino públicas e privadas, escolas;
b) definir linhas de estudo e pesquisa, conforme o interesse, o contexto e as especificidades de cada local em que se encontre IPB;
c) desenvolver um aprofundamento teórico sobre o que é ter bebês e crianças em análise e sobre o lugar do psicanalista na transferência;
d) buscar modos de formalização de ações específicas voltadas para a infância, a partir da demanda crescente que emerge do contexto social;
e) implementar projetos que visem à capacitação de profissionais e de equipes de saúde mental;
f) contribuir para a consistência da formação permanente dos participantes de IPB;
g) colaborar com o ensino e a transmissão da psicanálise.

V – Metodologia: funcionamento do NEPP

Com a finalidade de atingir os objetivos do NEPP, grupos de estudo e pesquisa serão desenvolvidos, considerando o ponto teórico-clínico de interesse de cada grupo de participantes, inscritos ou não em Intersecção Psicanalítica do Brasil. Outro modo de funcionamento proposto é a formação de cartéis.

Paralelamente, seminários, reuniões, jornadas e outras atividades científicas poderão ser programadas, em Intersecção e em outras Instituições. Nos simpósios anuais de Intersecção Psicanalítica do Brasil estará prevista a realização de, pelo menos, uma mesa-redonda, através da qual os participantes do Núcleo dos vários estados se encontrarão para discutir o trabalho desenvolvido no último ano.     

VI - Resultados esperados

As atividades desenvolvidas no NEPP deverão oferecer os seguintes resultados:

  1. difusão do trabalho clínico com bebês e crianças, nas diferentes situações em que se fizer necessário;

b) colocação em movimento de um desejo de psicanalistas que, submetidos a um lugar transferencial, necessitam falar da invenção que emerge de sua clínica e, transferencialmente, elaborar o significante lacaniano junto aos seus pares;
c) continuidade da formação psicanalítica;
d) renovação da produção teórica e dinamização do ensino e da transmissão em psicanálise;
e) integração entre participantes de IPB de diversas localizações geográficas;
e) promoção de novas inscrições, em nome próprio, de interessados em participar da Instituição;
f) promoção e favorecimento de enlaces locais com outras instituições e entidades;
g) reflexão contínua sobre a teoria e a clínica psicanalíticas e seu lugar na cultura.

VII - Considerações finais

Entende-se que o reconhecimento da causa dos bebês e das crianças, a ser fortalecido pelas ações do NEPP, contribuirá para a ampliação da clínica psicanalítica para além dos muros do consultório, intensificando uma maior integração com as equipes interdisciplinares envolvidas no atendimento desses pequeninos. Pretende-se que esse caminho convirja para o campo da Responsabilidade Social que, à luz da Ética da Psicanálise, parece convocar uma função psicanalítica nos meios acadêmicos, clínicos e sociais.

Dentro do escopo das atividades desenvolvidas pelo recém-nascido Núcleo de Estudo e Pesquisa Psicanálise com Bebês e Crianças – NEPP, destacam-se inicialmente:

  1. a inserção do projeto do NEPP no Grupo de Trabalho Psicanálise e Clínica com Bebês, criado pelo V Encontro Nordestino sobre Psicanálise e Clínica com Bebês,  realizado de 30.04.09 a 02.05.09, em Salvador (BA);
  2. o estudo e aprofundamento do tema “Os impasses da clínica psicanalítica com crianças”, para apresentação de trabalhos durante o simpósio anual de IPB (São Luís-MA, julho/09), cujo tema geral contempla “A Clínica Lacaniana”.

São Luís, 25-26 de julho de 2009

Elke Diniz (PE), Gina Andrade (IPB/PE), Ione Silva  (IPB/DF), Juliana Tavares  (IPB/DF), Maria Emília Rivera  (IPB/DF), Maria Isabel Annunciação  (IPB/PE), Rachel Rangel (IPB/PE), Rita Smolianinoff  (IPB/PE), Severina Sílvia Ferreira  (IPB/PE)

 

 

Referências Bibliográficas
FENDRIK, Sílvia. Ficção das origens. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991.
FERREIRA, Severina Sílvia. Manhês: uma questão de estrutura. In Lea Sales (org.) Pra que essa boca tão grande? Salvador: Ágalma, 2005, p. 19-29.
INTERSECÇÃO PSICANALÍTICA DO BRASIL, Carta de Princípios, http://www.interseccaopsicanalitica.com.br/int-ipb/ipb-apresentacao.html
LACAN, Jacques. Nota sobre a criança. In ________ Outros Escritos. Rio: Jorge Zahar, 2003, p. 369-370.
 ________ O Seminário, livro X, A angústia. Rio: Jorge Zahar, 2005.
SPITZ, René A. O primeiro ano de vida. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
DOLTO, Françoise. Dificuldade de viver. Porto Alegre: Artes Médicas, 1988.


A idéia foi apresentada e aprovada na A.G.O. de  IPB de 27 de julho de 2009, em Muro Alto/PE.

Conforme Osvaldo L. Delgado (Carretel, Revista de las Diagonais Hispanohablante y Americana, nº 8, abril 2008, p. 31.

Protagonista de uma fobia infantil, cujo historial foi publicado em 1909.

É necessário reconhecer o nome de Hermine Von Hug-Hellmuth como a verdadeira pioneira da análise infantil, “um nome sem vida e sem obra [...] que carrega cifrado um mistério”, cf. Fendrik, 1991:18-19.

V. Prefácio ao livro O primeiro ano de vida, de René A. Spitz (2004).


 

 

 

 

 

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