Como contribuição ao estudo do Seminário XX - Mais, ainda – especificamente quanto ao supereu citado já na lição I – Do gozo, enquanto imperativo do gozo: Goza! trago-lhes apontamentos a partir da leitura de As vozes do Supereu de Marta Gerez – Ambertín.
Antes de percorrer o supereu mais detalhadamente em Freud e Lacan, o situarei introdutoriamente em ambos. Para Freud o supereu é uma instância moral , responsável pela formação de ideais e pela “voz da consciência: “o imperativo da moral”. Herdeiro dos conflitos incestuosos e parricidas recalcados, tem sua raiz no Isso e retira sua força imperativa da pulsão de morte. Imperativo que ordena o impossível, apresenta-se na forma de uma lei contraditória em si mesma, produzindo duros tormentos, instalando um juízo pelo qual o sujeito é sempre culpado. Efeitos do supereu podem ser vistos tanto no delinqüente por sentimento de culpa como naqueles que em direção à virtude se sentem também culpados (resto da lei que se volta contra o sujeito sob a forma de mandatos a exigir o impossível). Na época de Freud o mal-estar era uma espécie de custo pulsional pelo fato de se viver em sociedade, resto do contrato social. Segundo Marta, hoje, o mal-estar parece próximo do temor da ruptura desses alicerces culturais que regem e possibilitam laços sociais. Sua incidência está onde emerge o esquartejamento do sujeito: mandatos insensatos que irrompem surpreendentemente, compulsões irrefreáveis, obediências masoquistas, “traços de caráter” indeléveis, práticas auto-destrutivas, fracassos como resposta ao êxito, pioras em momentos de melhoras, delitos para obter castigos...
A civilização é sitiada internamente pelo supereu, um íntimo estrangeiro que revela, na subjetividade, que hostilidade e cultura avançam juntas: guerra, progresso e morte o evidenciam; se a cultura se sustenta na lei que regula o laço social, essa mesma lei – que também pacifica – subjuga com seus imperativos hostis. Então o supereu se revela estrutural à cultura e só se difunde em mal-estares intratáveis.
Lacan retorna a Freud para dar conta desta espinhosa instância que assedia a vida do sujeito e, com a cultura, causa mal-estar ao corroer o laço social entre seres falantes. Um arsenal nuclear, saldo da cultura que não somente divide o sujeito contra si mesmo, como também esquarteja por meio das incidências de um gozo que se insere para além da pulsão de morte – real transformado em “miséria na hostilidade da cultura”. O mal-estar na civilização afirma sem rodeios que o sofrimento do homem se produz porque “não pode suportar a medida de frustração que a sociedade lhe impõe em prol de seus ideais culturais”.
O Supereu em Freud
É o “...no princípio era o parricídio” que constitui o prelúdio de toda questão sobre o surgimento do supereu em Freud. Tanto na teoria como na prática, a partir do nascimento da psicanálise, já se pode notar o tríptico: parricídio, culpa e punição. Em Freud, tais padecimentos vão se entrelaçando à consciência moral e esta ao parricídio (hostilidade para com os pais). Parricídio, culpa e punição prevalecerão na posterior formulação da “censura onírica”, assim como nas referências a Hamlet e Édipo, representando culpa e castigo. Marta interroga e responde: “e onde encontrar o obscuro traço da antiga culpa? Nos pecados do pai e no seu assassinato”. A peste em Édipo e o espectro em Hamlet só desaparecem se o assassino do pai for castigado. Em ambas as tragédias, o ponto de partida são as faltas – pecados – do pai assassinado; as faltas no cumprimento da lei desencadeiam o desaparecimento do desejo (regulado pelo simbólico) e abrem passagem ao ato do assassinato. Peste e Espectro são o retorno do real de algo não-significado e a denúncia da falha no cumprimento da lei que regula e proíbe assassinato e incesto.
Cultura e linguagem estão enraizados no arcaico desamparo do homem e engendra um ser falante e social, tendo o poder de “desarmá-lo e vigiá-lo”, através de uma instância interna – uma verdadeira guarnição militar. Esse desamparo inicial é a fonte primordial de todos os motivos morais. Freud reconheceu que linguagem, desamparo e dependência configuram a base do supereu, que como alheio está excluído, mas dentro da praça central do sujeito, com sua mais íntima exterioridade; reconhecimento da impossibilidade de expulsar este “imutável”( das Ding): “O ataque de vertigem, o espasmo do choro, contam com o outro , geralmente com aquele outro pré-histórico inesquecível a quem ninguém jamais se igualará”. O encontro com o imutável é traumático porque ali não há possibilidade de tramitação, ou seja, o trauma - intrusão do Outro primordial - age como um “corpo estranho” que tem eficácia presente: é marca viva do gozo do outro inesquecível produzindo repugnância e dor moral ao eu.
Sobre o Mito freudiano e as versões do pai: O personagem todo poderoso da horda primitiva que exercia despoticamente seu poder... a aliança dos irmãos... filhos para matar ; surge o Pai como lugar da lei, mais forte do que fora em vida; ao Urvatercabem a morte e o choro ( depois do ódio e do assassinato, retorno do amor, daí a incorporação canibalística; o retorno ao amor pelo pai morto instaura o arrependimento e a culpa entre os irmãos como um laço social, por isto: pacto social com o pai morto; “obediência de efeito retardado”; arrependimento e culpa sustentam dois tabus: não matar o animal totêmico e evitar o contato sexual – desejo à lei do pai; mas, nem tudo na culpa é amor: há também ódio ao poder do pai assassinato, pois a culpa é chave no universo do supereu. Nem-todo-o-pai-terrível é aniquilado no pacto dos irmãos, fica um resto, um avesso do pai morto que, como espectro, ameaça retornar; o espectro já não é mais o pai primordial, mas o resto que fica do pai morto, aquilo que não se conseguiu sacralizar, tornar puro símbolo: resíduo Real.
Sobre o Império das vozes que instam: Freud não pode ignorar a questão da divisão do sujeito contra si mesmo. O outro, o próximo, o semelhante é um referente e um modelo, mas também um hostilizador. Assim a inscrição narcísica e identificatória ficam ligados à condição de “estranho”, uma terra estrangeira interior que mostra seus efeitos na formação dos sintomas articulado em mensagem e atrozes compulsões e corrosivos atos que resistem a toda formação do inconsciente.
Rebelde ao inconsciente, o supereu transita “des-fazendo” e corroendo suas formações. O supereu é herdeiro do Isso pela ligação com o pai terrível-perverso-demoníaco, que instiga a partir do cerne pulsional, mas também é herdeiro do Complexo de Édipo enquanto suplência do pai ante a falha da lei. Lei do Pai-morto que não-toda legisla. Como tal é uma instância insensata que admoesta; como excedente pulsional - voz, espectro, demônio - do que resta do pai edípico que legisla. Freud aprofunda a questão do artifício gramatical da pulsão: resto mnemônico da palavra ouvida que pulsiona. No traço primário, nos restos de palavras, na voz desconhecida que pressiona na margem de fora e de dentro: ali o supereu; resíduo, canteiro de palavras que escapa para dentro do aparelho psíquico no recurso da voz (a palavra é propriamente o resto mnemônico da palavra ouvida). Em “Sobre o narcisismo...”: RE-PERCUSSÂO de uma voz que , como alheia, nasce de dentro e de um olhar que , como estrangeiro, fulmina também a partir de dentro.
Então, o Supereu, instância de origem enigmática, sua fonte está no Isso e se assenta no auditivo, o mais absolutamente primário, montagem própria da pulsão. Qual é a condição de sua inscrição? “Desamparo, dependência e Complexo de Édipo, dirá Freud. Na sua origem, por trás dele, do supereu, se esconde a identificação primeira e de maior valência: identificação com o pai da pré-história pessoal; é uma identificação direta e imediata, mais precoce do que qualquer investimento de objeto.
Marta finaliza: essa instância não é individual nem coletiva, não é interior nem exterior; não é própria nem alheia, nem mera identificação ao pai nem simples herdeira do Édipo; nem materna nem paterna, nem feminina nem masculina, nem precoce nem madura: é uma fonte inesgotável de assombro e surpresas.
O Supereu em Lacan
Para Marta, o supereu é uma fonte contínua de surpresas em Lacan e também de decepções: não se encontra uma formulação teórica definitiva. Em 1932 Lacan se introduz na Psicanálise freudiana pela categoria do Supereu. Em 1962 o situa num além-Freud quando outorga-lhe o estatuto do objeto a como voz. Em 1971 o formula como imperativo impossível de gozo. Porém, ainda em 1971 – no Seminário 18 (De um discurso que não será do semblante) – afirma que nunca tratou do supereu...o que é enigmático dizer não tratar do que vem tratando ano após ano.
Sem abandonar a vigência do registro do Imaginário em relação às emboscadas do supereu, mas dando um giro que privilegia o Simbólico – até 1958, Seminário 6 - insiste que não é possível formular o supereu fora da linguagem, embora seja oavesso dessa Lei. A partir de 1963/64 sobre o saldo inassimilável que o significante deixa na subjetividade – esse resíduo que lhe permite pensar o supereu – em dimensão Real – como uma das formas do objeto a : especificamente como o objeto voz; esse achado transcende a teoria freudiana e se complementa com a formulação do supereu como correlato da castração. Portanto vai do registro Imaginário-Simbólico ao Real como objeto causa de desejo e gozo. Lacan nunca deixa de indagar os três registros do supereu no Seminário 20, também acentuando-o como Imperativo de gozo correlato da castração. Esta peça fundamental se acrescenta ao supereu como objeto a. Acredita-se que esta teoria sobre o supereu estava em construção quando da morte de Lacan.
Quanto ao paradoxos freudianos, sempre se trata do pai como guardião e cúmplice do gozo – inevitável referência ao Édipo. Édipo que de um lado articula desejo e lei, e de outro, revela um resíduo que escapa a essa articulação: o Supereu. Supereu que será reconhecido como “manifestação individual vinculada às condições sociais do “edipismo” e não relacionado a um supereu cultural ou supereu da massa , mas ao singular do sujeito.
Revejamos esses paradoxos que caminham sempre para a constelação edípica: de um lado “herdeiro do Isso”, “produto catabólico-pulsão de morte”, “masoquismo primordial”; seu contraste: “herdeiro do complexo de Édipo”, identificação ao pai”, “juízo crítico da consciência moral”. Em relação ao narcisismo: “Ideal do eu” – “crítica que preserva o narcisismo” e seu avesso: o supereu como “crítica que aniquila o narcisismo”. Quanto ao pai: “função salvadora e protetora do pai”, “introjeção do pai”; e o seu contrário: “ o pai terrível”, “incorporação canibalística”, “possessão demoníaca”. Para Lacan: Todos os paradoxos chegam ao Édipo e, portanto, a implacável submissão de todo sujeito à lei simbólica em virtude de sua miséria humana, desamparada e dependente. A barreira desejo-lei que impõe limites ao gozo não é absolutamente infranqueável, sempre acaba atravessando um resíduo que, enquanto causa de desejo ou de gozo, vocifera na intimidade da subjetividade: resto de gozo no imperativo do supereu que circula como Real graças ao Simbólico.
Desejo-lei Desejo-lei Desejo-lei
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das Ding a gozo
(sem 7) (sem 10) (sem 16)
Não basta indicar que o supereu é antagônico ao desejo, é preciso assinalar que ele é seu avesso. O que revela a falha estrutural da lei, falha insanável cujo culpado é o Real. Daí poder fazer uma nova leitura dos paradoxos freudianos sobre o supereu:Herdeiro do Complexo de Édipo – Herdeiro do Isso. Eles se cruzam num ponto: aquele do traço traumático da identificação por incorporação indicado na “cicatriz do eco do castigo de castração”: aí o Pai; Pai que na gramática do fantasma estende uma ponte entre Édipo e Pulsão, entre o Outro e o objeto a. Se o supereu aparece como herdeiro do Édipo, é preciso considerar sua tramitação, que na dissolução há restos ou vestígios. A chave de toda herança está em seu trâmite. O supereu é residuação do pai, aquilo que não faz metáfora, é a posição de borda e de causa; não proclama o que há de morto no pai, mas presentifica seu resto vivo como incidência sádica. Lacan no Seminário 10 declara a existência de uma complexidade inaugural: o sujeito, ainda desconhecido e “mítico”, tem de se constituir no campo do Outro. O objeto a surge como resíduo dessa operação. Então a comunicação não é o primitivo, porque os instrumentos da comunicação estão do lado do Outro.
A formação do supereu como incorporação é comparada por Lacan à introdução de elementos externos – areia- ao aparelho vestibular do crustáceo que necessita da areia para sobreviver, assim como o ser humano, na dependência ao Outro, é obrigado a receber os grãos significantes e os da voz como suporte. A voz não se assimila, incorpora-se. Opera como pura ordem descarnada a partir do campo do Outro. O real da linguagem se insere intrusivamente no sujeito como “primeiro corpo significante”. Lacan: se vocifera-se e escuta-se a partir do gozo é porque ele se afiança no lugar do pecado original, aí onde se encarna o supereu.
A partir dos anos 60, Lacan já não mais enfatiza a adjetivação de materno ou paterno, edípico ou pré-edípico, mas que o supereu surge como objeto resto da divisão do sujeito ante o Outro e como resíduo ficará sempre à espreita da subjetividade recordando-lhe a inconsistência desse Outro... “os pecados da estrutura”.
Supereu real – nada mais é que a intrusão do Outro com seu imperativo de gozo; mandato impossível. Como obedecê-lo se ele remete a um além do Outro? Esse confim do sujeito e do mandato torna presente no supereu, o gozo impossível.
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